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Arquivo da tag: A Vida dos Outros

Na época que eu o conheci, ele era apenas um menino. Tinha algo de andrógino, não saberia dizer o quê direito. Seu rosto era muito liso, muito branco e havia uma suavidade indescritível ali. Era um menino franzino, meio corcunda, mas o sorriso e a suavidade do rosto mudavam tudo. Eu não o conhecia direito na verdade. Era um amigo de amigo de amigos. Um dia, não me lembro exatamente quando, esse menino me pediu um livro. Acho que foi por volta de 2004 ou 2005. Era um livro que eu tinha ganhado de um antigo amor.

Eu li o livro todo e não me lembro do título. O livro falava sobre amores decadentes, uma anunciação de tudo. Na época eu ainda não tinha o meu nome. Não me recordo direito como acabou o que eu tive com a pessoa que me deu esse livro. Mas suspeito que ele tenha escrito alguma malcriação sobre mim em algum texto e aí eu fingi que fiquei triste e fingimos que acabou – porque na verdade já tinha acabado há algum tempo. As coisas sempre acabam antes de terminarem de fato e todo mundo sabe disso. E as coisas continuam existindo, mesmo tendo acabado. Enfim, o livro.

Esse menino – o chamo de menino, não sei porque sinto como se ele fosse muito mais novo que eu – me pediu esse livro sobre amores decadentes. Achei estranho, um menino tão novo me fazer esse pedido. Dei a ele o livro. Não sei o que se passou com o livro desde então, também não perguntei mais. Não nos falamos nunca mais, acho. Outra vez que o vi foi numa festa onde, numa fila indiana de cumprimentos ele evitou um antigo amor como o diabo. Cumprimentou três pessoas em sequência e quando os dois se colocaram de frente, foi como imãs se repelindo. Lembro que ver aquilo me chocou bastante. Fiquei me perguntando o porquê de aquilo ter acontecido. Achei triste.

Há algumas semanas o reencontrei, a rede é curta, devo ter visto alguma foto em algum lugar, readicionado não sei onde eu nunca me lembro. Vi um gato (o animal) e o mesmo menino, mas ele estava diferente dessa vez. O rosto dele mudou de forma absurda, aquela suavidade que eu conheci desapareceu. Alguns desenhos, havia um altar, mas eu ainda tentava enxergá-lo naquele rosto, sem muito sucesso. Uma barba rala. E aquele olhar, fundo. Existe aquele brilho que acontece, aquela aura que se evidencia, toda vez que ele aparece fazendo algo que gosta. Mas o olhar ainda está ali. Tornou-se um menino velho. Ainda delicado, ainda sensível mas a suavidade esgotou-se, parece. Não foi fácil, mas conclui que a aspereza lhe caiu muito bem.

Perguntadas, as pessoas afirmam que tomam banho diariamente. Quem admite que não toma banho todos os dias é tido como “ousado”, é aquele “que não tá nem aí para o que os outros pensam”, para simultaneamente ser taxado de porco. É como admitir que peida. Todos peidam, sabem que peidam. “Eeeu? Nunca!”. Mas é proibido pela convenção social ADMITIR uma coisa dessas. E nem estou falando de trazer à tona o assunto “flatulência” numa situação social, que aí seria BAIXARIA DO MAIS ALTO GRAU, algo só aceito em mesa de bar, com todo mundo bêbado. Falo simplesmente de admitir – para si, que seja – que solta um bafo intestinal de vez em quando, e que até sente o cheiro. Coisa triste, as amarras sociais.

Se você não caiu no lixo, não se cagou nem se mijou, não correu uma maratona nem jogou uma partida de futebol, não come alho em profusão todos os dias, não tem problemas glandulares que causem muito suor e cheiro ruim, provavelmente você não precise tomar banho hoje. Admita e aceite. Não é vergonha nem nojento ficar um dia sem tomar banho. Ou dois, ou quem sabe três dias, dependendo das circunstâncias.

Lavar o cabelo não é banho. Quem tem caspa ou cabelo oleoso teoricamente “não pode” deixar de lavar as melenas. Ponto pacífico, mas nada a ver com banho. Se você não consegue lavar a cabeça sem ficar nu debaixo de um chuveiro, o problema não é mais meu, amigo.

