O quão óbvio, patético e pequeno não é buscar redenção em vingança? Sonhar com isso. Desejar isso. É tão mesquinho, tão pueril. Na nossa cabeça temos um sabor muito específico (e eu diria que raso) de vingança: aquela que nos satisfaz completamente. Aquela que nos sacia. Que nos preenche. Que se cumpre. Essa vingança existe plenamente na nossa mente. Mas a realidade é sempre outra.

A realidade e a vida sempre nos dobram e nos mostram o quanto não somos donos de porra alguma. Por mais que andemos por certos caminhos. Por mais que se planeje e arquitete o mais maquiavélico plano de vingança, que o prato seja comido frio ou não, que seja cozinhado por anos a fio… E aí quando a gente finalmente experimenta o sabor da vingança e sente um prenúncio de redenção… O momento passa. E a sensação vem, reverbera. E nos sentimos muito satisfeitos com ela, por alguns momentos.

E o momento passa, novamente. E laços são desfeitos. E pontes são queimadas. E separações são irreconciliáveis. E a chuva vem e lava todo o sangue derramado. A ideia para nós é a de sempre e para sempre poder reviver esse momento, esse sabor, essa redenção… Que na verdade, muitas vezes, sequer existiu. Acho que o mais duro disso tudo é eventualmente termos de admitir pra nós mesmos que esse sabor, a bem da verdade, nem foi tudo aquilo que imaginamos. Que na verdade, na verdade mesmo, esse sabor foi frustrante. Insuficiente.

A redenção tem uma regra que sempre nos foge: ela é sempre necessariamente decadente. A redenção genuína, não essas farsas hollywoodianas. Ela jamais é triunfante. A dualidade não chega a fazer muito sentido nessa seara. Ninguém nunca ganha nada. Ninguém sai por cima. Nada se cumpre, absolutamente. Na redenção sempre existe uma perda, um vácuo… Se forma uma lacuna ainda maior que aquela com a qual já temos de lidar. Nunca o oposto disso. E, assim, aprendemos. E assim se dá a continuidade do que somos, do que devemos ser.

A redenção pop, mesquinha, fuleira de se vingar e encontrar plenitude nisso acreditando que “agora sim tudo terminou bem” não nos sacia verdadeiramente, bem pelo contrário: nos torna ainda e cada vez mais impotentes diante de nosso real desejo. E é aí que mora o perigo, pois essa falta de saciedade costuma contraditoriamente se retroalimentar indefinidamente e assim nos movimenta rumo a comportamentos desviantes e destrutivos, para nós mesmos e para os outros. Vingança é mesquinhez. Redenção é uma ilusão a qual nos apegamos e gostamos muito de acreditar.

Nada nunca se cumpre. E é com isso que devemos conviver.

Dias atrás me liguei de que tive dois sonhos sobre o mesmo tema, por duas noites seguidas. Não notei de imediato, pois o sentimento foi muito sutil no sonho e demorei pra desenvolvê-los enquanto acordava e me recobrava. Preciso desdobrar os sonhos assim que acordo e é sempre difícil decifrá-los, entender seu contexto na minha vida e entender porque os tenho. Dissociar o que sinto enquanto ser atuante no sonho e enquanto ser que sonha. Mas toda tentativa é válida.

Sonho I

Sonhei que estava em alguma manifestação na universidade. Tinha gritos, correrias, bombas de gás lacrimogêneo. Eu estava confusa e com medo, claro. Lembro-me que saí correndo não em direção de fugir da confusão, mas ao encontro dela. E de alguma forma muito estranha e totalmente não proposital eu soquei alguém importante lá. Quase que no mesmo momento em que fiz isso eu já sabia que estava fodida. Sabia que ia ser pega e que iam me infernizar. Mas não fiz nada com intenção, com propósito, foi sem querer mesmo, não foi na maldade. Machucou? Bom, lamento, tá na chuva é pra se molhar, vida que segue. Fui pega na mesma hora e tudo aconteceu de forma muito rápida no sonho: fui levada para uma sala pra ser interrogada. Fui insistentemente acuada por uma mesa com 5 pessoas, 2 mulheres e 3 homens que tentavam me fazer “confessar” o que eu tinha feito e principalmente como tinha feito. Pessoas que nunca tinham me visto na vida e me julgavam com base em nada, sem sequer me conhecer. No começo não queria responder a pergunta alguma, neguei todas as acusações, falei que se tratava apenas de um acidente e era isso. Mas obviamente eles foram insistentes na história em que eles preferiam acreditar e que queriam que eu verbalizasse e aquilo foi aos poucos me irritando muitíssimo. Em dado momento fiquei muito puta mesmo e revidei dizendo que soquei sim e que foi de propósito, e que socaria de novo se preciso. E que foi sim na maldade mesmo. E que tudo o que eu mais queria naquele exato momento era socar a cara dos cinco que estavam ali até desfigurá-los. Quis dar o que os satisfizesse, mesmo que momentaneamente, mesmo que isso fosse me foder depois. Só queria que parassem de me acusar falsamente. Depois que estourei no sonho e disse essas coisas, acordei sentindo muita raiva, uma raiva que subia do estômago até a área central do peito e depois pra cabeça.

