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Arquivo da tag: Amargura

Se você acredita em amor, você acredita em um deus e não sabe.

Queria que me provassem que o amor existe. Até hoje duvido de sua existência. “Mas e o amor de mãe?”. É interesse. Interesse em procriar, em deixar um legado. Em possuir alguém para talvez cuidar de você no futuro. Interesse egoísta em, supostamente, trazer ao mundo o que há de melhor em vocês. O que existe são interesses, apenas.

Interesse afetivo.
Interesse sexual.
Interesse intelectual.

De influência. De necessidade. De segurança. De vontade.
Que às vezes coincidem e sincronizam. Às vezes, não.

O amor é uma farsa que nos repetem (nos vendem, nos ensinam, tudo a mesma coisa) desde pequenos e, pela repetição, acabamos por acreditar que existe de algum modo. Pior ainda: acabamos por acreditar que algum dia exista para nós, conosco. Mas a verdade é que não existe não. É faz de conta. É inclusive o amor é o melhor amigo imaginário de muitas pessoas que eu conheço.

Essas pessoas são felizes, eu acho.

Elas possuem uma habilidade da qual eu
Acredito ser
Completamente desprovida:

Elas amam.

[…]

O amor é um placebo

Que nos enfiam

E nos metem

Goela

Abaixo

E engolimos

Sorrindo

Porque

Não nos resta

Mais

NADA

Além

Disso.

No meio de uma conversa sobre sentimentos (sensações, talvez, melhor colocando), notei que eu estava racionalizando todo um processo de paixão – ao qual eu terminantemente me recuso a fazer parte. É contraditório, eu sei: me recuso a fazer parte ao mesmo tempo que, em certa medida, estou totalmente imersa em tudo o que acontece. Não devo explicação alguma ao outro, mas lá estava eu, me explicando, talvez pra mim mesma. Acho que nunca mais, efetivamente, vou conseguir me apaixonar novamente. Ao invés de me ater aos acontecimentos observarei toda a estrutura do que acontece e detalharei os desdobramentos em suas várias infinitudes. Tudo o que ocorrerá serão simulacros e emulações do que poderia vir a ser uma paixão. Reajo, no entanto. O admiro e respondo fisicamente de modo atávico, a qualquer estímulo mas não julgo – mais – a mim mesma por isso. Os processos serão ferramentas que me movimentarão em busca de outros objetivos, serão meios para indeterminados e incógnitos fins. Eu me considerava sonsa e morna, mas a verdade é que eu sou bem pior que isso: sou honesta e fria. Me tornei assim. Hoje me parece que minha posição enquanto testemunha e observante de tudo o que me acontece me é mais cara do que qualquer outra coisa. Pago o preço, não me importo. Me importo com pouquíssima coisa, na verdade. A possibilidade de considerar diferentes contextos como diferentes facetas de um mesmo objeto não só me encanta como me proporciona perspectivas infinitas. Aumenta também o distanciamento, o desapego, a particularidade e a unicidade desse mesmo objeto. O ouço enquanto me concentro em um trabalho detalhista. Enquanto olho friamente para o lado de fora da janela e molho meu lábio inferior com a minha língua. Enquanto suspiro presa no trânsito, sem sequer olhar o horário. Enquanto lavo a louça e preparo uma refeição. Ouço, repetidamente, as mesmas palavras, os mesmos encantamentos, as mesmas perversões. O mesmo querer. E o manipulo e transformo, pensando nele das mais variadas formas. O trivializo em mim. Entendo as entonações, as impressões, os atos, as ausências, os suspiros. Analiso tudo isso, repetida e lentamente, sem pressa, sem vínculo, a passos lentos. Quanto mais profunda e contínua é a obsessão, maior é a frieza que assola quem é dominado por ela. Ele se desculpou pela imagem cafona à qual me comparou, com barulho das ondas quebrando na praia. Me identifico, sempre me identifico com água. E eu disse que acreditava que um dos ingredientes mais interessantes para se manter qualquer tipo de vício ou paixão é justamente esse tipo de movimentação pendular, essa movimentação entre familiaridade e estranhamento. Assim como as ondas que mesmo que se repitam, nunca quebram fazendo exatamente o mesmo som. Nem uma vez sequer. E isso é o que é misterioso e essencial. E é por isso que as coisas acontecem. E é por isso que o que é inominável está acontecendo entre nós. E então, me dei conta do que fazia e disse não entender como ele não me detesta, uma vez que eu tenho essa mania estúpida de racionalizar tudo. Mas ele não liga… Ele sabe o que quer. E sabe o que eu quero.

