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Onirismos

I

Essa noite eu tive um sonho com o meu antigo trabalho. Sonhei que me chamavam até lá para algum tipo de atividade que eu deveria executar e eu me esforçava e ia, e aí quando eu chegava lá me diziam que não precisavam mais de mim. Me lembro que no sonho me senti bastante frustrada com isso mas no entanto eu fiquei lá. Eu não ia embora daquele lugar e ficava olhando as pessoas. Foi uma sensação bem esquisita e tão, tão familiar. Eu não era necessária ali mas esse fato não parecia me importar muito. No sonho isso não me importou muito, mas fiquei estarrecida com isso quando pensei no sonho, várias vezes ao dia. É como se em algum nível eu não me importasse em ser completamente inútil. Ou ainda, como se eu quisesse isso. No caso do sonho, o contexto não era exatamente muito feliz. O antigo trabalho me demandava coisas, posturas, entregas, resultados. Não podia me dar ao luxo de ser inútil ali. Mas no sonho eu era, eu fui. Tentei ignorar esse sonho conscientemente o dia todo – talvez porque ele tenha me deixado triste – e falhei. Várias vezes ele voltava pra mim, indicando algo. Até eu resolver escrever sobre ele por aqui e tentar juntar alguns pontos.

II

Hoje me deparei fazendo uma pergunta bem imbecil para uma colega experiente. Me senti imbecil bem logo depois de ter terminado a pergunta. Não tive tempo de me conter e não fazê-la. Me dei conta então de que tenho feito uma série de perguntas bem imbecis pra várias pessoas, geralmente esperando respostas sim/não quando na verdade, a vida é muito, mas MUITO mais complexa que isso. Como se uma resposta sim ou não fosse resolver os meus problemas ou qualquer problema que o valha. Aliás, esta é uma questão séria para mim: eu preciso PARAR de querer resolver as coisas, por algum tempo. Vou um pouco mais longe: eu preciso começar a não só não querer resolver as coisas, mas o exato oposto disso, adicionar ainda mais complexidade à elas. Não complicá-las, não fazer tudo errado, nem nada desse tipo – porque eu não sou assim, esta não sou eu. Mas me deslocar deste lugar onde estou, há anos. Praticar um pouco a tal da porra da alteridade. Observar mais. Entender, com calma, sem pressa, sem necessidade de resultados exatos, precisos, corretos, os porquês de as coisas de desdobrarem e como as coisas se desdobram. Eu tenho feito as perguntas erradas. E, obviamente, nenhuma resposta vai me satisfazer deste jeito. Claro. E eu sinto medo de uma série de coisas, parece. Isso me gera a famigerada travação. Não física, nem nada, mas de ação, mesmo. E a quem eu quero enganar mesmo, eu não estou contemplando porra alguma. Eu simplesmente não estou fazendo o que deveria estar fazendo.

III

Eu caí duas vezes de moto. As duas vezes foram no estacionamento, quando tive que sair de casa. E nas duas vezes eu precisava acelerar e na hora, por algum motivo que desconheço, eu me assustava, freava e caía. Não era pra frear, era pra acelerar, porra, eu estava em subida! Mas enfim, eu parava de acelerar, a moto morria e eu caía. Assim foi, duas vezes. Até então não tive nenhum acidente no trânsito, só estes mesmo. O problema da aceleração pra mim vem desde as primeiras aulas que tive de moto, do processo inicial de aprendizagem. Eu tenho, tive, medo de acelerar. Medo do barulho do acelerador, do próprio ronco da moto. Medo de uma máquina viva, explodindo continuamente, bem debaixo da minha virilha. Medo de perder o controle e me acidentar ou ainda pior, machucar os outros. Acelerei muito pouco nas aulas, é verdade. Tenho acelerado bem mais no trânsito, enquanto rodo e me acostumado mais com isso. Mas o que essas duas quedas ridículas no estacionamento me ensinaram foi que aceleração não implica em velocidade. E que sim, a aceleração é barulhenta mesmo, não tem muito jeito de ser diferente disso, é melhor eu me acostumar. E que numa subida, num caminho que me leva efetivamente pra cima, se eu não acelerar, eu também posso me acidentar. E possivelmente machucar outros também. Hoje em dia, quando pego um túnel e existe uma subida onde preciso acelerar, eu geralmente grito, pois isso me ajuda a manter a aceleração sem hesitar. Isso me ajuda a perder, mesmo que seja um pouco e por alguns momentos, o controle. E assim, paradoxalmente, a manter o equilíbrio.

IV

Eu preciso escrever e não consigo escrever. Passei o dia todo procrastinando, olhando as telas. Não li nem uma linha sequer. Não escrevi nem uma linha sequer. Tento me convencer de que preciso de uma estrutura e no momento ela é ausente. Não tenho a mínima ideia sobre o quê falar – como se eu não tivesse nada a dizer. Tenho coisa pra caralho pra dizer, mas não sei como, não sei por onde começar. Insisto que preciso de uma estrutura. Dou conta de fazer ainda pior: insisto que o que eu preciso escrever precisa ser FUNCIONAL e que precisa ser usado posteriormente, inevitavelmente, pois não quero “perder tempo”. Que tempo? Tempo do quê? Perder o quê? Enfim. Segundo eu mesma, o artigo que preciso escrever, precisa ter uma exata estrutura, abordar tais e tais assuntos, se encaixar em determinado contexto e, para mim, só assim eu vou ter feito um bom trabalho. E eu estou tão puta comigo mesma por pensar assim. Tão incrivelmente puta. Eu estou definitivamente com raiva disso, de mim. Agindo desse jeito eu estou simplesmente matando o meu próprio trabalho, matando qualquer tipo de espontaneidade e inviabilizando qualquer tipo de criatividade. Tá tudo errado. Eu preciso abrir mão disso. Não existe estrutura e não vai existir à priori. Querer ser funcional é uma verdadeira derrota pra qualquer tipo de pensamento que se preze. E no fundo, no fundo, eu já sei o que fazer. Eu sei exatamente o que fazer. Eu só estou com medo. Mas agora eu estou com mais raiva do que medo. E assim eu sei que vai ser mais fácil eu me movimentar em direção de qualquer coisa.