Não interessa aqui, tampouco, a ESCOLHA de tomar banho diariamente, nem o prazer que a pessoa que toma até mais de um banho por dia sente, menos ainda o fator relaxante do banho. Cada um na sua. Meu negócio é a suposta NECESSIDADE de tomar banho todos os dias e, especialmente, o NOJO gerado nas pessoas ao saberem que alguém não faz isso.

“Saberem”. Palavra-chave: SABER. O pecado original, pai da frescura. Para começo de conversa, e já poderia ser também o fim dela: olha na minha cara e diz que você é capaz de saber se a pessoa atravessando a rua – aquela pessoa comum, sem fedor, sem uma craca pelo corpo – tomou banho ou não, só de olhar. É claro que você não é capaz, não minta. Você não sabe se alguém tomou banho ou não até que a pessoa diga. Ninguém em condições normais fede por passar um dia sem banho. É ao SABER que a pessoa não tomou banho, pelo menos até aquele momento (vai que ela está indo para casa tomar um; terá seu banho diário em breve), que você vai acabar enxergando ou sentindo alguma coisa que “denunciaria”. Ou nem vai sacar nada, vai só julgar: suja, porca. Ou absorverá um factual e singelo porém acusatório “ela não tomou banho”. Mesmo a pessoa não estando suja.

Uma hora vão inventar, tirar de algum “estudo científico”, que O CORRETO é tomar banho 2 vezes ao dia: uma vez ao acordar e outra à noite, depois de um dia cheio. Mas é óbvio! Imagina parte de uma manhã e uma tarde inteirinha – talvez, ainda, um pouco de noite! – sem um banho. Imagina o fedor e a crosta de sujeira do indivíduo! Precisa de um banho antes de ir deitar, claro. E no dia seguinte acorda já FEDENDO (A SONO), aquele cheirão insuportável de cama que não vai sumir depois de uma arejada na rua. Vai pro trabalho assim, irmão?

Pouco me importam os benefícios “científicos” da higiene do corpo, ou os “prejuízos” da falta de banho. Saúde se faz na alimentação, e nem precisa lavar as mãos antes de comer, sério; nos exercícios físicos, na meditação, no bom convívio com os que nos cercam, no trabalho que dá prazer. E mesmo assim, nada é garantido.

Aí o mais engraçadinho já vem ignorar o texto e me chamar de porco. “Rá! Escreveu um texto para legitimar a própria porquice, ein! Malandrão!”. Hilariante, meu bom. Veja só, eu sou feio e barbudo, desalinhado, mal vestido e manco nas habilidades sociais; gosto de pensar que sou um cara educado, para contar algo a meu favor. Por mais banhos que eu tomasse, por NUNCA QUE EU TIVESE ESCRITO esse texto, a pessoa que me vê na rua tem muita probabilidade de não me tomar por alguém “limpo”. Numa fila de gente, tipo identificação de suspeitos na delegacia, entre indivíduos sem banho e com banho, não me sentiria injustiçado se, mesmo de banho recém tomado, fosse apontado como um dos que não viu o chuveiro naquele dia. Porque as pessoas são como são, e se você é agradável, não é por causa dos banhos que você toma todos os dias, minha filha, e assim por diante.

E se o cara vai passar o fim-de-semana em casa, vendo tevê ou sentado na frente do computador, por que diabos vai tomar banho todo dia? Banho o cara toma quando a situação está em estágio avançado, de modo que pode incomodar os outros ou causar problemas para si, como no ambiente de trabalho ou algo do tipo. Banho, como tantas outras coisas, é para os outros, não para a gente.


O texto original é do Felipeta, mas os grifos são meus.
Pertinente demais pra passar batido, de novo.

Às vezes eu observo as pessoas sem querer… Não, nada disso: às vezes, as pessoas SE FAZEM observáveis de tal modo, de tão curiosas que são. Aí eu não me contenho mesmo.  Eu tenho olhos e pra não olhar, precisaria furá-los. Hoje enquanto almoçava no restaurante universitário, vulgo bandejão, me apareceu um desses seres observáveis. Era um garoto bem branquinho (ok, branco demais), loirinho. Os olhos dele pareciam claros, mas não notei se eram ou não. Parecia ter por volta de 18 anos, alto, não muito encorpado. O andar dele era como o de uma criança tentando parecer um adulto, tentando firmar os próprios pés. Ele não me parecia muito bem.

