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TPM

Editando a primeira versão da tipologia. Esses sintomas são estritamente pessoais e nem sempre se aplicam a todas as mulheres.

Androfobia: faz tempo que esse sintoma não aparece. Acho que é devido à ausência de homens na minha vida ultimamente. De qualquer modo, já era um sintoma raro anteriormente mesmo.

Ansiedade: esse sintoma parece ser sempre permanente. É o mais comum e sempre ocorre. O difícil agora é saber diferenciar qual é a minha ansiedade de tpm e qual é a da vida. Tenho 16 diferentes sabores de ansiedade.

Choro: sintoma permanente. Continuo chorando, mesmo sem motivos pra isso. Na verdade eu sempre tenho bons motivos pra isso. Me emociono, lembro de coisas boas e ruins. Choro em público. Às vezes é controlável, mas nem sempre.

Contraditoriedade: observável de uns tempos pra cá. Ama-se e odeia-se o mesmo objeto ao mesmo tempo. Tenho vontade de comer o mundo e depois vomitar tudo de novo. Quero sair, mas quero ficar em casa: ao mesmo tempo. Quero comprar X coisa, mas não quero gastar dinheiro: mas quero agora. O que me leva a acreditar que não posso, efetivamente, concluir qualquer decisão minimamente sensata durante o período da tpm. Algo que deverá estar em observação constante nos próximos anos.

Dores: nos seios (ficam intocáveis), nas costas (na lombar especialmente), nas articulações em casos extremos. A dor também parece ficar mais incômoda só por ser neste período.

Falta de saciedade: sintoma permanente. A impressão que tenho é a de que, por mais que eu coma, jamais estarei satisfeita. A fome de doces tem sido bastante atenuada. Não sei bem o porquê disso. Deve ser porque estou envelhecendo.

Falta de apetite: falta de desejo mesmo. Questão: “como é possível ter falta de apetite e falta de saciedade ao mesmo tempo?”. Bem, a contraditoriedade por si só já explica. Não há nada específico que eu sinta vontade de comer. Isso me deprime um pouco. Mas só um pouco.

Enjôo: me sinto enjoada boa parte do tempo. Tenho observado isso de uns tempos pra cá. Sinto náuseas mesmo, de cheiros, de lugares onde estou, de muita gente ao meu redor, de calor. Sinto muita náusea e quero morrer por isso.

Irritabilidade: às vezes quero morrer, às vezes quero matar. O sintoma é permanente e ainda procede. Só tenho me sentido menos irritada pois tenho ficado mais deprimida. E deprimidos não se irritam. Tanto.

Nojo de preparar/comer carne: ainda não sei se isso procede mas vou observar com mais atenção. Me sinto mal ao ingerir carne (seja vermelha ou branca) nesse período. Só de pensar em prepará-la sinto muita ânsia de vômito. Me pego no mercado colocando apenas produtos vegetarianos no carrinho. Por que isso acontece?

Sensibilidade aguçada: principalmente a tátil. As outras não ficam tanto. A se observar.

I

Me isolo quando estou na tpm. Neste final de semana, dois dias ensolarados, eu me enclausurei totalmente. Não me sentia bem. Não me sinto bem na verdade, há alguns dias. Não quis ver ninguém. E então foi assim: dois dias inteiros ouvindo algumas músicas, mas sem ouvir o som da minha própria voz. Nunca saio com as pessoas e eu nunca dou desculpas para não sair. Sempre digo a verdade: não estou a fim. Gosto das pessoas até, mas sempre estou a fim de muita pouca coisa. Faz parte da minha flêuma. Dessa vez eu também disse a verdade: eu estou de tpm, eu não estou bem, não vai rolar. Aprender a dizer não é mesmo uma bênção, mas é preciso cuidado porque de bênção pode ir à vício muito rapidamente. “Mas talvez se você sair você melhora”. Não gosto quando insistem. Desapareço quando insistem. Isso não vai acontecer, acredite em mim. Eu não vou melhorar só pelo fato de botar os dois pés pra fora de casa. Se eu sair, vou me odiar ainda mais por fazê-lo. E ao chegar ao lugar de encontro, onde a saída acontece, vou querer voltar pra casa o tempo inteiro, o mais rápido possível. Vou ficar com uma cara horrível. Economizo as pessoas que se prestam a conviver comigo disso e principalmente me economizo disso, desse tipo de situação. A ansiedade não acontece apenas por conta da tpm mas é agravada por vários fatores externos. Estou fragilizada e eu tenho o maior respeito por isso. Me permito estar assim, vou até o fundo. Gosto de ir até o fundo disso tudo. Prefiro. Fico por ali. Exploro. E volto melhor. É melhor assim do que eu sair e cair em prantos no meio da rua. Preciso de espaço, mereço esse espaço pra me recompor, pra colocar as coisas no lugar novamente. Mesmo que não consiga.

