Última vez que isto aconteceu eu tive tempo mas não sabia o que fazer da minha vida, pra onde ir. Foi “a pior época da minha vida”, sendo salva apenas pelo fato de que ele veio me visitar e ficou uns dias. Não foi uma época de introspecção não, foi uma época depressiva mesmo. Que quase entrei em colapso. Esquecia de tomar banho e saía com a mesma roupa cinza por dias seguidos. Nada fazia muita diferença pra mim. Os sucessivos abandonos impulsionaram ainda mais o meu auto-abandono. Me deixei completamente sozinha. Me larguei. Foi horrível, mas sobrevivi. Eu sempre dou um jeito de continuar por aqui. Esse ano foi diferente. Diferente demais: eu não tive tempo. Não houve tempo pra introspecção, mas por outros motivos. Eu estava cheia de mim mesma. Tive muitas coisas pra fazer. Eu tinha muita vida pra viver, muito a agradecer… Eu não tive tempo de viver luto de nada, porque não houve do que me lamentar. Só houve uma mudança, nada demais. E eu só tive tempo de ser forte e de me fortalecer. E eu descansei bastante também. Descansei pra um caralho. Respirei e me renovei. Aprendi a ter fluência no trânsito de São Paulo, que é muito mais orgânico do que jamais imaginei que seria. Conheci muitas pessoas e não só isso, mas tive verdadeiros encontros, pessoas que me olham nos olhos e falam a mesma língua que eu, que se aproximam, que me fazem eu me sentir um pouco menos sozinha, mesmo que momentaneamente. Tive aulas da pós-graduação, fui em todas mesmo quando tava ficando chato, no final. Castrei as três gatas porque era isso o que tinha que ser feito e foi tarde até. Ajudei um amigo a fazer uma viagem internacional, dando muito apoio moral e conversa. Cantei no karaokê músicas cafonas com amigas que gosto muito. Fui em vários rituais e cada um deles abriu olhos diferentes meus que estavam fechados e eu sei que existem muitos mais a serem abertos. Senti muito a sua falta e amei cada memória que ainda me resta de tudo o que houve, mesmo as ruins – é o que me fez ser quem sou, é o que me faz estar aqui, logo, sou grata. Caí de moto, mas contatei o pessoal do grupo de moto e vieram consertar, pessoal gente boa, pessoas incríveis que trabalham com as mãos. Fui num show muito foda perto de casa com amigos de longe. Dei algumas caronas de moto pela primeira vez. Peguei um freela que me ensinou umas coisas e me deixou muito bolada, mas consegui resolver. Fui chamada pra dar aulas e aceitei na lata, mesmo sem ter muita certeza se é isso mesmo o que quero pra mim. Ajudei uma amiga a conseguir um estágio FODA na minha área. Descansei meus olhos por mais tempo do que deveria em algo que considero bonito e ainda não aprendi a lição da beleza (mas sei que ela está por vir e será logo). Senti falta (e ainda sinto) da minha família, dos meus pais, de estar entre os meus de algum modo. Senti falta de gente que não merece que eu sinta nada por elas. Fui pra Santos de moto e voltei. Não soube o que queria e soube, exatamente, o que não queria em absoluto. Fiz uma tatuagem pra marcar o tempo e farei mais outras pra marcar o tempo novamente. Gritei com a minha mãe, me arrependi, vi que eu era uma imbecil, pedi desculpas, segui em frente. Me olhei no espelho e senti dismorfia corporal, várias vezes, talvez diariamente. Fui paciente e esperei. Meditei em casa, andando, pilotando a moto. Orei em romeni todos os dias antes de dormir. Fui mesquinha e mão aberta. Li um livro sobre o sagrado feminino. Menstruei em todas as luas novas. Ovulei em todas as luas cheias e, assim, criei o meu presente. Enfim… Não houve tempo pra introspecção. Mas houve um tempo necessário para uma série de coisas que pavimentaram (e muito) o agora. E agora haverá mais.