 

 

Dias atrás me liguei de que tive dois sonhos sobre o mesmo tema, por duas noites seguidas. Não notei de imediato, pois o sentimento foi muito sutil no sonho e demorei pra desenvolvê-los enquanto acordava e me recobrava. Preciso desdobrar os sonhos assim que acordo e é sempre difícil decifrá-los, entender seu contexto na minha vida e entender porque os tenho. Dissociar o que sinto enquanto ser atuante no sonho e enquanto ser que sonha. Mas toda tentativa é válida.

Sonho I

Sonhei que estava em alguma manifestação na universidade. Tinha gritos, correrias, bombas de gás lacrimogêneo. Eu estava confusa e com medo, claro. Lembro-me que saí correndo não em direção de fugir da confusão, mas ao encontro dela. E de alguma forma muito estranha e totalmente não proposital eu soquei alguém importante lá. Quase que no mesmo momento em que fiz isso eu já sabia que estava fodida. Sabia que ia ser pega e que iam me infernizar. Mas não fiz nada com intenção, com propósito, foi sem querer mesmo, não foi na maldade. Machucou? Bom, lamento, tá na chuva é pra se molhar, vida que segue. Fui pega na mesma hora e tudo aconteceu de forma muito rápida no sonho: fui levada para uma sala pra ser interrogada. Fui insistentemente acuada por uma mesa com 5 pessoas, 2 mulheres e 3 homens que tentavam me fazer “confessar” o que eu tinha feito e principalmente como tinha feito. Pessoas que nunca tinham me visto na vida e me julgavam com base em nada, sem sequer me conhecer. No começo não queria responder a pergunta alguma, neguei todas as acusações, falei que se tratava apenas de um acidente e era isso. Mas obviamente eles foram insistentes na história em que eles preferiam acreditar e que queriam que eu verbalizasse e aquilo foi aos poucos me irritando muitíssimo. Em dado momento fiquei muito puta mesmo e revidei dizendo que soquei sim e que foi de propósito, e que socaria de novo se preciso. E que foi sim na maldade mesmo. E que tudo o que eu mais queria naquele exato momento era socar a cara dos cinco que estavam ali até desfigurá-los. Quis dar o que os satisfizesse, mesmo que momentaneamente, mesmo que isso fosse me foder depois. Só queria que parassem de me acusar falsamente. Depois que estourei no sonho e disse essas coisas, acordei sentindo muita raiva, uma raiva que subia do estômago até a área central do peito e depois pra cabeça.

Sonho II

Sonhei que estava em um mercado fazendo algumas compras para casa. Nesse mercado havia uma seção em que tinham algumas pedras que pareciam não ter preço algum, estavam simplesmente dispostas ali. Não pareciam a venda, não pareciam ser de alguém, não eram preciosas: simplesmente estavam ali, dispostas. Tive um episódio de cleptomania e peguei as duas pedras e coloquei-as entre meus seios, como se quisesse roubá-las do mercado. Estava quase chegando no caixa quando um segurança começou a me sondar e ele tentava, discretamente e sem sucesso, me revistar e me impedir de sair do mercado. Notei isso na hora e fiquei muito, muito puta. E no sonho considerei que agi como normalmente NÃO ajo: dei um puta de um piti do caralho, gritei pra todos os presentes que quisessem ouvir que aquele segurança estava me ameaçando, que ele me achava uma ladra e, sim, as pedras estavam no meio dos meus peitos. E eu estava profundamente ofendida com tudo. Só sei que fiquei tão puta no sonho que larguei o meu carrinho de compras onde estava, saí esbravejando do mercado e correndo, como se estivesse fugindo mesmo. Depois comecei a voar e em dado momento era como se eu estivesse subindo para algum lugar com o auxílio de uma corda. Aí eu acordei, sentindo um misto de raiva e medo, medo de ser pega fazendo algo errado realmente.


No Sonho I considero que enquanto estou acordada normalmente tenho este tipo de reação mesmo. Não me defendo quando preciso, pelo contrário: deponho contra mim mesma. Além disso não distribuo a minha raiva equitativamente, eu a acumulo ao ponto dela voltar-se contra mim mesma, sempre. Não sei porque ainda ajo assim, mas é o que acontece, é bastante comum. Nesse sentido não tenho nenhum senso de auto-preservação e meu comportamento tende a ser puramente auto-destrutivo mesmo, ainda mais em lidando com pessoas que efetivamente querem e torcem por me ver muito mal. Até este sonho, nunca tinha parado pra pensar sobre isso, mas tudo isso o que escrevi acima é muito real. É um padrão que gostaria de quebrar. Isso de “não sentir raiva” não existe. Raiva é essencial pra funcionarmos enquanto humanos. No entanto preciso saber equalizá-la de modo que eu não seja irascível e não acabe me prejudicando sem necessidade alguma disso. Já tomei decisões bastante imbecis em momentos de raiva. E sim, geralmente odeio me sentir acuada e quando isso acontece eu me torno uma camicase mesmo: ao invés de manter minha auto-preservação, deixo-a em suspenso por questão de minutos e simplesmente ataco (ao outro, à mim mesma, enfim, tudo a mesma coisa), por mais que me arrependa disso depois. Geralmente depois disso não há para onde retornar. Acredito que terei um longo caminho até mudar esse tipo de comportamento, mas já é interessante me saber consciente dele. Provavelmente me sentirei acuada mais vezes ao longo da vida e vou me ver obrigada a lidar com isso de modo razoável.

