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Modus Operandi

Ram Dass (e Chogyam Trungpa) sobre a Perda de Sentido

O atingimento da iluminação a partir da perspectiva do ego é a morte extrema, a morte do self, a morte do eu e do meu, a morte do observador. É a decepção derradeira e irrevogável.

Chogyam Trungpa no The Myth of Freedom

Frequentemente as pessoas me dizem que a meditação trouxe um vazio em suas vidas. Tudo parece sem sentido. É preciso de muita fé para passar por períodos tão pesados de transformação espiritual.

Eu me lembro da raiva que eu tinha da espiritualidade quando vi minhas agitações favoritas desvanecerem.

Coisas das quais antes eu havia obtido grandes emoções esvaziaram-se. Por exemplo, muitos anos atrás uma das minhas maiores emoções estéticas era visitar Tanglewood, o festival de música onde a Sinfonia de Boston tocava. Eu me lembro em particular de uma linda noite onde deitei debaixo das árvores com um cobertor com queijos e vinhos e ouvi à sinfonia na concha acústica ao ar livre tocar o Requiem de Berlioz. Eu estava em êxtase.

Alguns anos atrás, uns vinte anos depois, eu estava passando por Tanglewood e me lembrei desse momento. Decidi passar por lá e ir em um concerto à noite. Para meu deleite, descobri que eles tocariam o Requiem de Berlioz naquela noite. Imediatamente comprei vinhos e queijos, peguei um cobertor e cheguei bem cedo para que eu pudesse escolher uma árvore onde pudesse me acomodar. A noite estava linda, suave e calorosa. E a música começou a tocar.

Por mais que eu tentasse, eu não consegui recapturar o êxtase. A experiência foi incrivelmente bela, agradável e aprazível. Mas não foi como me lembrava. Eu tive que perceber que a minha memória daquele momento era tão alta porque em comparação o resto da minha vida estava muito mais baixo. Mas agora as coisas mudaram e cada momento do dia a dia começou a ter uma qualidade de novidade e radiância e intensidade. Dirigir até o concerto, comprar o vinho, deitar sob a árvore eram igualmente maravilhosos como o concerto. Ao invés de picos e vales, eu tinha um platô.

A meditação traz esse tipo de mudança. Cada momento começa a ter uma riqueza ou uma espessura próprias. Menos momentos são especiais uma vez que cada vez mais deles se tornam ricos. Isso diminui as emoções, os altos e baixos. Enquanto eles desaparecem nós às vezes sentimos uma tristeza e uma depressão, ou uma sensação de ter perdido a riqueza do romance da vida. De fato, um ser desperto não é romântico, uma vez que nada mais é especial. Cada momento é tudo o que pode ser. Não há romance. Apenas o vir e ir. O vir e ir.

De certo modo é triste ver a narrativa de alguém se tornar uma forma vazia. A noite escura da alma é quando você perdeu o sabor da vida, mas ainda não ganhou a plenitude da divindade. É tanto isso que devemos resistir a este tempo sombrio, o período de transformação quando o que é familiar nos foi retirado e a nova riqueza ainda não é nossa.

 

Antes de ontem algumas coisas importantes foram ditas. Foi falado sobre pessoas que, estando em um relacionamento, não se completarem pois já estariam completas. Pessoas não completam uma parte faltante: são inteiras e se relacionam a partir disso, a partir de suas potencialidades e lacunas também. Eventualmente podem se complementar, mas isso é completamente diferente de preencher um vácuo, ou uma lacuna. Paradoxalmente em relacionamentos-simbiose, a conta, que aparentemente parece justa na verdade não fecha. Sempre sobra pra alguém, sempre falta pra alguém. E sempre é causa de sofrimento a longo prazo. O medo e a ânsia por intimidade são mais tênues do que se imagina. Falei que tinha dificuldade mesmo em conceber um relacionamento em que pessoas não se complementassem pois me foi ensinado o oposto disso desde que me conheço por gente. Enfim, é difícil, não disse que era impossível, não sou tão inflexível.