Ontem eu gritei. Eu gritava ao telefone. “Você está ouvindo alguma coisa do que estou dizendo? Você me ouve?”. Dizem que quando duas pessoas que se amam gritam uma com a outra é porque seus corações já estão distantes. Algo assim.. Não percebi na hora, mas percebi depois. O quanto sou mesquinha, egoísta. Quem não ouvia nada era eu, na verdade. Quem era orgulhosa e se recusava a dar o braço a torcer. A aceitar ajuda, cuidado, carinho. Eu sou reativa com quem não merece, com quem me quer bem. Demorei pra perceber isso mas percebi muito mais rapidamente que há alguns anos atrás. Fui meditar. Me senti mal, muito mal. Me senti triste, de verdade. E me aprofundei nessa tristeza, questionei ela de todos os modos possíveis. Por que eu gritei? Qual a necessidade disso? Desse tipo de reação? Por que mesmo reagi assim? E de repente me dei conta de que eu estava na verdade reagindo contra mim mesma. E fiquei profundamente triste. Com o que aconteceu. Comigo mesma. Com tudo. Não precisa ser assim. As coisas, elas não precisam ser assim. Me senti constrangida, com vergonha mesmo. Me senti tentada a me auto-depreciar no mesmo instante. Segurei essa tentação e a afastei. Inspirei, expirei, deixei ir. Mas me lembrei, de tudo. Hoje quando nos encontramos eu pedi desculpas, timidamente. No fim do dia não senti que o que eu disse foi o suficiente. Falei com outras pessoas, fiquei ainda mais consciente do ocorrido, chorei um pouco, fiquei angustiada. E então resolvi pedir desculpas por escrito, me responsabilizando pelo que aconteceu e falando sobre o quanto aquilo me aborreceu e do quanto estava (estou) chateada e constrangida com tudo. Pedi desculpas, pedi perdão, disse que a amava e que era grata, pela preocupação dela comigo. Ela tem razão. E não estou dizendo isso de forma passivo-agressiva, pra terminar uma discussão, nem nada do tipo. Mas estou dizendo genuinamente, com tudo o que eu sinto, de verdade. Eu sou boba às vezes, é verdade. Mas é meu dever me redimir, me perdoar e seguir em frente.

Ram Dass (e Chogyam Trungpa) sobre a Perda de Sentido

O atingimento da iluminação a partir da perspectiva do ego é a morte extrema, a morte do self, a morte do eu e do meu, a morte do observador. É a decepção derradeira e irrevogável.

Chogyam Trungpa no The Myth of Freedom

Frequentemente as pessoas me dizem que a meditação trouxe um vazio em suas vidas. Tudo parece sem sentido. É preciso de muita fé para passar por períodos tão pesados de transformação espiritual.

Eu me lembro da raiva que eu tinha da espiritualidade quando vi minhas agitações favoritas desvanecerem.

Coisas das quais antes eu havia obtido grandes emoções esvaziaram-se. Por exemplo, muitos anos atrás uma das minhas maiores emoções estéticas era visitar Tanglewood, o festival de música onde a Sinfonia de Boston tocava. Eu me lembro em particular de uma linda noite onde deitei debaixo das árvores com um cobertor com queijos e vinhos e ouvi à sinfonia na concha acústica ao ar livre tocar o Requiem de Berlioz. Eu estava em êxtase.

Alguns anos atrás, uns vinte anos depois, eu estava passando por Tanglewood e me lembrei desse momento. Decidi passar por lá e ir em um concerto à noite. Para meu deleite, descobri que eles tocariam o Requiem de Berlioz naquela noite. Imediatamente comprei vinhos e queijos, peguei um cobertor e cheguei bem cedo para que eu pudesse escolher uma árvore onde pudesse me acomodar. A noite estava linda, suave e calorosa. E a música começou a tocar.

Por mais que eu tentasse, eu não consegui recapturar o êxtase. A experiência foi incrivelmente bela, agradável e aprazível. Mas não foi como me lembrava. Eu tive que perceber que a minha memória daquele momento era tão alta porque em comparação o resto da minha vida estava muito mais baixo. Mas agora as coisas mudaram e cada momento do dia a dia começou a ter uma qualidade de novidade e radiância e intensidade. Dirigir até o concerto, comprar o vinho, deitar sob a árvore eram igualmente maravilhosos como o concerto. Ao invés de picos e vales, eu tinha um platô.

A meditação traz esse tipo de mudança. Cada momento começa a ter uma riqueza ou uma espessura próprias. Menos momentos são especiais uma vez que cada vez mais deles se tornam ricos. Isso diminui as emoções, os altos e baixos. Enquanto eles desaparecem nós às vezes sentimos uma tristeza e uma depressão, ou uma sensação de ter perdido a riqueza do romance da vida. De fato, um ser desperto não é romântico, uma vez que nada mais é especial. Cada momento é tudo o que pode ser. Não há romance. Apenas o vir e ir. O vir e ir.

De certo modo é triste ver a narrativa de alguém se tornar uma forma vazia. A noite escura da alma é quando você perdeu o sabor da vida, mas ainda não ganhou a plenitude da divindade. É tanto isso que devemos resistir a este tempo sombrio, o período de transformação quando o que é familiar nos foi retirado e a nova riqueza ainda não é nossa.