Já o Sonho II tem várias interpretações. Quando eu faço coisas erradas, para mim em algum nível, elas não são consideradas moralmente erradas, mas sim um desvio apenas, uma doença (cleptomania). É sempre como se não fosse nada demais, quando na verdade é. E eu sempre assumo o risco, mesmo sabendo que posso ser pega. O que achei curioso no sonho foi o fato de eu ter dado um piti quando o segurança desconfiou de mim. Na vida real faço bem o oposto disso: quando me acusam de algo que fiz de errado, tento primeiro assumir o erro mesmo e depois pedir desculpas por tê-lo feito e prometer melhorar da próxima vez. Não dou piti porque acho realmente exaustivo, perda de tempo e acredito que não me leve a lugar algum, realmente. Novamente: eu evito o embate, reprimo raiva entre ouras coisas, etc. E o fato de eu ter fugido no sonho denota algo que é recorrente comigo: o escapismo. Ao invés de encarar e resolver o problema de fato, eu vou embora, fujo, mesmo que lidar com essa fuga seja mais frustrante e ainda mais desgastante que lidar com o problema. Parece um contra-senso, mas é bem real. E acontece com frequência comigo.

Os dois sonhos tratam sobre a raiva que eu sinto e sobre como eu lido com ela (ou não né). Preciso rever tudo isso, ver o que permanece e o que vai precisar ser mudado. Preciso evoluir a partir deste ponto que estou, pois nenhum dos dois exemplos me pareceu muito bom – e estão intimamente relacionados com o que sou e quem sou hoje. Hora de mudar.

I

“Escorpião normalmente vive através de processos de morte e renascimento, e também lida com questões de poder, sexo, transformação e cura”. (Casa X, Marte, Saturno e Plutão)

II

Hoje eu sonhei que conversávamos sobre uma série de coisas, emendando as conversas que tivemos ontem de tarde e à noite, durante o jantar. A gente estava na cama e você fazia um cafuné na minha nuca e nos meus cabelos, e aquilo me excitava. Acho que era manhã, já. Nos beijamos longamente e eu queria aquilo, eu queria você. Você prendeu meus cabelos de lado, delicadamente, como sempre faz e eu… Acordei. Com raiva. Quis voltar pro sonho. Não consegui. A raiva aumentou. Esperei que passasse. Tentei abstrair. Esqueci, fui fazer outras coisas. Mas a vontade, ainda existe.

III

Quase perdi o ônibus, perderia a viagem e teria que ficar mais uns dias por lá, tendo que aturar todo o acontecido. No dia anterior tínhamos brigado. Aquela seria a última briga pois foi o limite de tudo. O cúmulo de tudo chegou na agressão e da falta de respeito mútuos. Quebrei um quadro, sem querer. Não me importei na hora, eu estava com muita raiva. Eu só queria ir embora. Fui. Voltei no dia seguinte ou dias depois, não me lembro mais. Faz tanto tempo. Voltei porque aquilo precisava ser finalizado de algum modo. Eu sabia que estava indo embora para nunca mais voltar. Acho que fomos buscar minha mala na casa dela e faltava algumas poucas horas pro fim. Eu estava pronta pra ir. Eu não estava pronta pra ir. E trepamos, desesperados. Foi desesperado, triste e violento… Como tudo. Eu não tirei minhas roupas, não tirei minhas botas, na verdade eu preferia assim. Foi rápido e desesperador. Não tínhamos tempo. Nunca tivemos. Foi uma boa maneira de me lembrar de você pela última vez. O sexo parece revelar o que as pessoas são e sentem verdadeiramente, na hora do orgasmo. E você parecia assustado. Ou ao menos parecia que esperava qualquer coisa menos aquilo. Eu também não esperava aquilo. A flecha atirada que se volta contra mim mesma. Eu não queria e queria ao mesmo tempo. Não me esqueço daquele seu último olhar. Uma memória acertada. Fui embora da mesma forma que cheguei: do nada. Faltava meia hora pro ônibus sair. Fomos correndo. Não senti absolutamente nada me despedindo de você. Estava completamente vazia. Consegui chegar a tempo de nunca mais precisar voltar.

