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Viagens

Vi ontem no MASP, ao vivo. Bem mais impressionante do que ver pelo computador, de fato. A pintura da mulher ficou tão perfeita que ela tem até celulite e veias azuladas. Gostei do pano de seda azul. A pintura é tão rica, cheia de detalhes e tão enigmática… E aqui ela parece tão tosca e meio sem graça. Anotei rapidinho o nome José Vital Branco Malhoa e depois procurei outras coisas. Mas algo me diz que nada do que encontrar dele pelo computador vai me impressionar tanto como se fosse ao vivo.

Caminhadas na praia em tempo frio e dias nublados. Aproveitar o que resta, pois os dias estão contados. Ser útil para pessoas que precisam de mim (mais do que nunca). Cuidar. Mais ainda, cuidar-se. Um terreno a ser sentido, um pedido a ser ouvido (pesquisar respiração, tom de voz, modos, formas, abordagens). É difícil. Será difícil. Conversas truncadas, mas persistentes. Tentativas, possíveis frustrações, mas ainda assim apaziguamento. Uma encomenda a ser enviada. Agulhas e linhas. Uma encomenda verde, preta e branca. Outra encomenda verde. Esquecer o futuro, esquecer tudo o que está por vir. Não pensar no “vir a ser”. Despreocupar-se em um nível mais profundo. Não fazer planejamentos, nem arquitetar nada, apenas viver um dia após o outro, com muito vagar, sem expectativas. Explorar mais mapas. Conhecer lugares do mundo que ainda não sei que existem (é um modo singelo de preparar-me para conhecê-los). Ficar com Hesse, Luis Borges e Eco. Inevitavelmente, ler alguma coisa sobre terminologia. Ter doses homeopáticas de você. Filmes, só se tiver paciência. Provável cirurgia. Diários mantidos. Chás. Quietude. Esquecimento.  Silêncio. Solidão.

Como reconhecer o que é a nossa casa? Existe duração de exílio ou isso é simplesmente uma condição? Parece ser uma tradição sentir-mo-nos estrangeiros em nossa própria casa e a busca, óbvia, é sempre por espaços que nem mesmo precisam ser nossos, mas que ao menos sejam acolhedores. É tentador acreditar que acolhimento é ilusão, também e acho que isso faz mais parte de um processo pessoal e individual de construção de amargura do que qualquer outra coisa. Nunca foi difícil me sentir estrangeira, e este parece ser o meu lugar comum. Gosto do confronto com o estranho pois isso me faz ver o quanto a vida é grande e o quanto sou pequena, ínfima. Ver rostos diferentes, falando expressões das quais nunca ouvi falar, não é difícil encontrar isso, basta querer procurar. O que me atrapalha é a dificuldade em conciliar, esquecer horários, perceber que existem outras prioridades, frustrar-se. Por mais estranho que isso soe vindo de mim, é mais difícil conciliar coisas práticas: infelizmente não posso estar em dois lugares ao mesmo tempo. Quanto a adaptar-se a outros modos de vida é mais simples, pois isso é simplesmente uma necessidade para quem quer saber mais.

Em algum momento houve uma conversa sobre crenças, sobre a diferença entre afirmar algo e crer em algo. A sala está pegando fogo, como sendo diferente de ‘creio que a sala está pegando fogo’. E isso de fato acabou ocorrendo mais tarde: no meio de uma palestra sobre o conceito de “deus” nas palavras dos diários secretos do autor (se tinha ou não a ver com o cristianismo e o deus cristão ou não), aconteceu um curto-circuito no interruptor de luz da sala que começou a pegar fogo. Pois sim: deus, interpretações, curto-circuito, fogo. Sim, bastante simbólico. Deus é um cara bem engraçadinho e que adora (me) pregar peças. E enquanto a sala quase começava a entrar em chamas, aquelas pessoas pensavam no que fazer até se darem conta de que aquele fogo possivelmente poderia se alastrar. “Está pegando fogo?”, “Acredito que sim”, “Não irá se alastrar”, “Vamos jogar água!”, “NÃO!”, alguém gritou e alguém mais razoável perguntou “Cadê o extintor de incêndio?” até que algum outro ousou descobrir como um extintor de incêndio funcionava e utilizou-o finalmente. Foi tragicômico. A dificuldade com o que é prático é evidente.