Alguma coisa na roupa ou no material dele indicava que ele fazia Física. Uma frase sobre um ponto, um apoio e uma alavanca pra levantar o mundo. E ele não tinha cara de nada daquilo. E ele também não parecia exatamente nerd, nada de óculos ou espinhas na cara. Ele só estava com uma cara de fracasso total. Na verdade, não sei por que diabos pensei que ele era daqueles tipos de físicos (ou estudantes de física, enfim..) que são cristãos e daí misturam religião com a parada toda e vira uma zona. Nunca entendi esses tipos, nem pretendo. Mas pensei comigo mesma que era preconceito pensar assim e limitei-me a só observá-lo novamente. Aquela pele bem branquinha e aquele semblante confuso e aparentemente com sono.

Não sei se era calouro, ao menos não me parecia. Só me parecia alguém novo, fresco. Também me parecia desmotivado, meio perdido, quase que como sem saber o que estava fazendo ali direito.  Às vezes parece que o rosto dele dizia algo como ‘por que eu vim almoçar aqui?’, ‘o que estou fazendo aqui?’, ‘a quem eu estou tentando enganar?’ ou coisa do tipo. Arrisco dizer que ele nunca deve ter almoçado em bandejão. Ah, sim: ele estava sozinho, claro. Deixou a bandeja com comida em cima da mesa e foi buscar alguma outra coisa, guardanapo e água. Sentou pra comer e olhou a comida com nojo. Eu quase, mas quase ri. Só não ri por que estava muito perto e ele notaria. “Mimadinho, filhinho de mamãe…” resumi no pensamento.

Eu tinha certeza de que ele não ia comer nada daquilo por frescura. Aí surgiu uma primeira garfada. E uma segunda. E uma terceira. E de repente eu me toquei de que não era frescura, mas sim tristeza. De repente ele parou e eu realmente achei que ele fosse cair em prantos. “Deve ter sido alguma garota muito da filha da puta, só pode” imaginei. Ele parou e ficou olhando pro prato, ficou olhando pro nada e me parecia profundamente triste, melancólico, deprimido mesmo. Aquilo me atingiu um pouco.  Mas ele não chorou. Tomou um gole de água e aquele gole desceu seco na garganta, tenho certeza absoluta disso. Continuou olhando um pouco. Ele parecia não ter ar, não ter chão, não ter nada. Parecia não estar ali.

“Garota filha da puta cara”… Pensei, boba.

Suspirou profundamente. Arrumou seu material, levantou, pegou a bandeja e jogou tudo o que tinha de comida no lixo. Na hora fiquei horrorizada com o desperdício, mas relevei. Havia algo de muito errado com aquele garoto. Talvez não fosse uma garota. Talvez fosse um câncer, a mãe, ou a falta dela. Talvez fosse um problema que ele vinha tentando resolver há algum tempo e só estava pensando naquilo, pois aquele era o jeito dele. Talvez fosse a própria existência que o consumia. Fato era que havia algo de muito errado com aquele garoto…

… e eu nunca vou descobrir o que foi.

I.

O melhor que podemos aproveitar do amor é a superficialidade. É difícil acreditar na existência de um amor perene, pelo menos pra mim. Eu olhava pra eles e achava que fosse ser pra sempre. A anulação de ambos. A carência dela. A independência dele. Pensei algo como “Ok, se já passou tanto tempo e eles superaram tantos problemas é capaz de que fiquem juntos mesmo. Pra sempre”. Eu estava enganada. De qualquer forma, nenhum dos dois assume o que não existe mais. Nenhum dos dois assume o relacionamento desgastado, a coisa que já não é mais a mesma. Continuam aparentemene “juntos” por segurança e comodidade. Não sei o que é pior, mesmo.

II.

O que a gente faz com alguém que está perdido? O deixa assim ou o faz “achar o caminho”? Eu nunca mais vou ajudar ninguém na minha vida, ser mãe de ninguém. O que fazer se a pessoa não sabe o que sente, quando sente e nem por quê sente? Não há o que ser feito. Não há como mudar a mente de uma pessoa. De nada adianta ser nômade se você não está bem consigo mesmo (a)? Você não ficará bem em lugar algum, com relacionamento algum. E aí sim as coisas realmente não passarão da superficialidade. E você se apaixonará por pessoas que não sentem absolutamente nada por você. E elas te desprezarão. Ou ainda te tratarão como amigo, irmão, e não passará muito disso. É preciso se dar valor e atentar para a realidade.