IV

Lembrei esses dias de algumas coisas que aconteceram há alguns anos atrás e pensei “cacete, eu fiz tudo mesmo isso? Por que?”. Atualmente eu não reconheço mais essa pessoa que fez todas essas coisas… E nem foi há tanto tempo atrás assim não, 2013, talvez 2011 também. É complicado. Esses dias percebi que houve um fim de ciclo na minha vida e me vi não sendo muito reativa em relação a isso. Não é questão de estar em negação não, isso já estava previsto de algum modo e não fui pega inteiramente de surpresa. Era o esperado, então passadas as burocracias, a aceitação aconteceu sem maiores problemas. Entendi o que houve e tentei lidar com isso de forma madura, não-reativa e estava realmente preparada para o que poderia acontecer. Usei meu plano B e toquei a vida porque é assim que as coisas são. Aí comparei com alguns anos atrás e fiquei um pouco chocada com a forma que eu (não) lidava com fim de ciclos. Tudo bem que era outro momento, existiam outras coisas me influenciando, eu me sentia muito mal, sempre, em relação à tudo… E posso dizer que não lidava porque de certa forma pra mim sempre foi muito mais cômodo entrar em negação e ir por um caminho auto-destrutivo. Eu sinto muito, hoje, pela forma que me tratei há alguns anos atrás… Mas hoje eu consigo me perdoar por isso. E a tentativa, agora, é a de não repetir esse tipo de comportamento.”Everything I ever let go of has claw marks on it“. Hoje eu sei que, quando é assim eu me machuco também. E isso não é um valor pra mim, não quero e não preciso mais viver deste jeito. Eu compreendo que não precisa mais ser assim. Existem outros meios. Existem outras coisas. Existe vida além de toda essa morbidez. Eu não preciso mais disso. E esta é uma escolha que eu decido ter, todos os dias.

V

Dia desses sonhei com uma pessoa que na verdade eram várias. A pessoa que eu via era um homem, meio grande, meio alto, não me lembro direito de detalhes do rosto dele. A única coisa que lembro com certeza era que ele tinha uma tatuagem no lado esquerdo do peito e que ela estava descascando, em processo de cicatrização. Ele era um homem mas ele tinha camadas de gente nele… É difícil explicar. Eu queria muito me encontrar com ele na vida real. Lembro que no sonho me sentia muito bem com ele ali, me sentia muito feliz, era uma energia estranha, boa. E lembro também que eu ficava olhando ele e ficava tentando encontrar nele algumas pessoas em específico, pois ele parecia conter várias pessoas que eu conhecia em si. E eu me frustrava pois não conseguia encontrar ninguém direito, só sabia que ele era uma fusão de várias pessoas que eu amo, amava, amei… Não existia tempo verbal, ele era tudo num só. Ele era quase puro amor. Perto desta pessoa eu só conseguia sentir isso. A gente estava num lugar que parecia uma casa antiga e era tipo um escritório, um lugar com estantes enormes e cheias de objetos. A gente conversava sobre algumas coisas e ele me falou que eu deveria escolher alguns objetos que gostasse mais ou ir apenas mexendo nos objetos que me chamassem mais atenção, pois a partir das minhas escolhas e movimentações ele faria uma “leitura” de mim. Tinham vários bibelôs, imagens e objetos que nem sei dar o nome, de várias cores e formatos. Fui olhando e mexendo, até terminar com todas as estantes e no final, quando ele ia começar a falar o que ia dizer, eu o abracei bem forte. E ele me abraçou de volta. E esta foi a melhor sensação do mundo. Soltei do abraço e acordei. Senti uma saudade que aos poucos foi ficando dolorida e depois passou. Não sei quem era, não sei quem foram. Só sei que foi.

Noite passada eu sonhei com você de novo. Foram duas vezes nesta semana já. Não sei o que fazer destes sonhos, entendo que não há nada a ser feito. Não os relaciono de algum modo com o que vivo atualmente, é tudo muito distante. O primeiro sonho foi estranho, um encontro, do nada. Foi tudo muito melancólico. Dizíamos um ao outro em uníssono “uma pena não falarmos a mesma língua” e tudo ficava por isso mesmo. Éramos uma só voz. Acordei reconhecendo o sonho apenas, mas sem sentir nada em especial: nem tristeza, mágoa ou saudade. Eu não conseguia sentir absolutamente nada.

Ontem o sonho foi um pouco mais complexo. Sonhei que estava em alguma outra cidade, existiam ruelas estreitas e era um bairro boêmio. Eu conversava com a garota e por algum motivo éramos amigas – o que não entendi, mas enfim, ok. Ela vestia branco (parecia que estava vestida de noiva, como da primeira vez que sonhei com ela) e estava triste, chorava e me confessava coisas. Ela parecia exausta não física, mas emocionalmente. Parecia estar em seu limite. Eu apenas ouvia mas estava ocupada demais tentando encontrar o lugar em que você estaria. Me senti muito madura no sonho, como se eu fosse mais velha – mas que ao mesmo tempo eu fosse um certo tipo de “novidade” (bem, não deixaria de ser, acredito). Parecia que estava rolando um lançamento de um livro, seu. E estávamos te procurando. Te encontrei e você estava atipicamente eufórico e até mesmo amigável, me contando sobre o livro. Como você fica quando fala de trabalho, em qualquer evento. Achei estranha a forma que você se focou em mim e deixou a garota completamente de escanteio. Isso me deixou desconfortável até. Você me mostrou todo o seu trabalho e, como sempre, queria que eu desse minha pronta opinião o que, contrariamente ao meu costume, aconteceu. Disse minhas primeiras impressões na lata: que o livro estava mal editado, que algumas folhas estavam soltas ou caindo, mas na contra-capa do livro vi um desenho muito impressionante de um barco em aquarela… Eram vários barcos aquarelados em tons de azul, um dentro do outro, como matryoshkas. Fiquei alguns minutos vendo aquilo e tentando extrair significado. Você pareceu não se importar muito com nada do que eu disse, o que também não é costumeiro seu. Pedi uma cachaça, algo me dizia que eu precisava de uma bebida.

