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Arquivo da tag: Afeto

O foda de você dizer que gosta de alguém é a pessoa achar que você quer casar, ter filhos, netos e passar 60 anos junto grudada nela. Ok, enquanto mulheres – por default – somos socializadas de modo a vincular interesses afetivos com outros tipos de interesses, formando um grande pacote da coisa toda. Não utilizamos esses interesses de forma modular e facetada (como a grande maioria dos homens) infelizmente porque fomos educadas deste modo. Hoje em dia, ainda mais na minha idade, quando uma mulher diz que gosta de um cara, se não for recíproco, geralmente é um deus nos acuda. “Ela quer casar”. “Ela está obcecada por mim”. “Não quero me comprometer”. Ninguém quer se comprometer, meu amigo. Todo mundo tem verdadeiro pavor disso. E o gostar, quando não é recíproco, geralmente é visto com asco. O que é curioso. Pois sim, muitas mulheres pensam sim que, quando gostam de alguém, querem casar, ter filhos e passar 60 anos juntos. A sério. Pode acontecer.

Mas já há algum tempo tenho achado saudável fazer essa dissociação e lidar com meus interesses (afetivos, sexuais, etc.) de forma mais modular. Não pretendo mais refrear, inibir ou até mesmo auto-censurar meu afetos. Se serei injusta com os outros ao verbalizá-lo, serei mais injusta comigo mesma ao reprimi-lo. Então vou dizer: sim, eu gosto de você. Sim, eu estou a fim. Sim, não há absolutamente NADA demais nisso: é só um sentimento e ele é meu. Não vou me impedir de sentir o que quer que seja simplesmente por medo de desagradar ao outro. E isso é extremamente contraditório: que desagrade! Que incomode. Não posso fazer nada sobre isso, só posso agir em relação ao que eu sinto e farei isso. Considero extremamente nociva a forma que associamos alguns afetos a outros conceitos aos quais deveriam ser completamente dissociados. E fazendo esses tipos de associações eventualmente reprimimos uma série de coisas dentro de nós, uma série de vivências, de emoções, de momentos importantes inclusive – sejam eles bons ou ruins.

Ontem mesmo conversava sobre isso com uma amiga, julgando pesadamente um outro amigo por uma decisão de vida que ele tomou, recentemente. Uma decisão que considerei arriscadíssima e assumi que ele tomou levianamente, de forma impensada. Repensei isso agora a pouco à luz destes dois parágrafos aí acima e me percebi uma imbecil de marca maior. Fiquei constrangida comigo mesma por julgá-lo, por julgar o que ele sente sem sequer ter ideia do que se passa em sua mente e em seu coração. Apenas uma frase do discurso de ontem permaneceu: “a vida é dele para ser vivida”. Não me cabe pensar nada sobre isso: me cabe estar aqui, sempre que possível. Me cabe observar e testemunhar o que se desdobra, desenrola, desabrocha. E estar aqui, sempre. Isso faz de mim uma amiga de verdade e não uma intervenção pífia, moralista, que julga. E isso se aplica não somente ao outro, ao meu amigo, mas principalmente à mim mesma. As minhas ações, na forma que lido com o mundo e que lido com os afetos. E não é só essa questão de não julgar, mas também de não reprimir à mim mesma e o que sinto em função de um legado, em função de uma estrutura, em função do outro e de seu histórico, legado, estruturas, etc.

É preciso coragem para assumirmos nossos afetos, sem nos deixarmos abater pelo mundo. E pra isso é preciso de grandeza. E disso, ninguém sai incólume.

 

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If I get there early, will it be the right time?
Our heaven is just waiting so put your hand into mine
If I get too surly, will you take that in stride?
Our boat is just there waiting so put that little hand in mine

And speak when you’re spoken of
Catch up on your sleep, girl
When you wear that body glove

You’re acting on initiative
You’re spelling out your love
You shouldn’t be alone in there
You could be above ground

All I want is to be the very best for you
And all I want is to be the very best for you
Oh, this time, there’ll be no life of crime

Breathe

Echoing the sound

Time starts slowing down

Sink until I drown

Please

I don’t ever want to make it stop.

(And It keeps repeating

Will you please complete me?

Never be enough, to fill me up.) 

 
Questiono o que chamamos de amor.

Penso que nele se escondem medos profundos e uma impotência muito grande. Uma necessidade da vida de outra pessoa. Uma busca insana por completude. Uma não aceitação da natureza fragmentada da experiência humana e da imprevisibilidade dos devires.

O que costumamos entender por amor é uma falta muito grande, uma sensação de escassez que nos leva a querer alguém que seja “nosso”, “meu”. E nos limita as possibilidades de afeto, de interação, de prazer e de desenvolver sentimentos mais profundos.

Pensamos que profundo é dividir a vida com alguém e confiar nessa pessoa como não confiamos em nenhuma outra, como apoio único para as coisas mais íntimas. Guardamos a intimidade como um tesouro prestes a ser roubado, como algo que requer provas, testes e contratos para que se compartilhe… e pensamos que isso é profundo…

Profundo é poder ter a intimidade aberta, compartilhada com quem nossso desejo se associar, em relação de respeito e equidade. Não é necessário viver todas as experiências significativas na companhia exclusiva de uma pessoa para desenvolver um convívio profundo.

O problema é pensar a alma como um quebra-cabeça que precisa ser finalizado, com peças faltantes que precisam ser encontradas.

Estou bem com meus vazios (ou com boa parte deles) não quero que me completem pois ser completo é ser limitado, é estar fechado. É cercar os parques onde a vida corre livre, morar em condomínio fechado, frequentar praias privadas.

É viver com medo do outro, considerar o contato uma ameaça… Uma ameaça ao feudo de uma pessoa só que nos acostumamos a buscar.

Vejo meus afetos como expansão, sem limites, sem fronteiras, sem donxs. Espero viver a intensidade desses afetos de forma livre. Me envolver com as pessoas pelo desejo. Dar e receber carinho com respeito por quem me acompanhar nessa caminhada.

Isso significa a desconstrução do meu desejo. Significa erradicar os limites nos quais ele foi construído, borrar as bordas de um desenho de corpo normativo. Cruzar fronteiras em nome das afetações e alegrias que terei com diferentes pessoas em diferentes momentos.

Também significa ampliar o suporte que posso dar às pessoas que me afetam, nos momentos em que estiverem frágeis. Viver intensamente as paixões alegres é também viver intensamente o cuidado de estar presente nos momentos em que um mundo inteiro oposto, adoentado pelo medo, pesar sobre meus companheiros e/ou minhas companheiras.

Isso não foi assim toda a minha vida, ainda não é totalmente e provavelmente nunca será por completo. Mas, cada dia mais, eu busco ativamente essa liberdade.

É isso que eu gostaria de chamar de amor.
(C. D. C.)

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