III.

Não gosto de pessoas que mudam radicalmente por causa de relacionamentos. Não tenho paciência. A coisa fica pior ainda quando a pessoa SE DESVIRTUA por causa de outra pessoa. Isso beira o INADMISSÍVEL quando se trata de ambiente de trabalho. E tudo o que a pessoa faz é FALAR sobre o relacionamento, e de como ele vai mal, e de como ela não aguenta mais e de como “não vai ficar assim” e assim sucessivamente. É INSUPORTÁVEL. Se em menos de uma semana a pessoa já está reclamando de tudo, como é que ela pode querer que eu ACREDITE que vai ser pra sempre? E de que é o HOMEM DA VIDA dela? Sendo que ele a trata como lixo? Sinto muito… Pode até ser. Mas eu já o odeio por ele te deixar desse jeito: antinatural.

IV.

Ela sabia que não seria pra sempre, embora desejasse que fosse. Ela queria confiar. Ela queria ser boazinha, compreensiva. Mas sabia por dentro que estava agindo errado. Sabia que o que ela pensava ser um compromisso sério era apenas uma brincadeira (pra ele). Sabia que o que sentia poderia não ser recíproco na mesma intensidade. Ela sabe o que quer da vida, o que pretende fazer, enquanto ele ainda está pensando, é dependente, não tem muita noção e talvez – eu disse talvez – continuará assim por algum tempo. Ela não queria ser “a mãe” do relacionamento. Mas o pior de tudo é que ela gostava dele, de verdade. Esse é o tipo de coisa que dói meu coração de ter de observar. Mas se não dá certo hoje, não é amanhã ou depois que vai dar.

V.

É realmente horrível ver um homem arrasado por causa do fim de um relacionamento. Eu me recuso a consolar mulheres por que acredito que elas precisam ser fortes. Agora homens são inconsoláveis por vários outros motivos. É um misto de vergonha com dó. Eu também achava que fosse pra sempre. Mas aí pensei, olhei de novo e percebi que talvez – talvez – a menina tenha enchido o saco de ter um namorado com cara de homem e mentalidade de criança. Não adianta, digam o que quiserem: mulher não gosta de homem infantil, inseguro, perdido. Nenhuma de nós quer um cara assim. Tudo bem que homens são crianças até a velhice, mas as atitudes de homem estão nos pequenos detalhes. Imagino que tenha sido isso que resultou no fim.

VI.

Ela veio me dizer, toda contente esses dias, que o alarme de perigo está soando e ela finge que não está ouvindo. Isso é muito terrível e já aconteceu comigo. Não recomendo. O triste disso tudo é que ela parece feliz, animada e satisfeita. Não quero estar perto quando ela perceber a não-reciprocidade. Isso meio que me constrange e eu não tenho nem o que dizer pra pessoa. Me limito a dizer “não vou lhe dar os parabéns por que sou uma pessoa profundamente amargurada e desiludida nesse aspecto”. É um filme que já vi muitas vezes e entendo como termina, e acho os porquês bizarros, mesmo por que não existem por quês consistentes. Por que não. Ninguém que você ama vai te dizer as verdades que você precisa ouvir. Nunca.

VII.

É muito estranho quando você simplesmente SABE que as coisas não funcionam, mas você SE FORÇA a acreditar que está tudo bem, mesmo quando OBVIAMENTE NÃO ESTÁ. Aí quando é preciso, quando a coisa toda chega a limites insustentáveis, sentam, conversam e decidem que é melhor não continuar assim. E então, simplesmente desaparecem com tudo, com todo o passado, com tudo o que já existiu entre eles. Não dão satisfação aos amigos, nem nada, simplemente desaparecem do mapa, como se nunca se conhecessem, como se nunca tivessem existido. Acho esse comportamento bem bizarro. A primeira coisa que me vem em mente é o saudosismo tosco que fica depois.

VIII.