A situação toda ali era muito triste, um clima muito esquisito. O tempo todo eu sentia que eu deveria ir embora, que estava atrapalhando algo. A garota-velha vestida de noiva carente e excluída com cara de chorosa, você a ignorando completamente por conta de trabalho (sim, eu já sabia que todo aquele papinho não era sobre mim, em nenhum nível) e eu tentando ser educada. Tudo muito, muito errado. Acordei me sentindo incomodada, irritada mesmo. Que porra de sonho. Esperei que passasse hoje, durante o dia. Não só passou, como me deu insônia agora. Não querer sonhar com você outra vez não adianta. Quanto mais eu resistir, pior é.

Acredito que estes sonhos são algum tipo fino de auto-sabotagem vindos do meu inconsciente justamente pra me fazer titubear. Ou para me fazer repensar no passado, enfim. Quando tudo na minha vida está muito tranquilo e muito bem, meu inconsciente me sabota como se para dizer “ei, tem essa parte aqui que não ficou resolvida então vou esfregar isso na tua cara”. E tudo bem. Vai permanecer não resolvido e, por mim, assim permanecerá. O que não tem resolução, resolvido está. Não vou esquentar, mesmo, com isso. E vou dormir agora.

Não tive uma noite de sono muito boa. Consegui dormir, mas acordei duas vezes: uma no meio da madrugada, exatamente às 3 da manhã e outra às 6 com o despertador. Forcei sono até às 7:30. Nesse último sono, tive um sonho curioso. Sonhei que estava na sua casa, dormindo na sua cama. Foi bem estranho, mas eu me sentia confortável no sonho. Você não estava ali, tinha saído da casa para fazer algo e eu ficava entre idas e vindas entre o sono e o despertar – como estava mesmo, na realidade. Num destes despertares, no sonho, olhei em volta nos lençóis e percebi que haviam duas colheres de chá ali, repousando do meu lado. Uma das colheres estava completamente retorcida e a outra era belíssima, completamente adornada, com infinitos detalhes. Senti no sonho que você estava chegando e não queria que você visse nenhuma das colheres, pois eu achava um despropósito elas estarem ali, bem como eu estar ali também era um total despropósito. Pouco tempo depois, acordei, com o despertador, na minha própria cama. Era quase 7:30 e decidi levantar. Hoje vai ser um dia difícil e um tanto quanto arrastado… Obrigada por ter me acolhido na sua cama, com minhas imperfeições e ornamentos, mesmo que por apenas um momento.

“Esta noite sonhei com você e acordei assustada com uma ‘coincidência’. Sonhei que estava na sua casa, amigos próximos também estavam, como sempre. E não lembro muito bem o que estava rolando, mas parecia uma das reuniões que temos sempre. Só sei que em dado momento a gente estava sentado numa mesa e você estava do meu lado direito. Eu me debrucei sobre a mesa e você começou a passar as mãos (não tenho nem certeza se você efetivamente encostou em mim) na altura da minha costela direita… E começou a sussurrar algumas coisas pra mim (também não me lembro de nada). Na hora não entendi muito bem o que estava acontecendo, mas achei ok. Isso tudo não durou muito e eu acordei, me sentindo muito bem, como se eu estivesse na sua casa mesmo. Aí segundos depois que acordei é que me lembrei que na minha costela direita eu tenho duas tatuagens bem significativas pra mim, de algo do qual eu tenho tentado me curar há algum tempo… E só então eu entendi que você estava me benzendo. Enquanto eu acordava e ainda tentava fazer sentido do sonho e do que ele tinha sido, você publica a carta da torre fulminada. Fiquei assombrada por um momento porque, coincidentemente ou não, esta foi justamente a carta que decidiu uma série de coisas para mim e também está ligada às minhas tatuagens. Ainda penso em tatuar esta carta, mas não atribuo a ela um significado tão nefasto como é comum. Ela me serviu na época pra abrir os olhos e pra transformar minha realidade de uma forma que eu não acreditava que fosse possível. Por isso até sou grata por ela ter aparecido. Claro que tudo o que aconteceu não foi bonito, nem legal, nem fácil. Mas era uma mudança necessária, que precisava acontecer antes que algo ainda pior viesse.”

I

Não estou acostumada com gentilezas gratuitas. Tive pra mim, desde sempre, que o mundo é um lugar hostil por natureza e está sendo bem difícil me desfazer dessa ideia. Para mim, não existe gentileza gratuita, assim como não existe almoço grátis: as pessoas sempre querem algo em troca, por mais que insistam que não. Remover essa ideia da minha cabeça vai ser algo que ainda vai demorar mais algum tempo. Esta última terça feira eu parecia estar com um magnetismo um pouco acima da média: pessoas (do sexo oposto) me dando bom dia e segurando portas abertas para que eu passasse. Eu sempre acho isso estranho, mesmo porque nunca me aconteceu antes. É muito estranho deixar de ser invisível para quem já foi invisível por tantos anos a fio. Em princípio, esse estranhamento também tem a ver diretamente com a construção da minha identidade: é como se eu fosse alguém que não merecesse portas abertas e bom dias, em certa medida. É também uma questão de auto-estima. E eu sei que mereço, mas isso me lembra também que a não-invisibilidade tem seu custo. E se eu cheguei até aqui, é porque devo estar disposta a bancá-la. Só que eu não possuo referência alguma em relação a isso: sempre fui relegada ao segundo plano de tudo. A vida inteira, por todos, em tudo. Sempre trabalhei em bastidores, corri por fora, comi pelas beiradas. O que fazer e como agir quando isso muda radicalmente de uma hora pra outra?

