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Zeitgeist

Algumas frases desconcertam. Tinha perguntado sobre lembranças nossas, para todos. Não imaginava tanta coisa assim, aí você respondeu. Eu não me lembrava de você. Li sua resposta, fingi que não li, que não entendi e tentei rememorar uma das nossas primeiras lembranças. Era uma noite qualquer, você estava bem alterado (bêbado? não sei, mas bem alterado), nos encontramos em algum lugar, você estava com sotaque e falando alto, me abraçou e me beijou no rosto, loucásso. Lembro que ri. Lembro que por um momento quase não me lembrei quem você era e só depois me dei conta. O cara que foi embora. Que tá longe. Enfim. Você tava louco, mas o abraço e o beijo foram genuínos, foram de saudade. Mas isso faz tempo, faz alguns bons anos já. A minha vida era outra. Mas eu falei que tinha perguntado de lembranças, ao que você disse que não tínhamos nenhuma ainda que valessem a pena, mas que as melhores que teríamos ainda estariam por vir. Esse tipo de frase me deixa fodida da minha vida, sabe? Já ouvi mais de uma vez. Hoje a entendo como prenúncio de sofrimentos incomensuráveis. Quando li pela primeira vez, fingi que não notei o frio na espinha que ela me causou. Fingi que não lembrei de uma série de coisas que já me aconteceram. Tentei rememorar o que já existiu e o que existe, ao invés de focar no que talvez nunca aconteça propriamente dito. Alimentar minha esperança de qualquer coisa é a pior coisa que alguém pode fazer, pois a minha mente é persistente e fantasiosa. A tendência é a de que ela concretize as coisas. Mas não quero mais isso. Quero poder só me dar ao luxo de observar o que ocorre e simplesmente deixar ser. Não agir sobre nada. Deixar estar e ser. Nada fazer. “O menor movimento é nefasto”.

Mas eu me lembro dessa frase, às vezes. Em dias vazios. Quando observo a chuva lá fora, a partir da minha sala. Quando sinto um frio inexplicável. Essa frase se esconde, nas curvas de palavras que jamais direi.

A esperança é uma merda e é fonte de grande parte de seu sofrimento hoje e sempre. É isso mesmo o que você leu. Chega mais menino, chega mais menina, que eu vou tentar explicar:

Contam os mitos que, há muito tempo, os deuses estavam putos da vida com a humanidade. Prometeu havia roubado o fogo dos deuses, entregando-o aos macacos pelados. Desde então, a humanidade passou a ser vista como ameaça. Estes deuses, loucos da vida e soltando raios pelas ventas, entregaram a Epimeteu uma caixa como presente de casamento.

Prometeu havia advertido ao irmão: “não abra jamais um presente dos deuses”. Pandora, contudo, abriu a porra da caixa. E, de dentro dela, saíram todas as pragas do mundo: peste, miséria, fome, angústia, eduardo cunha, tristeza, inveja, ciúmes.

A única coisa que ficou dentro da caixa foi a esperança.

Alguns interpretam isso de uma maneira positiva: após a desgraça, sempre resta a esperança. Insisto – e não sou o único – que tal interpretação é ingênua. A esperança é, ela mesma, a última desgraça da caixa de Pandora. É a raspa do tacho da vitamina de misérias que os deuses deram para tentar impedir a potência da humanidade.

Eu sei, bem sei o quanto isso soa contraintuitivo. “Esperança” é palavra usada e abusada em palestras ruins de autoajuda. Quase todos os ditados do senso comum falam da importância de “ter esperança”. Quero tentar convencer vocês do contrário. “Ter esperança” é, em geral, sucumbir à impotência. É sempre melhor ter outra coisa do que esperança. E, observe bem: quando não der pra ter outra coisa e só lhe restar a esperança, meu amigo, eu não queria estar em seu lugar.

Não confunda esperança com desejo. O desejo pode ter um combustível volitivo que impele à ação. Se eu desejo a pessoa amada, vou na sua direção, tento conquistá-la. Se eu desejo ter melhor saúde, posso cultivar bons hábitos. Se eu desejo que meu país melhore, posso tomar atitudes – mesmo que pequenas – para tentar atingir meu objetivo.

