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Modus Operandi

Ao menor vislumbre da pessoa que eu estou a fim, meu corpo inteiro dá um piso em falso e sinto meu coração em disparada. É sempre vertiginoso. Não sei sentir as coisas de forma menos branda, é sempre assim, com o corpo todo, com todo o meu peso e toda a minha carne. Logo após isto, vem o primeiro grande suspiro, geralmente profundo e seguido de um murmúrio que vai desde “benzadeos” até um sinuoso e sussurrado “ai se sêsse”. Depois disso, depois da pessoa em questão ter interagido de qualquer modo com você e estiver brevemente atentando para algum outro lado para alguma outra coisa, algo esfria na região alta do estômago enquanto suas mãos suam de forma tímida. Essa resfriação pode reverberar na espinha e subir até a cabeça te dando uma sensação meio aérea, ao mesmo tempo em que lentamente desce, se aquecendo, até a região do ventre e serpenteia por entre as suas pernas, te fazendo estremecer discretamente. A sensação é sempre a de um repuxo que você tenta inutilmente conter. Você tenta respirar, mas é difícil. Você observa o outro e esquece de si por alguns segundos. Nada mais importa, o mundo fica em suspenso e só existe o outro, o objeto. Ao final de tudo, fica o coração, pontiagudo, como se batesse repetidamente a mesma tecla. E o nome. Ah, o nome…

Não é a toa que o nome atual disso tudo seja crush. Mesmo.

Esses sintomas permanecem por um tempo indeterminado, até se dissiparem, aos poucos. Até a pessoa ir embora. Até o próximo encontro e próxima interação, mínima que seja. Ah, e é pré requisito fundamental que toda a situação seja essencialmente platônica.

Isso não é algo que eu considero bom de se sentir porque trata-se de uma momentânea e involuntária perda de controle. E eu não gosto de perder o controle. Enfim… Quanto mais involuntária a sua reação, mais na merda você está. Isso é certeza.

“- Gosto de ouvir você falando..

– Por que?

– Porque eu não consigo prestar atenção.”

“… if you feel safe in the area you’re working in, you’re not working in the right area. Always go a little further into the water than you feel you’re capable of being in… Go a little bit out of your depth, and when you don’t feel that your feet are quite touching the bottom, you’re just about in the right place to do something exciting.”

Traduzido do site Fractal Enlightenment

“Adquirimos a força que superamos” – Ralph Waldo Emerson

Nada de mal nunca te aconteceu. Para a maioria das pessoas, uma frase como esta irá incitá-las a fazer uma das duas coisas. Ou elas irão parar por um momento, sorrir, acenar com a cabeça e concordar porque depois de refletirem irão perceber que esta afirmação é mesmo verdadeira, ou irão imediatamente ofender-se, ficar na defensiva e às vezes até mesmo ficar com raiva e começar a jorrar as 5-10 situações ruins que aconteceram com elas só naquele mês.

A instintiva reação de uma pessoa em relação a esta afirmação pode significar algo muito mais profundo do que apenas quem vê o copo como meio cheio ou quem o vê como meio vazio. Pode ser um indicador do quão apegadas essas pessoas são à sua própria “história”, seu passado, ou até mesmo a emoções negativas em geral. Quando nos tornamos muito apegados a um trauma passado, ou negatividade, ao ponto de utilizá-los como parte de nossa identidade, corremos o risco de nos tornarmos viciados e dependentes dessas emoções negativas para estabelecemos um sentido de quem somos.

“Um sentido de sofrimento é uma pequena tarefa quando comparada a recompensa. Ao invés de ressentir-se de seu problema, explore-o. Pondere-o. E acima de tudo, use-o.” – Max Lucado

O conceito de tornar-se viciado em emoções negativas ou em sofrimento pode soar absurdo inicialmente, porque quem é que escolheria se tornar viciado em algo que os faz sentir mal? No entanto, se você forma sua identidade como “eu sou a pessoa a quem muitas coisas ruins aconteceram” ou “eu sou a pessoa que teve que lidar com este trauma” ou “eu sou a pessoa que teve tais e tais experiências terríveis que me fizeram ser quem sou hoje”, seu sentido de si começa a depender da história negativa a fim de reforçar o seu sentido de si mesmo.