II

Não sei o que fazer. Mesmo. Não tenho a puta ideia. Por fora sou uma mulher, por dentro me sinto uma menina assustada. Preciso abandonar essa menina, o quanto antes, antes que ela me prejudique. Esses dias, depois do almoço, eu estava tomando um picolé (coisa que faço todo fim de almoço), quando de repente passa por mim um homem muito atraente, cerca de uns 40 e poucos anos. Não sabia dizer se era da mesma empresa que eu ou não, só pensei o que sempre penso quando vejo alguém muito atraente, “nossa, que homem bonito” e ok, continuo o fluxo de pensamento qualquer que eu esteja tendo e sigo com o meu dia. O que eu não contava era que esse cara me seguisse até onde eu estava, me desse um olhar fulminante e me dissesse “você tinha o cabelo mais comprido, não?”, com um sorriso. Reagi da forma mais infantil possível: fiquei visivelmente constrangida, evitei contato visual e respondi timidamente “sim”, emudecendo logo em seguida. Pretty awkward. Depois fui embora e disse “boa tarde!”. Sinceramente, este não é mais um comportamento aceitável de minha parte. A impressão que tenho é a que eu sabia o que fazer em relação a isso quando era mais nova e parece que me esqueci e preciso me lembrar. Mas a verdade é que quando eu era mais nova eu era tão escapista quanto hoje, só que com uma estratégia diferente. Eu partia para outro extremo: para transcender uma timidez completamente paralisante e uma auto-estima completamente minada (por bullying na escola, pela minha mãe, etc.) eu me expunha ao máximo possível me hipersexualizando, porque aparentemente essa era a única forma que eu poderia ser interessante, que eu poderia ser visível pra alguém.“Nice shoes, wanna fuck?” era eu com 20 e poucos anos. Não havia muito critério e era como se o “amor” de qualquer um, de qualquer jeito, bastasse. Era como se eu não tivesse nada a perder. Era como se eu não valesse muita coisa, também (segundo plano, bastidores, correr por fora, comer pelas beiradas). Eu mesma me colocava nesse lugar. Coisa da idade, acho. Em muitos casos e por algum tempo isso “funcionou”. Hoje em dia isso não tem mais a ver comigo, não me identifico mais com esse comportamento. Não quero mais isso, não quero mais confundir as coisas. Queria poder apenas baixar a guarda e estar com o outro, com quem quer que seja. Quero apenas estar disponível. Olhar nos olhos e conversar sobre qualquer coisa. Estar completamente ali, com a situação. E lidar com ela, de fato. Parece simples, mas na verdade este é um dos maiores desafios pra mim, hoje.

 

III

Hoje sonhei com uma paixão antiga. Ok que eu até queria mesmo que tivesse sido um wet dream mas na verdade não foi nada disso. No sonho conversávamos tranquilamente em algum lugar, tomando um café. Só de lembrar do sonho, meu coração se alegra, meu rosto se ilumina e eu sinto uma felicidade e uma serenidade que mal consigo começar a descrever. Ele me contava de como estava a vida, dos lugares que pra onde tinha viajado, sobre o que tinha feito até então e queria me ouvir. Eu não lembro direito do que dizia pra ele, mas falei algumas coisas também. (Provavelmente disse pra ele sobre todas as coisas que escrevo aqui, agora). No sonho eu fiquei com aquela sensação que sempre tive com ele e tenho até mesmo hoje, quando penso nele: fiquei completamente à vontade (como se estivesse em casa mesmo), me senti relaxada e com aquela estranha certeza de que tudo, de um modo ou de outro, vai acabar ficando bem. De que estou segura, protegida. É difícil explicar como uma pessoa só consegue me trazer tanta, mas tanta paz. Só sei que é uma sensação muito boa. E eu acordei com ela. Passei, ironicamente, o dia de finados inteiro com ela. Amanhã tenho uma prova e hoje seria um dia em que eu provavelmente ficaria ansiosa o dia inteiro e não fiquei, em nenhum momento. No sonho, eu estava completamente com a guarda baixa nesta conversa e apenas estava ali. Esse sonho foi um excelente presságio e me fez repensar algumas coisas. Sobre minha identidade, sobre quem eu penso que sou, sobre como tenho agido no mundo e porque ainda uso recursos dos quais não preciso mais. Foi uma conversa e tanto. E sou muito grata por ela.

Mês passado eu tive um sonho erótico. Eu não ia escrever sobre ele, mas ele tem me perturbado tanto e ficado de forma tão persistente na minha mente até então que acredito que se eu escrever sobre, talvez ele desapareça. Sonhos eróticos para mim são raros, mas às vezes acontecem, nunca sei bem porquê. Não acho que seja pela falta de sexo ou por algum desejo latente. Talvez seja pela falta do sensual na minha vida, mesmo. E esses sonhos nunca acontecem com pessoas que eu quero que aconteça, mas sim com pessoas completamente aleatórias. Quando acontecem com alguém que quero, o erotismo, no sonho, tende a não fazer sentido algum, simplesmente. E os sonhos eróticos que tenho, geralmente são um tanto quanto esquisitos e raramente envolvem sexo propriamente dito, com penetração, etc.