Sonho II

Sonhei que estava em um mercado fazendo algumas compras para casa. Nesse mercado havia uma seção em que tinham algumas pedras que pareciam não ter preço algum, estavam simplesmente dispostas ali. Não pareciam a venda, não pareciam ser de alguém, não eram preciosas: simplesmente estavam ali, dispostas. Tive um episódio de cleptomania e peguei as duas pedras e coloquei-as entre meus seios, como se quisesse roubá-las do mercado. Estava quase chegando no caixa quando um segurança começou a me sondar e ele tentava, discretamente e sem sucesso, me revistar e me impedir de sair do mercado. Notei isso na hora e fiquei muito, muito puta. E no sonho considerei que agi como normalmente NÃO ajo: dei um puta de um piti do caralho, gritei pra todos os presentes que quisessem ouvir que aquele segurança estava me ameaçando, que ele me achava uma ladra e, sim, as pedras estavam no meio dos meus peitos. E eu estava profundamente ofendida com tudo. Só sei que fiquei tão puta no sonho que larguei o meu carrinho de compras onde estava, saí esbravejando do mercado e correndo, como se estivesse fugindo mesmo. Depois comecei a voar e em dado momento era como se eu estivesse subindo para algum lugar com o auxílio de uma corda. Aí eu acordei, sentindo um misto de raiva e medo, medo de ser pega fazendo algo errado realmente.


No Sonho I considero que enquanto estou acordada normalmente tenho este tipo de reação mesmo. Não me defendo quando preciso, pelo contrário: deponho contra mim mesma. Além disso não distribuo a minha raiva equitativamente, eu a acumulo ao ponto dela voltar-se contra mim mesma, sempre. Não sei porque ainda ajo assim, mas é o que acontece, é bastante comum. Nesse sentido não tenho nenhum senso de auto-preservação e meu comportamento tende a ser puramente auto-destrutivo mesmo, ainda mais em lidando com pessoas que efetivamente querem e torcem por me ver muito mal. Até este sonho, nunca tinha parado pra pensar sobre isso, mas tudo isso o que escrevi acima é muito real. É um padrão que gostaria de quebrar. Isso de “não sentir raiva” não existe. Raiva é essencial pra funcionarmos enquanto humanos. No entanto preciso saber equalizá-la de modo que eu não seja irascível e não acabe me prejudicando sem necessidade alguma disso. Já tomei decisões bastante imbecis em momentos de raiva. E sim, geralmente odeio me sentir acuada e quando isso acontece eu me torno uma camicase mesmo: ao invés de manter minha auto-preservação, deixo-a em suspenso por questão de minutos e simplesmente ataco (ao outro, à mim mesma, enfim, tudo a mesma coisa), por mais que me arrependa disso depois. Geralmente depois disso não há para onde retornar. Acredito que terei um longo caminho até mudar esse tipo de comportamento, mas já é interessante me saber consciente dele. Provavelmente me sentirei acuada mais vezes ao longo da vida e vou me ver obrigada a lidar com isso de modo razoável.

