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Místicas

Eu estava escorada no balcão do bar, não lembro bem no que estava pensando, quando de repente tenho uma sensação quente na parte de trás do meu braço esquerdo. Tirei o meu braço rapidamente, assustada. Não vi que era o seu braço encostando no meu, entregando coisas pra algum outro alguém atrás de mim. “Desculpe!” você me falou, por me tocar sem querer. Eu já estava alcoolizada e provavelmente respondi “ah, não foi nada” com a voz alcoólica mais macia que consegui fazer. Não nos tocamos com frequência. Das duas vezes que estive no bar, estendi minha mão direita e te cumprimentei com a voz mais firme que consegui fazer. O lugar estava cheio, minha presença precisa ser notada e eu não gosto de ficar com a garganta seca por muito tempo. Gosto do som da sua voz, da curva de cada uma das suas letras que caem no meu ouvido.

Passei meses sem perceber isso, final do ano percebi, despercebi e no início do ano percebi novamente. Eu me confundo, me distraio. Mas as coisas se encaixaram. E no início é sempre tudo muito estranho. Não me constranjo mais, não sou uma menina. Acho que nunca fui, só que sempre pelos motivos errados. Em um dos passeios, assim que cheguei, fui reta e direta te cumprimentar, sem medo algum. Eu estava com um batom escuro, você me olhou com olhos arregalados, pois achava que eu fosse te ignorar. Mas naquele dia eu já sabia. Te cumprimentei, com abraço e beijo mas foi isso. Eu não tinha nada a oferecer naquele momento que não fosse um desejo cego, vazio. Não tinha te aprendido ainda. E ainda não haviam todas as coisas que existem agora, hoje. Eu não as carregava em mim.

Agora entendo que não preciso ter medo. E que também não quero programar nada, planejar ou pensar em nada. No momento, eu só quero sentir. Só sentir. Estar aberta pra isso, de fato: pro sim, pro não, pro que vier. Eu só quero estar ali. Sei que tenho um longo caminho pela frente. E quero isso.

Sonhei que estava num escritório com espelho pra frente do mar, trabalhando, quando de repente a terra se dobrava e avançava em direção ao prédio. Dava pra ver os outros estados, dobrados, vindos do céu. Até que o mar veio. Primeiro, foi aterrorizante. E depois tudo muito, muito, muito errado. Eu diria num primeiro momento que “sonhei com um tsunami”, mas não. Era algo muito pior. Era a terra se dobrando e vindo do céu, com tudo junto. E antes do primeiro impacto, eu estava em meditação. Não o senti, porque na hora que bateu no vidro, acordei pra essa realidade aqui. Enfim…

Vai ter mudança. E não vai ser pequena e nem sutil. Vai ser brusca e a olhos vistos, de todos. É a terra no céu junto com a força avassaladora e devastadora da água.

Como continuar vivendo quando a gente sabe que a catástrofe está a espreita na esquina? E que somos pequenos e impotentes e que não há muito o que possamos fazer em relação a isso? Bom, a gente só levanta e vai trabalhar porque não há exatamente muito a ser feito mesmo.

Ao mesmo tempo em que fico prostrada, também fico inquieta. Sinto medo ao mesmo tempo em que quero mais é ver o oco, para que o marasmo e o tédio se dissipem ao menos temporariamente. As coisas são todas meio ambíguas por aqui, desde que eu consigo me lembrar.

A sensação e o sentimento mais demarcado que esses sonhos causam em mim é uma sensação de urgência mesmo. Mas urgência do quê, exatamente? Bem, o tempo e os caminhos vão mostrar… No tempo que me resta, eu danço no abismo. Não tenho pressa, mas não perco tempo. Apresso-me vagarosamente. Festina lente.

Dora, estou em um emprego que eu detesto. Eu sinto uma tristeza tão grande por não conseguir arranjar outra coisa para poder sair de lá (sair sem ter outro trabalho não é opção infelizmente) que, no momento em que coloco o pé na porta, já me sinto inundada pela angústia. É como se o ambiente me engolisse, não sei explicar. É quase físico o negócio.
Tem algum ritual para eu impedir que a energia do lugar me derrube tanto?

Pergunta originalmente feita anonimamente via Curious Cat/Twitter.

xxx

Olá Anon!

Vamos por partes.

Palavras que você usou: “detesto”, “tristeza”, “angústia”, “engolisse” e “derrube”.

Primeiramente, eu sinto muito que você sinta todas essas coisas em relação ao seu trabalho. Veja bem a palavra que eu uso: TRABALHO. Trabalho não é emprego, é algo muito mais profundo e complexo que isso. Trabalho, na minha humilde concepção, alinha-se muito ao propósito de vida. É algo com o qual você gasta uma quantidade de energia enorme, imensa, diariamente. Você tem noção do quanto isso é importante? Querendo ou não, achando bom ou não, o trabalho faz uma parte muito grande da nossa vida e não temos como ignorar isso. Deve ser muito difícil mesmo trabalhar com essas palavrinhas que você usou aí em cima. Isso posto, vamos ao problema.

Ao que tudo indica, você não gosta do seu atual EMPREGO e me pediu um “ritual para impedir que a energia do lugar te derrube tanto”. Novamente, vamos por partes: você já sabe que esse trabalho não combina mais com você. Isso me parece ser um fato. Ao que tudo indica, você já está procurando outro trabalho para sair do atual emprego – ou ao menos eu imagino e espero que sim. Para mim, não faz mais O MÍNIMO SENTIDO você gastar energia para tolerar um lugar em que não suporta mais estar. De verdade, mesmo. Digo isso de coração.

É claro que existem questões de ordem prática né: os boleto chega e ninguém é doido de largar um emprego pra ficar a deus dará. Isso realmente não é nada sábio.

Mas me parece que você precisa mudar algumas coisas internamente. Algumas perspectivas internas suas mesmo. E isso é um processo, leva tempo e esforço. Não é passe de mágica. Não é bagunça. É o que eu tenho chamado há algum tempo já de disciplina íntima.

Perceba a quantidade de palavras negativas você direcionou ao seu atual emprego (ou seja, a você mesmo/a?) que, querendo ou não, direta ou indiretamente, está ligado ao seu trabalho. Sinceramente, eu não vejo como se utilizar das energias dessas palavras possa te ajudar a conseguir algo novo.

Por que você não vira esse jogo?

Por que que ao invés de sentir que seu trabalho é um estorvo, você não se sente grata por ele? Grata por ele te permitir pagar as contas, que seja! Grata por ele mostrar a você e te ensinar qual é o tipo de ambiente que você NÃO quer estar. Grata por ele ter te feito evoluir a ponto de você perceber que, agora, você precisa ir para uma outra fase, uma nova fase.

Perceba as partes boas que esse seu emprego ruim te trouxe. Pense nas suas qualidades e em como você pode explorá-las em outro lugar, com outras pessoas, por outras perspectivas. Simplesmente PARE DE FOCAR nas coisas péssimas, ruins e difíceis pois toda vez que você estiver fazendo isso, você estará na verdade CELEBRANDO-AS. Não ALIMENTE isso. PARE com isso. Simplesmente PARE. Quebre esse ciclo. Eu sei que falar é fácil, mas isso precisa começar de algum modo, algum dia.

Eu NUNCA, JAMAIS vou te recomendar ritual algum pra você tolerar o lugar ruim onde está. Nunca. Jamais.

Mas eu estimulo sim que você faça rituais de agradecimento, de prosperidade, de pedidos de melhoria, de mentalizações do que você quer de MELHOR pra você. JAMAIS vou indicar o oposto disso simplesmente porque NÃO FAZ O MÍNIMO DE SENTIDO.

*Breve relato de experiência pessoal*: antes de sair do meu antigo emprego, eu procurei emprego por 8 meses, planilhei e monitorei vagas ativamente, espalhei currículos e mentalizei exatamente o que eu queria (o que queria fazer, pessoas, trajeto de casa-trabalho, etc. TUDO). Fui grata por tudo (genuinamente) que o antigo emprego me trouxe. Pedi pelo novo. Pensei nisso diuturnamente. Foquei minha energia nisso, nesse pedido. O emprego em que estou hoje veio EXATAMENTE como pensei, pedi e foquei. Perto de casa, equipe boa, trabalhando com o que sei fazer de melhor. Ele é perfeito? Longe disso. Mas é onde eu preciso estar HOJE e reconheço o meu merecimento e reconheço também que atraí exatamente o que vibrei. E claro, sou grata pra caralho sim.