 

Antes de ontem algumas coisas importantes foram ditas. Foi falado sobre pessoas que, estando em um relacionamento, não se completarem pois já estariam completas. Pessoas não completam uma parte faltante: são inteiras e se relacionam a partir disso, a partir de suas potencialidades e lacunas também. Eventualmente podem se complementar, mas isso é completamente diferente de preencher um vácuo, ou uma lacuna. Paradoxalmente em relacionamentos-simbiose, a conta, que aparentemente parece justa na verdade não fecha. Sempre sobra pra alguém, sempre falta pra alguém. E sempre é causa de sofrimento a longo prazo. O medo e a ânsia por intimidade são mais tênues do que se imagina. Falei que tinha dificuldade mesmo em conceber um relacionamento em que pessoas não se complementassem pois me foi ensinado o oposto disso desde que me conheço por gente. Enfim, é difícil, não disse que era impossível, não sou tão inflexível.

Foi falado também sobre como é importante se sentir bem sozinho e estar bem sozinho, pois isso é fundamental para poder estar com o outro. E também sobre os perigos de a solidão e o isolamento nos tornar pessoas completamente intolerantes, que criam critérios absurdos para se relacionar e afastam qualquer tipo de pessoa que tenha algum interesse. Em algum momento falei de solidão, mas foi em outro sentido… Foi num sentido que tem sido recorrente pra mim e tenho visto com frequência em pessoas que conheço. Uma pessoa que tem muitos amigos, é adorada por muitos, sai todos os finais de semana e tem pessoas que a paparicam 24/7: reclama de solidão, de medo que todas as pessoas a abandonem e de uma angústia que parece nunca cessar. Neste caso, a pessoa em questão é solteira. Pensei que o problema poderia ser a falta de um namorado ou coisa do tipo. Mas parece que não. Em outro momento, ouço coisas parecidas de outras 2 pessoas, que estão em relacionamentos estáveis (e felizes) há mais de 5 anos e sentem exatamente as mesmas coisas: solidão, angústia, abandono. Fico sem entender nada.

Em um primeiro momento, isso me deixava com raiva: como pode alguém estar num relacionamento estável e feliz sentir isso ao mesmo tempo? Sim, pois não tem nada a ver com o parceiro em questão (às vezes, pode ter. no caso, não tem), mas com a própria pessoa e com isso que ela sente. Mas não se trata apenas de uma questão técnica de depressão, sensação de inadequação ou baixa auto-estima. É mais que isso: o que essa pessoa busca não está fora dela, mas já está dentro dela. Todas as tentativas (muitas vezes desesperadas) de buscarmos por alguma confirmação externa só nos deixa exauridos e são sempre insuficientes, não nos preenchem de modo algum. Isso ocorre não só com relacionamentos, mas até mesmo com outras coisas na vida em geral. Alguém que almeja “chegar lá” algum dia, ter sucesso e aí quando a pessoa “chega lá”, simplesmente não há nenhum lá, lá. São miragens. O caminho, a fonte, são sempre internos, abertos, fluídos. Está aqui, em silêncio, o tempo todo. Basta que estejamos atentos à este silêncio ensurdecedor. E vem de nós mesmos. Isso é o que estou tentando buscar timidamente com meditação diária há alguns anos. Acho paz interior um conceito meio bobo, não sei qual termo usar. É uma busca, mas não sei pelo quê.

Talvez eu nunca descubra, mas de qualquer modo, vou continuar buscando. 

I

Essa noite eu tive um sonho com o meu antigo trabalho. Sonhei que me chamavam até lá para algum tipo de atividade que eu deveria executar e eu me esforçava e ia, e aí quando eu chegava lá me diziam que não precisavam mais de mim. Me lembro que no sonho me senti bastante frustrada com isso mas no entanto eu fiquei lá. Eu não ia embora daquele lugar e ficava olhando as pessoas. Foi uma sensação bem esquisita e tão, tão familiar. Eu não era necessária ali mas esse fato não parecia me importar muito. No sonho isso não me importou muito, mas fiquei estarrecida com isso quando pensei no sonho, várias vezes ao dia. É como se em algum nível eu não me importasse em ser completamente inútil. Ou ainda, como se eu quisesse isso. No caso do sonho, o contexto não era exatamente muito feliz. O antigo trabalho me demandava coisas, posturas, entregas, resultados. Não podia me dar ao luxo de ser inútil ali. Mas no sonho eu era, eu fui. Tentei ignorar esse sonho conscientemente o dia todo – talvez porque ele tenha me deixado triste – e falhei. Várias vezes ele voltava pra mim, indicando algo. Até eu resolver escrever sobre ele por aqui e tentar juntar alguns pontos.