Já o Sonho II tem várias interpretações. Quando eu faço coisas erradas, para mim em algum nível, elas não são consideradas moralmente erradas, mas sim um desvio apenas, uma doença (cleptomania). É sempre como se não fosse nada demais, quando na verdade é. E eu sempre assumo o risco, mesmo sabendo que posso ser pega. O que achei curioso no sonho foi o fato de eu ter dado um piti quando o segurança desconfiou de mim. Na vida real faço bem o oposto disso: quando me acusam de algo que fiz de errado, tento primeiro assumir o erro mesmo e depois pedir desculpas por tê-lo feito e prometer melhorar da próxima vez. Não dou piti porque acho realmente exaustivo, perda de tempo e acredito que não me leve a lugar algum, realmente. Novamente: eu evito o embate, reprimo raiva entre ouras coisas, etc. E o fato de eu ter fugido no sonho denota algo que é recorrente comigo: o escapismo. Ao invés de encarar e resolver o problema de fato, eu vou embora, fujo, mesmo que lidar com essa fuga seja mais frustrante e ainda mais desgastante que lidar com o problema. Parece um contra-senso, mas é bem real. E acontece com frequência comigo.

Os dois sonhos tratam sobre a raiva que eu sinto e sobre como eu lido com ela (ou não né). Preciso rever tudo isso, ver o que permanece e o que vai precisar ser mudado. Preciso evoluir a partir deste ponto que estou, pois nenhum dos dois exemplos me pareceu muito bom – e estão intimamente relacionados com o que sou e quem sou hoje. Hora de mudar.

I

“Escorpião normalmente vive através de processos de morte e renascimento, e também lida com questões de poder, sexo, transformação e cura”. (Casa X, Marte, Saturno e Plutão)

II

Hoje eu sonhei que conversávamos sobre uma série de coisas, emendando as conversas que tivemos ontem de tarde e à noite, durante o jantar. A gente estava na cama e você fazia um cafuné na minha nuca e nos meus cabelos, e aquilo me excitava. Acho que era manhã, já. Nos beijamos longamente e eu queria aquilo, eu queria você. Você prendeu meus cabelos de lado, delicadamente, como sempre faz e eu… Acordei. Com raiva. Quis voltar pro sonho. Não consegui. A raiva aumentou. Esperei que passasse. Tentei abstrair. Esqueci, fui fazer outras coisas. Mas a vontade, ainda existe.

III

Quase perdi o ônibus, perderia a viagem e teria que ficar mais uns dias por lá, tendo que aturar todo o acontecido. No dia anterior tínhamos brigado. Aquela seria a última briga pois foi o limite de tudo. O cúmulo de tudo chegou na agressão e da falta de respeito mútuos. Quebrei um quadro, sem querer. Não me importei na hora, eu estava com muita raiva. Eu só queria ir embora. Fui. Voltei no dia seguinte ou dias depois, não me lembro mais. Faz tanto tempo. Voltei porque aquilo precisava ser finalizado de algum modo. Eu sabia que estava indo embora para nunca mais voltar. Acho que fomos buscar minha mala na casa dela e faltava algumas poucas horas pro fim. Eu estava pronta pra ir. Eu não estava pronta pra ir. E trepamos, desesperados. Foi desesperado, triste e violento… Como tudo. Eu não tirei minhas roupas, não tirei minhas botas, na verdade eu preferia assim. Foi rápido e desesperador. Não tínhamos tempo. Nunca tivemos. Foi uma boa maneira de me lembrar de você pela última vez. O sexo parece revelar o que as pessoas são e sentem verdadeiramente, na hora do orgasmo. E você parecia assustado. Ou ao menos parecia que esperava qualquer coisa menos aquilo. Eu também não esperava aquilo. A flecha atirada que se volta contra mim mesma. Eu não queria e queria ao mesmo tempo. Não me esqueço daquele seu último olhar. Uma memória acertada. Fui embora da mesma forma que cheguei: do nada. Faltava meia hora pro ônibus sair. Fomos correndo. Não senti absolutamente nada me despedindo de você. Estava completamente vazia. Consegui chegar a tempo de nunca mais precisar voltar.