Quando o senso de quem você é, é formado em torno de uma experiência traumática passada, você pode se sentir muito defensivo em relação a qualquer coisa ou qualquer pessoa que ameace desacreditar ou negar a sua “história”. Para nos protegermos de nossa mente construir uma história sobre um evento passado, devemos primeiro olhar para como tudo acontece em primeiro lugar. Quando algo acontece para nós e nós não o planejamos, nossa mente cria uma história sobre a situação através dos nossos pensamentos. A história que criamos determinará se classificamos a situação como “boa” ou “má”. Boas situações são arquivadas na pasta de “coisas que deram certo” enquanto as más situações percebidas são arquivadas em “coisas que deram errado”.

No entanto, a verdadeira sabedoria vem do fato de sabermos que nenhuma situação é inequivocamente boa ou ruim. Se você tirar um tempo para pensar em qualquer situação boa ou ruim, é garantido que você pode encontrar pelo menos alguma coisa ruim que aconteceu devido a uma “boa” situação, ou alguma coisa boa que aconteceu por conta de uma situação “ruim”. Esse exercício por si só prova que a afirmação é mesmo verdadeira.

Nada de mal nunca te aconteceu. Quando olhamos para as situações de uma perspectiva mais ampla, somos capazes de ver que há na verdade tudo tem seu lado bom. A única coisa que nos previne de ver este lado bom é o nosso ego ou senso de identidade. O quão apegados nos tornamos em relação a nossa história determinará o quão ferozmente o ego irá persistir em seu julgamento de uma situação.

Quanto mais forte a persistência mais protetivo e defensivos ficamos na tentativa de proteger nossa história e identidade a todo custo. A fim de evitarmos viver em uma realidade do passado repetidamente em nossos pensamentos e nos tornarmos quem desejamos ser neste momento presente, apenas precisamos ajustar uma coisa… Como processamos emoções e sentimentos.

“Quando não podemos mais mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos.” — Viktor Frankl

Sim é verdade que uma experiência que tivemos pode ter nos machucado, feito a gente se sentir triste, com raiva, deprimidos, frustrados, etc… No entanto, sentimentos, como situações, vem…. E vão embora. Contanto que tragamos consciência aos sentimentos, e permitamos que eles se processem até findarem, nunca teremos um motivo para viver com dores passadas repetidamente por contar novamente nossa história triste para nós mesmos através de nossos pensamentos.

Sentimentos são meramente uma representação de como nosso cérebro escolheu processar um evento em particular. E embora eles pareçam extremamente reais no momento, sentimentos e emoções não se igualam à realidade. Nossos sentimentos nos ajudam a reforçar nossa perspectiva em um evento e podem até se manifestar externamente em nosso corpo físico, o que os faz parecer ainda mais reais, mas uma mudança de perspectiva é tudo o que uma pessoa precisa para não se tornar apegado a uma história.

É importante lembrar-se que não deveríamos julgar os sentimentos por si sós, nem deveríamos evitá-los e fingir que não estão acontecendo, mas ao invés disso deveríamos senti-los completamente e usá-los de forma construtiva. Quando sentimos os sentimentos até findarem, somos capazes de superá-los. Descobrimos a luz no fim do túnel e muito frequentemente nos sentimos melhores no final de um evento traumático ao invés de piores ainda. É neste ponto que somos capazes de reescrever nossa história.

Ao invés de deixar o evento ruim definir quem somos no presente momento, começamos a ver nós mesmos como alguém que teve que lidar com uma situação não muito desejável, mas foi capaz de extrair a parte boa disso e superar isso. Ao invés de vítimas, nos permitimos ser vitoriosos.

por Charlie Ambler, do Daily Zen.

Quando você digita “ateísmo” (atheism) no Google, você acha centenas de memes criados por adolescentes que não fazem nada para compreender as nuances de sua contradição. Não sou uma pessoa religiosa, mas sim, eu vou rezar por você.

Escrevo o Daily Zen desde os 14 anos. Quando estava no ensino médio, eu era viciado em várias introduções à novas ideias. Conheci o que poderia se chamar de obstinação intelectual. Seria algo ao qual eu seria repetidamente exposto durante a faculdade, em ambos os lados dos espectros político e religioso, e em comunicações com leitores do meu site. Resumindo, é uma satisfação do tipo emocionalmente imersa de usar a linguagem de modo artístico para elucidar conceitos crus. Ideias unidimensionais (até violentas) expressadas de forma bela. É um tanto quanto sedutor.