II

Ansiedade é sempre uma merda. Me faz cozinhar demais, comer demais. Bem, foram os paraísos artificiais mais próximos que encontrei e que me fazem mal sim, mas mais a longo e médio prazo. Não fumo, não bebo (só para afogar mágoas – e nunca resolveu), não uso drogas: eu como. Em lugares diferentes, em casa. Mas não gosto de me arriscar na rua a não ser que eu saiba onde estou indo. Me aventuro, mas é raro. Compro coisas no mercado e cozinho. Cozinho pra mim mesma, ninguém mais. Cozinho, cozinho e cozinho. E como. Cozinhar ajuda a diminuir e a aumentar a minha ansiedade ao mesmo tempo. É o circulo vicioso perfeito. Diminui a ansiedade porque como. Aumenta a ansiedade porque, durante o preparo, pestanejo. Lembro de situações, revivo situações inteiras na minha cabeça, relembro de coisas ruins, de sentimentos ruins, de sensações horrorosas. Cozinho talvez como um modo de exorcizar isso tudo de mim enquanto preparo. Mas às vezes esses pensamentos não vão embora. Não consigo me liberar deles. Ainda. Não consigo pensar em outras coisas também. Digo, penso em outras coisas. Em várias outras coisas. Mas os pensamentos ruins são sorrateiros e persistentes. Queria poder me livrar deles. Queria mesmo, acredite em mim. Me parece que pra me livrar destes, terei que arranjar outros. Descasco, pico os alimentos, refogo, cozinho, asso, penso, olho o tempo, as medidas. É uma distração concentrada e uma concentração meio difusa. Enquanto cozinho, eu não estou realmente cozinhando: estou alimentando o meu rancor. E quando me alimento, quando como, o rancor desaparece. Deus, eu preciso me livrar disso… Eu quero me livrar disso. Só eu sei o quanto. Mas algum dia vai passar. Tenho essa certeza comigo. Já passou uma vez, desta vez não será muito diferente: vai demorar alguns anos, mas eventualmente deixará de fazer sentido e consequentemente de existir, como se jamais tivesse existido. Só de pensar nisso já sinto um alívio imenso. Mas por hora, o rancor permanece.

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III

Ontem estava pensando que eu gostaria de ser mimada, mas ao mesmo tempo entendi que este é um desejo que nunca vai se realizar pelo simples fato de ser desejo. É um tanto quanto histérico, eu sei. Queria ser mimada, que alguém fizesse algo por mim, pra mim, alguma coisa assim. Queria que alguém viesse cozinhar pra mim. Queria não precisar fazer nada por mim mesma, uma vez só. Não precisava ser nada grandioso na verdade, podia ser ovos mexidos, já estava bom. Podia ser ouvir minhas lamúrias e concordar comigo. Queria não ser julgada, só colocada no colo e que alguém dissesse “eu te entendo, agora se acalme que isso vai passar”. Só uma vez. Queria não precisar engolir choro, queria ter alternativa à precisar ser forte o tempo todo. Queria ser vulnerável pra alguém. Queria algo consciente, algo real. Algo que me dissesse com todas as letras “Dora, eu fiz isso pra você”. Sem sentimentalismos e sem sentimentos porque o que a gente sente não é uma escolha, nós apenas sentimos. E eu queria que alguém me escolhesse, se decidisse por me mimar. “Isso é para você, é de mim para você”. Queria que isso acontecesse na hora certa e no momento certo. Jamais acontecerá. Na verdade pode até acontecer, mas jamais se realizará. Mesmo que fosse na hora e no momento certo, eu desejo, mas não permito que este mesmo desejo se realize: permito apenas que permaneça desejo. Desejo desejar, não ter. Quando tenho é ok, é bom até. Mas ainda: não é desejo. É como se me atravessasse, passasse por dentro de mim e saísse do outro lado. Não permanece. O desejo é mutável mas perene, permanente. Sempre estamos desejando algo, alguém, alguma situação. Ele muda, se transforma.. Mas está sempre ali, à espreita. Isso me fascina mais do que qualquer coisa. O desejo, o sonho, o intangível, o que não está ali, o que ninguém vê, o que se repete, os padrões, as formas. O conteúdo a gente sabe que é sempre o mesmo, essa encheção de linguiça da existência (um dia as pessoas vão perceber isso). Mas eu gosto mesmo é de todas essas outras coisas.