IV

Lembrei esses dias de algumas coisas que aconteceram há alguns anos atrás e pensei “cacete, eu fiz tudo mesmo isso? Por que?”. Atualmente eu não reconheço mais essa pessoa que fez todas essas coisas… E nem foi há tanto tempo atrás assim não, 2013, talvez 2011 também. É complicado. Esses dias percebi que houve um fim de ciclo na minha vida e me vi não sendo muito reativa em relação a isso. Não é questão de estar em negação não, isso já estava previsto de algum modo e não fui pega inteiramente de surpresa. Era o esperado, então passadas as burocracias, a aceitação aconteceu sem maiores problemas. Entendi o que houve e tentei lidar com isso de forma madura, não-reativa e estava realmente preparada para o que poderia acontecer. Usei meu plano B e toquei a vida porque é assim que as coisas são. Aí comparei com alguns anos atrás e fiquei um pouco chocada com a forma que eu (não) lidava com fim de ciclos. Tudo bem que era outro momento, existiam outras coisas me influenciando, eu me sentia muito mal, sempre, em relação à tudo… E posso dizer que não lidava porque de certa forma pra mim sempre foi muito mais cômodo entrar em negação e ir por um caminho auto-destrutivo. Eu sinto muito, hoje, pela forma que me tratei há alguns anos atrás… Mas hoje eu consigo me perdoar por isso. E a tentativa, agora, é a de não repetir esse tipo de comportamento.”Everything I ever let go of has claw marks on it“. Hoje eu sei que, quando é assim eu me machuco também. E isso não é um valor pra mim, não quero e não preciso mais viver deste jeito. Eu compreendo que não precisa mais ser assim. Existem outros meios. Existem outras coisas. Existe vida além de toda essa morbidez. Eu não preciso mais disso. E esta é uma escolha que eu decido ter, todos os dias.

V

Dia desses sonhei com uma pessoa que na verdade eram várias. A pessoa que eu via era um homem, meio grande, meio alto, não me lembro direito de detalhes do rosto dele. A única coisa que lembro com certeza era que ele tinha uma tatuagem no lado esquerdo do peito e que ela estava descascando, em processo de cicatrização. Ele era um homem mas ele tinha camadas de gente nele… É difícil explicar. Eu queria muito me encontrar com ele na vida real. Lembro que no sonho me sentia muito bem com ele ali, me sentia muito feliz, era uma energia estranha, boa. E lembro também que eu ficava olhando ele e ficava tentando encontrar nele algumas pessoas em específico, pois ele parecia conter várias pessoas que eu conhecia em si. E eu me frustrava pois não conseguia encontrar ninguém direito, só sabia que ele era uma fusão de várias pessoas que eu amo, amava, amei… Não existia tempo verbal, ele era tudo num só. Ele era quase puro amor. Perto desta pessoa eu só conseguia sentir isso. A gente estava num lugar que parecia uma casa antiga e era tipo um escritório, um lugar com estantes enormes e cheias de objetos. A gente conversava sobre algumas coisas e ele me falou que eu deveria escolher alguns objetos que gostasse mais ou ir apenas mexendo nos objetos que me chamassem mais atenção, pois a partir das minhas escolhas e movimentações ele faria uma “leitura” de mim. Tinham vários bibelôs, imagens e objetos que nem sei dar o nome, de várias cores e formatos. Fui olhando e mexendo, até terminar com todas as estantes e no final, quando ele ia começar a falar o que ia dizer, eu o abracei bem forte. E ele me abraçou de volta. E esta foi a melhor sensação do mundo. Soltei do abraço e acordei. Senti uma saudade que aos poucos foi ficando dolorida e depois passou. Não sei quem era, não sei quem foram. Só sei que foi.