Quando eu era mais novo, passei por fases de obstinação intelectual. Recusei reconhecer qualquer ideia que não fosse provada cientificamente. Em dado momento, graças a minha prática de meditação, eu comecei a questionar a ciência da mesma forma que questionava a religião. O Zen nos ensina a questionar tudo e também a questionar nossos questionamentos. O lado reverso também tem um lado reverso.

A ciência trata de fenômenos observáveis. É, por definição, materialismo. Apenas faz sentido no século XXI que o capitalismo ame a ciência. A ciência nos trouxe a Internet! A ciência nos trouxe a viagem no tempo! A ciência dá grana pra caramba! Pessoas como Neil deGrasse Tyson e Richard Dawkins vendem milhões de livros porque eles reasseguram às pessoas que seus modos materialisticos de existência estão, na verdade, corretos. A ciência o dualismo definitivo. Ou você está certo, ou você está muito errado. Esses pensadores reconfortam as pessoas no sentido de que sim, eles estão certos, a forma que vocês enxergam o mundo é a forma correta. Parece bem religioso para mim.

Cientistas famosos do ocidente frequentemente simplesmente servem como pregadores unidimensionais para pessoas modernas espiritualmente falidas e adoradoras de tecnologia. Eles refletem o mundo em que vivemos, um mundo que prospera em complexidade desnecessária e estimulação constante, ao invés de paz ou contentamento.

Frequentemente me pergunto se um ateísmo convicto é diferente de qualquer fundamentalismo religioso. Sinceramente, não acredito que seja. Ambos baseiam-se em um grandioso apego à verdade objetiva. Ambos causam violência em oposição a dissidentes. Ambos tem descuidadamente uma visão de mundo singular. Qualquer coisa levada ao seu extremo se torna seu oposto. Anti-religião extrema se torna sua própria religião.

Zen é tão anti-científico quanto anti-religioso. Não meditamos porque existem benefícios neurológicos, ou porque isso nos coloca em contato com “Deus”. Meditamos para meditar, assim como comemos para comer, mijamos para mijar. Não acreditamos em conceitos; acreditamos em vivências diárias. Experiências pessoais. Se você passa pela experiência de Deus pessoalmente, bom pra você. Isso não é mais nem menos válido do que a experiência pessoal de gravidade ou termodinâmica. Quem pode te validar ou desvalidar?

“Prova” se torna algo obsoleto aos olhos do Zen. Simplesmente não importa.

A lição? Guarde suas crenças para si mesmo. Questione-as. Retrabalhe-as.Ateísmo pop se tornou a religião do consumismo capitalista. Ele nos encoraja a servir um sistema materialista com um sentido de falsa superioridade egóica. Não questiona. É similar ao libertarianismo. Reflete o humano enquanto objeto, uma entidade materialística. Não há preocupação alguma com o espírito ou com a não-materialidade. Não há preocupação alguma com a experiência pessoal, prática ou reflexão. Não fornece crédito a qualquer fenômeno não-observável e especialmente aqueles que não podem ser concebidos usando sistemas simbólicos. É extremamente básico.

Espero que a sua prática Zen o encoraje a permanecer com a mente aberta e a boca fechada. Venho de longe desde que comecei a meditar e espero que a sua jornada não pare na obstinação intelectual. Acredito que há um mundo aí fora que não precisamos ser capazes de ver para passarmos pela experiência. Não precisamos criar dogmas ao redor disso. Não precisamos criar guerras por isso. Não precisamos sequer mesmo acreditar nisso. Mas podemos passar pela experiência. Podemos sentar. Podemos observar. Ao invés de ficarmos obcecados com a materialidade, produtividade e metodologia, podemos simplesmente estarmos conscientes e termos compaixão. Podemos aprender o valor da paz, o valor de observar o nada.

Publicado originalmente pelo Daily Zen.