Foi falado também sobre como é importante se sentir bem sozinho e estar bem sozinho, pois isso é fundamental para poder estar com o outro. E também sobre os perigos de a solidão e o isolamento nos tornar pessoas completamente intolerantes, que criam critérios absurdos para se relacionar e afastam qualquer tipo de pessoa que tenha algum interesse. Em algum momento falei de solidão, mas foi em outro sentido… Foi num sentido que tem sido recorrente pra mim e tenho visto com frequência em pessoas que conheço. Uma pessoa que tem muitos amigos, é adorada por muitos, sai todos os finais de semana e tem pessoas que a paparicam 24/7: reclama de solidão, de medo que todas as pessoas a abandonem e de uma angústia que parece nunca cessar. Neste caso, a pessoa em questão é solteira. Pensei que o problema poderia ser a falta de um namorado ou coisa do tipo. Mas parece que não. Em outro momento, ouço coisas parecidas de outras 2 pessoas, que estão em relacionamentos estáveis (e felizes) há mais de 5 anos e sentem exatamente as mesmas coisas: solidão, angústia, abandono. Fico sem entender nada.

Em um primeiro momento, isso me deixava com raiva: como pode alguém estar num relacionamento estável e feliz sentir isso ao mesmo tempo? Sim, pois não tem nada a ver com o parceiro em questão (às vezes, pode ter. no caso, não tem), mas com a própria pessoa e com isso que ela sente. Mas não se trata apenas de uma questão técnica de depressão, sensação de inadequação ou baixa auto-estima. É mais que isso: o que essa pessoa busca não está fora dela, mas já está dentro dela. Todas as tentativas (muitas vezes desesperadas) de buscarmos por alguma confirmação externa só nos deixa exauridos e são sempre insuficientes, não nos preenchem de modo algum. Isso ocorre não só com relacionamentos, mas até mesmo com outras coisas na vida em geral. Alguém que almeja “chegar lá” algum dia, ter sucesso e aí quando a pessoa “chega lá”, simplesmente não há nenhum lá, lá. São miragens. O caminho, a fonte, são sempre internos, abertos, fluídos. Está aqui, em silêncio, o tempo todo. Basta que estejamos atentos à este silêncio ensurdecedor. E vem de nós mesmos. Isso é o que estou tentando buscar timidamente com meditação diária há alguns anos. Acho paz interior um conceito meio bobo, não sei qual termo usar. É uma busca, mas não sei pelo quê.

Talvez eu nunca descubra, mas de qualquer modo, vou continuar buscando. 

I

Essa noite eu tive um sonho com o meu antigo trabalho. Sonhei que me chamavam até lá para algum tipo de atividade que eu deveria executar e eu me esforçava e ia, e aí quando eu chegava lá me diziam que não precisavam mais de mim. Me lembro que no sonho me senti bastante frustrada com isso mas no entanto eu fiquei lá. Eu não ia embora daquele lugar e ficava olhando as pessoas. Foi uma sensação bem esquisita e tão, tão familiar. Eu não era necessária ali mas esse fato não parecia me importar muito. No sonho isso não me importou muito, mas fiquei estarrecida com isso quando pensei no sonho, várias vezes ao dia. É como se em algum nível eu não me importasse em ser completamente inútil. Ou ainda, como se eu quisesse isso. No caso do sonho, o contexto não era exatamente muito feliz. O antigo trabalho me demandava coisas, posturas, entregas, resultados. Não podia me dar ao luxo de ser inútil ali. Mas no sonho eu era, eu fui. Tentei ignorar esse sonho conscientemente o dia todo – talvez porque ele tenha me deixado triste – e falhei. Várias vezes ele voltava pra mim, indicando algo. Até eu resolver escrever sobre ele por aqui e tentar juntar alguns pontos.

II

Hoje me deparei fazendo uma pergunta bem imbecil para uma colega experiente. Me senti imbecil bem logo depois de ter terminado a pergunta. Não tive tempo de me conter e não fazê-la. Me dei conta então de que tenho feito uma série de perguntas bem imbecis pra várias pessoas, geralmente esperando respostas sim/não quando na verdade, a vida é muito, mas MUITO mais complexa que isso. Como se uma resposta sim ou não fosse resolver os meus problemas ou qualquer problema que o valha. Aliás, esta é uma questão séria para mim: eu preciso PARAR de querer resolver as coisas, por algum tempo. Vou um pouco mais longe: eu preciso começar a não só não querer resolver as coisas, mas o exato oposto disso, adicionar ainda mais complexidade à elas. Não complicá-las, não fazer tudo errado, nem nada desse tipo – porque eu não sou assim, esta não sou eu. Mas me deslocar deste lugar onde estou, há anos. Praticar um pouco a tal da porra da alteridade. Observar mais. Entender, com calma, sem pressa, sem necessidade de resultados exatos, precisos, corretos, os porquês de as coisas de desdobrarem e como as coisas se desdobram. Eu tenho feito as perguntas erradas. E, obviamente, nenhuma resposta vai me satisfazer deste jeito. Claro. E eu sinto medo de uma série de coisas, parece. Isso me gera a famigerada travação. Não física, nem nada, mas de ação, mesmo. E a quem eu quero enganar mesmo, eu não estou contemplando porra alguma. Eu simplesmente não estou fazendo o que deveria estar fazendo.