Não gosto de ser sacaneada. Não gosto que me façam esperar. Dei um troco bem trocado e disse não. Vesti minha melhor roupinha, ajeitei meu cabelinho, botei um perfume e disse não. Deixei que deitasse no meu colo, que me fizesse caras e bocas. Disse não. Quis cafuné. Parou e ficou me olhando. Queria que eu o olhasse nos olhos. Não olhei, desprezei. Não por que posso, mas por que ele é comprometido. E ele sabe disso. E eu sei mais ainda. E não existem desculpas pra isso. “Eu sei que eu não presto” não é o suficiente pra me fazer ceder. Não tenho nada a ver com isso. Eu sei que presto o suficiente, logo, ficarei na minha. É preciso saber dizer não… Sempre. Em alto e bom som.

IX.

Ninguém é salvação de ninguém. Isso é insanidade. Não inicie um relacionamento apenas pelo fato de a pessoa te fazer melhor por que quando tudo acabar você ficará pior do que antes (para o bem ou para o mal). Não use ninguém como muleta para problemas que são seus: isso não é certo e nem justo. Não viva de fantasias, atente-se à realidade, acredite nela, ENXERGUE-A. Qualquer coisa fora disso é ilusória, não é real e pode fazer sofrer com muita facilidade. Gente que não sabe usar e exercer a felicidade me entedia. Gente que não compartilha, mas apenas age como parasita. As coisas não funcionam assim e acho que essa não é a primeira vez que digo isso.  Não brinque comigo. Não há graça nenhuma das suas brincadeiras.

X.

Existem pessoas que idealizam outras pro resto da vida sem se dar conta disso. E isso é meio ridículo por que só quem tá de fora consegue enxergar, mas a pessoa (e o outro, idealizado) não. E quando você aponta, acham que é bobagem sua, exagero seu, coisa da sua cabeça, etc. Isso é meio incômodo. Falam de histórias que nem existe mais, relembram de coisas que já se foram. Mas os olhos dele… Aqueles olhos só ficam daquele jeito pra ela. Não é loucura da minha cabeça, não é inveja, não é ciúmes. Basta observar, por que é muito mais do que óbvio. O jeito, a ternura do saudosismo com que ele lembra de tudo. E no final, só pra não deixar por isso mesmo, diz que hoje nada mais é assim e que ele já esqueceu tudo mesmo. Ahan.

Aviso: esse post são vários num só, então não se assustem com a miscelânea de assuntos. É isso.

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As pessoas invisíveis

Por 5 dias da semana eu almoço todos os dias no mesmo lugar. E isso acontece desde março. Todos os dias eu vejo as mesmas pessoas que me atendem. Eu não sei o nome delas. Eu não quero saber. Eu não preciso saber. No entanto, eu as trato bem. E tratar bem não quer dizer bajular, ou ainda “dar trela”, ficar conversando por horas a fio. Nada disso. Já conheci muita gente (idiota) que dá trela pra mendigo e pra bêbado e eu não sou desse tipo. Nunca fui. Não tenho paciência pra lidar muito com pessoas. Acho que foi isso que o jornalismo não deu certo pra mim.

Se sinto que não preciso, simplesmente as desprezo pois é assim que tem que ser. De uma outra forma eu seria a desprezada, então por que não desprezar também? A vida é assim, por que eu não haveria de ser?

Pois bem.

Fazendo um esforço sobre-humano pra parecer minimamente humana, eu dou “bom dia” pro tiozinho que recebe os tickets do RU, mesmo que aquele não seja exatamente um bom dia pra mim. E ele sempre me responde do seu jeito “bom dia querida” e me dá um sorrisinho entediado. Devolvo o sorrisinho entediado também e ficamos por isso mesmo. Mas ele marcou a minha cara: ele não sabe meu nome, mas sabe quem eu sou. Pra ele eu sou a mocinha de cabelo curto que usa um certo tipo de perfume e sempre o dá “bom dia”, mesmo que não seja um bom dia. Ele marca a cara de quem o enxerga. E todos nós fazemos isso, conscientemente ou não.