Ele conhece isso.

Melhor do que se perceber objeto, é perceber que todo o resto é objeto. Para uns, mais afeição, para outros, menos. Quantifica-se. Mas todos tornam-se objetos, indistintamente. Meios para se chegar a fins vários e variados, objetos orientados a objetivos fractais. Coisas mesmo. Todos devidamente plotados em uma determinada função. Todos vetores. Enxergando assim fica mais fácil manipulá-los, todos. Olha-se a tudo e todos estão onde deveriam estar, como quero, como espero. Quase perfeito (pois perfeição é demais até mesmo pra mim). Tudo encaixa-se, harmoniza-se, fica como quero, como acho que deve ficar, como é o meu melhor. Aí é simples fazer acreditarem que podem confiar em mim. Fazer acreditarem que os desejo. Até mesmo que os amo. Objetos, números. Tempos. Todos previsíveis. E é sempre melhor que todos estejam, de algum modo (consciente ou não) à minha mercê. Quem não é objeto torna-se, quase que de imediato e necessariamente, ameaça. Então trato o objeto como objeto que é. Como estratégia para que eu chegue não sei bem onde.

Qualquer coisa aquém disso está além de mim.

É quase um prelúdio de desistência. É quando a imaginação aflora e todas as pressuposições se tornam simplesmente reais, independente de todo o resto. Não chega a ser uma dissimulação do que se sente, uma dissimulação é mais programada, é quase autoral. É apenas uma conclusão que precipita-se, quase sempre levando junto quem conclui. É possível sentir de tudo: raiva, tristeza, ódio, mas ainda assim sentir ainda mais e com muito mais peso, o cansaço por se perceber portadora destes sentimentos. Penso que já me senti tanto assim, repetidas vezes, já tive das reações mais diversas e nada nunca funcionou ou resolveu coisa nenhuma, que a única coisa que resta é o não-agir. É tentador pensar ‘deveria fazer algo em relação a isto, deveria responder’, ‘deveria ligar pra saber como está’, ‘deveria perguntar sim, por que não?’.

Mas antes de qualquer coisa surge essa indolência, que me diz que nada vale a pena, que o resultado é pífio ou nulo, isso se não for negativo. Então por que movimentar-se? A indolência me faz ter vontade de abandonar o corpo, abandonar esse âmago e ir pra um outro lugar onde nada exista. Anseio pelo dia que não existam mais interpretações, nem linguagem nenhuma, nem intenções, nem a falta delas. Queria, muito, levar tudo menos a sério e acho que algum dia, na minha velhice, me arrependerei de toda essa seriedade de hoje em dia. Anseio por um dia de leveza, de despreocupação, de tranquilidade, de nada mais. Algum dia, um desencontro será apenas um desencontro, nada mais que isso. Uma piada será apenas uma piada. E um amor, será apenas um amor. Nada mais, nada menos.

Yesterday I was there.

Today I am here.

The two are light years apart.

Julian Hibbard, Schematics: A Love Story

Certa vez, há alguns anos atrás, criei uma lista que eu considerava perfeita. Era uma lista bastante detalhada, enumerada, com todas as características que eu considerava apreciáveis. Tudo na lista se encaixava e o perfil parecia relativamente fácil de ser encontrado (embora eu soubesse que não era fácil, na verdade). Olhava pra lista, a organizava e editava inúmeras vezes, me dando por satisfeita sempre. Gostava de fantasiar e imaginar que aquela lista algum dia pudesse se tornar realidade. Pensava que se fosse exatamente da forma que estivesse na lista, eu atingiria meu objetivo, eu seria plena e a minha inquietação finalmente desapareceria.