III

Eu caí duas vezes de moto. As duas vezes foram no estacionamento, quando tive que sair de casa. E nas duas vezes eu precisava acelerar e na hora, por algum motivo que desconheço, eu me assustava, freava e caía. Não era pra frear, era pra acelerar, porra, eu estava em subida! Mas enfim, eu parava de acelerar, a moto morria e eu caía. Assim foi, duas vezes. Até então não tive nenhum acidente no trânsito, só estes mesmo. O problema da aceleração pra mim vem desde as primeiras aulas que tive de moto, do processo inicial de aprendizagem. Eu tenho, tive, medo de acelerar. Medo do barulho do acelerador, do próprio ronco da moto. Medo de uma máquina viva, explodindo continuamente, bem debaixo da minha virilha. Medo de perder o controle e me acidentar ou ainda pior, machucar os outros. Acelerei muito pouco nas aulas, é verdade. Tenho acelerado bem mais no trânsito, enquanto rodo e me acostumado mais com isso. Mas o que essas duas quedas ridículas no estacionamento me ensinaram foi que aceleração não implica em velocidade. E que sim, a aceleração é barulhenta mesmo, não tem muito jeito de ser diferente disso, é melhor eu me acostumar. E que numa subida, num caminho que me leva efetivamente pra cima, se eu não acelerar, eu também posso me acidentar. E possivelmente machucar outros também. Hoje em dia, quando pego um túnel e existe uma subida onde preciso acelerar, eu geralmente grito, pois isso me ajuda a manter a aceleração sem hesitar. Isso me ajuda a perder, mesmo que seja um pouco e por alguns momentos, o controle. E assim, paradoxalmente, a manter o equilíbrio.

IV

Eu preciso escrever e não consigo escrever. Passei o dia todo procrastinando, olhando as telas. Não li nem uma linha sequer. Não escrevi nem uma linha sequer. Tento me convencer de que preciso de uma estrutura e no momento ela é ausente. Não tenho a mínima ideia sobre o quê falar – como se eu não tivesse nada a dizer. Tenho coisa pra caralho pra dizer, mas não sei como, não sei por onde começar. Insisto que preciso de uma estrutura. Dou conta de fazer ainda pior: insisto que o que eu preciso escrever precisa ser FUNCIONAL e que precisa ser usado posteriormente, inevitavelmente, pois não quero “perder tempo”. Que tempo? Tempo do quê? Perder o quê? Enfim. Segundo eu mesma, o artigo que preciso escrever, precisa ter uma exata estrutura, abordar tais e tais assuntos, se encaixar em determinado contexto e, para mim, só assim eu vou ter feito um bom trabalho. E eu estou tão puta comigo mesma por pensar assim. Tão incrivelmente puta. Eu estou definitivamente com raiva disso, de mim. Agindo desse jeito eu estou simplesmente matando o meu próprio trabalho, matando qualquer tipo de espontaneidade e inviabilizando qualquer tipo de criatividade. Tá tudo errado. Eu preciso abrir mão disso. Não existe estrutura e não vai existir à priori. Querer ser funcional é uma verdadeira derrota pra qualquer tipo de pensamento que se preze. E no fundo, no fundo, eu já sei o que fazer. Eu sei exatamente o que fazer. Eu só estou com medo. Mas agora eu estou com mais raiva do que medo. E assim eu sei que vai ser mais fácil eu me movimentar em direção de qualquer coisa.

 

 

O foda de você dizer que gosta de alguém é a pessoa achar que você quer casar, ter filhos, netos e passar 60 anos junto grudada nela. Ok, enquanto mulheres – por default – somos socializadas de modo a vincular interesses afetivos com outros tipos de interesses, formando um grande pacote da coisa toda. Não utilizamos esses interesses de forma modular e facetada (como a grande maioria dos homens) infelizmente porque fomos educadas deste modo. Hoje em dia, ainda mais na minha idade, quando uma mulher diz que gosta de um cara, se não for recíproco, geralmente é um deus nos acuda. “Ela quer casar”. “Ela está obcecada por mim”. “Não quero me comprometer”. Ninguém quer se comprometer, meu amigo. Todo mundo tem verdadeiro pavor disso. E o gostar, quando não é recíproco, geralmente é visto com asco. O que é curioso. Pois sim, muitas mulheres pensam sim que, quando gostam de alguém, querem casar, ter filhos e passar 60 anos juntos. A sério. Pode acontecer.

Mas já há algum tempo tenho achado saudável fazer essa dissociação e lidar com meus interesses (afetivos, sexuais, etc.) de forma mais modular. Não pretendo mais refrear, inibir ou até mesmo auto-censurar meu afetos. Se serei injusta com os outros ao verbalizá-lo, serei mais injusta comigo mesma ao reprimi-lo. Então vou dizer: sim, eu gosto de você. Sim, eu estou a fim. Sim, não há absolutamente NADA demais nisso: é só um sentimento e ele é meu. Não vou me impedir de sentir o que quer que seja simplesmente por medo de desagradar ao outro. E isso é extremamente contraditório: que desagrade! Que incomode. Não posso fazer nada sobre isso, só posso agir em relação ao que eu sinto e farei isso. Considero extremamente nociva a forma que associamos alguns afetos a outros conceitos aos quais deveriam ser completamente dissociados. E fazendo esses tipos de associações eventualmente reprimimos uma série de coisas dentro de nós, uma série de vivências, de emoções, de momentos importantes inclusive – sejam eles bons ou ruins.

Ontem mesmo conversava sobre isso com uma amiga, julgando pesadamente um outro amigo por uma decisão de vida que ele tomou, recentemente. Uma decisão que considerei arriscadíssima e assumi que ele tomou levianamente, de forma impensada. Repensei isso agora a pouco à luz destes dois parágrafos aí acima e me percebi uma imbecil de marca maior. Fiquei constrangida comigo mesma por julgá-lo, por julgar o que ele sente sem sequer ter ideia do que se passa em sua mente e em seu coração. Apenas uma frase do discurso de ontem permaneceu: “a vida é dele para ser vivida”. Não me cabe pensar nada sobre isso: me cabe estar aqui, sempre que possível. Me cabe observar e testemunhar o que se desdobra, desenrola, desabrocha. E estar aqui, sempre. Isso faz de mim uma amiga de verdade e não uma intervenção pífia, moralista, que julga. E isso se aplica não somente ao outro, ao meu amigo, mas principalmente à mim mesma. As minhas ações, na forma que lido com o mundo e que lido com os afetos. E não é só essa questão de não julgar, mas também de não reprimir à mim mesma e o que sinto em função de um legado, em função de uma estrutura, em função do outro e de seu histórico, legado, estruturas, etc.

É preciso coragem para assumirmos nossos afetos, sem nos deixarmos abater pelo mundo. E pra isso é preciso de grandeza. E disso, ninguém sai incólume.

 

O quão óbvio, patético e pequeno não é buscar redenção em vingança? Sonhar com isso. Desejar isso. É tão mesquinho, tão pueril. Na nossa cabeça temos um sabor muito específico (e eu diria que raso) de vingança: aquela que nos satisfaz completamente. Aquela que nos sacia. Que nos preenche. Que se cumpre. Essa vingança existe plenamente na nossa mente. Mas a realidade é sempre outra.

A realidade e a vida sempre nos dobram e nos mostram o quanto não somos donos de porra alguma. Por mais que andemos por certos caminhos. Por mais que se planeje e arquitete o mais maquiavélico plano de vingança, que o prato seja comido frio ou não, que seja cozinhado por anos a fio… E aí quando a gente finalmente experimenta o sabor da vingança e sente um prenúncio de redenção… O momento passa. E a sensação vem, reverbera. E nos sentimos muito satisfeitos com ela, por alguns momentos.

