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Onirismos

Juro que não queria sonhar com você.

Mas acho que, na verdade, tenho sonhado comigo mesma.

Eu só estou disfarçada de você.

Sonhei que estava num escritório com espelho pra frente do mar, trabalhando, quando de repente a terra se dobrava e avançava em direção ao prédio. Dava pra ver os outros estados, dobrados, vindos do céu. Até que o mar veio. Primeiro, foi aterrorizante. E depois tudo muito, muito, muito errado. Eu diria num primeiro momento que “sonhei com um tsunami”, mas não. Era algo muito pior. Era a terra se dobrando e vindo do céu, com tudo junto. E antes do primeiro impacto, eu estava em meditação. Não o senti, porque na hora que bateu no vidro, acordei pra essa realidade aqui. Enfim…

Vai ter mudança. E não vai ser pequena e nem sutil. Vai ser brusca e a olhos vistos, de todos. É a terra no céu junto com a força avassaladora e devastadora da água.

Como continuar vivendo quando a gente sabe que a catástrofe está a espreita na esquina? E que somos pequenos e impotentes e que não há muito o que possamos fazer em relação a isso? Bom, a gente só levanta e vai trabalhar porque não há exatamente muito a ser feito mesmo.

Ao mesmo tempo em que fico prostrada, também fico inquieta. Sinto medo ao mesmo tempo em que quero mais é ver o oco, para que o marasmo e o tédio se dissipem ao menos temporariamente. As coisas são todas meio ambíguas por aqui, desde que eu consigo me lembrar.

A sensação e o sentimento mais demarcado que esses sonhos causam em mim é uma sensação de urgência mesmo. Mas urgência do quê, exatamente? Bem, o tempo e os caminhos vão mostrar… No tempo que me resta, eu danço no abismo. Não tenho pressa, mas não perco tempo. Apresso-me vagarosamente. Festina lente.

30/3

7h da manhã a campainha tocou. Abri a porta, voltei a dormir. Não consegui dormir. Acordei e comecei a fazer o bacalhau. Almocei e dormi, profundamente. Eu estava cansada da semana. Choveu enquanto eu dormia. Eu esperava não dormir demais mas ainda estava desregulada da semana e da falta de remédios. Acordei 18h pra um compromisso às 18h, com gente perguntando se eu ia mesmo ou não. Ia. Vou. Estou indo, mas devagar, porque não quero correr na chuva. Cheguei para uma pequena seção do filme do Doutor Estranho. O filme ainda estava relativamente no começo. [Spoilers adiante]. No final do filme, o Doutor Estranho vai até o antagonista e entra em um loop temporal onde diz, eternamente, “vim para negociar”. E chega em um acordo a partir de uma persistência que pode ter sido quase eterna. Guardei essa cena com carinho em algum espaço da minha mente. Não costumo negociar, não sou boa negociadora e, principalmente, não negocio com terroristas. Mas acredito que essa minha perspectiva talvez caia por terra em algum momento um pouco mais adiante.

31/3

Durante o dia passeamos pela Liberdade, fomos em lojas, comemos lámen. Voltei pra casa. Não me lembro se dormi. Senti as vibrações do arquétipo de mãe, me emocionei, chorei um tanto. Arrumei minhas coisas. A saia, o xale, as baquetas, o tambor, o tarô, as cumbucas, o yoni egg, as velas, perfumes, o livro, a pulseira, o pesto, tentei não esquecer nada, acho que não esqueci. Levei 15 minutos daqui até ali. Me sinto em casa, me sinto bem vinda, me sinto confortável, me sinto querida, principalmente. As pessoas foram chegando aos poucos, mas antes eu fiz um jogo de tarot pra ela. Foi meu primeiro jogo sério que fiz pra outra pessoa, depois de ter consagrado o tarot por duas luas novas, os arcanos maiores e menores. Meu primeiro tarot foi o Wild Unknown, mas depois de um tempo me apaixonei pelo Thoth do Crowley. Ele é meio agressivo, pra dizer o mínimo, mas eu gosto dele justamente por conta da sua complexidade. Ele fornece mais informações. Mesmo sem tanto conhecimento dos contextos, cartas, etc. é mais fácil lê-lo por conta das cores e dos símbolos. Acho que preciso estudar mais também, mas enfim. As cartas falavam sobre uma história que se repete. Pediram pra que ela fosse menos dura, mais branda. Que se abrisse mais, se divertisse mais. As cartas de fogo dançavam com as cartas de água. Enxerguei repetições, recomeços e reprises n’O Louco e no Dois de Ouros. Agradeci o Thoth por não ter sido tão agressivo dessa vez. Talvez ele tenha sido assim porque se tratava de outra pessoa e não de mim, que sou “de casa”. Porque comigo é só violência. Após o ritual e a meditação, fiquei com sono e fui pra casa. Carta para o dia 1/4: a Torre. Ok. Vamos lá. Dormi.