É sempre mais uma atmosfera mesmo, de que “algo está rolando”.

Com este sonho não foi diferente.

Mas o que mais me perturba nesse sonho foi a pessoa que estava nele. O cara é praticamente um semi-desconhecido. Nunca troquei frase alguma com ele. Só o conheço de internet, por observá-lo – ele escreve e é relativamente famoso. Certa vez, uma amiga disse que uma outra amiga (sim) trepou com ele e que ele trepa mal. Acho que fiquei com este dado na cabeça por algum motivo que desconheço. De qualquer modo, o cara não faz o meu tipo em nenhum sentido. Ele é bonitinho demais. Charmoso demais. Tem toda aquela aura de escritor, pela qual as menininhas ficam loucas. Escreve bem, de fato. É engraçado e parece limpo. Não gosto do cabelo dele. E eu poderia ficar aqui falando sobre todos os high stakes que uma mulher na minha idade bota pra não arrumar caso com cara que não vá dar em nada, mesmo.

Mas eu sonhei com ele. E foi um sonho erótico.

Não é de hoje que eu tenho um pézinho no frotteurismo, embora o meu frotteurismo nunca seja público. Mas tenho essa coisa com tecidos e roupas e um jogo de mostrar e esconder, que acho excitante demais. E esse cara é completamente desprovido de estilo. Ele é completamente plano. Calça e camiseta. Ok, tudo bem. Lá estava eu no meu sonho, não lembro muito bem o que fazia, só me lembro que estava de bruços. Provavelmente estava dormindo assim. E de repente essa criatura se aproxima, como se rastejasse lentamente por cima de mim. Aquilo me incomoda, mas eu não me movo e não o mando sair. Ele está completamente vestido e eu também. Ele, rígido, se encaixa na minha bunda e fica se esfregando muito lentamente em mim enquanto sussurra a leitura de um livro (!!!) no meu ouvido direito. Eu, percebendo que aquilo era sonho, não acreditava e pensava “o que esse paspalho tá fazendo aqui?”

Mas a eu que estava no sonho estava completamente em transe e curtindo à beça. Enfim. Absolutamente nada aconteceu. Nem beijo, nem penetração, nem mucosas. Mas sinceramente, não me lembro da última vez que sonhei algo tão erótico assim.

Espero que depois de ter escrito isso eu consiga tirar esse sonho da minha cabeça de uma vez por todas.

Noite passada tive um sonho um tanto quanto bizarro. Na verdade, nem foi o sonho inteiro, mas mais para o final do sonho mesmo. Aviso desde já que foi um sonho bastante nojento e repulsivo, um tanto quanto cronenberguiano, então se você não quer ler coisas muito esquisitas, pode parar por aqui mesmo. Sonhei que tinha uma espinha próxima do umbigo. Mas na verdade não era bem uma espinha e sim uma pústula. Quando fui apertá-la para tirar ela dali, percebi que ela era sólida e maior do que eu imaginava. Apertei um pouco mais e ela não parava de sair, então resolvi puxar de uma vez e quando fiz isso veio um “órgão” meu junto cheio do que pareciam artérias. Tudo muito estranho. E a palavra órgão foi em aspas porque na verdade aquilo que estava ensanguentado na minha mão não parecia com nenhum órgão reconhecível logo de cara (estômago, intestino, fígado, etc.). Era apenas um pedaço de carne que já tinha alguns fios (artérias) cortados de um lado e o restante dos fios estavam dependurados ali na minha barriga, umbigo, porque eu tinha tirado e puxado sem querer. Não senti dor nem nada, mas fiquei olhando pra aquilo ensanguentado na minha mão e pensei “Porra, tenho que botar isso pra dentro de mim de novo. Não posso sair com isso pendurado assim na rua, é feio”. O buraco na minha barriga por onde ele tinha saído era pequeno, mas eu estava vendo como ia colocá-lo de novo dentro de mim e quando eu ia fazer isso, eu acordei.

Estou tendo uma série de sonhos bem asquerosos este ano. Esse foi um deles. Conversei com um amigo sobre este sonho e falamos algumas coisas bem importantes. Falamos mais sobre essa questão de composição identitária, que pra mim é séria demais. E principalmente sobre “defeitos que nos definem”. Que na verdade nem mesmo chegam a ser exatamente defeitos, mas enfim, características. Embora esse conceito de composição identitária seja algo completamente movediço (construímos nossas identidades ao longo do tempo) a verdade é que, quando somos testados de fato – como eu estou sendo agora – o discurso muda e a prática se torna muito mais impactante do que elocubramos na teoria. A verdade é que lutamos, constantemente, para continuarmos sendo quem somos – ou quem achamos que somos. E tentar sair disto provoca sonhos como estes. Eu já deveria estar acostumada. Mas este é o tipo de coisa com a qual a gente jamais se acostuma.