Coisas que eu recomendo você fazer (e eu vou me repetir aqui):

1. ACEITE que este trabalho, de fato, não é mais pra você. Falo de aceitação pois muitas vezes a gente ACHA que aceitou algo, mas verdadeiramente, genuinamente, ENGANAMOS A NÓS MESMOS e somos APEGADOS e não queremos de fato largar mão. Não largamos o osso nem a pau!!! Dizemos que não queremos mais, mas nossas ações são todas o contrário disso. Queremos coisas novas mas continuamos fazendo as mesmas coisas de sempre… Sabemos que isso é loucura. Como querer resultados diferentes fazendo sempre a mesma coisa? PERCEBA a si mesma, de verdade. Você REALMENTE quer sair desse trabalho ou só ACHA que quer? O que você faz ATIVAMENTE em relação a isso? Quais são seus padrões de pensamento em relação a isso?

*Breve relato de experiência pessoal*: solicitei meu CRB e fui bibliotecária de 2012 a 2014. Quis cancelá-lo em 2015 e meu pedido foi indeferido. Não quis brigar pelo indeferimento e segui pagando as anuidades. Mas eu não me atentei, naquela época, que eu não estava na verdade bem resolvida com a área, com o conceito do que é ser bibliotecária. E na verdade eu não era mais, só não conseguia nem queria lidar com isso, com esse sentimento, encarar isso DE FATO. Daí eu tive que começar todo um processo de desidentificação (?) como bibliotecária. Isso foi MUITO sério pra mim, pois me identifiquei assim por muito tempo e essa profissão foi a que eu quis e escolhi em detrimento dos desígnios e desejos externos, doa a quem doer! Não era simplesmente mais questão de “não precisar mais pagar o CRB”, mas algo bem mais profundo que isso: eu não me identificava mais como bibliotecária. Ponto. E me dar conta disso foi dolorido e sofrido, foi como um divórcio… Pois por muito tempo eu quis muito isso. Enfim, foi duro eu reconhecer que tinha acabado. Fiz um ritual de agradecimento, recordando todo meu histórico como bibliotecária, elencando TUDO o que a área me trouxe de bom, todos os aprendizados, todas as pessoas, entendendo como aquilo é parte indissociável de mim, das minhas escolhas e de quem sou hoje, de como me fez chegar até aqui e conquistar todas as coisas que conquistei. Fui profundamente e genuinamente grata, de verdade e entendi que me resolvi com essa questão de forma razoável. Solicitei o cancelamento do CRB novamente no começo desse ano. O cancelamento foi deferido. (Tá, pode ter sido “só coincidência”? Pode. Pois bem: foda-se. Pra mim foi bom. Não tô querendo provar nada pra ninguém não, isso só diz respeito a mim, exclusivamente).

2. AGRADEÇA AGRADEÇA AGRADEÇA pelo seu atual emprego. Eu não vou nem entrar no mérito do quanto de gente que tá desempregada porque eu imagino que você já saiba que o Brasil está em crise há alguns anos né? Mas enfim… AGRADEÇA. Veja todas as coisas que ele te trouxe de bom (NÃO É POSSÍVEL que não tenha ABSOLUTAMENTE NADA de bom, eu duvido! nada é totalmente ruim, nem totalmente bom). Veja os pontos positivos dele, quaisquer que sejam, mesmo que sejam os mais práticos: dinheiro, boletos pagos, segurança financeira, estabilidade, etc., qualquer coisa que seja, o significado disso é único e seu!!! Entenda como ele te fez enxergar e entender certas coisas, como te fez conhecer pessoas (boas ou ruins, não importa), como te fez evoluir como pessoa pois hoje você sabe o que é e o que não é bom pra você, o que você quer e o que você não quer! E o simples fato de saber e entender isso é um privilégio do caralho, que ninguém nunca nota. E last but not least: SINTA que com tudo o que você aprendeu, você está efetivamente pronta pra encarar uma próxima fase na sua vida. E aí você vai pro passo seguinte que é…

3. IMAGINE-se em um novo trabalho. Alimente isso, esses pensamentos, na sua mente diuturnamente. Como você quer se sentir no seu próximo trabalho? Como você quer que ele seja? O que você quer fazer? Com que tipos de pessoa quer trabalhar? Imagine em detalhes vívidos, escreva sobre isso, pense nisso diariamente, tenha FOCO nisso. Peça, imagine e realize. Abra esse espaço para o novo, pra ele poder vir efetivamente. Pare de focar no velho, no antigo, no que não é harmônico, no que não combina e que NÃO DÁ MAIS. Simplesmente PARE. SAI DAÍ ANON CÊ VAI MORRER!!!

Não vou dar receita de bolo pra ritual de prosperidade, agradecimento, etc., porque

  1. Ainda não me sinto APTA a repassar esse tipo de conhecimento pra terceiros, sou só uma estudante e curiosa que calhou de passar por algumas experiências que PARA MIM funcionaram; ou seja, nada é muito garantido por aqui;
  2. Ainda acho que a criação de rituais é algo muito íntimo de cada pessoa e vai depender muito do nível de conhecimento que ela tem dessas práticas e também de como a espiritualidade que ela tem está desenvolvida (ou não).
  3. Não tenho paciência pra quem tá começando (risos brinks tenho sim olha essa porra de textão enorme que eu escrevi)

Espero ter ajudado.

(Escrito em 21 de Outubro de 2017, no Medium)

Esse mês tem sido bem agitado pra mim. Dia 5 teve a Bênção Mundial do Útero, minha primeira Bênção como Moon Mother. Dia 12, dia de Nossa Senhora de Aparecida, foi o dia que ofereci minha primeira Bênção e Cura do Útero individual, para uma colega com quem sempre faço energizações. E no dia 10 uma amiga minha do Twitter estava procurando alguém que se disponibilizasse a falar sobre o Sagrado Feminino para um documentário de faculdade. Vi o tweet e falei que estava disponível.

Perguntei pra mocinha que vai me entrevistar quais seriam as perguntas e ela disse que tudo vai se desenrolar numa conversa mas que seriam basicamente três perguntas:

  1. Como você conheceu o Sagrado Feminino?
  2. Qual foi o impacto do Sagrado Feminino no seu dia a dia?
  3. Qual é sua experiência mais marcante com o Sagrado Feminino?

Vou tentar responder todas por aqui, como se fosse um ensaio pra conversa de amanhã.