Eis que um dia, como quem não quer nada, apercebo-me que a minha lista, que julgava complexa e detalhada, havia materializado-se pra mim. Não nego, fui feliz por algum tempo. Até que o que estava na lista tornou-se básico e outras características – as quais eu não previa – começaram a extrapolar os limites da lista, os limites do que jamais havia previsto que pudesse acontecer. Decepcionar-se não foi só inevitável, percebendo esse padrão, preferi considerar a decepção como natural. Toda lista é uma tentativa pífia, humana, malfeita, de exercer controle sobre o que jamais poderá ser controlado. É uma pretensão de racionalidade demarcada sob territórios inalcançáveis e irremediavelmente irracionais.

Todo desejo é fundamentalmente temporário.

Listas, em última análise, são uma mentira.

E em primeira análise, são essencialmente efêmeras.

Todas as escolhas que fizemos, por mais acertadas que pareçam em primeira instância, não passam de ilusões que se desfazem ao longo do tempo. Escolhas apenas nos provam, quase sempre dolorosamente, o quanto somos mais frágeis do que podemos imaginar. Não há como vencer.

É senso comum que mudar-se, de casa, de cidade, de lugar, de situação é infernal, em todos os casos. A mudança emocional é a que causa mais incômodo, é mais lenta, mas eu diria que a mudança física é a mais simples, no entanto, ao contrário do que pensam, é bem mais profunda e irreversível. É preciso coragem e uma boa dose de audácia para se ter tudo sem ter nada, em absoluto.

Quando o re-estabelecimento começa a partir da estrutura física, de fora pra dentro, a impressão que se tem é que todo o esforço é aparentemente ineficiente. No entanto, dificilmente se vê pessoas que efetivamente realizem essa mudança, uma vez que o fato de arrancar raízes é considerado um tanto quanto brutal. O apego é uma característica quase que inerente.

Queimar objetos pessoais e jogar as cinzas em água corrente, raspar todo o cabelo, nutrido, cuidado e cultivado por muitos anos, esforçar-se desumanamente para esquecer quem não se pode mais amar. Tudo isso parece besteira e bobagem pra quem vê de fora, mas para mim, são apenas modos legítimos de resistir e persistir. Observando o que vivi, mudanças nunca foram infernais pra mim.

Mudanças acontecem como sentenças às quais não temos como resistir. Às vezes não podemos resistir. Claro que sempre há um pouco de tormento, mas é passageiro. Quando quero esquecer histórias, gramáticas, linguagens, jogo fora os objetos que me trazem essas lembranças como se elas fossem desaparecer. Não vão, nunca vão. Jamais desapareceram.

Não existe gramática, nem linguagem, nem regras: existe o agora, que já foi e que cada vez é diferente. Parece opressor, mas é apenas livre. É um paradoxo que custei a aceitar e hoje aceito sem meios termos.

“Abre-se então a caixa de Dora, esse pequeno grande insustentável porvir, sempre meio opaca, meio vazia e infinitamente insatisfeita, sempre a ser preenchida, com sonhos, vontades, desejos, expectativas, etc.”.

Se a minha vida não me permite água corrente o tempo todo, faço o que está ao meu alcance para sempre perturbar qualquer indício de paz que possa existir nessa água de poço.

Não tenho apego nenhum por muitas coisas, mesmo pelas que me são caras. Não sinto falta de lugar nenhum porque sou de lugar nenhum. Não entendo o que há em fazer da vida um grande museu. Tenho tomado gosto por me fazer acreditar que não tenho, nunca tive, nunca terei passado, bem como não tenho futuro. Minha identidade é não-identificada: tenho apenas sempre o que me resta.

Algum tempo atrás eu acreditei na criação de uma espécie de gramática, de uma linguagem própria, algo que poderia ser criado, mantido, explorado. Hoje sei que isso é simplesmente falso, é manipulação, é efêmero. Não é bom nem ruim: é uma característica e não passa disso. Não é, nem de longe, algo especial. E nem pode ser. É momentâneo e desaparece como se jamais tivesse existido.

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