Entre barulhos de reformas estruturais do prédio foram feitos diferentes tipos de leituras e interpretações de diferentes obras do mesmo autor. Achei muito interessante. Essas pessoas se concentram muito em leituras (mais do que já vi em qualquer outro lugar) e usam expressões por vezes estrangeiras, por vezes muito específicas que um leigo só entende se souber a referência. É uma linguagem que precisa se fazer complexa, como o alemão onde existe uma só palavra para designar “raio de sol entrando pela fresta da janela”, é o complicar para simplificar, especificar para estabelecer. As ferramentas são utilizadas para analisar e investigar qualquer fato da vida, o que parece muito amplo se não fosse a dependência de contexto. Essas pessoas só existem (funcionam?) a partir de exemplos, mas algum dia tentarei entender melhor porque isso ocorre (ou ainda, porque isso não poderia ocorrer de outro modo). Queria uma aproximação maior, mas talvez isso ocorra lentamente ao longo dos anos: os caminhos que surgirem vão me mostrar para onde ir. Não quero mais viver no tempo, quero viver no agora. Guardo em algum lugar uma frase que ouvi ainda hoje: “a solução deve ser a dissolução”.

A felicidade é para os estúpidos. (essa é minha mesmo)

Ousar ser uma pessoa razoável já deveria ser desgastante o suficiente.

Quinta-feira agora estarei viajando pra Campo Grande, novamente. Não digo isso com ânimo, mas com um certo tédio/indiferença mesmo. Mas dessa vez o motivo que me leva pra lá são algumas pedras que tenho na vesícula. Vou tirar a vesícula dia 31 pela manhã. Vou passar alguns dias lá e vejo se faço algumas coisas importantes nesse meio tempo, como rever meus padrinhos, rever uma ou duas pessoas com quem (ainda) me identifico, ir na feira, ir no China In Box (velha história). Cada vez menos eu culpo a cidade pelas coisas que me aconteceram… E isso é bom, acho. Não sei. A essa altura da minha vida isso não me importa mais. Mesmo. Não moro mais lá e não pretendo voltar.

Mas ainda assim, não me animo muito em ir pra lá não. Na verdade, não me animo nada. A perspectiva de rever algumas pessoas não me agrada muito. Por isso digo que não sei se vou querer sair, nem ir pra festa/bar/whatever nenhum. Quero cada vez menos festa e cada vez menos agitação. Chega. Não estou mais com saco, nem com idade pra isso.  Estou com preguiça das pessoas, de quase todas elas. Só se for algo muito divertido, sei lá.. O que acho difícil. Não estou mais bebendo.. Aliás, nem vou poder beber de qualquer forma, pois vou estar operada mesmo…  Mas enfim, preguiça de tudo, das pessoas, da maioria dos lugares, etc.

Além da extração da vesícula, vou ver também se consigo nesse período o sobrenome do meu pai. Aproveito a estadia e já renovo todos os documentos que eu tiver em mãos, etc. Acho que vai ser uma semana muito prática, apesar de eu ter que ficar “meio que” de repouso por causa dos 3 furos na barriga. Enfim… Vamos ver o que eu consigo resolver.

I. Irascível

A noite vi o beijo. Em novembro do ano passado era o nosso e agora mesmo já era aquele. Não lembro do que senti na hora. Lembro apenas que reconheci aquele momento. Não soube definir o que era aquilo. Acho que nunca saberei. Não sei se foi ciúme ou inveja. Talvez não tenha sido nada disso mesmo. Virei o rosto e segui andando. Ele sabia onde eu estava, sabia quem eu era e só veio me dar um beijo no rosto depois de uma lata de cerveja e meia. Fiquei constrangida, mas não muito. Sou observadora demais pro meu próprio gosto, às vezes.