A esperança é uma espécie de desejo, mas não é, ela mesma, o desejo em si. É como uma subcategoria: é também um desejo, porém impotente. Quer ver?

Esperança é um querer impotente. Você a sente quando seu querer de nada adianta. Exemplo: a pessoa amada está doente e fará uma cirurgia. Você não é médico e nada pode fazer durante a cirurgia além de esperar que tudo corra bem.

Esperança é ignorância. Você a sente quando não tem a menor ideia do resultado de algo futuro, presente ou passado. Exemplo: você descobre que tem um tumor. Não sabe se é maligno ou benigno. Até sair o resultado da biópsia, o que lhe resta? Ter esperança.

Ou seja: a esperança é um desejo broxa. E, veja bem, não é que seja possível viver sem ela. Não tem como não senti-la, em algum momento ela é tudo o que nos resta. Mas percebe que, quando tudo o que podemos fazer é sentir esperança, é porque estamos mais impotentes e ignorantes do que nunca?

Só que, se ela é inevitável, não a cultive como virtude. Ela não é. Esperança, só quando não tiver jeito. Enquanto tiver jeito, não fique esperando. Note que até no cristianismo, religião que exalta as três virtudes teologais como sendo fé, esperança e caridade [amor charitas ou agape], até no cristianismo a esperança [e a fé] são virtudes meia-boca que não fazem o menor sentido no Paraíso. Quem diz isso não sou eu, é a Bíblia na Carta aos Coríntios: a fé e a esperança passarão, porque são virtudes de peregrino, mas a caridade não passará. Porque no Paraíso não há a menor necessidade de se ter fé [já que tudo se revela], muito menos de ter esperança [pois já se está no Reino]. O amor, contudo, se desvela em quaisquer mundos.

Muita gente hoje sofre porque tinha a esperança de não haver impeachment. O sofrimento é tão intenso quanto mais intensa era a esperança. Muita gente hoje se regozija porque tem a esperança de que os problemas do país se acabarão graças ao impeachment. O sofrimento futuro será tão intenso quanto mais intensa é a esperança atual. Em qualquer banda do espectro político em que nos encontremos, por mais diferentes que sejamos, somos todos escravos da Caixa de Pandora e submissos à escravidão da esperança.

Não precisamos ser. Eu já vi pessoas queridas morrerem de doenças incuráveis. Algumas delas se mantiveram acorrentadas pela esperança até o fim, esperando por um milagre que nunca veio. Poderiam ter feito muitas coisas até a hora final. Ficaram em casa, esperando. De certa forma, elas são como nós: todos nós temos a doença incurável da vida e vamos morrer. Alguns, contudo, ficam parados, não fazem nada. Esperam. Vivem atados ao desejo impotente.

O que eu posso desejar a todos os que hoje sofrem, além de vida? Chega mais, menino, chega mais, menina, vou lhe pedir uma coisa:

Viva desesperadamente.

 

(Alexey Dodsworth, 31/08/2016, em seu facebook.)

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Você nasce sem pedir. Teus pais tentam o melhor, mas eles também ainda não conseguiram saber quem eles realmente são. Então começa a jornada do herói. A ferida, o passado, as inúmeras tentativas, os fracassos, a solidão. Nem todo herói será um vencedor. O que é ser um vencedor?

Ser vencedor para o mundo é ter dinheiro. Não importa os meios, mas sim o dinheiro. O dinheiro compra tudo, amigos, principalmente. Arrume um emprego, mude de vida, seja forte, pense positivo, levante cedo, trabalhe duro, mas no final do dia você nem consegue pagar as próprias contas.

Ser vencedor para o mundo é ter status. Não importa se você é um estuprador, se você é um corrupto, se você usa várias máscaras durante o dia. As pessoas vão te amar sem dúvida alguma. Ninguém vai te questionar absolutamente nada.

Você vai envelhecer vendo seus amigos ficando loucos, miseráveis, doentes. Tenha certeza que é tristeza. Não somos iguais, mas somos incapazes de aceitar os diferentes. Como você muda o que não funciona em você? Faça terapia, yoga, compre uma bicicleta, pare de fumar, pare de beber, pare de se drogar, faça um concurso, mude de vida.