Apego a coisas que estão fora do seu reino pessoal de controle podem se tornar facilmente tóxicos. Se você não for cuidadoso ou cuidadosa, você pode se encontrar emperrado em relacionamentos estagnados, trabalhos sem significados ou compulsivamente comprando coisas caras das quais não precisa. Geralmente as pessoas tentam preencher o vazio criado pelo apego com hábitos que não são saudáveis como comer, beber ou fofocar demais. O apego, quando não regulado, promove sofrimento. Aprender a desfazer-se destes apegos e seguir em frente é extremamente benéfico.

Mude sua perspectiva.
Para livrar-se das amarras do apego psicológico, nós devemos ver as coisas a partir de uma nova perspectiva. Não apegar-se significa reconhecer nossa subjetividade e não nos basearmos nela de forma tão pesada.

Dê um passo para trás e respire profundamente.
Apego excessivo leva a emoções irracionais e pode nos levar a termos decisões precipitadas. Tente dar um passo para trás, retirar-se mentalmente e permitir-se meditar em relação a seus apegos antes de comprometer-se com eles. A claridade surgirá assim que você tiver um tempo com seus pensamentos. Como Alan Watts disse, “água barrenta é melhor clareada quando não é perturbada”. Para desapegar-se, tente dar aos seus sentimentos um tempo para ficarem claros.

Tenha o foco no presente.
Muito da nossa ansiedade de apego resulta de pensar demais sobre o passo ou preocupar-se com o futuro. Perceba que seu caminho não é uma linha reta e os obstáculos são o que mantém as coisas interessantes. Tenha foto em fazer o melhor do agora e os seus sofrimentos baseados em apego irão gradualmente sair de cena.

Passe tempo sozinho ou sozinha.
Estejam ou não seus problemas com apego confinados ao departamento de relacionamento, solidão voluntária é uma parte importante de desapegar-se em geral. Aprenda a mostrar a si mesmo amor e afeição. Confiar nos outros para validação é um apego muito comum. A arte da auto-confiança te ajudará a desapegar-se. Quando você parar de sentir a necessidade de impressionar outros, vários apegos se dissolverão.

Tenha foco no que é interno.
Parte desta auto-confiança significa perceber que a maior parte de seus sofrimentos são inteiramente psicológicos. Tenha foco em seu diálogo interno. É confuso, em pânico ou profundamente negativo? Para desapegar-se do que você não consegue tirar da cabeça, tente endereçar suas preocupações mais profundas internamente antes de agir.

Assuma responsabilidade.
É fácil culpar a sua questão de apego com os próprios objetos de apego. Assuma responsabilidade pelas suas ações e aproprie-se de seus erros. Faça as pazes com o que quer que você esteja lutando para se livrar e perceba que se você se colocou em um estado mental negativo, você certamente pode sair dele.

Conheça novas pessoas.
Às vezes apegos desagradáveis estão enraizados em pessoas que nos colocam pra baixo através da inveja ou negligência. Se você está tendo dificuldades em desapegar-se, tente cercar-se de pessoas que o empoderam e não prendem você aos seus padrões pessoais. Encontre aquelas pessoas que te apreciam por quem você e não pelo que você pode fornecê-las.

Arrisque-se.
Uma inabilidade de desapegar-se se baseia num constante medo de mudança. Tente sair de sua zona de conforto. Faça coisas as quais tem medo e você conquistará seus próprios medos. Tentando coisas novas, você pode descobrir que o que você tinha medo de desapegar-se estava na verdade detendo você. Aprenda a ficar confortável com o desconforto inicial que são resultados da imposição de grandes mudanças na sua vida. No tempo certo, suas ansiedades em relação a mudanças irão desvanecer.