  1. Considero que comecei a entrar em contato mais profundamente com o Sagrado Feminino quando comecei a ir nas Bençãos do Útero em 2016. Eu já era consciente do meu ciclo antes disso, mas de uma forma profundamente negativa, focando só na TPM e nos aspectos ruins. Eu era consciente do meu útero como uma maldição, algo que “me faria ir além, caso eu tivesse nascido sem” entre outras atrocidades nas quais eu acreditava. A partir das Bênçãos eu comecei a ser consciente do meu útero de uma forma um pouco mais ampla, até que uma amiga me convidou a fazer o curso de Moon Mother. Num primeiro momento dei risada e achei que aquilo jamais seria pra mim, mas depois me peguei pensando em investir nisso, por mim mesma. Na verdade, nunca achei nem que me identificaria com a Bênção do Útero, mas depois que comecei a participar dos rituais, percebi que eles ressoaram profundamente com várias coisas que eu já sentia e pensava há alguns anos. E de repente foi como se essas coisas simplesmente se materializassem na minha frente, me mostrando outras perspectivas, outras visões, sobre o meu ciclo, sobre mim mesma. Não é tanto uma busca sobre “ser mulher” ou uma busca sobre “ser feminina”. É bem mais profundo que isso: é uma busca sobre a sua verdade interior e uma autenticidade mais refinada. Essas coisas vão muito além da nossa condição e da forma na qual existimos e nos apresentamos para o mundo. Tem a ver com cura não apenas física, mas também com cura de ancestralidade, relacionamentos, coisas que estão além da nossa própria vida, mas acabam interferindo nela de uma certa forma.
  2. Sobre o impacto do Sagrado Feminino no meu dia a dia, vou dar uma resposta resumida e bastante prática, por assim dizer. Foi como se eu tivesse ganhado de presente dois relógios na minha vida pelos quais me guio: o relógio do meu ciclo menstrual mensal e o relógio do ciclo lunar. E o que eu faço é tentar perceber a sincronicidade desses dois relógios de acordo com o ritmo da minha própria vida e das coisas que me acontecem. Se eu quiser adicionar o “terceiro relógio” da astrologia e também levar isso em consideração de forma mais ampla, é possível, basta olhar para o que se apresenta e saber interpretar isso de uma forma bastante única e íntima. Se existe alguma questão que ainda não está clara pra mim, eu costumo jogar tarô pra mim mesma. Sobre as sincronizações das Bençãos do Útero Mundiais, eu entendo que é como se a cada ritual fosse retirado um véu de cima de mim e eu conseguisse enxergar algumas coisas com um pouco mais de clareza — coisas, claro, referentes ao que eu estou vivendo e não como uma regra pra todo mundo. E isso muda muita coisa sim. Mudou a forma que eu me relaciono com as pessoas, a forma que entendo relacionamentos, a forma que eu lido com a minha própria sexualidade. Optar pela disciplina da abstinência sexual tem sido bastante proveitoso e me feito repensar muitas coisas, de verdade, como nunca antes. E não faço isso como um sacrifício, mas sim porque é o que parece mais coerente com a vida que eu tenho levado nos últimos 2 anos, pelo menos.
  3. Sobre a experiência mais marcante com o Sagrado Feminino, eu não consigo entender esse tipo de experiência nesses termos. Não faz muito sentido pra mim porque compara a espiritualidade, que é um todo um processo fluído, a um tipo de “evento especial”. E não se trata disso, ao menos pra mim, não enxergo deste modo. O Sagrado Feminino faz parte da espiritualidade que eu tento exercer. E a espiritualidade, ao menos as experiências que tenho tido em relação a isso nos últimos dois anos, tem a ver com a visão radical de, literalmente, enxergar o sagrado em absolutamente tudo. Nas coisas boas e nas coisas péssimas também, pois elas englobam o Todo. Não é fácil fazer isso, mas é o meu caminho. Mas se for pra oferecer uma resposta prática, ela seria mais ou menos assim: minha experiência mais marcante é quando eu acordo e percebo que nessa existência, eu me identifico como mulher. E faço disso a minha casa, a minha morada, me sinto confortável com isso, com esse corpo, com esses cheiros, com essa possibilidade. Que meu corpo biológico tem determinado formato e é capaz de muitas coisas. É marcante quando tomo banho e lavo meu corpo e, sem pressa, tento amar cada uma das minhas imperfeições. E quando olho pro espelho e tento fazer o mesmo, repetidamente, dia após dia. A forma que eu ando e que deslizo pela existência é marcante, diariamente. A postura que tenho em relação ao mundo, a forma que me coloco. A forma que eu uso o jeito ao invés de força e tudo bem (e que esta é, na verdade, a minha maior força). Quando sinto cólicas e me lembro da corrente da qual faço parte, e espero, do fundo do meu útero, que a cólica momentânea que esteja sentindo hoje e agora, esteja de alguma forma aliviando para alguma mulher que sente dores terríveis, mensalmente. Quando me olho no espelho e não sinto uma dismorfia absurda porque finalmente parte de mim já me aceitou como sou, não como acham que eu devo ser. Essa é a parte mais marcante: o milagre diário, que faz parte de todo um longo processo e que acontece bem diante dos meus olhos, diariamente mesmo. Mas como um amigo (oi Planetas Diários) sempre cita “Os lábios da Sabedoria estão fechados, exceto aos ouvidos do Entendimento”…

Originalmente publicado no Bustle.com, com o título “Mercury Retrograde & Jupiter Retrograde 2018 Are Happening At The Same Time, So Here’s How To Survive Unscathed”, por Brittany Bennett

Pode parecer uma trollagem dupla e cruel que o universo resolveu colocar sobre nossos ombros. Dois planetas retrógrados? Ao mesmo tempo? O que tudo isso quer dizer? E nós ficaremos bem? Se você não ficou sabendo, Mercúrio e Júpiter estarão retrógrados estarão acontecendo ao mesmo tempo este ano. Mas isso não significa que você deve fechar todas as portas e estocar comida para se preparar para o fim da comunicação como a conhecemos. A cura está em como se preparar para isso.

Mercúrio fica retrógrado algumas vezes durante o ano. Em 2018 nós o veremos seguir em frente três vezes. Então, é melhor estudar em como se preparar para isso agora. Todos sabemos que quando Mercúrio entra em retrogradação a comunicação pode ficar meio confusa. E-mails importantes não são enviados, sistemas informáticos de linhas aéreas entram em pane, nossas bem intencionadas legendas do instagram são mal interpretadas. É tipicamente melhor ir com cuidado quando estamos lidando com comunicação durante esta fase.

Todo ano, esteja você ciente disso ou não, Júpiter também entra em retrogradação. E enquanto Mercúrio volta ao normal depois de uma restrição de três semanas, Júpiter se arrasta por quatro ou cinco meses. Pois é. É muito tempo pra se passar no que parecem ser águas turbulentas. Mas astrólogos permanecem calmos em relação a estes planetas retrógrados, nos alimentando com conselhos para nivelar tudo isso, aceitarmos os retrógrados e transformarmos limões em limonadas.

Vamos entender melhor nosso calendário astrológico. Mercúrio estará retrógrado de 23 de março a 15 de abril, de acordo com o Farmer’s Almanac. Júpiter, por outro lado, estará retrógrado de 8 de março a 10 de julho, de acordo com o Astrology King. Basicamente, este pedação de tempo para ir de retrógrado em retrógrado significa que nós não podemos simplesmente nos divertir e deixar passar. Teremos que operar nossas vidas diárias de acordo com esses planetar retrógrados. Felizmente, com um pouco de conhecimento, não vai ser tão ruim quanto você espera.

O AstroStyle explica que “o prefixo re- significa voltar — e retrógrados são uma época para melhorar projetos que já estão em andamento, ou para relembrar-se daqueles que você engavetou. Retrógrados viram a nossa atenção para o passado, e podem na verdade ser “períodos de graça” cósmicos que é quando podemos finalizar todas as coisas que começamos ou fortalecer nossos planos, assegurando que não nos movamos em uma base instável. Definitivamente é algo que devemos meditar sobre. Enquanto os planetas parecem estar girando ao contrário (spoiler: eles não estão — é uma ilusão), é uma boa época para pegar seu diário e focar em fazer o passado presente. Para então fazê-lo parte do seu futuro.

Aconselha-se que durante Mercúrio retrógrado, uma vez que ele é o planeta que rege as comunicações, faça-se o backup de fotos e emails e documentos importantes. Talvez seja melhor dar mais um tempo na ideia de comprar quaisquer dispositivos tecnológicos e se você precisar assinar um contrato, leia as entrelinhas. Quer dizer, leia de novo de novo de novo para que nenhum detalhe seja perdido no meio do caminho. Enquanto para Júpiter, o AstroStyle sugere, “arisque-se menos e avalie bem antes de seguir em frente. Viaje para um lugar antigo favorito. Pegue novamente um empreendimento empresarial abandonado. Volte para a escola, termine um curso ou certificação de algo”. Esta não é uma boa época para começar um plano de um jogo novo em folha. As chances são de que, caso você insista em realizar isso, pode não ocorrer da forma mais suave possível.

Prepare-se para voltar no tempo sem a necessidade de uma máquina do tempo em se tratando desta sobreposição de Mercúrio e Júpiter retrógrados. Se as vibes do retrógrado te deixam com sentimentos de sobrecarga, você pode e deve tirar um tempo para meditar. Você será capaz de acalmar quaisquer emoções ansiosas que te deixam com sentimentos de impulsividade — uma energia que esses retrógrados inpiram. Relaxe no retrógrado, porque afinal, não temos escolha.

Sempre nos dizem para focarmos no presente e isto é verdade. Mas agora é a hora de retomar o passado e selecionar o que pode ter sido deixado pra trás e mereça uma re-avaliação para sua situação atual de vida.