No dia que eu esqueci meu cartão do RU, ele me deixou entrar mesmo sem cartão por que a EMPATIA já tinha sido criada. A única coisa que falou pra mim foi uma advertência “não esqueça mais o cartão” e só. Penso que, se eu não o desse bom dia todos os dias, ele não me deixaria entrar. Talvez. Isso eu nunca vou saber. Por isso dou bom dia. Por isso eu sorrio. Humanos gostam disso. É tudo muito sutil, é um joguinho de sutilezas que, quando você menos percebe faz com que tudo mude na sua vida. Pra melhor ou pra pior: isso depende diretamente da forma que você se comporta. E não é mentira minha gente… Não é mentira mesmo:

 

 

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A fêmea alfa

 

Do início do ano pra cá, notei um mesmo exato tipo de comportamento em 3 meninas diferentes: o de fêmea alfa. Pelo que andei notando, a fêmea alfa quando participa de um grupo de pessoas, faz questão de chamar atenção de todos os machos. E não só isso: ela não só quer chamar a atenção de todos os machos, mas também faz o que for necessário pra evitar que eles entrem em contato com outras fêmeas. Ela faz de tudo pra conseguir esses objetivos e, caso não consiga, faz a vida do grupo todo um inferno. Simples assim.

Tendo em vista que ela é uma fêmea alfa, ela não consegue namorar com muita freqüência, uma vez que a tendência de seu comportamento é chamar a atenção do maior número de machos possível. De qualquer forma, quando está se relacionando com alguém (leia-se: ficando ou qualquer coisa do gênero, mesmo por que, elas não namoram), ela faz de tudo para que nenhuma outra fêmea (intencionada ou não) se aproxime do macho “dela”. A forma com que ela exclui as outras fêmeas é bem nítida: arrancando (literalmente) o cara da conversa, dizendo que tem algo “muitíssimo importante e urgente” pra conversar com ele, fazendo ceninha de triste ou carente. As armadilhas parecem não terminar nunca.

Geralmente os homens (bananas) caem fácil pois homem gosta de se sentir “viril e útil” perante uma “fêmea indefesa, triste, carente” em detrimento de todas as outras fêmeas “auto-suficientes demais pro gosto deles”. Impressionante como alguns homens são simplesmente burros. Te contar. Deixa estar.

 

 

 

 

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O homem banana

No começo do ano, eu e mais 4 colegas minhas caímos de paixonite aguda por um carinha da nossa sala. Ele era bonitinho, querido, um amor, se vestia bem, ele era tão tudo de bom que a gente quase achava que ele poderia ser gay. Felizmente, não era. Eu dizia “que fofo”. Outra dizia “ai se eu não tivesse namorando”, a outra “ai se eu não gostasse do meu ex” e assim vai… No entanto, o tempo foi se passando e, cada vez menos ele conversava com a gente. Até percebermos que ele decidiu, por conta própria (Ao que parece. Ou talvez não), virar capacho de uma menina da sala…

Pronto. Acabou-se o encanto.

Não existe nada mais horrível e repugnante do que um homem domado. Sério. Juro pra vocês. Ver uma mulher dizer “junto!” e o cara se colocar do lado dela, sempre…. Sei lá, isso não me parece nem certo e nem natural! Sei lá, podem me odiar por isso, mas pra mim, o pior defeito que um homem pode ter no mundo é ser UM BANANA. O cara pode ser über-liberal (coisa que a maioria das mulheres não gosta), pode ser mentiroso, intrigueiro, cafajeste mesmo, um cretino, insensível, idiota, burro, pobre, feio, sei lá… Pode ser qualquer coisa, pode ter todos os defeitos do mundo! Mas não há defeito PIOR num homem do que ser CAPACHO. Isso é o fim. O fim mesmo. Homem que é capacho não é homem, é meio homem. É horrível, horrível, horrível.

É anti-natural isso: homem submisso. Pra mim, particularmente, é BROXANTE.

E não só pra mim: as 4 colegas concordaram em gênero, número e grau.

Meio termo e bom senso é tudo nessa vida. Mas existem gostos e gostos. Eu gosto de homem que se impõe de certa forma. Não que eu seja submissa, não sou… Mas quero alguém que me defenda quando eu precise e não um eterno banana. Se se impôr mais do que deve, simplesmente caio fora. Se não se impôr o suficiente, idem. Meio termo. Bom senso. Essas coisas é que devem prevalecer. Homem banana: não, nunca, jamais, de forma alguma, recuso, me nego, broxei, broxei, broxei, mil vezes.