Desde outubro do ano passado tenho monitorado o meu ciclo menstrual com o aplicativo Clue. Na verdade já fazia isso normalmente, só que em papel, não por aplicativo. A TPM é monitorada, a menstruação propriamente dita, alguns hábitos e o período fértil, ao qual nunca dei a devida importância. Simplesmente não me importava quando eu estaria fértil porque, até então, nunca foi minha intenção procriar então não via exatamente o porquê de prestar tanta atenção nisso. Mas com o aplicativo, isso acabou acontecendo e descobri algumas coisas interessantes desse período que pra mim dura de 5 a 7 dias em todo o ciclo. E ao contrário do que eu imaginava esse é o período mais contraditório de todo o ciclo (ao menos para mim) e não a TPM. É contraditório porque justamente nesse período é quando estou me sentindo o mais auto-confiante possível e ao mesmo tempo o mais vulnerável possível. É de extremos, mesmo. Geralmente nesses dias eu me sinto – e consequentemente fico – muito mais atraente pra quem quer que seja. Consigo falar melhor com as pessoas, ouvi-las melhor. Fico mais disponível e acessível. Quero ajudar e cuidar mais dos outros, se eu puder e me deixarem. Recentemente descobri que, por todos os motivos descritos acima, fico incrivelmente mais vulnerável durante este período também. Com mais tendência a gastar o que não tenho, a ser mão aberta, a me doar mais. Com maiores possibilidades de me apaixonar por quem me dá atenção. Sem contar com o óbvio: o desejo sexual aumenta muitas vezes no limite da desconcentração total nas coisas práticas da vida e a única coisa que todas as células do meu corpo pensam é em procriar, fazer bebês (ok, não necessariamente com fins exclusivamente reprodutivos, mas enfim, vocês entenderam). Às vezes acho que preciso de mais paciência comigo mesma neste período do que na TPM. A TPM pra mim já é um pouco mais previsível, pois já detectei os padrões de irritabilidade, raiva, stress emocional e inclusive os utilizo ao meu favor, muitas vezes. Isso acontece pois sempre fiquei tentada a entender essas emoções como negativas quando elas são, na realidade, neutras; sabendo redirecioná-las para executar as tarefas adequadas, elas se tornam propulsionadoras de vida, mesmo. São apenas energias e enquanto tais, podem ser transformadas. Mas como os dados do que me ocorre durante o período fértil são relativamente novos, por mais que pareçam coisas à princípio boas (auto-confiança, magnetismo, desejo sexual, abertura, doação, vulnerabilidade, etc.) é um período no qual eu preciso ficar atenta às armadilhas que a minha mente e o meu corpo me colocam, para que eu não pise em falso ou tome atitudes não tão razoáveis assim.

 