Em uma época estressante e baseada em dados, muitos jovens encontram conforto e insights no zodíaco — mesmo que não acreditem exatamente nele.

Originalmente publicado no The Atlantic, com o título “A Nova Era da Astrologia”, por Julie Beck

Astrologia é um meme e está desabrochando e se desdobrando da mesma forma que eles. Nas mídias sociais, astrólogos e máquinas de memes de astrologia amontoam dezenas de centenas de milhares de seguidores, as pessoas brincam sobre Mercúrio retrógrado e categorizam “os signos como…” literalmente qualquer coisa: raças de gatoscitações de Oscar Wilde,personagens de Stranger Things, tipos de batatas fritas. Em publicações on-line, horóscopos diários, semanais e mensais, e pequenas listas relacionadas ao zodíaco florescem.

Este não é o primeiro momento que a astrologia teve e não será o último. A prática tem existido por aí de várias formas por centenas de anos. Mais recentemente, o movimento New Age dos anos 60 e 70 veio com uma boa parcela de ajuda do zodíaco. (Alguns também referem-se ao New Age como a “Era de Aquário” — o período de 2000 anos depois que dizem que a Terra entrou no signo de Aquário).

Nas décadas entre o boom do New Age e agora, enquanto a astrologia certamente ainda não desapareceu — você ainda podia encontrar horóscopos regularmente nas páginas de algumas revistas — ela “voltou a atuar um pouco mais no backstage” diz Chani Nicholas, uma astróloga de Los Angeles. “E então aconteceu algo nos últimos cinco anos que forneceu a ela uma popularidade, uma relevância para este tempo e lugar, que ela não tinha tido por bons 35 anos. Os Millenials aceitaram e entraram nesse jogo”.

As muitas pessoas com quem falei para escrever este artigo disseram que sentiam que o estigma atrelado à astrologia, embora ainda exista, tinha recuado uma vez que a prática tinha agarrado um ponto de apoio na cultura on-line, especialmente com pessoas mais jovens.

“Nos últimos dois anos, nós realmente observamos uma readequação das práticas New Age, muito voltada em relação a um quociente Millennial e nova Geração X”, diz Lucie Greene, diretora mundial do grupo de inovação J. Walter Thompson, que monitora e faz previsões de tendências culturais.

Callie Beusman, editora sênior da Broadly, diz que o tráfico para os horóscopos do site “cresceram exponencialmente”. Stella Bugbee, presidente e editora chefe do The Cut, diz que um post normal sobre horóscopo no site teve 150 vezes mais tráfego em 2017 do que no ano anterior.

De alguns modos, astrologia serve perfeitamente para a era da Internet. Existe uma baixa barreira para entrada e profundidades quase que infinitas para minerar se você tem vontade de fazer uma pesquisa pelo Google e entrar pelo buraco do coelho branco. A disponibilidade de informações profundas on-linedeu a esta onda cultural de astrologia uma certa erudição — mais piadas sobre o retorno de Saturno, menos cantadas baratas do tipo “ei gracinha, qual seu signo?”

Um princípio rápido: astrologia não é uma ciência; não existe evidência que o signo zodiacal de alguém se correlaciona de fato com a personalidade. Mas o sistema tem seu próprio tipo de lógica. Astrologia atribui significado à colocação do sol, da lua e dos planetas dentro das 12 seções do céu — os signos do zodíaco. Você provavelmente sabe o seu signo solar, o mais famoso signo zodiacal, mesmo se você não é um especialista em astrologia. É baseado em onde o sol estava em seu aniversário. Mas a localização da Lua e cada um dos outros planetas no tempo e localização do seu nascimento adicionam nuances à sua figura pintada pelo seu “mapa astral”.

“Os jovens hoje em dia e seus memes são o contexto perfeito para a astrologia.”

Teoricamente, o que o horóscopo deve fazer é oferecer informações sobre o que os planetas estão fazendo no momento, o que vão fazer no futuro e em como tudo isso afeta cada signo. “Pense nos planetas como se eles estivessem em uma festa”, explica Susan Miller, a popular astróloga que fundou o site Astrology Zone. “Você pode ter três pessoas conversando juntas, duas podem estar brigando num canto, Vênus e Marte podem estar trocando beijos. Meu trabalho é entender as conversas que estão acontecendo todos os meses e explicá-las para você”.

“Os astrólogos sempre estão tentando reduzir esses conceitos gigantes a pedaços de conhecimento mais fáceis de digerir”, diz Nicholas. “Os jovens de hoje em dia com seus memes são o contexto perfeito para a astrologia”.

A astrologia expressa ideias complexas sobre personalidade, ciclos de vida e padrões de relacionamento por meio de abreviaturas com os planetas e símbolos do zodíaco. E essa abreviatura funciona bem on-line, onde símbolos e atalhos costumam estar embutidos na comunicação.

“Primeiro, gostaria de dizer que considero a astrologia um fenômeno cultural ou psicológico e não científico”, diz Bertram Malle, cientista cognitivo social da Brown University, em um e-mail. “Mas a “astrologia completa” — que vai além dos horóscopos sobre seu signo solar no jornal — oferece um poderoso vocabulário para capturar não só personalidade e temperamento, mas também desafios e oportunidades da vida. Na medida em que alguém aprende esse vocabulário, ele pode ser atraente como uma maneira rica de representar (não explicar ou prever) experiências humanas e eventos da vida e identificar alguns possíveis caminhos para lidar com as coisas”.

As pessoas tendem a recorrer à astrologia em momentos de estresse. Um pequeno estudo realizado em 1982 pelo psicólogo Graham Tyson descobriu que as “ pessoas que consultam astrólogos” fazem isso em resposta a agentes de estresse em suas vidas — particularmente os estresses “ligados aos papéis sociais do indivíduo e aos seus relacionamentos”, escreveu Tyson. “Em condições de alto estresse, o indivíduo está preparado para usar a astrologia como um dispositivo de superação, mesmo que em condições de baixo estresse ele não acredite nela”.

De acordo com os dados da pesquisa da American Psychological Association, desde 2014 os Millennials foram a geração mais estressada e também a geração com maior probabilidade de dizer que seu estresse aumentou no ano passado, desde 2010. Millennials e pessoas da Geração X têm estado significativamente mais estressados ​​do que as gerações mais antigas desde 2012. E os americanos como um todo viram um aumento do estresse devido ao tumulto político desde as eleições presidenciais de 2016. A edição de 2017 da pesquisa da APA descobriu que 63% dos americanos disseram que estavam significativamente estressados ​​sobre o futuro de seu país. Cinquenta e seis por cento das pessoas disseram que ler as notícias era algo estressante e era significativamente mais provável que Millennials e pessoas da Geração X falassem isso, em comparação com pessoas mais velhas. Ultimamente, as notícias muitas vezes tratam de lutas políticas internas, mudanças climáticas, crises globais e da ameaça de uma guerra nuclear. Se o estresse faz a astrologia parecer mais interessante, não é surpresa nenhuma que mais pessoas pareçam ser atraídas por ela nesse momento.

Os horóscopos de Nicholas são uma prova disso. Ela tem cerca de 1 milhão de leitores mensais on-line e recentemente assinou o contrato para um livro — um dentre quatro novos guias de astrologia convencional vendidos em um período de dois meses no verão de 2017, de acordo com o Publisher’s Marketplace. Anna Paustenbach, editora de Nicholas na HarperOne, me disse em um e-mail que Nicholas “está no comando de um ressurgimento da astrologia”. Ela acha que isso acontece em parte porque os horóscopos de Nicholas são explicitamente políticos. No dia 6 de setembro, o dia depois de a administração do Trump anunciar que estava rescindindo o DACA — o programa de proteção por ação diferida para imigrantes ilegais — Nicholas enviou sua newsletter típica para a próxima lua cheia. Nela, encontramos o trecho:

A lua cheia em peixes… pode abrir os mananciais de nossos sentimentos. Pode nos ajudar a ter empatia com os outros… Que usemos esta lua cheia para continuar a sonhar e trabalhar ativamente no sentido de criar um mundo onde a supremacia branca seja abolida.