1/4

Sonhei que tinha ido visitá-lo, em uma quitinete pequena, escura, suja e mal iluminada. Ele estava com um semblante bem cadavérico e estava envolto por sombras, não conseguia nem enxergá-lo direito. Senti uma tristeza bem profunda pela cena. Não me sentei em nenhum momento porque era um lugar que eu não queria ficar, na verdade. Fiquei triste por tudo, pelo lugar, por ele, pela forma que ele estava, pela forma que se tratava. Perguntei por ela, ele disse que ela não estava mais. De qualquer modo ela veio até a porta, olhou o que acontecia e foi embora. Tudo muito estranho e triste. Um sonho estranho, um lugar muito escuro, eu me sentindo meio mal por testemunhar aquilo tudo. E ele reagia das formas que geralmente reage com problemas: com ironia, passivo-agressividade, sarcasmo, enfim. Não acordei tão puta ou bolada com esse sonho, só acordei triste mesmo. A irritação só veio depois porque eu achei que isso tivesse acabado em janeiro, mas parece que não. Não sei mais o que fazer. Não quero mais sonhar com isso e a impressão que eu tenho é a de que vou ter que, continuamente, usar de artifícios para me livrar disso. A repetição, novamente. Não sei se isso é algo que está emperrando certas áreas da minha vida, ou se é pra ser assim mesmo, se isso faz parte, queria descobrir. Não que isso esteja inviabilizando minha vida nem nada, mas isso tem me incomodado. É um incômodo, pois é uma coisa que pra mim já estava superada. Pedi ajuda, me falaram pra fazer algo que eu já fiz. Obedecerei. Me disseram que simboliza, com muita força, o que eu tenho sentido pelo masculino, pois se trata do último referencial. Quando preciso elaborar conteúdo afetivo com o masculino (seja qual for), acontecem os sonhos. Há também uma ligação de alma que se mantém, uma frequência que precisará ser mudada. Vênus em peixes, ascendente em capricórnio: crio sempre ligações muito fortes. Não quis pensar nisso ao longo do dia. Fiz brunch, saí no meio da tarde, deixei um presente com uma amiga e fui me encontrar com eles no Sesc Pinheiros, pra um show. Chegamos no horário, sentamos na cadeira, primeira coisa que ouço:

“Eu vou deixar ela ir embora
Chegou a hora
Chegou a hora

Eu não vou mais me fechar pra sempre

Daqui pra frente
Daqui pra frente

O que começa terá seu final
E isso é normal
Isso é normal

A dor do fim vem pra purificar
Recomeçar
Recomeçar”

Bom, só eu sei o quanto eu chorei. Voltei pra casa, parei num lámen antes, deixei minha moto na rua, retornei, minha moto estava com o manete da embreagem quebrado. Deve ter caído e quebrou. A Torre, enfim. Voltei pra casa a pé, era perto. No caminho liguei pro mecânico, marquei pra amanhã, larguei a moto à própria sorte por ali mesmo. Espero que ainda esteja lá amanhã quando eu voltar.

Ovulo ainda hoje.

A lua começou a minguar.

 

O tambor começou a tocar e eu reconhecia aquilo, aquele som. Meu coração estava disparado e eu não sabia o que fazer para me acalmar. A respiração, descompassada. Me vi no meio de uma mata atlântica, fechada. Chovia e fazia um pouco de frio. Uma loba raivosa, cinzenta. Uma serpente no meio do caminho. Uma arara azul no céu. Eu não sabia ao certo o que tinha que encontrar, eu estava com medo. O coração ainda disparado. Vi um toco de árvore, uma árvore morta, cerrada no meio e um buraco. Um buraco cheio de lama e lodo, frio. Eu não queria entrar ali. Quando entrei, o som se desfez e se tornou uma outra coisa. Se tornou um som fantasma. Uma música que não estava ali, que eu não conseguia ouvir, apenas sentir. Não gostei da experiência por ela ser completamente fora das coisas que estou acostumada a experimentar. Eu descia um buraco escuro pegajoso e aquilo tudo demorava demais. Não passava. Estava frio. Morcegos passaram por mim e aos poucos apareceram pedras e formações. Andei mais um pouco e vi uma fonte de água, quente, radiante, iluminada, de um azul muito muito intenso, contrastando com o restante da caverna, frio e escuro. Fiquei hipnotizada por aquela cor, queria tocá-la, mas tive medo. Falei pra água que estava ali porque tinha feito um tambor, embora não estivesse com ele no momento. A água não respondeu e permaneceu em silêncio, morna, quente, translúcida, iluminada. Olho para baixo e na minha barriga, no meu baixo ventre, um tambor das proporções que eu tinha feito, se forma. Quando olho em frente de novo, daquele pequeno lago quente e iluminado sai um lagarto de fogo, das cores amarelo, laranja e com as extremidades (patas e rabo) em vermelho. Sim, um réptil. A medicina dos sonhadores. Adaptabilidade. Regeneração. Sente abalos sísmicos antes que aconteçam. Frutifica o que é sutil. O bicho asqueroso cor de fogo saiu do lago rapidamente e rastejou até mim e entrou no meu baixo ventre, vindo morar em mim e no meu tambor. Nessa hora eu sentia meu útero contrair. Meu coração continuava disparado, mas aos poucos foi acalmando. Coloquei minha mão direita sob meu baixo útero e minha mão esquerda sob o meu peito. Caminhei em direção ao lago e entrei na água quente, até ficar completamente imersa. Eu não queria mais voltar.

Essa noite sonhei com demônios que não eram meus. Tenho tido sonhos recorrentes com um desafeto, por assim dizer. Na verdade eu não sinto nada em específico, mas volta e meia meu inconsciente faz essa pessoa submergir pra cá. Acordo sem entender, não sinto nada, nem raiva, nem ódio, nem desprezo… Me sinto indiferente e fico curiosa com os rumos do sonho, apenas. Mas este sonho com demônios esta noite foi em uma reunião familiar de um desafeto em específico. Foi bem tensa a coisa toda. Enxerguei dois demônios, um mais óbvio, outro nem tanto. O mais óbvio era imenso, devia ter uns 2 metros de altura, patas de aranha, ele tinha 3 rostos e o ventre (?) dele cuspia, com muito esforço, um corpo pra fora. O outro demônio apareceu nos olhos da mãe do desafeto, que ficou trincado e amarelado do nada… O sorriso dela também mudou, como se estivesse apodrecendo. No sonho eu só estava como observante e quando vi a coisa ficando muito feia simplesmente fui embora da situação. Basicamente eu sonhei que dois demônios estavam no círculo familiar de um desafeto meu, sendo que um deles inclusive tinha ligação direta com o desafeto em questão – estava na mãe dele.