Da série: você está louca, sendo que a única coisa que você quer é sinceridade, sem grilos…
“Começaram bem. Like-like-match-cervejinhalimbaixo-papobom-beijogostoso. Ia ter uma paradinha na casa dele, chamou ela, que curioso, mas logo assim?
Isso, vai ser sussa, vão uns amigos, moramos tão pertinho, chega lá na sexta. Ele não era carioca, deve ser por isso.
Por que não ir? E foi. Foi ótimo, mesmo com aquela tensão inicial: casa, amigos, roomate, primeira transa. Aquela transa que ninguém sabe muito bem como fazer. Onde pega, onde gosta, onde sobe. Ela curtiu a tranquilidade e o atrapalhamento do rapaz. Ele curtiu o sexo oral.
Me leva em casa? Ué não vai dormir aqui? Não, dormir é muito, quero dormir em casa. Mas tá tão gostoso aqui. Tá, mas enquanto estamos acordados. Quero ir pra casa.
Dormir junto demandava tempo, na lógica da moça. Mais pelo acordar, que pelo dormir. Estavam apenas se conhecendo, encostando um no outro pela primeira vez. Deixa esperar. Na lógica do moço, parecia estranho ela recusar o aninhamento de seus braços e lençóis. Fora que tinha que se vestir pra descer com ela, que morava na sua esquina. Preguiça.
Cada um na sua casa, passaram os dias, trocaram mensagens. Ele queria repetir, dizia via celular, aqueles beijos gostosos, aquele carinho bom. Ela topava, vamos nos ver quando der. A coisa meio que engrenou. Ele queria ela que queria ele e foram se conhecendo e se querendo.
Ela tinha muito medo. Os caras se movem pelo mundo e pelas mulheres de um jeito que ela não andava entendendo muito bem. Deixa disso, as amigas diziam. Aproveita, o cara é maneiro, gosta de ti. Ela ia, mas sabendo que mesmo com todas essas qualidades, era “um cara”.
Ele convidava dorme aqui e ela dizia outro dia. A verdade é que ela não se sentia confortável dormindo na casa de “caras”. Um dia ele disse você sempre diz outro dia e nunca chega o outro dia. Ela abriu o coração esquisito e disse não me sinto bem dormindo fora, custo a dormir, fico angustiada, durmo mal. Ele ficou p-a-s-s-a-d-o. Fez uma expressão que doeu fundo nela e ela se culpou pensando machuquei ele, falei merda, ele ficou chateado. Ele Perguntou se ela não tava vendo isso, ela disse sim, faço análise e tals. Mas ele falou depois que não queria falar no assunto, ou acabaria se afastando.
Como assim se afastaria, caso conversassem? Pareceu estranho, mas ela lembrou do jeito estranho que “os caras” escolhem para se movimentar pelo mundo e pelas mulheres. Uma amiga já mandou logo o alerta amiga-vaza-que-é-mais-do-mesmo, mas ela não vazou.
Continuou, foi lá, respirou fundo, pensou que essa seria uma ótima oportunidade para vencer uma dificuldade sua, topou dormir na casa do moço, que pareceu feliz demais pelo “outro dia” ter chegado. E parecia que as coisas evoluíam.
Que bom.
Mas as coisas que evoluíam de repente concomitantemente sutilmente loucamente, essas coisas viraram um dejavu do demônio.
Ele era ótimo com ela, um fofo. E só. Em poucos meses, ele estava sempre muito cansado. Chegava louco pra dormir, muito trabalho, muito stress, muita preocupação. Irritou-se com a roomate e foi morar no primeiro apê que encontrou. Ele não saía com ela, era cama, netflix, almoço e janta no bar da esquina, dormir, café e sexo. O sexo, ela percebeu (e ele não), era como uma masturbação de pouco esforço (pra ele), pois percebeu uma sequência de dias nos quais a transa chegava ao fim no orgasmo dele e, se ela não fizesse acrobacias no rapaz imóvel, saía da parada sem o gozo final. Como falar sobre isso? Mas ele parecia animadíssimo para sair com os amigos, tomar uma cerveja, ir a um showzinho. O dia seguinte, da ressaca, era todo dela. A véspera da prova que ela tanto esperou e a deixou altamente ansiosa não pareceu importante pra ele, que desligou o celular pois estava muito cansado do dia puxado de trabalho.
Aí ela falou pô amigo não tá bacana isso. E ele falou ai sabia que tu ia reclamar eu não to reclamando, to querendo entender onde eu entro nessa história, pra saber se eu topo ah a gente tá se relacionando, eu to curtindo. Eu gosto de você. Eu também. Ele disse pra ela sabe, no início eu achei que você só queria um baiano pra trepar, e isso me deixou meio cabreiro, mas depois vi que a parada era outra, quando você passou mal e eu fui cuidar de você. Ela disse oi? Ele disse é, eu não toparia uma história que não tivesse algo mais, nunca teve disposição pra isso. Ela ficou aliviada, mas disse que era importante que as coisas não ficassem como estavam, que ela pararia ali. Ele disse vou tentar, vou prestAr mais atenção.
Viram juntos Ópaíó e ela gelou quando ele se acabava em risos e admirações pelo personagem que enganava a mulher e pulava janela pra encontrar a mulherada na vizinhança. Os olhos dele brilhavam muito, mas ela se autocensurou e pensou to viajando, isso é saudade de casa.
Numa ida à praia, ele encontrou um amigo que não reparou que ela o acompanhava. Ele disse “se liga que o camarada nosso arrumou uma mulé que mora do lado dele, agora ele não pode fazer merda em paz, porque tu conhece a mulher e ela é maneirona mas depois ficam todas loucas, pegando no pé, acredita que a mina começou a contar as camisinhas dele e po, tu sabe a cara dele quando mente, né?, po, ele tá cortando um dobrado”. Ela lembrou do movimento estranho dos homens pelo mundo e pelas mulheres. A mulher era maneirona mas ficou louca porque ele não podia enganá-la sem que ela questionasse? A moça quis perguntar, mas achou melhor não, pois aquilo era papo de amigos.
Eles seguiram mas parecia que ele não estava prestando atenção alguma quando a coisa não dizia respeito a ele mesmo. Ele sempre reclamava de tempo e uma vez mandou mensagem propondo a ela uma viagem, assim que ele tivesse uma folga no trabalho. Um dia, depois de duas semanas dormindo juntos quase todo dia, ele perguntou pra ela você tá gostando desse convívio todo e ela disse eu tô e você e ele disse eu também to e se abraçaram.
Na semana seguinte, ele disse que um amigo havia convidado ele pra uma viagem de fim de ano e ela não estava no escopo da coisa. E ela ficou mal e ele achou que ela estava querendo tolher a liberdade dele e ele viajou e na volta fez contato. Ela estava machucada, mas disposta. Vamos ver, vamos conversar. E ele dizia que pensava em estar junto dela, mas que andava pensando em muitas coisas, desde que visitou a família no fim do ano. Mas sim, vamos conversar. Mas não conversou. O moço deixou a moça esperando e nem avisou que não ia. Ele foi sumindo, sumindo, sumiu. Ela seguiu adiante: deletou os contatos do moço, conheceu outros moços, limpou a casa de coisas dele.
O moço então apareceu. Uma semana depois do carnaval. Com uma mensagem fofa, ele jurava que estava abafando: tirou foto de um presente que ela deu, na janela da casa dele e dizia que aquele era seu copo preferido. (A moça tinha dado um copo para ele beber água ao longo dos dias de trabalho tão intensos, que ele não deixasse de se cuidar. Ao longo do período que estavam “juntos”, ele mandava fotos do copo ao longo dos dias.)
Voltaram a falar sobre encontrar e conversar. Ele dizia sim vamos conversar e avisava que não ia poder mais.
Fez isso algumas vezes, pois ela sempre achava que valia a pena a tentativa. Eles se deviam isso, afinal de contas, conviveram uns meses, acordando juntos (que ele tanto quis), comendo juntos, cuidando juntos e ele dizia sim, vamos conversar e não aparecia. Mandou foto selfie deitadinho um domingo, pediu para vê-la no feriado, fez carinha triste quando ela respondeu que não estava no Rio.
E marcaram de novo, ele desmarcou em cima da hora, quando ela ligou perguntando se já podia sair.
“Tive uma dor de cabeça terrível, to deitado no chão do trabalho, to pegando um taxi e vou pra casa, sorry. Não pense que estou te enrolando, pfv.”
A moça custou a responder, por não saber o que falar, mas tinha essa mania de se comunicar e disse um dia depois que esperava que ele tinha melhorado. Ele disse que melhorou um pouco, era a vista que andava piorando. Ela estimou suas melhoras e na mesma semana, ela foi a um show. Cinco minutos depois dela entrar, ele entrou no local, de mãos dadas com a moça2.
Assim, nossa moça seguiu sem entender a movimentação dos homens pelo mundo e pelas mulheres.”