A astrologia oferece aos que estão em crise o conforto de imaginar um futuro melhor, uma lembrança tangível daquela frase clichê que, no entanto, é difícil de se lembrar quando as coisas estão difíceis: tudo passa.

Em 2013, quando Sandhya tinha 32 anos, ela baixou o aplicativo Astrology Zone, procurando uma ajuda para seu caminho. Ela sentia-se solitária e não valorizada em seu trabalho sem fins lucrativos em Washington, D.C., e estava saindo para beber quatro ou cinco vezes por semana. “Eu estava em um ciclo de sair constantemente, tentando escapar”, diz ela.

Ela queria saber quando as coisas iriam melhorar e a Astrology Zone tinha uma resposta. Júpiter, “o planeta da boa sorte”, entraria no signo do zodíaco de Sandhya, Leão, dentro de um ano, e permaneceria lá por mais um ano. Sandhya se lembra de ler que, se ela tirasse a bagunça de sua vida agora, iria colher as recompensas quando Júpiter chegasse.

Então, Sandhya passou o ano seguinte abrindo espaço para Júpiter. (Ela pediu que não publicássemos seu sobrenome porque trabalha como advogada e não quer que seus clientes conheçam detalhes de sua vida pessoal.) Ela começou a passar mais tempo em casa, cozinhar para si mesma, se candidatar a empregos e sair mais em encontros. “Eu definitivamente me distanciei de dois ou três amigos que sentia que não tinham uma boa energia quando eu ficava perto deles”, diz ela. “E isso ajudou significativamente”.

Júpiter entrou em Leão em 16 de julho de 2014. Naquele mesmo mês, Sandhya recebeu uma nova proposta de emprego. Em dezembro, Sandhya conheceu o homem com quem iria se casar. “Minha vida mudou dramaticamente”, diz ela. “Parte disso é como a crença em algo faz com que isso aconteça. Mas eu segui o que o aplicativo estava dizendo. Então eu dou um pouco de crédito a essa crença em Júpiter”.

Uma combinação de stress e incerteza sobre o futuro é um padecimento para o qual a astrologia parece ser o bálsamo perfeito.

Humanos são criaturas narrativas, constantemente explicando suas vidas e seus eus por costurarem juntos passado, presente e futuro (na forma de objetivos e expectativas). Monisha Pasupathi, uma psicóloga de desenvolvimento que estuda narrativa na Universidade de Utah, diz que, ao mesmo tempo que ela não dá crédito à astrologia, acredita também que ela “provê às pessoas um enquadramento muito claro para esta explicação”.

Ela dá um sentimento agradável de organização, não muito diferente de colocar uma biblioteca em ordem alfabética, pegar os eventos e emoções aleatórios da vida e classificá-los em estantes etiquetadas que ajudam bastante. Esse cara não está respondendo minhas mensagens provavelmente porque Mercúrio retrógrado fez com que ele não recebesse minhas mensagens. Eu demoro tanto tempo pra tomar decisões por causa de meu Marte em Touro. Meu chefe finalmente vai reconhecer todo o meu trabalho duro quando Júpiter entrar na minha décima casa. Uma combinação de estresse e incerteza sobre o futuro é um padecimento para o qual a astrologia parece ser o bálsamo perfeito.

Sandhya diz que ela busca a astrologia procurando ajuda em tempos de desespero, “quando eu só quero que alguém me diga que no futuro vai ficar tudo bem.” Ler seu horóscopo era como ver os próximos capítulos da sua própria história.

“Eu estou sempre preocupada”, diz ela. “Sou uma dessas pessoas que, depois que começo a engatar a leitura de um livro, pulo para a frente e leio o final. Eu não gosto de ganchos emocionantes, não gosto de suspense. Eu só preciso saber o que vai acontecer. Tenho uma história na minha cabeça. Eu estava esperando que certas coisas acontecessem na minha vida, e queria ver se vou ter sorte o suficiente para que elas aconteçam”.

Agora que eles aconteceram, “Eu não tenho lido muito [o meu horóscopo]”, ela diz, “e acho que é porque estou em um lugar feliz agora”.

Maura Dwyer

Para alguns, as previsões da astrologia funcionam como a pena do Dumbo — uma mágica reconfortante que ajuda a segurar as pontas até você perceber que poderia voar por conta própria o tempo todo. Mas é o inexplicável brilho místico da pena — mais suave e menos cansativo do que o brilho de uma tela — que faz com que as pessoas a busquem em primeiro lugar.

As pessoas estão começando a ficar cansadas de uma vida vivida tão intensamente na rede. Elas querem mais anonimato on-line. Estão ficando cansadas com ebooks, aplicativos de namoro, redes sociais. Elas desejam algo a mais nessa era de eus quantificados, localizações rastreadas e respostas indexadas a todas as perguntas possíveis. Exceto, talvez, perguntas sobre quem você é realmente, e o que a vida tem reservado para você.

Ruby Warrington é uma escritora sobre estilos de vida cujo guia New AgeMaterial Girl, Mystical World foi lançado em Maio de 2017 — bem à frente da onda de venda de livros de astrologia nesse verão. Ela também direciona um website místico esotérico, The Numinous, uma palavra que o Merriam-Webster define como “sobrenatural ou misterioso”, mas que Warrington define em seu website como “aquilo que é desconhecido ou incognoscível”.

“Eu acho que, quase como um contraponto ao fato de que vivemos em um mundo tão quantificável e meticulosamente organizado, há o desejo de conectar-se e tocar essa parte numinosa de nós mesmos”, Warrington diz. “Eu vejo a astrologia como uma linguagem de símbolos que descreve essas partes da experiência humana para as quais nós não necessariamente temos equações, números e explicações”.

O grupo de inteligência do J. Walter Thompson lançou um relatório de tendências em 2016 chamado “Unreality” que diz muito sobre a mesma coisa: “estamos cada vez buscando a irrealidade como forma de escape e uma forma de procurar por outros tipos de liberdade, verdade e significado”, diz o relatório. “O que emerge é uma apreciação pela mágica e pela espiritualidade, o sabiamente irreal, e os aspectos intangíveis de nossas vidas que desafiam o big data e a ultratransparência da web”. Esse tipo de reacionarismo cultural de mudança de 180 graus já aconteceu antes — após a ênfase do Iluminismo na racionalidade e no método científico nos séculos 17 e 18, o movimento Romântico viu as pessoas se voltando para a intuição, a natureza e o sobrenatural. Parece que nós estamos em um ponto de inflexão similar. A revista New York até usou a pintura romântica seminal Wanderer Above the Sea of Fog para ilustrar o artigo recente sobre antitecnologia de Andrew Sullivan, I Used to Be a Human Being.

JWT e outro grupo de previsão de tendências, WGSN, em seu relatório: “Millenials: a Nova Espiritualidade”, agrupam a astrologia com outras tendências místicas New Age que atraíram os jovens nos últimos anos: cristais de curabanhos de som e tarô, entre outros.

“Eu acho que se tornou geralmente menos aceitável apenas arbitrariamente cuspir nas coisas como ‘isso não é racional, ou isso é imbecil porque não é um fato’” diz Nicole Leffel, uma engenheira de software de 28 anos que vive em Nova Iorque.

Bugbee, a editora chefe do The Cut, notou essa mudança há alguns anos. “Eu poderia apenas dizer que as pessoas estavam de saco cheio de um certo tipo de tom afiado,” ela disse. Nesse ponto, o site tem publicado horóscopos levemente irreverentes com gifs que servem para encapsular o humor de cada signo para a semana. Mas Bugbee percebeu “que as pessoas queriam sinceridade mais do que tudo. Então, nós meio que ficamos totalmente sinceros [com o horóscopo] e foi aí que vimos um interesse real acontecer”.

Mas um sincero interesse crescente em astrologia não significa que as pessoas estão indiscriminadamente abandonando a racionalidade por crenças mais místicas. Nicholas Campion, um historiador de astrologia, ressalta que a questão de saber se as pessoas “acreditam” em astrologia é impossível de responder e não é realmente uma pergunta útil a ser feita. As pessoas podem dizer que elas não “acreditam” em astrologia, mas ainda se identificam com seus signos zodiacais. Elas podem curtir ler seus horóscopos, mas não mudam seu comportamento baseados no que ele diz. Existem mais nuances do que essa estatística permite.