Alguns dias depois, numa festa, assim que me viu, me abraçou apertado, colou aquele rosto com barba por fazer no meu e sussurrou “coisa gostosa” no meu ouvido. Eu ri. Ri alto. “Pode voltar pra sua namoradinha agora” pensei, mas não disse, óbvio. Essa frase, na verdade essa situação me encheu de um tesão irascível. E eu não fiz absolutamente nada, como sempre. Maldade gratuita não é o meu forte. Eu estava sóbria. E dançava. Eu só queria dançar. Na verdade, é tudo o que sempre quero. Faço jus ao meu nome.

II. Dos erros

Tenho uma convicção muito imbecil acerca das coisas. O perigo habita exatamente no lugar onde não digo não nem sim. Nessas horas não consigo dizer nada e ofereço apenas um olhar suntuoso pra quem estiver na minha frente, olhando pra minha cara. Queria me lamber. Eu disse que não. O primeiro erro foi pedir. O segundo, insistir. E quando lhe digo “não me tente, garoto” é por que você perdeu.

III. Do dançar

Me olham quando eu danço.

Danço.

Por que me olham?

Seria a música, as luzes o ritmo cadenciado? Seria eu mesma por trás de toda essa máscara noturna? Talvez não. Acho e penso que não. Tenho certeza absoluta que não.

Por que páram de me olhar quando não danço?

Movimento, curvas, sinuosidade. As pessoas se alimentam disso.

Também sei dançar inerte, sabiam?

Continuem me ignorando.

Continuarei dançando.

IV. Do isolamento

Enxergo as pessoas mas não as vejo. Enxergo por outros meios, nada ortodoxos, nada convencionais. Analiso. Muita gente, poucas pessoas sempre. Gosto de pessoas. De algumas. Não tanto quanto gostaria e bem menos do que deveria. Até simpatizo com algumas. Num amontoado de gente numa festa, ao mesmo tempo em que danço, me distancio e observo a todos. Dançar é socializar-se, mas na verdade, eu me isolo. E observo mais e melhor enquanto me movimento.

V. Da sociabilidade

Você já deu um “oi” sem querer ou talvez por engano alguma vez na vida? Eu já. É e não é agradável ao mesmo tempo (Fato: sou uma negação até quando não estou tentando ser sociável).

VI. Ela

Era pra ser um encontro marcado, com horário e local exatos. Mas foi um encontro espontâneo, no sentido mais certo que essa palavra pode ter. O cabelo dela tinha crescido e estava diferente. Eu estava tímida. Ganhamos as ruas, o metrô, a bagunça do comércio do centro. Ela tinha prometido uma surpresa, me levar num lugar em que eu iria gostar. Entramos em alguma ruazinha pra logo em seguida entrar no Real Gabinete Português de Leitura. Eu ouvi aquele ruído silencioso, um silêncio sinistro comparado a desordem sonora da rua.

Logo depois, um doce, um brownie quente com sorvete de creme. E um capuccino, no Bistrô do Paço. Foi a conversa mais longa e saudosa. Senti saudade de me sentir daquela forma: confortável, aconchegante. Senti carinho, grande, imensurável. Não soube explicar por que me faltou ar e meu coração bateu mais rápido quando lhe dei um beijo no rosto, agradecendo por um presente. Se eu fosse branca, certamente coraria. Tenho uma certa dificuldade em demonstrar afetuosidade, mas sempre faço do meu jeito, embora às vezes me ache um pouco desajeitada. Uma pena eu não ter dito o quanto eu sentia a falta dela. Mas de qualquer forma, acho que ela sentiu isso de um modo ou de outro.

VII. Aquele abraço

Sempre tenho a impressão de que o nosso abraço poderia ser mais longo. Nunca sei o tempo exato de “desabraçá-lo” pra então poder dizer ‘oi, como vai?’. Acho que o abraço poderia dizer várias coisas por mim, como “estou com saudades, que bom te ver de novo”. Por mim, nosso abraço duraria uma eternidade. Eu deveria ter vergonha de afirmar isso pra mim mesma, mas curiosamente não tenho. Não tenho por que não carrego culpa de nada e nem me sinto errada. Me sinto pequena dentro daquele abraço, mesmo que ele seja breve demais pra mim. Me sinto cuidada quando atravessamos a rua. Me sinto cuidada com vários olhares dele. Os olhos, os olhares entregam as pessoas. E o olhar dele nunca foi de malícia e nunca foi atuado. É um olhar de carinho e preocupação e eu entendo isso. Me sinto querida e bem vinda, todas as vezes.