(M. C. C.)

Acho curioso quando tentam te convencer de que você é uma pessoa “única e especial”. Não que essas coisas sejam mentiras, mas com certeza são grandes bobagens. E, às vezes, essas bobagens tem um propósito bastante claro (incutir ciúme, manipular, diferenciar, etc.). Tem coisas as quais gostamos muito de acreditar porque amaciam o ego. Tem coisas que realmente são “tudo o que a gente sempre queria ouvir”… E todo cuidado é muito pouco perto de “tudo o que a gente sempre quis ouvir”.

Tenho sim minhas dificuldades com o termo sororidade, mesmo porque acredito que vivemos numa sociedade extremamente competitiva e é impossível ignorar isso. Mas algumas coisas não são sobre se adaptar ao meio, mas justamente remar contra ele, por um bem maior.

Eu sou só outra pessoa. Mais uma pessoa. Nem melhor. Nem pior.

Diferente.

Só isso.

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“Nem todas as pessoas tóxicas são cruéis e indiferentes. Algumas delas nos amam muito. Muitas delas tem boas intenções. A maioria é tóxica para nós simplesmente porque suas necessidades e sua forma de existir no mundo nos força à comprometermos a nós mesmos e a nossa felicidade. Eles não são pessoas inerentemente ruins, mas não são as pessoas certas para nós. E por mais difícil que seja, precisamos deixá-los ir. A vida já é difícil o suficiente sem termos à nossa volta pessoas que nos põem pra baixo, e por mais que você se importe, você não pode destruir-se para o bem de outra pessoa. Você tem que fazer com que seu bem estar seja uma prioridade. Se isso significa romper com alguém com quem se importa, amar uma pessoa da família à distância, deixar com que um amigo se vá ou remover-se de uma situação que parece dolorosa – você tem todo o direito de ir embora e criar um espaço mais seguro para si mesmo”.

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