Muitas examinações convencionais de astrologia enquanto uma tendência estão profundamente preocupadas em desmascará-la. Eles gostam de apresentar a pesquisa da National Science Foundation que mede o quanto as pessoas pensam que astrologia é científica e lembram os leitores de que ela não é. E não é mesmo. Mas esse não é o ponto, na verdade.

Enquanto certamente existem algumas pessoas que aceitam a astrologia cegamente como um fato e a enxergam em paralelo como uma disciplina como biologia, isso não parece ser o caso entre vários dos jovens adultos que estão abastecendo essa renascença do zodíaco. As pessoas com as quais eu falei para este artigo geralmente se referiam à astrologia como uma ferramenta, ou um tipo de linguagem — uma linguagem que, para muitos, é mais metafórica que literal.

“Astrologia é um sistema que olha para ciclos e nós usamos a linguagem dos planetas”, diz Alec Verkuilen Brogan, um estudante de quiropraxia de 29 anos que mora na Bay Area e também estudou astrologia por 10 anos. “Não é como se esses planetas literalmente andassem por aí dizendo ‘Agora, eu vou fazer isso’. É uma linguagem que fala com as estações da vida”.

“Levamos astrologia muito a sério, mas nós também não necessariamente precisamos acreditar nela. É apenas uma maneira de olhar o mundo.”

Michael Stevens, um rapaz de 27 anos que vive no Brooklyn, estava na época da crise dos 25 anos na mesma época do eclipse solar total em agosto desse ano. “Tradicionalmente, sou um cético”, ele diz. “Sou casca dura, que nem a Dana Scully do Arquivo X. E aí um monte de merda começou a acontecer na minha vida”. Por volta da época do eclipse, no curso de seu trabalho com propaganda, ele ligou diretamente para a Susan Miller, do Astrology Zone, para perguntar se poderia colocar alguns anúncios no site dela.

Ela estava irritada, ele diz, que ele ligou pra ela no fim do mês, que é quando ela escreve seus famosos horóscopos extensos. Mas então ela perguntou a ele qual era o seu signo — Sagitário. “E ela disse ‘Oh, ok, essa lua nova está dura pra você’”. Eles conversaram sobre trabalho e problemas de relacionamento. (Miller não se lembra dessa conversa especificamente, mas diz “Eu sempre tento ser legal com as pessoas que me ligam do nada. É algo que eu faria.”)

Estudos mostraram que, se você escreve uma descrição de personalidade genérica e diz pra alguém que se aplica a essa pessoa, é provável que elas a percebam como correta — seja na forma de uma descrição do seu signo zodiacal ou outra coisa.

Stevens diz que poderia ter lido potencialmente sua conversa com Miller dessa maneira. “Ela diz ‘Você está passando por uma série de desafios agora”, ele diz. “Quem não está? É 2017”.

Ainda assim, ele diz que a conversa o fez sentir melhor; estimulou ele a tomar atitudes. Nos meses que se sucederam entre sua ligação com Miller e nossa conversa em outubro, Stevens largou seu trabalho com publicidade e encontrou outro em recursos humanos. Pouco depois de conversarmos, ele e sua namorada terminaram.

“[Eu percebi] que estava agindo como um NPC de merda em um RPG de D&D” diz Stevens, “então eu provavelmente deveria fazer escolhas e buscar algumas das coisas boas que poderiam acontecer se eu apenas [me importasse] em ser uma pessoa feliz de uma forma autêntica”.

A história de Steven exemplifica um comportamento que prevalece entre várias pessoas com quem conversei — que não importa se astrologia é real ou não; o que importa é que é útil.

“Nós levamos astrologia muito à sério, mas também não necessariamente acreditamos nela”, diz Annabel Gat, astróloga no Broadly“porque é uma ferramenta para autorreflexão, não é uma religião nem uma ciência. É apenas uma forma de se olhar para o mundo e uma forma de se pensar sobre as coisas”.

Beusman, que contratou Gat na Broadly, compartilha de seu modo de pensar. “Acredito em várias coisas conflitantes em várias áreas da minha vida”, ela diz. “Então, para mim, é fácil ter essas duas ideias na minha cabeça ao mesmo tempo. Isso pode não ser verdade de nenhum jeito, e também eu penso algo como ‘Bem, eu tenho três planetas entrando em Escorpião no próximo mês, então talvez eu deva ser mais sábia ao tomar decisões na minha carreira’”.

Esse comportamento é exemplificado pela coluna “Astrologia é Mentira” do The Hairpin, escrito por Rosa Lyster com títulos como “Astrologia é Mentira mas leoninos são famosos” e “Astrologia é Mentira mas taurinos odeiam mudanças”.

Pode ser que os Millenials estejam mais confortáveis vivendo nas fronteiras entre o ceticismo e a crença porque eles passaram muito tempo de suas vidason-line, ou seja, um espaço que é verdadeiro e falso ao mesmo tempo. Que muitas pessoas achem astrologia significativa é um lembrete de que as coisas não precisam ser reais para serem verdadeiras. Não encontramos verdade na ficção?

Descrevendo sua atitude em relação à astrologia, Leffel lembrou-se de uma citação do livro do Neil Gaiman, Deuses Americanos em que o personagem principal, Shadow, imagina se o raio no céu era de um pássaro mágico, “ou apenas uma descarga atmosférica, ou que as duas ideias fossem, em algum nível, a mesma coisa. E claro que eram. Esse era o ponto, afinal”.

Se a afirmação que “astrologia é falsa mas verdadeira” parece um paradoxo, bem, talvez o paradoxo é que seja atraente. Muitas pessoas me ofereceram a hipótese para explicar o reaparecimento da astrologia. Nativos digitais são narcisistas, alguns sugeriram, e a astrologia é uma obsessão em olhar para o próprio umbigo. As pessoas se sentem impotentes aqui na Terra, outros disseram, então elas estão voltando-se às estrelas. É claro que trata-se de ambos. Alguns acham que é um escape do pensamento lógico do “cérebro esquerdo”; outros cravaram a ordem e a organização que o sistema complexo trouxe para o caos da vida. Trata-se de ambos. Este é o ponto, afinal.

Compreender o apelo da astrologia é ficar confortável com paradoxos. Parece, simultaneamente, cósmico e pessoal; espiritual e lógico; inefável e concreto; real e irreal. Pode ser um alívio, em um tempo de divisão, não precisar escolher. Pode ser libertador, em um tempo que valoriza o preto e o branco, uns e zeros, olhar para respostas no cinza. Pode ser significativo desenhar linhas no espaço entre momentos de tempo ou o espaço entre os pequenos furos de luz no céu da noite, mesmo que você saiba, no fundo, que eles estão anos luz de distância e não têm nenhuma conexão entre si.

Tradução: Dora Steimer e Ágata Sousa.

Revisão: Taty Guedes.

Por Odette Gibbs, para a Rebelle Society

{Créditos da imagem: Android Jones}

Irmãs, não é tudo sobre nós. Vamos descer de nossos cavalos de Deusas narcisistas e ouvir. O Sagrado Masculino está chamando.

Irmãs, eu sei. Nós fomos oprimidas. O patriarcado cortou nossas asas e silenciou os chamados de bruxas de nossas vozes revolucionárias por séculos.

Irmãs, eu sei. Lutamos com unhas e dentes, machucadas, mergulhando profundamente nos poços de nossos úteros, expurgando nossa dor e a dor de nossas ancestrais, primeiramente com os ousados movimentos feministas de nossas mães e, mais recentemente, por meio do acervo de práticas femininas espirituais conscientes que têm meio-desabrochado e meio-entrado em erupção vulcânica nesta nova consciência que emerge da terra.

Diariamente, de hora em hora, momento por momento consciente, nós nos devotamos ao re-despertar do Divino Feminino, por dentro e por fora. Nós doamos tudo, desenlaçamos os nós, cortamos as crenças depreciativas, nutrimos as sementes da autoestima, desencadeamos o surgimento do fenômeno tal qual Fênix dos círculos da irmandade sagrada, para recuperar o que foi suprimido, perdido, negado.

Irmãs, nós nos chamamos de Deusas. E deveríamos. Mas não esqueçamos que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades.