Duas vezes esse ano eu tive um sonho bastante estranho. Meus sonhos costumam se repetir, não me importo muito com isso. Mas o que aconteceu nos dois sonhos foi o seguinte: eu “vomitava”, por assim dizer, um tipo de corda, branca, leitosa e consistente. Ela parecia um nervo na verdade. Ela era frágil, mas não se arrebentava. E era meio como se fosse líquida. Era muito estranho. Geralmente eu estava lá no sonho normalmente, de repente tudo parava e essa “corda” começava a sair da minha boca e eu puxava ela com as minhas duas mãos, pra fora de mim. E ela simplesmente não parava de sair… Eram quilômetros de corda, branca, leitosa, consistente, um nervo, meio iogurtosa. Muito nojento, parecia coisa do Cronenberg. Era um sentimento tão esquisito, era como se eu extirpasse algo de dentro de mim, pois eu me sentia como se estivesse me esvaziando por dentro. E era uma corda LONGA, eu a puxava com as minhas duas mãos e ela não parava de sair. Eu achava que ia morrer, mas respirava pelo nariz. Era curioso pois isso acontecia durante o sonho e aí ficavam aqueles quilos de corda em um lado e o sonho continuava, como se nada tivesse acontecido. Eu, enquanto pessoa que sonha, achava aquilo tudo muito nojento e asqueroso. Mas o eu do sonho parecia não se importar com aquilo. No primeiro sonho eu lembro que puxava essa corda. No sonho que tive ontem, mesma coisa, eu vomitei essa corda, e quando vi que ela tava saindo comecei a puxá-la. Eu sei bem porque estou sonhando isso, sei o que significa e o significado é íntimo. Esse sonho é bem nojento, mas não chega a ser bem um pesadelo, pois ele não é ruim. Nem o sonho, muito menos o seu significado. É curioso pois por mais nojento que pareça durante, depois que termino de vomitar a corda, me sinto imediatamente melhor no sonho. Sabe quando bebemos demais na vida real e ficamos muito mal, daí vomitamos e tudo melhora imediatamente? É a mesma sensação. E estou botando muita coisa pra fora esse ano. Muita mesmo. Mais do que jamais botei. Garbage in, garbage out. E olha que eu ainda nem comecei.

Me observem.

Esses dias eu tive um pesadelo meio torredebabelístico onde cada pessoa que eu encontrava, no sonho, falava um idioma diferente e único. Todas se entendiam entre si. Eu não entendia – e não era entendida por – ninguém.

Acho que a vida é meio assim, mesmo.

I Uma sala quadrada, com várias cadeiras dispostas milimetricamente em torno de um palco quadrado.

II Há penumbra e há um facho de luz no centro do palco. Existe um divã e um pequeno armário de instrumentalização.

III Estou completamente vestida, da cabeça aos pés. Não me sinto muito humana.

IV Me dirijo ao palco sozinha, por vontade própria, subo três pequenos degraus de escada e deito-me, aguardando instruções.

V Pequenos e múltiplos sensores são instalados sob minha roupa e por minha pele. Assim, você poderia me trabalhar melhor.

VI Sussurros dizem coisas ininteligíveis em meus ouvidos. Isso é recorrente. É um sonho que tenho desde criança. Sempre foi aterrorizante.

VII Sinto que, apesar de tudo, tudo ficará bem. Tudo sairá como esperado. Esse é o propósito. Existe mais resignação que expectativa.

VIII Não consigo decifrar ao certo de onde estão vindo os estímulos, só entendo que são muitos e ao mesmo tempo. Muitas vozes. Cores. Toques.

IX “A intenção disso tudo é que seu corpo não mais desse conta e que eventualmente falhasse. Pretendo explorar justamente a beleza dessa falha. Claro que conto com a possibilidade de auto-destruição, mas na verdade isso pouco importa. Minha causa é maior.”

X Ouço o som da minha própria voz e gemidos sendo distorcidos. Não consigo entender nada do que expresso. Sou um animal. Pessoas na platéia executam anotações às quais posso ouvir com precisão.

XI Me pergunto quando aquilo tudo irá terminar. Sou ingênua.

XII Não sinto dores. Sinto coisas muito piores. É como se eu estivesse sendo completamente apagada, lentamente. E nesse processo fosse extraído absolutamente tudo de mim.

XIII Você toca meu rosto coberto, se aproxima do meu ouvido e intercala sussurros com agudos. Percebe meu corpo se contorcer e aquilo só faz com que você continue seu trabalho, friamente.

XIV Uma execução fria: estímulo, resposta, padronização, notação, execução. Repete. Cada vez mais. Até a exaustão. Até perder o sentido. Não há criatividade. Não há vida. É estéril. Sempre foi.

XV Você tem a plena certeza de que está no caminho certo.

XVI Talvez ainda dure quando eu não mais estiver por aqui. É assim que costuma funcionar. Esse é o Modus Operandi dele.

XVII A parte inferior do meu corpo, que se encostava no divã, liquefazia-se e pingava. Carne, roupas, tudo.

XVIII A parte superior do meu corpo, condensava-se e evaporava. Olhava para o meu peito e já sequer conseguia processar o que via ou sentia.

XIX Os sensores flutuavam. Havia um som de exaustão, naquele momento. E aquilo jamais cessaria.

XX “Ela não está mais lá”, o público repetia cada um a cada momento. Cada um com diferente reação. Todos com medo. “Pra onde ela foi?”.

XXI O que é você?

XXII Venha comigo. Venha comigo, D. Precisamos sair daqui. Abra os olhos. Ande. Abra os olhos. Abra os olhos… Agora.

XXIII Abri meus olhos. Não faço ideia de por quanto tempo fiquei paralisada. Quando levantei, sentei-me na cama por um momento e respirei profundamente.

XXIV Me senti tocada, quando na verdade fui violada. A diferença é sempre sutil.

XXV Estava aterrorizada. Um pouco amortecida. E tremendamente excitada.

 

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