Eu já passei por muita “desgraça”. Sim, vai entre aspas porque a minha desgraça é completamente relativa. Sim, sempre poderia ser muito pior. Sim, existem casos bem piores que os que eu passei. Mas ainda assim, o sofrimento é de cada um, pra usufruir individualmente. Já tive o meu coração partido, duas vezes. Já fui abandonada uma porção de vezes, por pessoas que jamais imaginei que fariam isso comigo. Já fiquei em total desamparo em situações muito, muito difíceis para mim. Já me senti vulnerável em lugares onde deveria me sentir segura. Já entrei sim em desespero por conta dessas coisas que acabei de mencionar. Às vezes esse desespero durou alguns anos, onde eu encontrava um abismo toda vez que ia buscar um copo de água na cozinha. Quando tinha crises convulsivas de choro no transporte público. Quando pensava que a minha vida realmente não valia a pena ser vivida e talvez o melhor caminho fosse eu desistir de tudo, mesmo. A gente passa por tudo isso, sim… Mas eventualmente a gente acaba saindo pelo outro lado, uma hora ou outra (quem não tem uma condição fisiológica de depressão ao menos, meu caso). E tudo depois de um tempo acaba sendo aprendizado, de uma forma ou de outra. A gente se estabelece, se reforça e persevera eventualmente. Mas acho que nada me devastou – e devasta – tanto quanto descobrir o porquê uma pessoa é vil. E isso já aconteceu duas vezes, comigo. Pensei nisso hoje porque existe aquilo de desapego, de desapegar-se do sofrimento, das situações e das pessoas, mas aí observando melhor cheguei a conclusão de que esse é o meu limite, parece. Acredito que quando as coisas aconteçam comigo eu sofro, me fodo, o tempo passa e eu eventualmente recupero. Caio 7 vezes, levanto 8. Mas quando é algo que independe de mim e sobre o qual eu não tenho nada de controle, eu me vejo rancorosa, com ressentimentos. E isso é algo que também preciso trabalhar. Para mim, é bastante complexo conseguir retornar disto. Conseguir voltar para mim mesma, neste sentido. Porque eu sempre queria poder fazer algo, queria poder ajudar, modificar o passado, modificar a coisas, tudo… E sei que não posso. Que é impossível. Que este não é o meu currículo, que esta não é a minha vida e que não tenho como mudar nada que está muito além de mim. É uma sensação de impotência pavorosa e que tende a se arrastar por muito tempo, mesmo quando eu achava que não existisse mais. E é a PIOR sensação da vida inteira. Nada se compara. Nenhum abandono, nenhuma traição, nenhum desamor e nenhum luto. É meu dever superar esses tipos de coisas. Mas a gênese da vileza é inalterável e inalienável… E preciso aprender a lidar com ela de modo a conter danos, não tanto aos outros mas à mim mesma.

Ready for another remedy
Maybe not as good as used to be
I will be back tomorrow

Moments stalling for my destiny
Ready for another remedy
I’m not myself today

Making a scene in the pouring rain
Doesn’t make a difference cause I’ve had enough
And all the things I need to say
Never make it out cause I’ve had enough
And everything I do today
Nothing gets done cause it’s not enough
And I’ve had enough of everything
Tried to make it right and I’m wrong again
I’m afraid of everything
Everything’s out cause I’ve had enough
And I don’t believe in anything
Doesn’t really matter cause I’ve had enough
And everything I do today
Fades away

Going nowhere with your strategy
Sit down, relapse, relax you got nowhere to be
I’m longing for another

Running from another side of me
Maybe not as good as it used to be
I’m not myself today

Making a scene in the pouring rain
Doesn’t make a difference cause I’ve had enough
And all the things I need to say
Never make it out cause I’ve had enough
And everything I do today
Nothing gets done cause it’s not enough
And I’ve had enough of everything
Tried to make it right and I’m wrong again
I’m afraid of everything
Everything’s out cause I’ve had enough
And I don’t believe in anything
Doesn’t really matter cause I’ve had enough
And everything I do today
Everything I do, it fades away

Quis uma moto. Por anos. Por cerca de 2 anos. Não tinha como. Esse ano teve como. Me planejei desde o início. A burocracia toda, a porra toda. Transferência de CNH, mudança de nome, atualização, renovação, fotos, digitais, caras feias, sorrisos. Tirei férias, peguei todos os dias pra ter aulas de moto. Exercitei minha atenção e coordenação, sempre soube andar de bicicleta, não foi difícil. Tomou todo o meu tempo, toda a minha atenção e parte do meu descanso. Fiz a prova e passei de primeira. O timing foi favorável e agora eu pude comprar uma moto. Pesquisei um pouco antes, escolhi 3. Refinei. Das 3 selecionei uma. Liguei, marquei encontro. Vi ontem, conheci os donos, ou melhor, a dona, ontem.

Conversamos por algum tempo e a dona da moto é gente finíssima. Tinha outra pessoa interessada na moto, um cara, que viu a moto quinta-feira e ficou de dar a resposta até domingo. Até a gente se ver ele não tinha respondido. No desenrolar da conversa, notei que ela também passou por processos de vida impressionantemente semelhantes aos meus e aí a identificação ficou maior, já entendi algumas coisas de cara. Ela também me disse que o nome da moto é “Eudora”, nome grego, que significa “generosa” ou ainda “bom presente”. Bom, nem preciso mencionar que a moto já tem parte do meu nome nela né? Reforcei mais de três vezes que queria a moto e, caso o rapaz não ligasse, que gostaria da preferência na compra.