E me ouçam agora. O Patriarcado não equivale à Masculinidade. Não estamos lutando contra homens, Irmãs. Talvez vocês pensem que sabem disso. Mas sabem realmente? Se vocês sabem, deixe que isso seja visível em suas ações. Abaixem suas adagas, abaixem suas lanças contra o Masculino. Depois de soltar sua justa raiva (e sim, eu acredito que vocês devam soltá-la), há trabalho a ser feito. A raiva sem fim não é a solução, Irmãs. Parem!

Parem de brandir facas em volta de suas auras e manter distantes os bons homens com quem vocês ansiosamente esperam se unir. Parem de oferecer indignamente a um falso altar os corações de Amantes, Reis, Magos e Guerreiros como os injustos e sangrentos sacrifícios pelos erros históricos de todos nós.

O patriarcado é um paradigma, minhas Irmãs. Um paradigma que tanto homens quanto mulheres permitiram que fosse. Por tempo demais, cada lado da moeda de gênero esqueceu de si mesma, esqueceu de seu poder e de sua sacralidade. O paradigma patriarcal é uma co-criação. A misoginia é uma co-criação. Negar isso é negar o nosso próprio poder, é lançar-se em um espaço de vitimização que está ficando velho, Irmãs. Muito velho. Não podemos e não iremos ser ao mesmo tempo vítimas e Deusas.

Nós devemos escolher o caminho da maior e mais profunda verdade.

A guerra contra o Sagrado Masculino deve terminar, Irmãs. Despertem seus poderes de escuta e compaixão que são sábios além de qualquer medida. Séculos de opressão patriarcal não requerem séculos de penitência, Irmãs. Sintam isso. Vocês sabem que a sua essência é um bálsamo sagrado, curativo e completamente abrangente? Nós não podemos estar em nossa plenitude se não entendemos isso.

Escutem, Irmãs, escutem. Vocês não conseguem ouvir o Sagrado Masculino chamando? A essência dele está em volta de todas vocês. Ele está machucado, Irmãs. Vocês não são as únicas. O patriarcado separou a sua bondade e a sua ousadia da única coisa pela qual vale a pena lutar. Vocês. Nós. Espírito. O Todo Sagrado.

Desçam de seus cavalos narcisísticos de Deusas e ouçam. Vocês dizem que vocês querem um Guerreiro. Vocês dizem que vocês querem um Shiva para suas Shaktis. Então tragam ele até vocês. Ele está esperando por vocês, ele sente sua falta dolorosamente, tão crua e selvagemente quanto vocês sentem a falta dele — com um ardor e devoção assombrosos que desconhecem limites.

Ele quer nada mais do que oferecer a vocês o seu todo. Ele anseia dar universos a vocês, Irmãs. Como ele pode fazer isso quando vocês brandam seus machados de guerra contra eles? Vocês sequer estão escutando. Você sabia que o bálsamo de suas essências é o néctar da alma dele? Que a graça de nossa atenção amorosa é o nutriente que fagulha milhares de raios de sol em seu coração? Ele daria sua vida pelo seu amor genuíno.

Parem de perder tempo, Irmãs. Tanto o de vocês quanto o deles. Se vocês não podem organicamente dar ao homem diante de vocês a honra de sua plenitude, tenham o coração de transformarem-se em alguém que pode. Mesmo que isso signifique ficarem sozinhas por um tempo e esperando em uma expectativa radiante pela pessoa certa. Não peçam aos homens bonitos diante de vocês para pagarem penitência aos seus pés pelos erros cometidos pelos seus avôs e pelas suas avós. Parem com o jogo de culpa.

A dança entre os Divinos Masculino e Feminino não é uma transação. Não pode ser olho por olho, dente por dente. Parem de pedir para que seus homens preencham um copo sem fundo.

Vocês são a Grande Mãe. Vocês podem imaginar a contração que causam quando lançam seus filhos ao papel de Pecador? De que forma ele poderá alcançá-las quando vocês o condenaram ao purgatório?

Em vez disso, abram-se, Irmãs. Permitam que os homens à sua volta sejam dignos. Vejam o seu valor radiante. Muitas perguntam, Onde estão todos os homens bons? Muitas pensam que homens não são evoluídos o suficiente. Vocês pensam que eles não conseguem lidar com tudo de vocês? Que vocês são mulheres demais para eles? Eu chamo isso de papo furado, Irmãs. Isso diz mais sobre a cegueira de vocês do que sobre as faltas deles.

O Sagrado Masculino está em todos os lugares, Irmãs, esperando ser bem-vindo em suas lareiras, ser calorosamente abraçado na divindade intoxicante de sua pureza de seda. Deixem as desculpas para trás. Deem a ele um porto seguro. Deem a ele a sua graça. Abram seus braços. Vejam ele. Vocês não tem nada a provar e tudo a oferecer.

Por baixo disso tudo, por baixo de séculos de guerra, lutas e separação, tudo o que ele quer é o que vocês também querem. O hieros gamos — o casamento divino de opostos. Sua dissolução em seus braços e as suas nos dele. Ele quer ser o herói na história, Irmãs. Ele quer ser o seu Cavaleiro Branco. Mas ele não pode fazer isso enquanto vocês estão cegas com ódio e medo. Abram seus olhos.

Agraciem-no com a presença, o amor e a afeição que irão exaltá-lo a essa grandeza. Ele não falhará com vocês. Ele está apenas centímetros de distância de vocês cada segundo de cada dia. Ele está atrás de vocês. Ele está ao seu lado. Ele tem te protegido de modos que você nunca saberá ou apreciará. Ele ofereceu a vocês sua essência de vida. Dêem as boas vindas a ele em vocês, Irmãs.

Boadicea, Joana d’Arc, removam suas armaduras.

Kali, abaixe sua foice. A batalha acabou.

O amor venceu.

Tradução: Dora Steimer.

Revisão: Taty Guedes.

O nome “bênção do útero” sempre me incomodou porque eu basicamente tinha duas visões bem limitadas e limitantes acerca do meu próprio útero:

  1. Como um órgão que serve para me causar dor e sofrimento uma vez ao mês e que me impede de ter praticidade na vida e
  2. Como um órgão que serve para para procriar e parir, exclusivamente.

Essa mentalidade completamente Handmaid’s Tale é bastante recorrente no nosso dia a dia… Quer ver só? “É gorda? Tá grávida. Tá com o buxim xei de hambúrguer? Tá grávida. Tirou foto com a mão na barriga? Tá grávida. Tá enjoada por algum motivo? Tá grávida, óbvio.” Olha só: a gente não é só parideira não tá? Não é assim que funciona a parada.

Às vezes um cachimbo é só um cachimbo? Sim, às vezes é. Mas eu meio que me recuso a ter esse tipo de visão de forma muito sistemática. Um útero é só um útero? O que o meu significa pra mim? O que significa carregá-lo, efetivamente? É só biologia?

Esse pensamento biológico e essa mentalidade Handmaid’s Tale se deve por eu viver numa sociedade completamente imersa em misoginia, machismo e opressão a tudo o que é feminino. Por eu viver numa sociedade onde me odiar e odiar um órgão que faz parte da minha natureza é o que é considerado “normal” e “adequado” para esse sistema de castração e invisibilidade sistematizada ao qual estamos inseridas, onde sequer enxergamos a nós mesmas.

Hoje eu digo que não tenho uma visão romantizada sobre a menstruação. Tenho uma visão realista. São coisas distintas. Eu costumava focar na dor e no sofrimento pois aquele era o meu mundo, o mundo que criei pra mim, no qual eu fazia questão de permanecer imersa, por anos a fio. Quando comecei a enxergar o todo, as coisas começaram a mudar sensivelmente pra mim e na minha vida.

Hoje me perguntaram no curious cat sobre a junção enlouquecedora da lua vermelha. Bom, o ciclo menstrual inteiro é enlouquecedor. E é enlouquecedor porque tratam-se de quatro mulheres, completamente diferentes, ao longo do período de um mês só, ou seja, as quatro fases do nosso ciclo: donzela, mãe, feiticeira e anciã. Cabe a nós otimizar cada um desses arquétipos de acordo com o ritmo de nossa própria vida.