IV

Me sinto debaixo d’água boa parte do tempo. Sempre me falta ar. Por mais que existam mil coisas acontecendo sempre parece ser essa morosidade. Mas acredito que isso seja temporário. Que seja mais temporário do que eu imagino. Tenho planos conflitantes. Precisarei de mais tempo pra mim, mas ao mesmo tempo, não posso me dar ao luxo de perder tempo. Não sei se vou poder escolher. Dependendo de como as coisas acontecerem, não poderei escolher. Em algumas semanas as coisas estarão definitivamente diferentes, independente disso tudo. Não sei o que pensar. Lembro do que me foi dito. Não sei se acredito. Tenho acreditado, mas não sei bem até que ponto. Não penso nisso. Não gosto de pensar nessas coisas. Quero deixar estar. A realidade pode ser outra quando acontecer, por isso não é bom ficar pensando muito, tentando prever. Não é possível prever nada aqui. Não consigo imaginar, nem visualizar nada. Não fico pensando em como pode ser, minha ansiedade não trabalha tanto em relação a boas perspectivas. Talvez seja melhor assim. Não deliro: na verdade sempre acho que pode ser uma decepção. É bom não manter expectativas e não as mantenho mesmo. Quando é assim prefiro penar no que tenho agora mesmo: o tipo bom de solidão; 3h49 (2h49), olho pela minha janela e a noite está o mais escura possível, um breu; janela aberta, tempo agradável, fresco sem estar frio; unhas pintadas e roídas; chá preto, chá de hortelã, minhas formas disfarçadas de fumar; livros de Do In e reflexologia; escalda pés com sais e bolas de gude; um pequeno planejamento de meditação antes de dormir: deixar alguma música que seja familiar tocando bem baixo, quase inaudível, deitar de barriga pra cima, inspirar e expirar; ir tateando, aos poucos, com a minha audição a música quase inaudível, inspirar, que ora se ouve, expirar, ora se esquece; ir mais fundo, continuar tateando, inspirar, continuar buscando, expirar; não pensar em absolutamente mais nada e atingir um relaxamento quase pleno, se tornar levemente consciente novamente, sentir a música entrando em cada poro, inspirar, tatear, esquecer. Deixar de ser. Tornar-se. Dormir.

Tenho sentido vontade de vomitar toda vez que eu sinto o cheiro de qualquer perfume.

Estou bastante irritadiça e querendo que todas as pessoas, indistintamente, morram.

 

É isso.

Em semana em que você sabe que vai roer as unhas até os ossos você não faz a mão pra ela ficar bonita. Você corta as unhas o mais curto possível e passa um esmalte roxo escuro. Não pense que ao fazer uma mão bonita você resistirá de roê-la apesar de todo o nervosismo.

Você não irá.