Como me senti no sonho? Com um pouco de medo – mas não muito, pois eu sentia que estava protegida – e quando vi tudo aquilo acontecendo, quando me vi testemunha da desgraça da casa e da família de alguém, me senti triste. De verdade. Acordei e a primeira coisa que pensei foi “espero tudo isso seja só um sonho mesmo. espero que esteja tudo bem com essa pessoa ou que ao menos fique, eventualmente… por que por hora parece que está um tanto quanto foda”. Fiquei um pouco preocupada também. Sim, com um desafeto. Não é meio louco, isso? Meio irracional? Sei lá, na verdade, completamente contraditório. Fui pensando mais nisso ao longo do dia. Sempre achei meio bobo o conceito cristão de dar a outra face, sempre pensei “ninguém faz isso”. E ninguém faz mesmo… Também sempre tive dificuldade em entender o conceito de rezar por quem você não gosta ou por alguém com quem você já teve algum tipo de problema. Ou ainda, colocando em termos mais diretos e simples: rezar pelos seus inimigos. Isso nunca fez nenhum tipo de sentido pra mim. Acho que já tenho recebido sinais disso há algum tempo mas só hoje é que ficou claro pra mim.

Hoje depois desse sonho, acho que estou começando a entender isso. Mas estou bem no começo mesmo, pois ainda estou meio bolada e chocada com o fato de estar entendendo isso. Embora seja meio óbvio, este não é um entendimento muito racional. Sempre pensei que o que a gente não gosta e o que nos faz mal tem que ser aniquilado, né? E “tem mais é que se ferrar mesmo, foda-se” e rir da desgraça dos outros parece ser sempre a saída mais fácil. E é, de fato. No entanto, as saídas mais fáceis muito frequentemente não são as mais adequadas. Mesmo. Como uma amiga disse hoje, nossos inimigos nos mostram a nós mesmos, quem somos de verdade. É claro que a gente nem sempre vai conseguir pensar desse jeito, afinal somos humanos: vamos pensar que foi “bem feito”, vamos querer q o outro se lasque mesmo, etc. Tem vezes que essas coisas vencem. Mas elas nunca se satisfazem por completo: porque a gente sempre vai querer mais, até a aniquilação completa do outro. Elas se retroalimentam, essas coisas. Mas na medida em que pudermos ser consciente sobre elas e evitar alimentar isso, vou tentar fazer isso sim.

Sonhei que estava com uma colega numa biblioteca e estávamos mexendo num gavetão velho, caindo aos pedaços, de fichas catalográficas. Por entre as fichas alguém decidiu esconder dinheiro. Era dinheiro todo amassado, feito pra ser escondido mesmo. Decidi que roubaria tudo. Minha colega ficou chocada. “Você vai ROUBAR isso? Esse dinheiro não é seu!”. Até ela falar em roubar eu não entendia o que estava fazendo como roubo. Mas roubei, sim. Uns mil reais, por aí, em notas de 100, 20 e 10. Literalmente coloquei nos bolsos da calça. E acordei com o despertador, me sentindo muito culpada. Hoje é feriado nacional e ainda assim eu esqueci de desligar o despertador, enfim… Acordei me sentindo duplamente chateada e culpada. Constrangida.

O sonho foi muito mais longo mas esta parte foi só um detalhe final. No entanto, essa parte foi o suficiente pra me fazer esquecer o resto do sonho. Acordei me sentindo muito culpada sim, pois sabia que tinha feito algo errado. Por que é que no sonho não achei que fosse errado, em primeiro lugar? Por que que isso sequer se passou pela minha cabeça? Isso é tudo muito estranho e não consigo me refrear de investigar sobre isso e fazer pequenas análises e correlações que possam me ajudar em algum sentido. Muita gente que conheço acha que isso é besteira, que são “só sonhos” e que não seria nada demais, que eu deveria esquecer disso. Mas eu sou teimosa e acho que pra mim são sinais e que devo reconhecê-los.

Eu levo meus sonhos muito a sério. Não é sempre que eu tenho a sorte de acordar e me lembrar deles. Isso só acontece quando eu acordo sentindo algo muito profundamente. Hoje calhou desse sentimento ser culpa. Mas poderia ser qualquer outra coisa como já foi outras vezes: tristeza, amor profundo, gratidão profunda, paixão, um medo desesperador. São só coisas que estou sentindo? Sim. Devo olhar pra elas com carinho, cuidado e respeito? Olha: eu prefiro assim, viu? Tendo olhar para todas essas coisas e fazer associações livres e relações com a minha vida, a fim de perceber alguns padrões. E isso já me ajudou a enxergar coisas incontáveis vezes. Lembrar de um sonho é um presente da gente pra nós mesmos. Ter a sorte de lembrar de um!

E então eu acordei do sonho, respirei profundamente, senti tudo aquilo que o sonho me ofereceu com intensidade e camadas de detalhes e depois comecei a tentar analisar tudo de forma mais relaxada e menos severa comigo mesma. Existem vários elementos de realidade no meio desse sonho que tive. Na minha vida, estou passando por uma situação financeira crítica e isso me causa medo e insegurança em algum nível, logo sonhar com algo assim não é tão descabido, pois nos sonhos e pelo inconsciente não nos refreamos de nada. Mas a culpa e o constrangimento que senti logo ao acordar foi absolutamente pungente.

Por que roubar? Por que escolher fazer algo errado? Qual a necessidade disso?