E o momento passa, novamente. E laços são desfeitos. E pontes são queimadas. E separações são irreconciliáveis. E a chuva vem e lava todo o sangue derramado. A ideia para nós é a de sempre e para sempre poder reviver esse momento, esse sabor, essa redenção… Que na verdade, muitas vezes, sequer existiu. Acho que o mais duro disso tudo é eventualmente termos de admitir pra nós mesmos que esse sabor, a bem da verdade, nem foi tudo aquilo que imaginamos. Que na verdade, na verdade mesmo, esse sabor foi frustrante. Insuficiente.

A redenção tem uma regra que sempre nos foge: ela é sempre necessariamente decadente. A redenção genuína, não essas farsas hollywoodianas. Ela jamais é triunfante. A dualidade não chega a fazer muito sentido nessa seara. Ninguém nunca ganha nada. Ninguém sai por cima. Nada se cumpre, absolutamente. Na redenção sempre existe uma perda, um vácuo… Se forma uma lacuna ainda maior que aquela com a qual já temos de lidar. Nunca o oposto disso. E, assim, aprendemos. E assim se dá a continuidade do que somos, do que devemos ser.

A redenção pop, mesquinha, fuleira de se vingar e encontrar plenitude nisso acreditando que “agora sim tudo terminou bem” não nos sacia verdadeiramente, bem pelo contrário: nos torna ainda e cada vez mais impotentes diante de nosso real desejo. E é aí que mora o perigo, pois essa falta de saciedade costuma contraditoriamente se retroalimentar indefinidamente e assim nos movimenta rumo a comportamentos desviantes e destrutivos, para nós mesmos e para os outros. Vingança é mesquinhez. Redenção é uma ilusão a qual nos apegamos e gostamos muito de acreditar.

Nada nunca se cumpre. E é com isso que devemos conviver.

Eu já passei por muita “desgraça”. Sim, vai entre aspas porque a minha desgraça é completamente relativa. Sim, sempre poderia ser muito pior. Sim, existem casos bem piores que os que eu passei. Mas ainda assim, o sofrimento é de cada um, pra usufruir individualmente. Já tive o meu coração partido, duas vezes. Já fui abandonada uma porção de vezes, por pessoas que jamais imaginei que fariam isso comigo. Já fiquei em total desamparo em situações muito, muito difíceis para mim. Já me senti vulnerável em lugares onde deveria me sentir segura. Já entrei sim em desespero por conta dessas coisas que acabei de mencionar. Às vezes esse desespero durou alguns anos, onde eu encontrava um abismo toda vez que ia buscar um copo de água na cozinha. Quando tinha crises convulsivas de choro no transporte público. Quando pensava que a minha vida realmente não valia a pena ser vivida e talvez o melhor caminho fosse eu desistir de tudo, mesmo. A gente passa por tudo isso, sim… Mas eventualmente a gente acaba saindo pelo outro lado, uma hora ou outra (quem não tem uma condição fisiológica de depressão ao menos, meu caso). E tudo depois de um tempo acaba sendo aprendizado, de uma forma ou de outra. A gente se estabelece, se reforça e persevera eventualmente. Mas acho que nada me devastou – e devasta – tanto quanto descobrir o porquê uma pessoa é vil. E isso já aconteceu duas vezes, comigo. Pensei nisso hoje porque existe aquilo de desapego, de desapegar-se do sofrimento, das situações e das pessoas, mas aí observando melhor cheguei a conclusão de que esse é o meu limite, parece. Acredito que quando as coisas aconteçam comigo eu sofro, me fodo, o tempo passa e eu eventualmente recupero. Caio 7 vezes, levanto 8. Mas quando é algo que independe de mim e sobre o qual eu não tenho nada de controle, eu me vejo rancorosa, com ressentimentos. E isso é algo que também preciso trabalhar. Para mim, é bastante complexo conseguir retornar disto. Conseguir voltar para mim mesma, neste sentido. Porque eu sempre queria poder fazer algo, queria poder ajudar, modificar o passado, modificar a coisas, tudo… E sei que não posso. Que é impossível. Que este não é o meu currículo, que esta não é a minha vida e que não tenho como mudar nada que está muito além de mim. É uma sensação de impotência pavorosa e que tende a se arrastar por muito tempo, mesmo quando eu achava que não existisse mais. E é a PIOR sensação da vida inteira. Nada se compara. Nenhum abandono, nenhuma traição, nenhum desamor e nenhum luto. É meu dever superar esses tipos de coisas. Mas a gênese da vileza é inalterável e inalienável… E preciso aprender a lidar com ela de modo a conter danos, não tanto aos outros mas à mim mesma.

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Viver uma vida de atenção plena e gratidão requere que você pare de se comparar com os outros. O problema com essas comparações é que elas assumem um tipo de sobreposição de experiências de vida. É difícil incorporar verdadeiramente a perspectiva de outra pessoa. Cada vida é tão extraordinariamente diferente, até mesmo entre amigos próximos e familiares. As pessoas compartilham muitas motivações e experiências mas isso não faz com que se torne mais fácil compreender de forma precisa a vida de outra pessoa. Ter pena é ser paternalista. Idolatrar é desumanizar.

E você desumaniza quem quer que seja com quem você tenha se comparado. A idolatria funciona do mesmo modo. Quando as pessoas idealizam celebridades, pessoas ricas ou “de sucesso”, elas removem a humanidade delas. As colocam simplesmente dentro do reino do idealismo subjetivo. As pessoas sujeitam-se constantemente ao ridículo, à inveja e amargura baseadas em falsas ideias de prerrogativas quando elas nunca sabem de verdade o que se passa na cabeça do “outro”. É por isso que todas as ideologias políticas que escolhem um inimigo comum se tornam perigosas e desumanizam.

Um exemplo simples: você acredita que a sua felicidade seja causada por falta de recursos. Você vê uma imagem de uma pessoa rica na beira do mar, aproveitando um drink e pensa “Ah, se fosse eu. Eu seria tão feliz”. Mas você pode de verdade entrar na cabeça daquela pessoa? Você saberia dizer se eles curtem passear nessa praia o tanto quanto você curtiria passear em qualquer outro lugar? Na verdade você não sabe. Se existe uma verdade sobre os seres humanos é que nós nascemos para nos adaptar. Se você não é feliz sendo pobre, você não vai melhorar sendo rico. Se você não consegue ficar bem sozinho, você não vai conseguir ficar bem quando achar alguém. Entendeu a ideia? O poder está dentro de você, não no mundo externo. A vida espiritual é um grande nivelador. Está acessível a qualquer um que queira trabalhá-la. Não importa quem você é ou o que você tenha. A força que precisa está dentro de você.

O ponto mais importante disto tudo é que quando você se compara aos outros, você desumaniza a si mesmo. Você erra a sua interpretação dos outros, mas acima disso acredita que julgar a si mesmo contra esta interpretação incorreta seja uma boa ideia. Ambos são mentiras. O caminho em direção a atenção plena é reconhecer a si mesmo como você é e agir da forma mais diligente possível diariamente. Comparações sem sentido e ficar olhando “a grama verde do vizinho” apenas perpetuam o ciclo de apego ilusório à coisas e ideais externos.

Todas as noções de paraíso são nefastas porque elas pressupõem que o paraíso jamais poderia estar/ser aqui. O ponto da questão é que aqui e agora mesmo é tudo o que temos. O constante desdobramento do momento presente é tudo o que há. Fantasiar sobre o que “há por aí” só te trará dor de cabeça.

 

Texto por Charlie Ambler, do Daily Zen. 

13:57 e o assunto que pipocou foi algo como substituir leite condensado por chuchu. Galerinha se acha muito liberal né, muito descoladona em vários aspectos da vida. Mas no fundo, no fundo são um bando de carola enrustido que vetam o prazer à todo custo isso sim. E o prazer alheio ainda por cima, sabe? Se fosse o próprio né, foda-se. Mas o dos outros, sabe? A gente pensa que é muito, muito moderno quando sequer saiu do básico ainda que se trata de simplesmente assumir e saber lidar com o prazer e com o que é prazeroso pra nós.

É terminantemente PROIBIDO sentir prazer. É pecado. E vamos pro inferno. E, se sentir mesmo que seja pouco e por pouco tempo, é preciso se auto-flagelar com a famigerada culpa, algo completamente artificial, fabricado, não-natural, externo à nós e ao que sentimos.

A gente ainda vive na idade média mesmo e não sabe.

Há algum tempo atrás, me disseram que o meu hábito de ouvir certas músicas repetidamente seria para estendê-las, com o propósito de torná-las infinitas. Hoje em dia entendo que o propósito da minha repetição é quase que o oposto disso: é uma forma de permanecer no mesmo momento, de permanecer no agora e não de estendê-lo. Se aproxima mais do que ocorre com a entoação de mantras e outras práticas de meditação de devoção.

Semana passada, sexta-feira, uma conhecida veio falar comigo sobre um texto que escrevi aqui há não muito tempo atrás. Eu raramente releio os meus textos e o que escrevo, simplesmente escrevo, largo aqui e vou embora. Não me considero, nem nunca me considerei, escritora. Não penso no que escrevo, só sigo um fluxo que acho que precisa ser seguido naquele momento e os textos saem. Não planejo palavras, não penso em estruturas, não sou sequer criativa. E se tudo isso calha de acontecer em algum texto meu é quase como se fosse por acaso, não por intenção. E não retorno nas cenas dos meus crimes.

Mas ela me atentou para o texto e disse que se identificou com ele. E aí fui relê-lo e me veio um assombro profundo. Aquelas palavras, aquela pessoa não parecia ser eu. Na verdade aquela pessoa definitivamente não era eu. Mas era. Cada linha, cada verdade, cada relato da minha vida. Era tudo eu, ali. Terminei de ler o texto me sentindo meio mal. Na verdade terminei o texto com a pior sensação do mundo: eu estava com pena de quem escreveu aquilo. Foi horrível me dar conta de que me utilizo, e muito, deste artifício para conseguir atenção. E né: atenção de que tipo será que eu recebo agindo desta forma?

Que tipo de coisa será que eu atraio pra mim e pra minha vida glamourizando as piores e as mais tristes coisas que já me aconteceram, como se ainda acontecessem, como se ainda fossem vívidas? Preciso mesmo disso? Até quando? Ok, que por algum tempo da minha vida isso deve ter me ajudado, mas hoje em dia isso não me serve mais. Não me identifico mais com isso, nem de longe. Auto-comiseração é o pior sentimento que a gente pode nutrir pela gente mesmo. O ódio e a raiva pelo menos tem uma chance de causar algum tipo de movimento. Agora me parece que nada de bom pode vir de pena. É um sentimento completamente estéril.

A impressão que eu tenho é que às vezes – muitas vezes – eu utilizo este espaço como um relicário de mágoa, uma egrégora de melancolia. E isso tudo pode ser feito de forma muito bonita, sim, às vezes até poética. Mas até isso pode ser mudado, em mim. E eu quero essa mudança porque não vejo mais sentido nesse tipo de comportamento e não me sinto lá muito confortável com as consequências disso tudo, o que isso tudo me traz. Quero outras coisas e neste caso eu tenho opções. Existem outras coisas, na minha vida. Mas da forma que eu escrevo, parece que não. Há algum tempo parei de documentar as coisas que me acontecem e não entendia o porquê.

É porque este espaço tem (tinha) este tipo de objetivo. Que pode – e deve e será – ressignificado. É por isso, também, que tenho postado tantas músicas e tão poucos textos. Posso também estar contornando e deixando passar coisas outras que me acontecem com a intenção de justamente focar no “propósito” deste espaço, suprimindo outras coisas igualmente importantes. Como se este fosse um propósito fixo, imutável. E não é. Coisas ruins e tristes acontecem com todo mundo e também na minha vida – não ignoro este fato, estes fatos. Mas não ignorar não significa que eu deva homenageá-los sempre e colocá-los num patamar de importância irreal.

I’m bigger on the inside. 

Eu ia escrever sobre amor e sobre as coisas que aconteceram essa semana, mas não vou não. Estou com preguiça e não tenho tempo. Só vou fazer questão de deixar registrado algumas coisas que me lembrei esses dias, enquanto discutia sobre isso.

Quando eu disse pra ele que o amor não existia e que o que existiam na realidade eram interesses (sexuais, afetivos, fraternais, etc.), a expressão que ele fez com o seu rosto foi a mesma como se eu tivesse descoberto um segredo que ele guardava, a muito custo, a sete chaves. Nessa época, o que restava do que já tínhamos sido sorria para nós como um câncer terminal.

Enquanto bom ilusionista que era, o amor era uma de suas atuações preferidas.

Ele nunca precisava me dizer nada diretamente. Jamais precisou. Lê-lo nunca foi tão fácil assim, mas ele se esforçava pra ser imprevisível (o que era bastante previsível) e, com o tempo, ler as nano-expressões de seu rosto tornou-se mero hábito. Como se ele fosse um quebra-cabeças a ser desvendado, porque, obviamente, uma porção de coisas eram escondidas de mim.

De algumas, desconfiava (e acabaram se confirmando depois). Outras, por falta de maiores provas, tenho como convicção até hoje. Não o absolvo de nada por pura falta de merecimento, mesmo. Também não condeno minha lentidão para perceber as coisas antigamente, nem minha falta de ação. Existiam uma série de sentimentos, sensações, vontades e angústias que perturbavam as águas da minha percepção.

Hoje, com a água calma, enxergo mais claramente do que nunca. Só que desta vez, no mundo.

Ele fez a mesma exata expressão quando falei que eu tinha plena segurança que conseguiria levantar um bom dinheiro sendo uma prostituta que se dedicasse muito bem ao seu ofício. Eu acreditava que as orelhas empinassem por temas como dinheiro e sexo, mas não era nada disso. Os olhos arregalavam e a boca ficava entreaberta, esganiçada, quase que babando por algo subjacente à tudo isso.

Poder.

Foi um completo assombro, visivelmente. Escondido em vão de forma pobre e meio ressentida. Mais tarde colocado devidamente no rol de todos os meus defeitos e de como aquilo fazia de mim – junto com uma porção de outras coisas – uma das mulheres mais desprezíveis a já ter pisado nessa Terra. Enfim.

Nessa época eu só me sentia confortável o suficiente para chegar a este tipo de constatação, com aquela pessoa. Confiava a este ponto. Ainda sou bastante tola, nesse nível. Talvez jamais deixe de ser.

As pessoas só nos ouvem de verdade quando ousamos falar uma linguagem que elas entendem e se identificam plenamente – por mais que insistam que não. Por mais que insistam que se sentem chocadas, ofendidas. Por mais que tentem, inutilmente, dissimular isso. Não sou tão versada em cinismo quanto gostaria e inclusive, nesses dois casos, o que falei não foi intencional ou proposital.

Acho que a expressão de total assombro mexe com a minha libido de uma forma que tenho certo receio de reconhecer mais profundamente.

Hoje me dei conta de que sou qualquer uma. De que posso ser qualquer uma. E que, paradoxalmente, ser qualquer uma não é pra qualquer uma. De que, na verdade mesmo, nada do que eu faça faz mesmo muita ou alguma diferença. Notar isso me deixou meio deprimida por alguns instantes, mas na verdade foi mais libertador do que qualquer outra coisa. Sou irrelevante. Não importo. Não faço a mínima diferença. Esse tipo de pensamento tem o efeito contraditório em mim. Ele não me limita, pelo contrário, me impulsiona a ser o que eu quiser, assim que eu quiser ser. Esta parte ainda não está muito bem esclarecida ainda: não sei o que quero. Em vários sentidos. Só sei o que não quero e isso ao menos já é um começo.

Sabia, por cima, que alguma mudança brusca aconteceria, só não imaginava que fosse tanta. E não imaginava que fosse assim. Me vejo sendo obrigada, forçada na verdade, a dizer mais não do que sim, para algumas coisas. Eu nunca fui assim. Sempre tive medo da escassez, o tempo todo. Sempre tive muito medo do que pudesse me fazer falta. Por isso o sim sim sim o tempo todo. Em um espaço muito curto de tempo, disse não para duas coisas que comumente diria sim. Ontem acordei e disse não, mais uma vez, para algo importante. Ainda não dimensionei muito bem o que esses nãos querem dizer, só os observo ali, espalhando-se aos poucos. Não concordo. Não acho certo. Não quero fazer parte disso. Estou deixando de aceitar coisas em série.

Estou deixando de engolir coisas que não preciso engolir.

Dizer não para coisas que não quero ou não me importo é um tanto quanto fácil. O que me assusta é dizer não, genuinamente, para coisas que amo. Ou que quero muito. Simplesmente reconhecer, de forma não afetada, que estas coisas não me servem, que não são pra mim. A imagem que me vem em mente é a de véus, que estou tirando um a um. Ainda não enxergo o que há por trás deles – e talvez isso jamais aconteça, enfim – mas eles estão sendo retirados. Ou ainda, estou consciente de que eles existem e não estou permitindo mais que perturbem a minha visão. Não sei o que é pior: chegar a dizer o não ou antes disso mesmo me perceber desgostosa com situações que há pouco tempo me entesavam muitíssimo. A partir disso acontece o estranhamento. A partir disso, aconteço.

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