Sei que não sou especialista em porra nenhuma, mas existem 3 condições que me permitem escrever esse post: sou humana, sou mulher e sou observadora. Isso já basta pra chegar em algumas conclusões, mesmo que elas estejam equivocadas. Enfim… Não quero ensinar NADA a NINGUÉM aqui, por que meu blog não existe pra isso. Ele existe POR QUE SIM. Anyway…

Esses dias eu estava pensando de novo sobre esse lance de ter filhos. Ainda acho esquisito quem toma essa decisão. Nada contra as crianças em si, mas sei lá… Ainda existe muita gente nesse mundo que acha que ter filho é, de fato, uma grande coisa. Sei lá. Pra mim se você é uma idiota com meio cérebro, basta você abrir as pernas pra ter filhos. Minha mãe biológica que o diga. Ou seja.. Não é algo digno de nota, ou de sei lá… mérito (for fuck’s sake… literally).

Como diria Bill Hicks, engravidar não é nem um pouco melhor do que arrotar, vomitar ou cagar. É algo que acontece. E acontece muito, infelizmente. De qualquer forma, ainda, o post não é sobre engravidar, nem sobre ter filhos, mas sobre como algumas mulheres cuidam de seus bebês/crianças. Algumas mulheres parece que NÃO PERCEBEM que a criança não é mais um bebê, e continuam tratando a criança de forma retardada, ao invés de estimulá-la e tratá-la como gente.

Com a minha prima foi assim. Tanto que a filha dela tinha 3 anos e ainda não sabia falar direito. Com 5 anos ela falava mais ou menos, mas ainda falava meio que em “miguxês”. Nota: minha prima usava o “miguxês” pra conversar com a filha dela. Juro pra vocês. Eu acho isso uma merda. Isso é errado e devia ser proibido. Uma mãe dessas devia ser apedrejada em praça pública. Heh, eu adoro ser exagerada.

Enfim… Falando de casos bons. Há algumas semanas atrás, quando eu ia pegar um ônibus à noite pra viajar pra São Paulo, uma cena na rodoviária chamou bastante a minha atenção. Uma mulher e sua filha estavam esperando a chamada do ônibus. A menininha devia ter uns 4 pra 5 anos. Ela era bem esperta e não parecia uma criança comum, afetada. Crianças geralmente são meio “lesas”.. Sei lá se sou eu que não tenho paciência com elas, mas o “normal” numa criança pra mim é correr, gritar e agir como idiota a maior parte do tempo. Criança pra mim sempre foi sinônimo de incômodo. Mas essa menininha ficou lá, sentadinha, tomando o achocolatado dela e respondendo à mãe dela normalmente (normalmente mesmo, sem falar que nem criança nem nada). Aquilo pra mim foi bastante impressionante. Aquela mãe tá de parabéns.

Mas não que a criança fosse “fria” nem nada… Nada disso. Depois de um tempo chegou o vô dela e foi um grude. Ela abraçava o vô e ficava fazendo carinho nele. Foi uma das cenas mais bonitinhas que eu guardei na minha memória esse ano. Acho que guardei por que nunca tive vô. Deu inveja dela.

Ontem eu vi um outro caso de criança bem educada. Eu estava lanchando no CED aqui da UFSC e enquanto comia percebi que se aproximou uma mulher, negra, com seu filho. Ela me chamou a atenção por ser muito parecida com uma amiga da minha mãe, muito parecida mesmo. Aí eu percebi que ela também conversava com seu filho como se estivesse conversando com um adulto, e explicava as coisas pra ele normalmente. Achei incrível. Depois de um tempo ela começou a ensiná-lo, enquanto lanchavam, que “ele deveria sim obedecer às professoras, mas por livre e espontanea vontade e que professora nenhuma deveria colocá-lo de castigo, nunca. E ela foi bem enfática nessa última afirmação. O filho dela ficou sentadinho na frente dela, ouvindo com atenção ao que ela dizia. Era um garoto comportado, aparentemente de 4 pra 5 anos também. Fiquei imaginando que ela deve estar fazendo mestrado em educação ou coisa do tipo, pedagogia, sei lá… Só pela forma que ela falava. Pelo menos parecia. Coincidentemente, essa amiga da minha mãe com quem ela tanto se parece é doutora em Educação.