Caminhava. “E se fosse com você?”. Mas foi comigo. “Sim, mas por favor, responda à minha pergunta: e se fosse com você? Se ele chegasse um dia e dissesse ‘não te quero mais’, como você se sentiria? O que faria?”. O que senti: tristeza. O que fiz: desapareci. Não, não dava pra ser ‘amigo’ não. Na boa, isso não existe. “E se algo acontecesse? Ficasse doente, morresse ou alguém o agredisse na rua?”. Bem… Acho que não poderia fazer nada né? Existe família e existia alguém que o amava. Não poderia fazer nada a não ser lamentar pelo ocorrido. Na verdade acho que até pode ter acontecido algo do gênero e eu só não fiquei sabendo, nunca soube de nada, aliás… Vai saber. “E se você se apaixonasse por outra pessoa? Por alguém próximo?”. Bem… Essas coisas acontecem o tempo todo. Já estou bastante cansada de ver isso, é sempre essa história, é quase um clichê. É mais comum do que eu consigo imaginar, na verdade. Não posso evitar de me apaixonar e, principalmente, jamais o evitaria por alguém que fez tanta questão de deixar bem claro pra mim que não me queria mais.

Foi comigo. Tudo isso foi comigo. E hoje, sim, espero que ele tenha, mesmo, sofrido incontáveis infernos. Todo o sofrimento que causei (intencionalmente ou não) foi mais do que merecido. E, na verdade, talvez tenha sido pouco.

Minha vingança não foi antes: ela é hoje.

O tempo faz com que as coisas e os sentimentos fiquem cada vez mais apropriados.

Faz alguns anos que existe um morro pra mim, onde quer que eu vá. Ele é sempre íngreme demais. Difícil demais de subir. E sempre que posso tento evitá-lo. Não a todo custo, mas tento. Ano passado não era possível: o morro era na rua da minha casa. Não tinha muito jeito, nem escapatória: precisava subi-lo para ir pra casa. Agora o morro está no caminho do trabalho para o metrô. E o daqui é bem mais inclinado na verdade. Mais difícil mesmo.

Tenho alternativa, posso pegar ônibus para casa direto ou até para o metrô mesmo. Mas pensar no tempo que eu perderia dentro do ônibus me irrita. E agora que saio do trabalho ainda mais tarde, qualquer uma dessas opções é inviável. Me resta subir o morro íngreme à noite. Ele começa numa praça que tem uma árvore enorme (onde sempre colocam macumba) e depois dessa praça tudo fica realmente muito inclinado e a respiração começa a pesar. Subo devagar. Antes eu subia reclamando em pensamento.

Agora não quero mais resistir ao morro, quero me adaptar a ele. Quero um dia poder subi-lo como se ele não fosse nada, como se fosse uma outra rua qualquer. Quero um dia poder subi-lo e ao chegar ao fim não dizer “estou morta, estou com pressão baixa, acho que quero morrer de cansaço” mas dizer “opa, cheguei aqui, estou bem e esse morro não é tudo isso o que parece”. Quero isso. Existe um treino pra isso e este treino já está em andamento. Estou indo muito bem, mas nada acontece do dia pra noite.

Existiu uma época em que o morro pra mim não era uma adversidade. Não entendo porque não faço jus a esta lembrança tanto quanto deveria. Lembro-me sim, mas é sempre às vezes, sempre em segundo plano. E esta deveria ser uma das lembranças mais estimadas que eu deveria ter. Foi a época em que eu estava apaixonada por mim mesma, que mais me amei em toda a minha vida e que me sentia viva, de verdade. Que eu subia o morro de casa como se eu tivesse mil pulmões.

Era como se eu pudesse respirar o mundo inteiro e continuar subindo. Era como se nada pudesse me deter. É uma sensação e uma lembrança a qual preciso me apegar com mais afinco. Preciso me lembrar dos detalhes, de como era, de tudo, com mais cuidado. Lembro-me também que, passada esta época, desenvolvi um hábito desagradável: sentava lá e dizia a ela “é… é difícil”. Na verdade “difícil” sempre foi uma palavra um tanto quanto constante pra mim, o que é estranho.

Pois nem sempre se tratava de uma reclamação muitas vezes, mas de uma constatação mesmo. “É… É difícil”. Acho que o amor é mesmo uma merda. Torna todas pessoas indistintamente bundamoles. Me tornou bundamole. Tudo torna-se muito difícil. Tudo “eu não consigo” ou “eu não aguento” ou “eu não suporto”. Mas a verdade é que eu sei que eu suporto muita merda. Suporto merda pra caralho – muitas vezes porque quero mesmo, muitas vezes por motivos nobres até.

Fico com aquele discursinho de meia-tijela de que “preciso aprender meus limites”, “preciso saber pedir ajuda, aprender a não ser forte o tempo todo” quando no fundo, sei que não sou alguém que pode ser considerada fraca. E que meu limite é bastante alto. Basta observar minhas escolhas que, mesmo impulsivas, nunca são impensadas. Sou uma vaca: rumino minhas decisões. E me arrependo, rumino, engulo de novo, mas acabo decidindo – e decido. E hoje me lembrei daquela época em que o morro era fácil…

E me deu uma saudade mais forte do que qualquer outra coisa. Acho que pela primeira vez na vida tive saudades de mim, de quem eu fui, de como eu era. A sensação que tive foi tão forte que foi capaz de me fazer dizer “se uma coisa me traz aqui hoje, é a lembrança que eu tenho daquela época”. E foi bonito. Foi muito bonito. É meio raro isso em mim, esse reconhecimento todo. Raro não: é inexistente mesmo. Porque foi algo de bom, de realmente bom que me aconteceu, em meio a toda a merda.

São lembranças-oásis, que muitas vezes matam a minha sede desse sentimento intangível. É algo que resiste através do tempo e através de tudo. Que às vezes dorme, mas que está pra sempre ali, pra sempre em mim, esperando pra ser desperto, lentamente… São presentes cognitivos, espirituais talvez, transcendentes. São meus pra sempre. “Por que você quer fazer isso?”. Porque quero me sentir bem (algum dia eu lembro que me fizeram – e que eu me fiz – acreditar que eu mereço isso).

Porque quero ser a melhor pessoa que eu conseguir ser e quero que isso seja constante. Quero que difícil seja apenas outra palavra.

A partir de hoje as coisas vão mudar. Tudo irá mudar, de verdade.

Os morros continuarão por aí, onde quer que eu esteja.

E eu continuarei aqui, tendo que enfrentá-los.

Que seja.

Ela me deu um esmalte. O nome é “Desfecho”. Me mostrou suas unhas mal pintadas e me disse que a cor era feia e que o esmalte se parecia mais comigo. Legal, “Obrigada” respondi. Há muito tempo atrás, há pelo menos uns 2 anos, alguém me disse que o segredo de uma unha bem feita é: não poupar esmalte, ele foi feito mesmo pra gastar. E desde então não pinto de outra forma. Se o esmalte é muito fraco, chego a até mesmo passar umas três vezes, para que a cor fique mais profunda. Hoje ela passou por mim “que esmalte é esse que vc está usando?”.

“É o Desfecho”.

 

A verdade é que:

1. Não conhecemos ninguém bem o suficiente. Nunca. Jamais.

2. Ninguém é admirável, completamente. De verdade.

3. Todo mundo é podre em maior ou menor nível: mas TODO MUNDO, sem exceção, é podre.

 

As pessoas de modo geral são bastante detestáveis.

E toda a convivência, por mínima que seja, é forçada.

Ou ilusória.

 

O resto é romance & paixão & sexo (e tudo isso é efêmero por mais que se queira convencer que não).

 

E até isso – e principalmente isso – consegue ser uma merda.

 

Tenho chorado bastante essa semana. Sempre achei muito vergonhoso isso de se emocionar. Me sinto muito vulgar, me sinto muito mulherzinha que chora a troco de qualquer merda, mais do que de costume. A maioria das pessoas é tão completamente insensível às coisas que me emocionam muito… Na verdade acho que não é isso. Na verdade acho que estou (e não sou) sensível. E sei que estou assim pois estou de TPM. Esta semana chorei muito facilmente e mais de uma vez, sempre em público. Não consigo sequer me conter e choro por absolutamente tudo (ou quase tudo). Choro muito e por qualquer coisa: pela chuva que cai na janela do ônibus, pelos tons de cinza das nuvens, por uma (várias) lembranças ruins, por uma falta de afeto, por uma música que ouço, pelas florzinhas que estão tão perfeitamente organizadas e coloridas no jardim do lugar onde eu trabalho. Qualquer motivo é motivo pra derramar um rio de lágrimas (literalmente). É bastante ruim, não gosto disso. Mas sou assim. Gostaria que isso tudo não acontecesse, mas não consigo evitar essa hipersensibilidade, não tenho controle nenhum sobre isso. É ridículo perceber que choro por conta de uma música que já ouvi milhões de vezes mas que por algum motivo, naquele dia ou hoje, me toca de um jeito diferente. Me sinto muito fragilizada e quando estou assim a tendência é me afastar do mundo por achá-lo bom demais, por achá-lo ruim demais. É sempre essa relação de amor e ódio, sempre isso. E me afasto e sinto raiva por nada, quase todos me irritam profundamente simplesmente por serem quem são. A insensibilidade dos outros com todas as coisas não só me frustra e me deixa ainda mais envergonhada, como também me dá muito ódio…

É. Melhor eu desaparecer por uns dias mesmo, antes que eu faça ou fale alguma merda e ninguém entenda nada…

Preciso, com certa urgência, começar a questionar primeiro e reagir emocionalmente depois. Já está em tempo disso.

A bem da verdade, questiono muito, questiono muitíssimo, questiono o tempo todo praticamente: dentro da minha própria cabeça. Mas raramente exteriorizo o questionamento, o que me confere esta aura deveras autista da qual tanto gostam de reclamar (sim, a mim não incomoda, aparentemente [se não percebo é porque não incomoda]).

É um tipo de don’t ask, don’t tell policy só que para vida, para tudo. Entendo que precise parar com isso, embora esse comportamento seja difícil de ser detectado em tempo hábil: sou impulsiva demais (é o meu áries) e quando menos percebo já estou lá, dramatizando o mundo, me debulhando inteira.

Há algum tempo tenho evitado tragédias e já consegui escoar boa parte das reações emocionais indesejáveis para outros fins. Mas nem sempre tenho essa atenção e determinação desejadas. Quando menos percebo tomo decisões das quais me arrependo pro resto da vida.

Mas o arrependimento surge não sem certo orgulho: acho simplesmente detestável, odiável, repulsivo permanecer em uma situação não finalizada, indeterminada, de indecisão. As coisas precisam estar resolvidas mesmo que a decisão não defina nada de imediato. Isso não é ter culhão: isso é ser burra.

Mas tudo bem. Vamos desfazendo um mito por dia.

Prefiro que o chão se abra e os céus ardam em chamas do que permanecer indefinidamente na angústia de uma situação indeterminada. É. Drama queen mesmo. Isso é realmente necessário? Até que ponto? A qual custo? A parte mais difícil já consegui: ser consciente disso. É difícil. Bastante.

Tenho uma fobia incompreensível de descobrir algo simplesmente perguntando sobre esse algo. Reajo primeiro, bem impulsivamente, busco provas para que o questionamento não se faça necessário. Na verdade temo, não que mintam pra mim, mas em confiar (a.k.a. estabelecer vínculos, criar laços, etc). É. Horrível.

Infelizmente também nunca confio em alguém pela metade. Sempre confio em todo mundo (otária), até que me provem o contrário. E geralmente, dadas as devidas oportunidades e situações, sempre acabam me provando o contrário e enfim, sou de absolutos. Sou uma pessoa bastante triste.

Introvertida não, enrustida mesmo.

Imagino que o fato de questionar ao invés de reagir, de certo modo, me transformará em alguém ainda mais cautelosa do que (penso que) sou. Mas talvez, apenas talvez, eu confunda o que seria a minha cautela com ingenuidade (o que é muito provável). Mas também somente ingênuos questionam. Será?

Acredito que isso depende diretamente do quão sofisticada for a questão.

É isso: me falta sofisticação. Não tenho nenhuma. Me sinto uma boçal. E a TPM está contribuindo consideravelmente para que eu me sinta especialmente boçal hoje.

A tendência, independente da adoção de qualquer um destes comportamentos (ser emocional versus ser cautelosa) é a de sempre, por fim, ter a plena certeza de que eu sou a maior otária de todo o universo (isso é bastante coisa).

Fico tentada a acreditar, como sempre, que tanto faz adotar um comportamento ou outro, que não faz diferença nenhuma mesmo. Mas talvez eu devesse ficar mais atenta e tentar agir diferente mais algumas vezes, observando também o que resulta disso, observando as consequencias..

Afinal, se for pra ser uma merda, vai ser de qualquer modo.

Independente da forma que me comporto.

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