Alívio da carga, talvez. Com o dinheiro talvez eu pudesse pagar umas contas a mais e sobrasse um pouco mais pra viver melhor, pra me sentir mais segura, com menos medo. Talvez por isso não tenha me sentido culpada no sonho e sequer tenha percebido que estava fazendo algo errado – era como se fosse meu por direito, como se fosse “um presente”, só por eu estar passando por uma situação delicada. Encontrar o dinheiro ali foi como se eu o merecesse, como se estivesse ali para mim, não como se fosse de alguém e estivesse sendo subtraído. No entanto, tive a minha colega pra me avisar: “ei, o que você está fazendo é ROUBO!” e aí, consciente desta ação no sonho, decidi fazer igual. E sem constrangimento algum, inclusive.

Por que estou tendo tanta dificuldade em me aliviar dessa carga? O que falta? Não tenho feito o que está ao meu alcance?

Tenho sim, na medida do possível. Mas a gente sempre quer que as coisas se resolvam de maneira imediatista né? Pra ontem! E sabemos que a vida não funciona bem assim. Existem processos e existe uma curva de aprendizagem e é por isso que estou passando no momento – e eu devo passar por isso, pois faz parte de tudo. Talvez eu esteja ansiosa e impaciente também em algum nível que eu não perceba e o sonho só tenha deixado isso claro. Às vezes, na vigília, eu queria mesmo que “o tempo passasse mais rápido” e “as coisas se resolvessem” mas…. Para quê? Por que a rapidez? Que fase eu quero pular? Desta vez, e somente desta vez, eu não posso me culpar tanto por não pedir ajuda, porque tenho feito isso sim em certa medida.

Achei curioso o fato de o dinheiro estar em gavetões de antigas fichas catalográficas. Seria isso uma pista de alguma coisa? É engraçado e curioso, porque, em certa medida, isso meio que já se concretizou na minha vida em algum sentido. Sou bibliotecária, não atuo em biblioteca, no entanto eu me apropriei (roubei? rs) as técnicas da área para utilizá-las em outros meios e assim: fazer dinheiro. Inclusive a colega que me avisou do meu roubo também é bibliotecária e também migrou de área nesse exato mesmo sentido. Coincidência? E essa culpa também não poderia ser de ter “abandonado” uma área com a qual me identifiquei fortemente por ANOS A FIO e migrado para uma área relacionada? Talvez, pode ser também. Algo a se pensar.

E eu roubei em um sonho… Eu poderia expandir e inverter isso também e me perguntar que sonhos que eu sinto que estejam sendo roubados de mim? Afinal, dois parágrafos atrás eu falei justamente isso: “que fase eu quero pular?”. Será que estou querendo de algum modo roubar de mim mesma experiências pelas quais preciso passar para o meu próprio desenvolvimento pessoal? Pode ser… E talvez não esteja enxergando isso. E talvez eu devesse prestar mais atenção nessas coisas todas. Talvez. 

Ou talvez tudo isso seja bullshit pura e tudo isso “só seja um sonho”…. rs

I

Essa noite eu tive um sonho com o meu antigo trabalho. Sonhei que me chamavam até lá para algum tipo de atividade que eu deveria executar e eu me esforçava e ia, e aí quando eu chegava lá me diziam que não precisavam mais de mim. Me lembro que no sonho me senti bastante frustrada com isso mas no entanto eu fiquei lá. Eu não ia embora daquele lugar e ficava olhando as pessoas. Foi uma sensação bem esquisita e tão, tão familiar. Eu não era necessária ali mas esse fato não parecia me importar muito. No sonho isso não me importou muito, mas fiquei estarrecida com isso quando pensei no sonho, várias vezes ao dia. É como se em algum nível eu não me importasse em ser completamente inútil. Ou ainda, como se eu quisesse isso. No caso do sonho, o contexto não era exatamente muito feliz. O antigo trabalho me demandava coisas, posturas, entregas, resultados. Não podia me dar ao luxo de ser inútil ali. Mas no sonho eu era, eu fui. Tentei ignorar esse sonho conscientemente o dia todo – talvez porque ele tenha me deixado triste – e falhei. Várias vezes ele voltava pra mim, indicando algo. Até eu resolver escrever sobre ele por aqui e tentar juntar alguns pontos.

II

Hoje me deparei fazendo uma pergunta bem imbecil para uma colega experiente. Me senti imbecil bem logo depois de ter terminado a pergunta. Não tive tempo de me conter e não fazê-la. Me dei conta então de que tenho feito uma série de perguntas bem imbecis pra várias pessoas, geralmente esperando respostas sim/não quando na verdade, a vida é muito, mas MUITO mais complexa que isso. Como se uma resposta sim ou não fosse resolver os meus problemas ou qualquer problema que o valha. Aliás, esta é uma questão séria para mim: eu preciso PARAR de querer resolver as coisas, por algum tempo. Vou um pouco mais longe: eu preciso começar a não só não querer resolver as coisas, mas o exato oposto disso, adicionar ainda mais complexidade à elas. Não complicá-las, não fazer tudo errado, nem nada desse tipo – porque eu não sou assim, esta não sou eu. Mas me deslocar deste lugar onde estou, há anos. Praticar um pouco a tal da porra da alteridade. Observar mais. Entender, com calma, sem pressa, sem necessidade de resultados exatos, precisos, corretos, os porquês de as coisas de desdobrarem e como as coisas se desdobram. Eu tenho feito as perguntas erradas. E, obviamente, nenhuma resposta vai me satisfazer deste jeito. Claro. E eu sinto medo de uma série de coisas, parece. Isso me gera a famigerada travação. Não física, nem nada, mas de ação, mesmo. E a quem eu quero enganar mesmo, eu não estou contemplando porra alguma. Eu simplesmente não estou fazendo o que deveria estar fazendo.

III

Eu caí duas vezes de moto. As duas vezes foram no estacionamento, quando tive que sair de casa. E nas duas vezes eu precisava acelerar e na hora, por algum motivo que desconheço, eu me assustava, freava e caía. Não era pra frear, era pra acelerar, porra, eu estava em subida! Mas enfim, eu parava de acelerar, a moto morria e eu caía. Assim foi, duas vezes. Até então não tive nenhum acidente no trânsito, só estes mesmo. O problema da aceleração pra mim vem desde as primeiras aulas que tive de moto, do processo inicial de aprendizagem. Eu tenho, tive, medo de acelerar. Medo do barulho do acelerador, do próprio ronco da moto. Medo de uma máquina viva, explodindo continuamente, bem debaixo da minha virilha. Medo de perder o controle e me acidentar ou ainda pior, machucar os outros. Acelerei muito pouco nas aulas, é verdade. Tenho acelerado bem mais no trânsito, enquanto rodo e me acostumado mais com isso. Mas o que essas duas quedas ridículas no estacionamento me ensinaram foi que aceleração não implica em velocidade. E que sim, a aceleração é barulhenta mesmo, não tem muito jeito de ser diferente disso, é melhor eu me acostumar. E que numa subida, num caminho que me leva efetivamente pra cima, se eu não acelerar, eu também posso me acidentar. E possivelmente machucar outros também. Hoje em dia, quando pego um túnel e existe uma subida onde preciso acelerar, eu geralmente grito, pois isso me ajuda a manter a aceleração sem hesitar. Isso me ajuda a perder, mesmo que seja um pouco e por alguns momentos, o controle. E assim, paradoxalmente, a manter o equilíbrio.

IV

Eu preciso escrever e não consigo escrever. Passei o dia todo procrastinando, olhando as telas. Não li nem uma linha sequer. Não escrevi nem uma linha sequer. Tento me convencer de que preciso de uma estrutura e no momento ela é ausente. Não tenho a mínima ideia sobre o quê falar – como se eu não tivesse nada a dizer. Tenho coisa pra caralho pra dizer, mas não sei como, não sei por onde começar. Insisto que preciso de uma estrutura. Dou conta de fazer ainda pior: insisto que o que eu preciso escrever precisa ser FUNCIONAL e que precisa ser usado posteriormente, inevitavelmente, pois não quero “perder tempo”. Que tempo? Tempo do quê? Perder o quê? Enfim. Segundo eu mesma, o artigo que preciso escrever, precisa ter uma exata estrutura, abordar tais e tais assuntos, se encaixar em determinado contexto e, para mim, só assim eu vou ter feito um bom trabalho. E eu estou tão puta comigo mesma por pensar assim. Tão incrivelmente puta. Eu estou definitivamente com raiva disso, de mim. Agindo desse jeito eu estou simplesmente matando o meu próprio trabalho, matando qualquer tipo de espontaneidade e inviabilizando qualquer tipo de criatividade. Tá tudo errado. Eu preciso abrir mão disso. Não existe estrutura e não vai existir à priori. Querer ser funcional é uma verdadeira derrota pra qualquer tipo de pensamento que se preze. E no fundo, no fundo, eu já sei o que fazer. Eu sei exatamente o que fazer. Eu só estou com medo. Mas agora eu estou com mais raiva do que medo. E assim eu sei que vai ser mais fácil eu me movimentar em direção de qualquer coisa.

 

 

Dias atrás me liguei de que tive dois sonhos sobre o mesmo tema, por duas noites seguidas. Não notei de imediato, pois o sentimento foi muito sutil no sonho e demorei pra desenvolvê-los enquanto acordava e me recobrava. Preciso desdobrar os sonhos assim que acordo e é sempre difícil decifrá-los, entender seu contexto na minha vida e entender porque os tenho. Dissociar o que sinto enquanto ser atuante no sonho e enquanto ser que sonha. Mas toda tentativa é válida.

Sonho I

Sonhei que estava em alguma manifestação na universidade. Tinha gritos, correrias, bombas de gás lacrimogêneo. Eu estava confusa e com medo, claro. Lembro-me que saí correndo não em direção de fugir da confusão, mas ao encontro dela. E de alguma forma muito estranha e totalmente não proposital eu soquei alguém importante lá. Quase que no mesmo momento em que fiz isso eu já sabia que estava fodida. Sabia que ia ser pega e que iam me infernizar. Mas não fiz nada com intenção, com propósito, foi sem querer mesmo, não foi na maldade. Machucou? Bom, lamento, tá na chuva é pra se molhar, vida que segue. Fui pega na mesma hora e tudo aconteceu de forma muito rápida no sonho: fui levada para uma sala pra ser interrogada. Fui insistentemente acuada por uma mesa com 5 pessoas, 2 mulheres e 3 homens que tentavam me fazer “confessar” o que eu tinha feito e principalmente como tinha feito. Pessoas que nunca tinham me visto na vida e me julgavam com base em nada, sem sequer me conhecer. No começo não queria responder a pergunta alguma, neguei todas as acusações, falei que se tratava apenas de um acidente e era isso. Mas obviamente eles foram insistentes na história em que eles preferiam acreditar e que queriam que eu verbalizasse e aquilo foi aos poucos me irritando muitíssimo. Em dado momento fiquei muito puta mesmo e revidei dizendo que soquei sim e que foi de propósito, e que socaria de novo se preciso. E que foi sim na maldade mesmo. E que tudo o que eu mais queria naquele exato momento era socar a cara dos cinco que estavam ali até desfigurá-los. Quis dar o que os satisfizesse, mesmo que momentaneamente, mesmo que isso fosse me foder depois. Só queria que parassem de me acusar falsamente. Depois que estourei no sonho e disse essas coisas, acordei sentindo muita raiva, uma raiva que subia do estômago até a área central do peito e depois pra cabeça.

Sonho II

Sonhei que estava em um mercado fazendo algumas compras para casa. Nesse mercado havia uma seção em que tinham algumas pedras que pareciam não ter preço algum, estavam simplesmente dispostas ali. Não pareciam a venda, não pareciam ser de alguém, não eram preciosas: simplesmente estavam ali, dispostas. Tive um episódio de cleptomania e peguei as duas pedras e coloquei-as entre meus seios, como se quisesse roubá-las do mercado. Estava quase chegando no caixa quando um segurança começou a me sondar e ele tentava, discretamente e sem sucesso, me revistar e me impedir de sair do mercado. Notei isso na hora e fiquei muito, muito puta. E no sonho considerei que agi como normalmente NÃO ajo: dei um puta de um piti do caralho, gritei pra todos os presentes que quisessem ouvir que aquele segurança estava me ameaçando, que ele me achava uma ladra e, sim, as pedras estavam no meio dos meus peitos. E eu estava profundamente ofendida com tudo. Só sei que fiquei tão puta no sonho que larguei o meu carrinho de compras onde estava, saí esbravejando do mercado e correndo, como se estivesse fugindo mesmo. Depois comecei a voar e em dado momento era como se eu estivesse subindo para algum lugar com o auxílio de uma corda. Aí eu acordei, sentindo um misto de raiva e medo, medo de ser pega fazendo algo errado realmente.


No Sonho I considero que enquanto estou acordada normalmente tenho este tipo de reação mesmo. Não me defendo quando preciso, pelo contrário: deponho contra mim mesma. Além disso não distribuo a minha raiva equitativamente, eu a acumulo ao ponto dela voltar-se contra mim mesma, sempre. Não sei porque ainda ajo assim, mas é o que acontece, é bastante comum. Nesse sentido não tenho nenhum senso de auto-preservação e meu comportamento tende a ser puramente auto-destrutivo mesmo, ainda mais em lidando com pessoas que efetivamente querem e torcem por me ver muito mal. Até este sonho, nunca tinha parado pra pensar sobre isso, mas tudo isso o que escrevi acima é muito real. É um padrão que gostaria de quebrar. Isso de “não sentir raiva” não existe. Raiva é essencial pra funcionarmos enquanto humanos. No entanto preciso saber equalizá-la de modo que eu não seja irascível e não acabe me prejudicando sem necessidade alguma disso. Já tomei decisões bastante imbecis em momentos de raiva. E sim, geralmente odeio me sentir acuada e quando isso acontece eu me torno uma camicase mesmo: ao invés de manter minha auto-preservação, deixo-a em suspenso por questão de minutos e simplesmente ataco (ao outro, à mim mesma, enfim, tudo a mesma coisa), por mais que me arrependa disso depois. Geralmente depois disso não há para onde retornar. Acredito que terei um longo caminho até mudar esse tipo de comportamento, mas já é interessante me saber consciente dele. Provavelmente me sentirei acuada mais vezes ao longo da vida e vou me ver obrigada a lidar com isso de modo razoável.

Já o Sonho II tem várias interpretações. Quando eu faço coisas erradas, para mim em algum nível, elas não são consideradas moralmente erradas, mas sim um desvio apenas, uma doença (cleptomania). É sempre como se não fosse nada demais, quando na verdade é. E eu sempre assumo o risco, mesmo sabendo que posso ser pega. O que achei curioso no sonho foi o fato de eu ter dado um piti quando o segurança desconfiou de mim. Na vida real faço bem o oposto disso: quando me acusam de algo que fiz de errado, tento primeiro assumir o erro mesmo e depois pedir desculpas por tê-lo feito e prometer melhorar da próxima vez. Não dou piti porque acho realmente exaustivo, perda de tempo e acredito que não me leve a lugar algum, realmente. Novamente: eu evito o embate, reprimo raiva entre ouras coisas, etc. E o fato de eu ter fugido no sonho denota algo que é recorrente comigo: o escapismo. Ao invés de encarar e resolver o problema de fato, eu vou embora, fujo, mesmo que lidar com essa fuga seja mais frustrante e ainda mais desgastante que lidar com o problema. Parece um contra-senso, mas é bem real. E acontece com frequência comigo.

Os dois sonhos tratam sobre a raiva que eu sinto e sobre como eu lido com ela (ou não né). Preciso rever tudo isso, ver o que permanece e o que vai precisar ser mudado. Preciso evoluir a partir deste ponto que estou, pois nenhum dos dois exemplos me pareceu muito bom – e estão intimamente relacionados com o que sou e quem sou hoje. Hora de mudar.

I

“Escorpião normalmente vive através de processos de morte e renascimento, e também lida com questões de poder, sexo, transformação e cura”. (Casa X, Marte, Saturno e Plutão)

II

Hoje eu sonhei que conversávamos sobre uma série de coisas, emendando as conversas que tivemos ontem de tarde e à noite, durante o jantar. A gente estava na cama e você fazia um cafuné na minha nuca e nos meus cabelos, e aquilo me excitava. Acho que era manhã, já. Nos beijamos longamente e eu queria aquilo, eu queria você. Você prendeu meus cabelos de lado, delicadamente, como sempre faz e eu… Acordei. Com raiva. Quis voltar pro sonho. Não consegui. A raiva aumentou. Esperei que passasse. Tentei abstrair. Esqueci, fui fazer outras coisas. Mas a vontade, ainda existe.

III

Quase perdi o ônibus, perderia a viagem e teria que ficar mais uns dias por lá, tendo que aturar todo o acontecido. No dia anterior tínhamos brigado. Aquela seria a última briga pois foi o limite de tudo. O cúmulo de tudo chegou na agressão e da falta de respeito mútuos. Quebrei um quadro, sem querer. Não me importei na hora, eu estava com muita raiva. Eu só queria ir embora. Fui. Voltei no dia seguinte ou dias depois, não me lembro mais. Faz tanto tempo. Voltei porque aquilo precisava ser finalizado de algum modo. Eu sabia que estava indo embora para nunca mais voltar. Acho que fomos buscar minha mala na casa dela e faltava algumas poucas horas pro fim. Eu estava pronta pra ir. Eu não estava pronta pra ir. E trepamos, desesperados. Foi desesperado, triste e violento… Como tudo. Eu não tirei minhas roupas, não tirei minhas botas, na verdade eu preferia assim. Foi rápido e desesperador. Não tínhamos tempo. Nunca tivemos. Foi uma boa maneira de me lembrar de você pela última vez. O sexo parece revelar o que as pessoas são e sentem verdadeiramente, na hora do orgasmo. E você parecia assustado. Ou ao menos parecia que esperava qualquer coisa menos aquilo. Eu também não esperava aquilo. A flecha atirada que se volta contra mim mesma. Eu não queria e queria ao mesmo tempo. Não me esqueço daquele seu último olhar. Uma memória acertada. Fui embora da mesma forma que cheguei: do nada. Faltava meia hora pro ônibus sair. Fomos correndo. Não senti absolutamente nada me despedindo de você. Estava completamente vazia. Consegui chegar a tempo de nunca mais precisar voltar.

IV

Lembrei esses dias de algumas coisas que aconteceram há alguns anos atrás e pensei “cacete, eu fiz tudo mesmo isso? Por que?”. Atualmente eu não reconheço mais essa pessoa que fez todas essas coisas… E nem foi há tanto tempo atrás assim não, 2013, talvez 2011 também. É complicado. Esses dias percebi que houve um fim de ciclo na minha vida e me vi não sendo muito reativa em relação a isso. Não é questão de estar em negação não, isso já estava previsto de algum modo e não fui pega inteiramente de surpresa. Era o esperado, então passadas as burocracias, a aceitação aconteceu sem maiores problemas. Entendi o que houve e tentei lidar com isso de forma madura, não-reativa e estava realmente preparada para o que poderia acontecer. Usei meu plano B e toquei a vida porque é assim que as coisas são. Aí comparei com alguns anos atrás e fiquei um pouco chocada com a forma que eu (não) lidava com fim de ciclos. Tudo bem que era outro momento, existiam outras coisas me influenciando, eu me sentia muito mal, sempre, em relação à tudo… E posso dizer que não lidava porque de certa forma pra mim sempre foi muito mais cômodo entrar em negação e ir por um caminho auto-destrutivo. Eu sinto muito, hoje, pela forma que me tratei há alguns anos atrás… Mas hoje eu consigo me perdoar por isso. E a tentativa, agora, é a de não repetir esse tipo de comportamento.”Everything I ever let go of has claw marks on it“. Hoje eu sei que, quando é assim eu me machuco também. E isso não é um valor pra mim, não quero e não preciso mais viver deste jeito. Eu compreendo que não precisa mais ser assim. Existem outros meios. Existem outras coisas. Existe vida além de toda essa morbidez. Eu não preciso mais disso. E esta é uma escolha que eu decido ter, todos os dias.

V

Dia desses sonhei com uma pessoa que na verdade eram várias. A pessoa que eu via era um homem, meio grande, meio alto, não me lembro direito de detalhes do rosto dele. A única coisa que lembro com certeza era que ele tinha uma tatuagem no lado esquerdo do peito e que ela estava descascando, em processo de cicatrização. Ele era um homem mas ele tinha camadas de gente nele… É difícil explicar. Eu queria muito me encontrar com ele na vida real. Lembro que no sonho me sentia muito bem com ele ali, me sentia muito feliz, era uma energia estranha, boa. E lembro também que eu ficava olhando ele e ficava tentando encontrar nele algumas pessoas em específico, pois ele parecia conter várias pessoas que eu conhecia em si. E eu me frustrava pois não conseguia encontrar ninguém direito, só sabia que ele era uma fusão de várias pessoas que eu amo, amava, amei… Não existia tempo verbal, ele era tudo num só. Ele era quase puro amor. Perto desta pessoa eu só conseguia sentir isso. A gente estava num lugar que parecia uma casa antiga e era tipo um escritório, um lugar com estantes enormes e cheias de objetos. A gente conversava sobre algumas coisas e ele me falou que eu deveria escolher alguns objetos que gostasse mais ou ir apenas mexendo nos objetos que me chamassem mais atenção, pois a partir das minhas escolhas e movimentações ele faria uma “leitura” de mim. Tinham vários bibelôs, imagens e objetos que nem sei dar o nome, de várias cores e formatos. Fui olhando e mexendo, até terminar com todas as estantes e no final, quando ele ia começar a falar o que ia dizer, eu o abracei bem forte. E ele me abraçou de volta. E esta foi a melhor sensação do mundo. Soltei do abraço e acordei. Senti uma saudade que aos poucos foi ficando dolorida e depois passou. Não sei quem era, não sei quem foram. Só sei que foi.

Noite passada eu sonhei com você de novo. Foram duas vezes nesta semana já. Não sei o que fazer destes sonhos, entendo que não há nada a ser feito. Não os relaciono de algum modo com o que vivo atualmente, é tudo muito distante. O primeiro sonho foi estranho, um encontro, do nada. Foi tudo muito melancólico. Dizíamos um ao outro em uníssono “uma pena não falarmos a mesma língua” e tudo ficava por isso mesmo. Éramos uma só voz. Acordei reconhecendo o sonho apenas, mas sem sentir nada em especial: nem tristeza, mágoa ou saudade. Eu não conseguia sentir absolutamente nada.