O rapaz ligou. E ela não quis vender a moto pra ele pra vender pra mim. E agora são vários ritos de passagem, várias últimas vezes, várias caídas de ficha, uma atrás da outra. Cancelamentos, solicitações, cartório, transferência, assinaturas, acordos, pensar em segurança, pensar em proteção e uma caralhada de novas informações que estão sendo absorvidas. Sempre róla a voz interna da auto-sabotagem e da travação, que me diz não. Também rolam vozes externas que conseguem ser ainda piores: morte, atropelamento, pernas amputadas, acidente, decapitações com linhas com cerol, cuidado, você vai cair, você vai se acidentar, numa dessas você pode acabar morrendo.

Bom, eu posso morrer de qualquer jeito.

Andando na rua tarde da noite ou de madrugada, como já cansei de fazer. Posso ser assaltada, sequestrada, estuprada, etc. Posso ser atropelada como pedestre também na rua. Algum maluco pode vir qualquer dia no metrô e me jogar na frente do trem, enquanto ele passa (já aconteceu, eu li no jornal). Posso tropeçar e cair por acidente no chão, bater com a cabeça e também morrer. Morrer eu posso a qualquer hora, por qualquer motivo. Ter uma moto e andar por aí com ela vai ser só mais um deles e isso me aterroriza bem menos que o fato de estar viva e não poder fazer as coisas que eu quero, que eu posso, que eu devo fazer e, last but not least, fazer as coisas do meu jeito. Aprendi já há algum tempo que a vibração do medo me impõe limites justamente para que eu possa ultrapassá-los.

Um a um.

Um de cada vez.

 

Há algum tempo já eu tenho tirado fotos da minha cara mensalmente. Mais pra registro do que pra qualquer outra coisa. Minha cara é ok. Não sou linda, não sou horrorosa, sou mais um rosto qualquer numa multidão. Mas ontem quando fui tirar a foto do mês alguma coisa mudou, em mim. Sempre me senti confortável sem maquiagem. Tiro as fotos com cara limpa geralmente, depois do banho passo um creme e marco o tempo. Só. Tentei fazer isso ontem e não funcionou. Olhava pras fotos e não reconhecia aquela pessoa. Não era tanto questão de eu estar bonita ou não naquelas imagens. Aquela pessoa não era eu, simplesmente. Rolou uma dismorfia leve. Parecia que faltava algo.

Ganhei meu primeiro batom faz pouco tempo, de uma loja que estava fazendo uma promoção. Era de um vermelho de uma cor um pouco mais fechada, mais pro cereja. Eu não gostava de maquiagem, nunca gostei. Tem sido um exercício, há alguns anos, me fazer usar maquiagem, batom às vezes. Comecei de forma tosca, roubando batons da minha mãe e da minha irmã. Não gostava de nenhum. Até ganhar este desta loja. Achava que vermelho não combinava comigo por eu ser morena. Bobagem. É costume. Depois comprei mais dois, da mesma loja: um vermelho mais aberto e outro cor de rosa, ambos foscos. Meu primeiro batom terminou hoje. Estes segundos que comprei ainda estão durando.

No meu aniversário este ano, decidi que queria mais dois batons de cores diferentes: um marrom (médio, um tom abaixo da minha pele, talvez) e um roxo (bem aberto, reluzente, que pode ser visto à distância). Eu nunca tinha escolhido cores com tanta precisão. Também nunca tinha dito pra vendedora insistente “não, esta cor não gosto, não quero, nada a ver”. Mas esse ano rolou tudo isso. Levei pra casa cores pelas quais me apaixonei e sei que serão de uso contínuo. Tenho usado desde o dia do meu aniversário, consistentemente. Por isso ontem me olhei na foto sem batom e não me reconheci. Fui pro espelho, passei um batom e um lápis de olho e ao que tudo indica, isso já virou um mini ritual… Uma parte minha.

Foi difícil, levou alguns anos, mas parece que encontrei algumas de minhas cores, agora. E tenho muito mais outras a descobrir.

“A verdadeira liberdade é um ato puramente interior, como a verdadeira solidão: devemos aprender a sentir-nos livres até num cárcere e a estar sozinhos até no meio da multidão”.

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