Quem quer consegue, se você tem força de vontade, você transforma, o amor transforma, perdoe, aceite, não questione, tudo passa. Pergunte para quem vive com depressão, se passa. Pergunte para quem está prestes a se matar, se a dor passa. Como faz pra dor parar?

Aceite a derrota, você nasceu sem pedir e agora você sabe, você não se encaixa em lugar nenhum. É a hora da virada. Todos pagam suas contas, todos aceitam pagar os impostos sobre o alimento que nem é mais saudável. Morra, o Estado diz. Você aceita. Não se rebele que as coisas pioram. Por que você tem que ser assim, diferente? Todos aceitam, você não vê?

Agora você é um estorvo para seus amigos e sua família. Agora tudo é uma questão de tempo porque você vai morrer. Só os outros não sabem que eles também vão morrer. Os filmes têm finais felizes. Prefiro aqueles que não têm, tem mais a ver com a vida real. A vida real que eu vejo pixada nos muros das cidades, a vida real que dorme todos os dias sobre o papelão debaixo do viaduto, a vida real de quem não viu outra saída a não ser se drogar e fingir. A gente finge que tudo um dia vai passar.

Se você rezasse, se você trabalhasse mais, se você reclamasse menos, se você tivesse feito o concurso, se você não questionasse tanto, se você não fosse pobre, essa é a verdade. Mas eu conheço muita gente rica que não é feliz. O dinheiro compra carro, faculdade, casa no bairro bacana, compra viagem pra Europa, compra tudo, só não compra a felicidade.

Você descobre que um dia não é igual ao outro. Que não há nada que possa ser feito para a dor, a solidão ou a ansiedade passarem. Então você espera só que esses dias acabem e que um novo possa começar tão logo seja possível.

A verdade é que a dor chega para todos, de um jeito ou de outro, não importa o que você faça ou como viva. Mulheres serão espancadas, crianças estupradas, cidades bombardeadas, latrocínios, atropelamentos enquanto somos todos usados como peças numa engrenagem que visa apenas exercer mais opressão, novas guerras, mais miséria e preconceitos.

Enquanto isso você paga as contas. Enquanto isso você toma vários litros de cerveja. Enquanto isso você cheira mais uma carreira. Enquanto isso você torce pro seu time favorito. Enquanto isso você compra afeto com dinheiro. Enquanto isso você faz de conta que nada acontece ao seu redor. Enquanto isso você acredita que nada dessa desgraça tem a ver com você.

Afinal de contas, você é melhor do que eu ou os outros. No fim das contas, não existe explicação para nada disso. A única coisa que te resta é aceitar as coisas como são, que os dias ruins não vão durar para sempre (ou vão) e que chorar por dois dias seguidos faz parte dessa coisa maravilhosa que as pessoas dizem que é estar vivo.

Num belo dia você compreende que o segredo é a mentira. Tudo depende do quanto você se engana e do tipo de enganação que você conta pra si próprio. A vida é bela. A vida é uma merda. Só existe dois caminhos. A jornada continuará solitária. A dor ainda não vai passar. Mas no momento em que você se dá conta do quanto as pessoas são capazes de mentir e da densidade de hipocrisia que cada um é capaz de arrastar por toda uma vida, a sua desgraça até fica mais suportável.

– Brindemos!

(Cristina Livramento)

 

 

Um amigo, para mim: “Quando eu vi aquilo tudo pela primeira vez eu pensei, ‘Puta merda, o que é isso? Nunca vi isso… É barulhento, é confuso…. É sujo. O que que está acontecendo? Preciso que isso esteja na minha vida pelo máximo de tempo possível.’

“Traz de volta o que tiraram de você. O que é seu, é seu por direito. E ninguém tira. Traga de volta. Vá buscar. Retorne. E brilhe.”