É importante saber otimizar as características expansivas das fases de donzela e mãe e saber lidar com as energias e com a internalização de questões durante as fases feiticeira e anciã. Saber se respeitar e respeitar seus limites em casa uma das fases, ao meu ver, é essencial para extrair o que há de melhor nelas. O nosso ciclo é enlouquecedor sim, mas é fascinante. E inclusive pode ser nossa maior fonte de poder, se entendido com sabedoria.

E nenhum ciclo nosso é igual ao outro. Cabe a nós — e ninguém mais — saber “ler” essas sutis mudanças e observar nossos próprios padrões de vida. Carregamos um micro-cosmo dentro de nós e isso nos dá possibilidades imensas de criação… E isso não necessariamente tem a ver com engravidar ou fazer bebês, mas de criar nosso próprio caminho, nossa própria vida, mesmo.

Esta será minha primeira Bênção do Útero como Moon Mother. Antes de fazer a iniciação, em agosto deste ano, participei de Bençãos por um ano e meio. Fiz a iniciação porque me pareceu importante pra mim e para o meu caminho. Sempre pesquisei sobre o meu próprio ciclo e adoro conversar com outras mulheres sobre isso, porque acredito que isso é algo que nos une.

A quarta Benção do Útero deste ano é sobre a aceitação da nossa sexualidade e desde agosto eu tenho pensado nisso. Pensar na nossa sexualidade é muito importante, como nos relacionamos com ela, como nos sentimos e quais tipos de padrões gostaríamos de quebrar pra ter uma vida melhor e mais saudável nesse sentido. A Bênção, mais do que uma reunião de mulheres, nos proporciona um excelente espaço para este tipo de reflexão.

O modo pessoal que encontrei pra aceitar minha sexualidade foi parando de fazer sexo (sim, de qualquer tipo, até sozinha). E essa decisão não faz muito tempo na verdade, deve ter iniciado em agosto (não marquei data, nem nada). Acho interessante a ideia de dar um reboot no sistema pra ver o que emerge. E também não estou gostando muito das coisas que estão emergindo, e o que estou percebendo em mim mesma… Talvez porque pela primeira vez estou me forçando a olhar pra minha própria sombra.

E falando em sombras, essa minha primeira Bênção, além de falar sobre sexualidade, será na lua cheia em Áries… Então acho que essas questões do chakra base (sexo, agressividade, raiva, ação, energia) estão realmente em evidência pra mim.

Chakra Básico, né mores

A sincronicidade dos temas e questões desta Bênção estão tão claras pra mim que hoje apareceram duas expressões disso “por acaso” nas minhas timelines do twitter e facebook. No facebook, uma prima minha de segundo grau postou o seguinte trecho do Mulheres que Correm com Lobos, da Clarissa Pinkola Estés:

“No entanto, a natureza selvagem nos ensina que devemos enfrentar os desafios à medida que se apresentem. Quando os lobos são atormentados, eles não saem dizendo, “Ah não! De novo!!!”

Eles saltam, investem, correm, desaparecem, fingem-se de mortos, pulam na garganta do agressor, fazem o que tiver de ser feito.

Portanto, não podemos ficar escandalizadas com a existência de entropia, deterioração, tempos difíceis.

É preciso compreender que as armadilhas preparadas para capturar a alegria da mulher irão sempre se alterar e mudar de aparência, mas na nossa própria natureza selvagem nós iremos encontrar a energia absoluta, a libido exigida por todos os atos de coragem que forem necessários.”

O segundo “aviso” foi via twitter, onde um conhecido postou uma música da incrível Diamanda Galás, cantora avant garde que eu desconhecia. Busquei mais informações sobre ela e fiquei absolutamente encantada, ela é completamente selvagem:

Nesse período abstêmio, percebi que sou absolutamente mesquinha sexualmente, de modos muito sutis que antes eu não percebia. Que a forma que sinto atração é completamente torta, que não respeito meu tempo, nem o do outro. E que, muitas vezes, eu não me deixo respeitar — o que é péssimo também. A forma que busco os relacionamentos no geral, que sinto atração, também não lá exatamente muito saudável. A forma que me sinto em relação ao que me é erótico, como me sinto em relação ao que é belo… As coisas que eu gosto e que deixo de gostar. Como lido com minhas infinitas carências.

A tentativa é de observar isso tudo lentamente, como testemunha de mim mesma. E o resultado não é muito bonito, nem nada iluminado. Bem o oposto disso. Parei de trepar e abriu o bueiro de tudo e agora tô vendo direitinho quem eu (penso que) sou. Não é bonito, nem agradável. It’s a dirty job, but someone has to do it. E eu ainda tenho uma série de perguntas não respondidas em relação a minha própria sexualidade. Preciso pensar bem mais em sexo. Bem mais. E não fazer me ajuda muito com isso.

Não lidar pode ser sim uma excelente forma de lidar com as coisas.

Ainda em questões de chakra base, vejo que rólam algumas coisas inclusive com a minha moto (sim, eu ando de moto). A maioria das vezes que me acidentei, foi por não acelerar o suficiente. Não por ter medo de acelerar mais, mas não o suficiente e aí a moto sempre morria e eu caía. Por não querer incomodar os carros do lado com o ronco e o barulho da minha moto (ele é bem alto). Então tem também algumas várias questões que estão interconectadas e nas quais devo pensar mais, tais como: imposição (aceleração), intimidade, simbiose, reivindicação de espaço, ser espaçosa, incomodar, ser inconveniente, fazer barulho… Enfim, basicamente existir. Enfim, basicamente tudo entrelaçado nessa grande teia da minha vida…

Essa Benção do Útero de outubro já foi maravilhosa. Ela nem aconteceu ainda e eu só tenho a agradecer.

“No entanto, a natureza selvagem nos ensina que devemos enfrentar os desafios à medida que se apresentem. Quando os lobos são atormentados, eles não saem dizendo, “Ah não! De novo!!!”

Eles saltam, investem, correm, desaparecem, fingem-se de mortos, pulam na garganta do agressor, fazem o que tiver de ser feito.
Portanto, não podemos ficar escandalizadas com a existência de entropia, deterioração, tempos difíceis.

É preciso compreender que as armadilhas preparadas para capturar a alegria da mulher irão sempre se alterar e mudar de aparência, mas na nossa própria natureza selvagem nós iremos encontrar a energia absoluta, a libido exigida por todos os atos de coragem que forem necessários.

(Clarissa Pinkola Estés, em Mulheres que Correm com os Lobos)

Essa noite sonhei com demônios que não eram meus. Tenho tido sonhos recorrentes com um desafeto, por assim dizer. Na verdade eu não sinto nada em específico, mas volta e meia meu inconsciente faz essa pessoa submergir pra cá. Acordo sem entender, não sinto nada, nem raiva, nem ódio, nem desprezo… Me sinto indiferente e fico curiosa com os rumos do sonho, apenas. Mas este sonho com demônios esta noite foi em uma reunião familiar de um desafeto em específico. Foi bem tensa a coisa toda. Enxerguei dois demônios, um mais óbvio, outro nem tanto. O mais óbvio era imenso, devia ter uns 2 metros de altura, patas de aranha, ele tinha 3 rostos e o ventre (?) dele cuspia, com muito esforço, um corpo pra fora. O outro demônio apareceu nos olhos da mãe do desafeto, que ficou trincado e amarelado do nada… O sorriso dela também mudou, como se estivesse apodrecendo. No sonho eu só estava como observante e quando vi a coisa ficando muito feia simplesmente fui embora da situação. Basicamente eu sonhei que dois demônios estavam no círculo familiar de um desafeto meu, sendo que um deles inclusive tinha ligação direta com o desafeto em questão – estava na mãe dele.

Como me senti no sonho? Com um pouco de medo – mas não muito, pois eu sentia que estava protegida – e quando vi tudo aquilo acontecendo, quando me vi testemunha da desgraça da casa e da família de alguém, me senti triste. De verdade. Acordei e a primeira coisa que pensei foi “espero tudo isso seja só um sonho mesmo. espero que esteja tudo bem com essa pessoa ou que ao menos fique, eventualmente… por que por hora parece que está um tanto quanto foda”. Fiquei um pouco preocupada também. Sim, com um desafeto. Não é meio louco, isso? Meio irracional? Sei lá, na verdade, completamente contraditório. