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Místicas

“No entanto, a natureza selvagem nos ensina que devemos enfrentar os desafios à medida que se apresentem. Quando os lobos são atormentados, eles não saem dizendo, “Ah não! De novo!!!”

Eles saltam, investem, correm, desaparecem, fingem-se de mortos, pulam na garganta do agressor, fazem o que tiver de ser feito.
Portanto, não podemos ficar escandalizadas com a existência de entropia, deterioração, tempos difíceis.

É preciso compreender que as armadilhas preparadas para capturar a alegria da mulher irão sempre se alterar e mudar de aparência, mas na nossa própria natureza selvagem nós iremos encontrar a energia absoluta, a libido exigida por todos os atos de coragem que forem necessários.

(Clarissa Pinkola Estés, em Mulheres que Correm com os Lobos)

Essa noite sonhei com demônios que não eram meus. Tenho tido sonhos recorrentes com um desafeto, por assim dizer. Na verdade eu não sinto nada em específico, mas volta e meia meu inconsciente faz essa pessoa submergir pra cá. Acordo sem entender, não sinto nada, nem raiva, nem ódio, nem desprezo… Me sinto indiferente e fico curiosa com os rumos do sonho, apenas. Mas este sonho com demônios esta noite foi em uma reunião familiar de um desafeto em específico. Foi bem tensa a coisa toda. Enxerguei dois demônios, um mais óbvio, outro nem tanto. O mais óbvio era imenso, devia ter uns 2 metros de altura, patas de aranha, ele tinha 3 rostos e o ventre (?) dele cuspia, com muito esforço, um corpo pra fora. O outro demônio apareceu nos olhos da mãe do desafeto, que ficou trincado e amarelado do nada… O sorriso dela também mudou, como se estivesse apodrecendo. No sonho eu só estava como observante e quando vi a coisa ficando muito feia simplesmente fui embora da situação. Basicamente eu sonhei que dois demônios estavam no círculo familiar de um desafeto meu, sendo que um deles inclusive tinha ligação direta com o desafeto em questão – estava na mãe dele.

Como me senti no sonho? Com um pouco de medo – mas não muito, pois eu sentia que estava protegida – e quando vi tudo aquilo acontecendo, quando me vi testemunha da desgraça da casa e da família de alguém, me senti triste. De verdade. Acordei e a primeira coisa que pensei foi “espero tudo isso seja só um sonho mesmo. espero que esteja tudo bem com essa pessoa ou que ao menos fique, eventualmente… por que por hora parece que está um tanto quanto foda”. Fiquei um pouco preocupada também. Sim, com um desafeto. Não é meio louco, isso? Meio irracional? Sei lá, na verdade, completamente contraditório. Fui pensando mais nisso ao longo do dia. Sempre achei meio bobo o conceito cristão de dar a outra face, sempre pensei “ninguém faz isso”. E ninguém faz mesmo… Também sempre tive dificuldade em entender o conceito de rezar por quem você não gosta ou por alguém com quem você já teve algum tipo de problema. Ou ainda, colocando em termos mais diretos e simples: rezar pelos seus inimigos. Isso nunca fez nenhum tipo de sentido pra mim. Acho que já tenho recebido sinais disso há algum tempo mas só hoje é que ficou claro pra mim.

Hoje depois desse sonho, acho que estou começando a entender isso. Mas estou bem no começo mesmo, pois ainda estou meio bolada e chocada com o fato de estar entendendo isso. Embora seja meio óbvio, este não é um entendimento muito racional. Sempre pensei que o que a gente não gosta e o que nos faz mal tem que ser aniquilado, né? E “tem mais é que se ferrar mesmo, foda-se” e rir da desgraça dos outros parece ser sempre a saída mais fácil. E é, de fato. No entanto, as saídas mais fáceis muito frequentemente não são as mais adequadas. Mesmo. Como uma amiga disse hoje, nossos inimigos nos mostram a nós mesmos, quem somos de verdade. É claro que a gente nem sempre vai conseguir pensar desse jeito, afinal somos humanos: vamos pensar que foi “bem feito”, vamos querer q o outro se lasque mesmo, etc. Tem vezes que essas coisas vencem. Mas elas nunca se satisfazem por completo: porque a gente sempre vai querer mais, até a aniquilação completa do outro. Elas se retroalimentam, essas coisas. Mas na medida em que pudermos ser consciente sobre elas e evitar alimentar isso, vou tentar fazer isso sim.

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