VIII. Da emoção reprimida

Fazia alguns meses que não nos falávamos. E então ele me entregou meu presente de aniversário e, claro, fiquei constrangida como sempre fico quando recebo presentes, elogios, etc. Não por que ache que eu não mereça, mas.. Enfim, a situação toda agravou ainda mais esse meu jeito desajeitado de ser. Quando vi o que era meu presente, meu rosto se iluminou e eu me emocionei. Me emocionei, mas como percebi que ele ficou visivelmente constrangido, tratei logo de disfarçar a emoção com frieza.

Engoli o choro e devo ter dito algo como “Poxa, muito obrigada mesmo”, mas que não me pareceu como um agradecimento genuíno nem em mil anos luz.. Me senti falsa por que me contive. Fiquei triste por dentro, mas foi melhor assim.  Talvez até tenha sido melhor não perder a compostura. Nunca tinha feito isso,  nunca tinha me privado de me emocionar e confesso que  achei bastante difícil. Difícil, mas não doloroso. É só recuperar o fôlego e continuar. E no fim da noite, um pedido de desculpas quando, aparentemente, não fiz nada de errado. Carregava uma culpa que nem eu mesma sabia qual era. Só sabia que era pesada.

E pedir desculpas não me aliviou e nem me fez sentir melhor, só mais idiota. Mas ainda: foi melhor assim. Às vezes a minha imbecilidade e fragilidade com as coisas que acontecem é tanta que eu nem consigo acreditar que sou eu. Acho que “perdi a mão”, o jogo de cintura. Sei lá, quero pensar nisso não.

IX. Perguntas que não calam

Por que demonstrar afeto por alguém é tão simples mas tão difícil? Existem formas bem claras de se demonstrar afeto: dinheiro, presentes, carinho, abraços, beijos, sexo. Mas quanto as formas não tão objetivas de se demonstrar afeto? Um olhar, um sorriso, algumas palavras ou ainda, presentes que contenham palavras. Ou sentimentos muito bons que não conseguimos explicar, nem ver, apenas sentir. Não sei. Prefiro os afetos que parecem que não estão ali. Eles duram mais e por mais tempo.

O que faz com que as pessoas se apaixonem pela gente? Como a paixão acontece na nossa cabeça?

Não sei explicar, só sei que, ao que tudo indica, é essencialmente espontâneo. Não nos forçamos a nos apaixonar por ninguém, nem podemos forçar ninguém a se apaixonar pela gente, pois aí já não é algo legítimo, mas forjado. Minha experiência pessoal diz que nada que é induzido nesse sentido pode ser muito bom. Situações fabricadas serão, sempre, situações fabricadas. E não há nada que mude isso.

Por que algumas pessoas tem a necessidade de manterem-se apaixonadas pra sentirem-se vivas?

Não sei. Esse nunca foi o meu caso. E nunca será.

X. Do cuidado

Sou péssima com presentes pros outros. Apesar de ser boa observadora, se sou privada do convívio a coisa se torna um tanto quanto mais difícil. Ainda assim me senti que deveria retribuir a delicadeza, sem contar que em alguns dias seria o aniversário dela. Lembrei-me que no dia do meu aniversário este ano ela me enviou um e-mail carinhoso, com uma fotografia linda de orquídeas. Então nem fui muito criativa.

Andar nas ruas com aquela planta foi um privilégio pra mim, e cuidei dela por alguns instantes. A protegia com as mãos quando um vento forte aparecia e segurava melhor o caule pra que não se partisse. As pessoas me olhavam, cada um de modo diferente. Não é muito comum encontrar uma pessoa com uma orquídea grande dentro do metrô. No caminho, quatro pessoas sorriram pra mim, afetuosamente.

Percebi nos olhares delas que se perguntavam “será que ela ganhou ou está levando de presente?”. Eu só as observava quieta, olhando por cima das orquídeas brancas. Acho que o meu presente agradou. Espero que sim, pois o entreguei com um carinho muito especial. E então, conversamos. Falei sobre algumas angústias e pedi conselhos. Não exigi nada, simplesmente compartilhei algumas coisas minhas. Senti então muito cuidado nas palavras dela, instigando minha proteção. Um cuidado que senti verdadeiro, genuíno.