II

Hoje me deparei fazendo uma pergunta bem imbecil para uma colega experiente. Me senti imbecil bem logo depois de ter terminado a pergunta. Não tive tempo de me conter e não fazê-la. Me dei conta então de que tenho feito uma série de perguntas bem imbecis pra várias pessoas, geralmente esperando respostas sim/não quando na verdade, a vida é muito, mas MUITO mais complexa que isso. Como se uma resposta sim ou não fosse resolver os meus problemas ou qualquer problema que o valha. Aliás, esta é uma questão séria para mim: eu preciso PARAR de querer resolver as coisas, por algum tempo. Vou um pouco mais longe: eu preciso começar a não só não querer resolver as coisas, mas o exato oposto disso, adicionar ainda mais complexidade à elas. Não complicá-las, não fazer tudo errado, nem nada desse tipo – porque eu não sou assim, esta não sou eu. Mas me deslocar deste lugar onde estou, há anos. Praticar um pouco a tal da porra da alteridade. Observar mais. Entender, com calma, sem pressa, sem necessidade de resultados exatos, precisos, corretos, os porquês de as coisas de desdobrarem e como as coisas se desdobram. Eu tenho feito as perguntas erradas. E, obviamente, nenhuma resposta vai me satisfazer deste jeito. Claro. E eu sinto medo de uma série de coisas, parece. Isso me gera a famigerada travação. Não física, nem nada, mas de ação, mesmo. E a quem eu quero enganar mesmo, eu não estou contemplando porra alguma. Eu simplesmente não estou fazendo o que deveria estar fazendo.

III

Eu caí duas vezes de moto. As duas vezes foram no estacionamento, quando tive que sair de casa. E nas duas vezes eu precisava acelerar e na hora, por algum motivo que desconheço, eu me assustava, freava e caía. Não era pra frear, era pra acelerar, porra, eu estava em subida! Mas enfim, eu parava de acelerar, a moto morria e eu caía. Assim foi, duas vezes. Até então não tive nenhum acidente no trânsito, só estes mesmo. O problema da aceleração pra mim vem desde as primeiras aulas que tive de moto, do processo inicial de aprendizagem. Eu tenho, tive, medo de acelerar. Medo do barulho do acelerador, do próprio ronco da moto. Medo de uma máquina viva, explodindo continuamente, bem debaixo da minha virilha. Medo de perder o controle e me acidentar ou ainda pior, machucar os outros. Acelerei muito pouco nas aulas, é verdade. Tenho acelerado bem mais no trânsito, enquanto rodo e me acostumado mais com isso. Mas o que essas duas quedas ridículas no estacionamento me ensinaram foi que aceleração não implica em velocidade. E que sim, a aceleração é barulhenta mesmo, não tem muito jeito de ser diferente disso, é melhor eu me acostumar. E que numa subida, num caminho que me leva efetivamente pra cima, se eu não acelerar, eu também posso me acidentar. E possivelmente machucar outros também. Hoje em dia, quando pego um túnel e existe uma subida onde preciso acelerar, eu geralmente grito, pois isso me ajuda a manter a aceleração sem hesitar. Isso me ajuda a perder, mesmo que seja um pouco e por alguns momentos, o controle. E assim, paradoxalmente, a manter o equilíbrio.

IV

Eu preciso escrever e não consigo escrever. Passei o dia todo procrastinando, olhando as telas. Não li nem uma linha sequer. Não escrevi nem uma linha sequer. Tento me convencer de que preciso de uma estrutura e no momento ela é ausente. Não tenho a mínima ideia sobre o quê falar – como se eu não tivesse nada a dizer. Tenho coisa pra caralho pra dizer, mas não sei como, não sei por onde começar. Insisto que preciso de uma estrutura. Dou conta de fazer ainda pior: insisto que o que eu preciso escrever precisa ser FUNCIONAL e que precisa ser usado posteriormente, inevitavelmente, pois não quero “perder tempo”. Que tempo? Tempo do quê? Perder o quê? Enfim. Segundo eu mesma, o artigo que preciso escrever, precisa ter uma exata estrutura, abordar tais e tais assuntos, se encaixar em determinado contexto e, para mim, só assim eu vou ter feito um bom trabalho. E eu estou tão puta comigo mesma por pensar assim. Tão incrivelmente puta. Eu estou definitivamente com raiva disso, de mim. Agindo desse jeito eu estou simplesmente matando o meu próprio trabalho, matando qualquer tipo de espontaneidade e inviabilizando qualquer tipo de criatividade. Tá tudo errado. Eu preciso abrir mão disso. Não existe estrutura e não vai existir à priori. Querer ser funcional é uma verdadeira derrota pra qualquer tipo de pensamento que se preze. E no fundo, no fundo, eu já sei o que fazer. Eu sei exatamente o que fazer. Eu só estou com medo. Mas agora eu estou com mais raiva do que medo. E assim eu sei que vai ser mais fácil eu me movimentar em direção de qualquer coisa.

 

 

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