Ontem o sonho foi um pouco mais complexo. Sonhei que estava em alguma outra cidade, existiam ruelas estreitas e era um bairro boêmio. Eu conversava com a garota e por algum motivo éramos amigas – o que não entendi, mas enfim, ok. Ela vestia branco (parecia que estava vestida de noiva, como da primeira vez que sonhei com ela) e estava triste, chorava e me confessava coisas. Ela parecia exausta não física, mas emocionalmente. Parecia estar em seu limite. Eu apenas ouvia mas estava ocupada demais tentando encontrar o lugar em que você estaria. Me senti muito madura no sonho, como se eu fosse mais velha – mas que ao mesmo tempo eu fosse um certo tipo de “novidade” (bem, não deixaria de ser, acredito). Parecia que estava rolando um lançamento de um livro, seu. E estávamos te procurando. Te encontrei e você estava atipicamente eufórico e até mesmo amigável, me contando sobre o livro. Como você fica quando fala de trabalho, em qualquer evento. Achei estranha a forma que você se focou em mim e deixou a garota completamente de escanteio. Isso me deixou desconfortável até. Você me mostrou todo o seu trabalho e, como sempre, queria que eu desse minha pronta opinião o que, contrariamente ao meu costume, aconteceu. Disse minhas primeiras impressões na lata: que o livro estava mal editado, que algumas folhas estavam soltas ou caindo, mas na contra-capa do livro vi um desenho muito impressionante de um barco em aquarela… Eram vários barcos aquarelados em tons de azul, um dentro do outro, como matryoshkas. Fiquei alguns minutos vendo aquilo e tentando extrair significado. Você pareceu não se importar muito com nada do que eu disse, o que também não é costumeiro seu. Pedi uma cachaça, algo me dizia que eu precisava de uma bebida.

A situação toda ali era muito triste, um clima muito esquisito. O tempo todo eu sentia que eu deveria ir embora, que estava atrapalhando algo. A garota-velha vestida de noiva carente e excluída com cara de chorosa, você a ignorando completamente por conta de trabalho (sim, eu já sabia que todo aquele papinho não era sobre mim, em nenhum nível) e eu tentando ser educada. Tudo muito, muito errado. Acordei me sentindo incomodada, irritada mesmo. Que porra de sonho. Esperei que passasse hoje, durante o dia. Não só passou, como me deu insônia agora. Não querer sonhar com você outra vez não adianta. Quanto mais eu resistir, pior é.

Acredito que estes sonhos são algum tipo fino de auto-sabotagem vindos do meu inconsciente justamente pra me fazer titubear. Ou para me fazer repensar no passado, enfim. Quando tudo na minha vida está muito tranquilo e muito bem, meu inconsciente me sabota como se para dizer “ei, tem essa parte aqui que não ficou resolvida então vou esfregar isso na tua cara”. E tudo bem. Vai permanecer não resolvido e, por mim, assim permanecerá. O que não tem resolução, resolvido está. Não vou esquentar, mesmo, com isso. E vou dormir agora.

Não tive uma noite de sono muito boa. Consegui dormir, mas acordei duas vezes: uma no meio da madrugada, exatamente às 3 da manhã e outra às 6 com o despertador. Forcei sono até às 7:30. Nesse último sono, tive um sonho curioso. Sonhei que estava na sua casa, dormindo na sua cama. Foi bem estranho, mas eu me sentia confortável no sonho. Você não estava ali, tinha saído da casa para fazer algo e eu ficava entre idas e vindas entre o sono e o despertar – como estava mesmo, na realidade. Num destes despertares, no sonho, olhei em volta nos lençóis e percebi que haviam duas colheres de chá ali, repousando do meu lado. Uma das colheres estava completamente retorcida e a outra era belíssima, completamente adornada, com infinitos detalhes. Senti no sonho que você estava chegando e não queria que você visse nenhuma das colheres, pois eu achava um despropósito elas estarem ali, bem como eu estar ali também era um total despropósito. Pouco tempo depois, acordei, com o despertador, na minha própria cama. Era quase 7:30 e decidi levantar. Hoje vai ser um dia difícil e um tanto quanto arrastado… Obrigada por ter me acolhido na sua cama, com minhas imperfeições e ornamentos, mesmo que por apenas um momento.

“Esta noite sonhei com você e acordei assustada com uma ‘coincidência’. Sonhei que estava na sua casa, amigos próximos também estavam, como sempre. E não lembro muito bem o que estava rolando, mas parecia uma das reuniões que temos sempre. Só sei que em dado momento a gente estava sentado numa mesa e você estava do meu lado direito. Eu me debrucei sobre a mesa e você começou a passar as mãos (não tenho nem certeza se você efetivamente encostou em mim) na altura da minha costela direita… E começou a sussurrar algumas coisas pra mim (também não me lembro de nada). Na hora não entendi muito bem o que estava acontecendo, mas achei ok. Isso tudo não durou muito e eu acordei, me sentindo muito bem, como se eu estivesse na sua casa mesmo. Aí segundos depois que acordei é que me lembrei que na minha costela direita eu tenho duas tatuagens bem significativas pra mim, de algo do qual eu tenho tentado me curar há algum tempo… E só então eu entendi que você estava me benzendo. Enquanto eu acordava e ainda tentava fazer sentido do sonho e do que ele tinha sido, você publica a carta da torre fulminada. Fiquei assombrada por um momento porque, coincidentemente ou não, esta foi justamente a carta que decidiu uma série de coisas para mim e também está ligada às minhas tatuagens. Ainda penso em tatuar esta carta, mas não atribuo a ela um significado tão nefasto como é comum. Ela me serviu na época pra abrir os olhos e pra transformar minha realidade de uma forma que eu não acreditava que fosse possível. Por isso até sou grata por ela ter aparecido. Claro que tudo o que aconteceu não foi bonito, nem legal, nem fácil. Mas era uma mudança necessária, que precisava acontecer antes que algo ainda pior viesse.”

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