E de fato depois da conversa a angústia passou e comecei a entender algumas coisas por uma outra perspectiva. E melhorei muito. Ao me abrir e confiar, só tive a ganhar. Soube como agir melhor, pra me proteger.

XI. Da proximidade acidental

O destino é muito irônico, ri com dentes podres na nossa cara.

Antes do último dia, adoeci. Com direito a baixar hospital, correr pra emergência e tomar qualquer coisa intravenal que fizesse aquela dor parar. Foi horrível. Foi um fiasco.

Foi 2006 redivivo, só que desta vez a vítima fui eu.

Apesar da situação ruim, houve a preocupação e aí sim o cuidado se tornou mais do que evidente. Foi uma proximidade acidental, mas que me agradou muitíssimo. Olhei pra ela e disse “você é a próxima vítima, pode acreditar”. E depois conversando com ele pensamos em várias coisas que poderiam ter causado aquela dor estomacal: tensão, ou sei lá, somatizei algo. “Qualquer coisa é gatilho quando há predisposição” ele me disse. Talvez. Não me preocupo em pensar muito nisso não. Só sei que aconteceu e sei que isso que vou dizer vai soar horrível mas “foi bom passar mal”.

XII. Da memória

Fiquei em Botafogo a maior parte do tempo, gostei de lá, mas andei pouco. Conheci uma parte da Urca que me marcou muito, Praia Vermelha, chinelo, vestido branco e colar de contas. No fim, tudo teve que ser resolvido às pressas, tive de sair correndo com malas, prazos, horários, pra então sair de novo, ir, vir e encontrar-se novamente. Acho que desde janeiro eu queria conhecer o Parque Lage. Acho que era fim de tarde. Chá de maracujá e maçã. Eu vi a piscina, lugar com o qual já tinha sonhado algumas vezes, mesmo sem nunca ter estado lá.

Fazia muito tempo que eu não andava pelo mato. Achei bonito aquela mistura de pedras, ruína e floresta. Gostaria que meus olhos fossem capazes de tirar fotos. Estava um tempo agradável. Nossos nomes foram escritos numa parede. E depois de andar mais um pouco, apareceu uma piscina natural, com carpas imensas. Tinha uma cachoeira também… Tudo parecia um sonho, mesmo. Lembrar disso agora me faz sentir esquisita, não sei o que acontece.. Um frio na barriga estranho. Acho que é por que ainda está muito recente na memória.

E depois, um mirante, onde era possível ver a lagoa Rodrigo de Freitas, parte de Ipanema e Leblon, se não me engano. Prometi pra mim mesma que guardaria aquele momento pra sempre na minha memória.. Mas sempre que prometo eventualmente esqueço. Promessas não são nada espontâneas. Lembranças são.

mirante-full

XIII. Do fim?

Um dos post mais acessados deste blog tem o título “Como esquecer alguém?”. Escrevi e não me arrependo, mas hoje sei que é bobagem. Hoje sei que não é possível esquecer ninguém, por mais que se tente. Na verdade é  o maior dos paradoxos: a gente sempre se lembra de esquecer. É uma ferida, um recalque que se torna aparentemente incurável. E é ridículo, não condiz mais com quem eu sou hoje em dia.

E a gente sente essa vontade de esquecer por ‘n’ motivos, geralmente relacionados a desentendimentos, brigas ou simplesmente por que o que havia acabou. Os motivos vão desde algo besta como ‘não gostei do que você disse/fez/insinuou’, algo mediano como hostilidade gratuita advinda de TPM até coisas “graves” como traição, etc (apesar de eu não acreditar em traição, mas aí é outro post).

A diferença é que, quando eu era mais nova, o custo de se adaptar às situações e às pessoas pra mim era muito alto, eu não conseguia, não tinha como. Eu era inflexível e de certa forma me orgulhava disso. Hoje em dia é diferente, penso em viver com leveza e pago caro por isso, mas pago com gosto. Às vezes esforçar-se pra esquecer não vale a pena, pois é um esforço em vão.. Ainda mais quando o motivo não é dos mais fortes. É tudo uma questão de saber se comportar.

A verdade é que as pessoas – de modo geral – farão o que puderem pra te machucar, às vezes conscientemente, às vezes não. Às vezes por sadismo, às vezes por defesa. É preciso saber reconhecer e fazer escolhas, entre continuar ou parar. E às vezes eu me machuco por pouco, por muito pouco e reconheço isso. E percebo que o motivo pelo qual me machuco é tão bobo, tão infantil, tão… pequeno, pobre.. Que realmente seria muito imaturo da minha parte manter isso em tão alta conta.

Me preocupar com pobreza e com pequenez de algumas coisas não combina com a minha personalidade generosa. Sou generosa e expansiva sim, e também cobro pouco, mas não deve se confundir esse meu comportamento com  um deslumbre sentimental, como se todas as pessoas devessem me amar  o tempo todo  (e provar que me amam o tempo todo também) ou se apaixonarem por mim indistintamente.

Isso não existe. Nem comigo, nem com ninguém.

Todo mundo é detestável em alguns aspectos. E só não se enxerga o que é  realmente detestável em alguém quando não se vai além do que é superficial e material.. O que é muito comum hoje em dia. Faz algum tempo que cansei de pessoas que se utilizam de afetos vulgares..

E então, saio de determinadas cenas.

E assim permaneço em outras. Pra sempre.

09/04/2009

Saí de casa e cheguei no aeroporto a tempo, fiz check-in e, ainda assim, quase perdi a hora de embarque por bobeira. Fazia quase 2 anos que eu não ia a Campo Grande/MS. E eu não queria ir dessa vez também. Ok, não que eu não quisesse ir… Mas definitivamente não estava muito animada em quebrar a minha rotina diária. É a tal da coisa, vou ter que socializar com algumas pessoas, ir em alguns lugares, enfim.. Meio exaustivo. Mas enfim…

Assim que cheguei na cidade recebi um sms da última pessoa que esperava receber qualquer coisa. Não lembro o que fiz a tarde. De noite combinamos de nos encontrarmos e irmos no posto do Parque dos Poderes. Tocaria uma banda que eu já conhecia e talvez alguns outros amigos também fossem. Ele quis me ver e demorei pra me tocar que faziam 7 anos que a gente não se via. Tivemos uma briga há uns mil anos atrás, eu até lembro bem o que era, mas finjo que não.. A verdade é que foi por um motivo idiota e a briga foi de criança.

Não sei se meus olhos brilharam como os dele, quando eu o vi de novo, mas foi bastante emocionante. O abracei sem ansiedade, nem nervosismo, mas foi um abraço demorado. Foi estranho… Ainda não conseguia acreditar muito na consideração que ele tinha por mim. Não tinha muitas, nem grandes expectativas em relação a ele ter mudado ou não. Pessoas próximas que eu conhecia me diziam que ele estava diferente, que tinha mudado. E eu, mesmo sem mais mágoa, nem ódio, estava bem cética quanto a tudo. Ele deixou a moto dele lá em casa e saímos de carro.

Não sei o que houve, mas naquela noite não conseguimos parar de conversar. Não consegui dar atenção pra mais ninguém pois parecia que eu não tinha exatamente o que conversar com ninguém mais.  Fui pro posto, mas não fui pelo posto. A conversa foi agradável. Alguns cigarros e duas heinekens muito geladas. Não quis beber mais pois quis voltar pra casa cedo, dirigindo, onde cedo foi 2h30 da manhã.

Voltamos pra minha casa e ficamos conversando um pouco mais, no portão. Aquelas conversas intermináveis sobre planos, futuros, desejos e vontades. Só coisas boas. E a lista parecia não terminar. E foi nessa conversa que eu percebi o quanto ele havia mudado, de verdade. E meu coração se encheu de felicidade com isso. Ouvi coisas realmente muito ótimas nessa noite. A identificação me impressionou um pouco, mas tudo bem… Estamos em fases parecidas da vida, não há nada mais comum que isso. Ele me surpreendeu de modo geral e acho que isso foi recíproco. Não nos comportamos mais como a 7 anos atrás, definitivamente.

E de repente eu percebi que o tempo começou mesmo a passar rápido demais, e é aí, exatamente aí que as coisas começam a se confundir. E então ele foi embora. Um bom timing, eu diria. Não existe a necessidade de pressa pra nada.. Fazia muito, mas muito tempo que eu não dormia tão feliz sem que alguém ao menos tivesse encostado em mim.

10/04/2009

Acordei e teve um festival gastronômico na minha casa. Arroz com brócolis e bacalhau da minha mãe, bacalhau de forno do meu pai, filé de peixe a parmeggiana da minha tia e uma muqueca da minha outra tia. Exagerei mas TIVE que experimentar de tudo um pouco. Acho que não fiz nada muito pertinente na parte da tarde a não ser planejar a noite.

Diziam que ia ter AC/DC cover no BarFly e eu até estava a fim de ir, mas não estava a fim de pagar vinte reais por isso. Não sou exatamente fã de AC/DC. Ligo pra ele perguntando o que seria de hoje e programamos alguma coisa. Dou risadinhas no telefone, provavelmente algo que ele me disse,  e então ele pergunta o porquê das risadas. Digo pra que ele descubra pessoalmente. Terminamos de combinar algo X e alguns minutos depois de terminar a ligação, recebo um sms combinando algo Y. Fazia tempo que eu não me constrangia. Seria aquilo um convite?

Sugestão,  convite, ele deixou que eu decidisse.

Fato é que aquela noite eu não saí pra bar nenhum. Tudo depois aconteceu de forma muito lenta, como se o tempo estivesse deslizando. Não houve pressa, apenas calma. As conversas, as palavras, lembranças, tudo se misturava com o presente, com muito vagar. Já nos conhecíamos, não houve surpresa, nem constrangimento. Apenas a vontade de ficar junto. Ainda pensei que eu pudesse me impedir de alguma forma, mas não pude. As coisas acontecem como e quando têm que acontecer e eu ainda prefiro deixar assim.

O que aconteceu não foi causa, foi consequencia.

11/04/2009

Almocei na casa da minha madrinha. Cheguei atrasada, como sempre. As netas dela cresceram muito e claro que ela tinha feito a comida que eu mais gosto: strogonoff. Foi bom, conversamos um pouco, revi algumas pessoas mas voltei logo pra casa. Me sentia cansada. Logo mais a noite também haveria janta na minha casa com os meus padrinhos. Meus pais e meus padrinhos não se falavam a anos por causa de uma briga que tiveram em 2003. Agora, aparentemente, as coisas parecem ter se resolvido entre eles.

Não preciso nem comentar nada, preciso?

Enfim… O jantar foi ótimo, mas depois resolvi sair de novo. Ia ter Bigornada no BarFly, com Dimitri Pellz, Fotovoltaicos, Parkers e Noradrenalina. Acho que essa foi a primeira noite que saí com meus amigos mesmo. Bebi algumas cervejas e cheguei a conclusão de que preciso parar com isso (cerveja, não com álcool em geral). Me deixa muito estufada e não é agradável. Também não quero mais beber pra ficar bêbada, mas pelo prazer de beber mesmo. O bar está bem diferente, fizeram uma reforma e eu, pessoalmente, gostei do resultado. Tudo bem, tem gente que gosta das coisas podres e undergrounds mesmo, mas… Sei lá.. Não gosto mais das coisas assim não. Gosto do jeito que está, reformado.

Só assisti o show de 2 bandas: Dimitri e Noradrenalina. Essa última eu não conhecia, e é post-rock, bastante interessante. Curti muito, as letras, etc. É bacana mesmo.  Acho que tudo acabou lá pelas 5 da manhã.. Levei todo mundo em casa e devo ter voltado lá pelas 6 horas.

É…

12/04/2009

Esse dia foi relativamente parado… Domingo de páscoa, na casa da minha vó. Muita comida, revi meus primos. De tarde pensei na vida. Pensei que de noite não fosse sair nem nada, mas acabaram me chamando pra um churrasco de última hora. Eu realmente estava muito exausta e fui por consideração mesmo.. Estava muito cansada e com sono, queria descansar e fazer algumas outras coisas pra minha mãe. Mas fui nesse churrasco e acho que fiquei umas 2 ou 3 horas.. Revi alguns amigos. Foi bom até. Mas 22h eu estava em casa. E só fui dormir às 2h da manhã, pois fiquei fazendo uma pesquisa muito importante pra minha mãe.

13/04/2009

Acordei cedo, apesar de ter ido dormir tarde. Fiz tudo o que tinha que fazer e depois fui me despedir. “Vamos pular essa parte?” ele me disse olhando pra TV. Concordei com um sorriso. Achei engraçadinha a forma que ele se lamentou por não ter mais 17 anos, como se fosse um idoso. Pessoalmente, não lamento a isso.. Bem pelo contrário. Olhei no relógio e já eram 10h50, e o tempo começava a correr rápido demais. Fui buscar a minha mãe pra almoçarmos em casa. Depois do almoço, um banho, organização da mala, gravação de alguns cds pra minha mãe. Às 17h eu e ela tomamos um chá e conversamos. A argumentação da minha mãe, pro que quer que seja está cada vez mais confusa e irritante.

Ela é minha mãe e eu a amo… Mas ela também me irrita.

Papai me levou no aeroporto. Disse que ia me largar lá e me deixar pra fazer o check in sozinha e beleza, por mim tudo bem. Mas na última hora desistiu e foi lá fazer o check in pra mim. Meu pai é maluco e eu o amo por isso. Na fila do check in, eis que ele aparece pra me ver indo embora. Sinceramente não acreditava que ele viesse, mas fiquei muito feliz quando o vi. Meu pai foi embora e terminamos de esperar a hora do meu embarque.  Nos abraçamos, nos beijamos e terminou assim. Depois de todas as palavras saudosas e carinhosas, ele me disse apenas uma coisa séria, me olhando no fundo dos olhos “por favor, se valorize”. Acho que ninguém (que não fosse a minha mãe) nunca havia me pedido isso. E eu ouvi. Ouvi bem. E guardei aquilo muito bem pra mim. Vindo dele foi importante, me marcou. Senti isso como se fosse ‘já que eu não vou estar por perto pra poder te cuidar, cuide-se’.

Algumas coisas a gente só aprende depois de um tempo, mesmo.

E eu ainda tenho muito o que aprender.

Janeiro. Jurerê. Caminhadas. Black Celebration. Casarão. Mãe. Pai. Fevereiro. Cabeça raspada no zero. Liberdade. Desapego. Paz interior. Meditação. Solidão. Março. Biblioteconomia. 24. Rio de Janeiro. The Fox. Interpol. UFSC. Abril. Introdução a biblioteconomia. Restaurante Universitário. Zé. Dani. Will. CAB. Estágio. Maio. EREBD Sul. Curitiba. Derbi. William. Lilly. São Paulo. The Fox. Liberdade. Parque Ibiapuera. Parada Gay.  Junho. Provas. Anne. Daniela. Cássia. Débora. Fim de semestre. Tatuagem. Tiago. Detrito. Amnésia alcoólica. Julho. Pais. Jurerê. 12º Festival de Música Livre. Thiago. The Fox. Agosto. Tatuagem. CAB. Iniciação Científica. LGTI. Mrs. Schwarz. Thais. Setembro. Catalogação. Fontes de Informação I. Seminário de Arquivologia. Periódicos Científicos Online. Padronização. Outubro. Tatuagem. Porto Alegre. Derbi. Bell’s. Casa de Cultura Mário Quintana. Carla Castilhos. Porão do Beco. Damn Laser Vampires. Fabico. Tatuagem. Fernando. mIRC. Novembro. Erick. Nicolas. Praia Mole. Lagoa. EREBD SE/CO. São Paulo. Titi. Tip Top. Sandro. Lilly. Fernando P. Marlany. Saruana. Dinda Martha e dindo Múcio. Chuva. Sinuelo. Dezembro. Perdão. Notas. Camerata Florianópolis. Confraternização Biblio. Amigo secreto LGTI. Festa da Biblio Latitude.  São Leopoldo. Parentes. Gramado/Canela. Artigos. Pesquisa. Porto Alegre. Lilly. Fernando P. Derbi. Ano novo.

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