Chegamos tarde em casa aquele dia. Eu estava cansada e não sabia o que fazer primeiro. Se botava roupas pra lavar, conferia o e-mail ou via se tinha água no filtro. Já tinham se passado oito anos. Ele perguntou que tipo de filme eu gostaria de assistir hoje. Não sabia ao certo o que escolher e aí me foram dadas opções: um filme sobre o bloody sunday que ocorreu na Irlanda e outro sobre a vida pessoal do Stephen Hawking. Escolhi o filme mais bad vibe, o bloody sunday. Não sei bem porque. Fui tomar banho, estava tão cansada. Durante o banho pensei na minha conta negativada, nos meus cartões bloqueados e em como iria resolver aquilo tudo. Na correria que tinha sido aquele dia, por motivo de uma conta. Infernal. Cotidiano. Lembrei também de quando eu cuidava as plantas na janela e ele chegou por trás de mim, apertando a minha bunda, cheirando o meu cabelo e dizendo ‘senti sua falta’. Pensei também em cortar o cabelo, curto. Gosto do meu cabelo comprido, mas ele me dá tanto trabalho. Só de pensar que teria de sair do banho e secá-lo já me dava certa preguiça. Às vezes o deixava molhado mesmo, o que também não era bom. Saí do banho, me sequei e enrolei na toalha e fui até o quarto, onde ele estava do lado dele na cama, vendo qualquer coisa no laptop. Ele fala. Muito. O tempo todo. Eu sou quieta, mas falo. Respondo sempre. Sentei no pé da cama, na frente dele, meio desgrenhada, de toalha e comecei a tortuosa tarefa de secar os cabelos. Em frente de mim tinha um espelho, onde eu podia ver o progresso dos meus cabelos secando. Estava pensando que ia dormir no meio do filme. Já estava com um certo sono. Como meu cabelo tá caindo, meu deus. Como estou horrorosa. Minha pele anda meio seca. O tempo é um tanto cruel. Mas até que meu cabelo é brilhoso. Preciso ir num dermatologista ver essa queda. Pelo menos ele seca rápido. Acho que vou deixar de ir no salão que tenho ido e usar menos química. Meu cabelo tá cheiroso. Como é bom sentir ele secando e ficando bonito ao longo do tempo. Estou tão cansada. Será que o filme já baixou? Olho para trás para perguntar e sou surpreendida, sorrio cabisbaixa e meio atônita. Ele está olhando para mim, com o olhar semicerrado e a boca levemente entreaberta, enquanto se toca muito lentamente. O laptop tinha sido deixado de lado, não sei bem há quanto tempo. Meu cabelo ainda estava meio molhado. Me desconcentrei um pouco, mas como ele não falou nada – ou se falou, não me lembro – voltei a secá-lo. Não me dei conta na hora, mas não me lembrava de ter me sentido e ter visto algo tão sexy já há algum tempo. Aquilo foi pra mim como se nada do que eu pensasse sobre mim mesma importasse muito, no final das contas. E não foi proposital, mesmo porque costumo fracassar em todas as vezes que me empenho muito em seduzir. Foi espontâneo, meio passional. E gosto dessas coisas. E também outras coisas muito específicas e cheias de significado aconteceram no contexto daquele dia. Terminei de secar meus cabelos e engatinhei até ele, para enchê-lo de beijos. Para ser, por um momento, dele. E para estar com ele. Sentia que todos os beijos que eu dessem não seriam suficientes. Hoje. Sempre. Qualquer dia desses. (Meu amado. Meu amante. Meu amigo.)

Vou imprimir dois e-mails que foram divisores de águas na minha vida.

Enquadrá-los.

E colocá-los na minha sala de estar, para exposição de quem frequentar a minha casa.

O pior e o melhor de mim.

Não quero precisar dar explicações.

(É impressionante como faço tudo errado).

É melhor assim.

 

“Eternidades não me bastam. Intenso é poder passar. Perder a deus, encontrar o amor. Perder o amor, desfrutar do prazer. No instante em que a noite saiu pela porta que ninguém entrou, subitamente o sol subiu pra cabeça. Pelo caminho que fizera a dor. O incenso queimou teu corpo. O teu perfume sangrou de mim. A juventude matou nossa fé. O sincronismo do encontro acabou. A flor que a semente explodiu virou a mão que enforcou nossa luz. Só que no vício da vez, não deu tempo nem de viciar. Bebadamente o sim perdeu para o fim, numa partida em que a alma não foi. O pecado perdeu a graça. Da cinza não ressuscitou ninguém. O sacrilégio beijou nossos pés, e a promessa ferida fechou. Mas a flor que o perdão pereceu, virou floresta que escondeu o clamor. E nasceu, para a morte do amor.”

(C. C.)

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