Minha mãe me educou bem, acho. Fez o que pode. Sempre conversou normalmente comigo, sempre foi workaholic. Mas se eu não sou drogada e não tenho nenhum outro tipo de desvio de personalidade/caráter muito absurdo, então isso quer dizer que ela cumpriu seu trabalho bem demais pra uma workaholic. Minha mãe gosta muitíssimo de bebês e crianças. Mas quando minha adolescência chegou ela quis morrer. Hoje em dia ela se culpa, acha que foi uma péssima mãe por que eu moro há mil quilometros dela, sou cheia de tatuagens/piercing, ouço músicas esquisitas, leio livros demais, não vejo TV, não tenho namorados, não penso em casar nem em ter filhos. Ela se lamenta MUITO por eu não querer ter filhos. O que ela mais quer na vida são netos, filhos que sejam meus pra ela poder estragar bastante eles. Enfim… Ela não está convencida de que é uma boa mãe e hoje se considera ausente. Pra mim, ela nunca foi ausente o suficiente. Heh.

De qualquer forma, observar mães e crianças como as que eu observei (na rodoviária e ontem) é algo que me conforta momentaneamente. Mas ainda acho que eu nunca vou ter filhos por que não tenho paciência, não teria jeito pra cuidar, nem nada. Falo que me falta instinto maternal. Tem gente que diz que isso vai mudar quando eu trintar ou quarentar. Eu acho que pode até mudar, mas também acredito que as coisas “não são bem assim”. Não quero ter um filho sozinha, não quero que seja algo desestruturado. Se for pra ser, a criança no mínimo vai ter que ter um pai decente. E pra mim tudo teria que ser muito planejado e perfeito, e se for pra pensar assim, melhor nem ter filho.. Mesmo por que não existe nada perfeito.

Eu sou niilista demais pra ter filhos, até mesmo pra pensar em crianças. Eu não acredito em várias coisas. Não acredito em genética. Não acredito na possibilidade de um bom pai. Não acredito na minha capacidade de dedicação a outro ser humano (a não ser que eu esteja trabalhando, num projeto, etc). E o xeque-mate: não acredito num futuro bom, pra quem eu for gerar. Esse mundo é podre e essa existência, escrota. As pessoas são insensíveis, insensatas, gananciosas e o que resta da Terra, está morrendo.

Por que eu traria pra cá alguém que nem existe, mas que eu amo tanto? Por que eu faria isso?

Que tipo de “amor” tão perverso e egoísta é esse?

Por que esse padrão de “crescer, casar, ter filhos” é tão compulsório, tão obrigatório?

Por que uma mulher que não “cresce, casa e tem filhos” é malvista pela sociedade? Por que ela é excluída? Ou ainda: por que ela é considerada “menos mulher” que as outras?

São várias coisas que eu me pergunto, desde que tomei consciência que podia conceber uma outra pessoa (lá pelos meus, sei lá, 15/16 anos). Nunca engravidei, nunca abortei, nunca fiz nada de errado, nem com meu próprio corpo, nem com nada, nem ninguém. Mas esses questionamentos são coisas que eu simplesmente não entendo…

E acho que vou morrer sem entender.

Eu simplesmente ODEIO pessoas cujos olhos são, supostamente, sensíveis. Que poder (e/ou conhecimento) eles têm pra julgar isso? Eles já estiveram nos meus olhos pra saber? Dói quando recebem mensagenzinha escrito em verde fosforescente no fundo amarelo? Oh! Me perdoe! É que eu sou ignorante. Acho que vou ali enfiar um lápis no meu olho e já volto. Porque a final, o SEU olho é sensível, o meu não. O meu é vulgar. O meu não dói. O meu é preto e sem graça. Você é especial. Você tem olho SENSÍVEL! O SEU olho é mais importante que o meu. Que insensibilidade a minha escrever em VERDE FOSFORESCENTE E AMARELO, hein? Me sinto muito culpada. Realmente eu sou doente. Me desculpe. Como eu já disse, vou ali enfiar um lápis no meu olho. Não se preocupe. Não vai doer.

05/12/2002 – 01:22:00

[Post perfeito pra “época de ouro do mIRC”. Ninguém podia escrever em magenta, ciano, amarelo ou verde água. Alguns canais até baniam ou proibiam,.. Coisas ridículas do tipo. Tá certo que tem cores que não combinam e não dá pra enxergar o texto direito, mas… Daí a dizer que tem “olhos sensíveis”? Faça-me o favor… Vá pra pqp!]

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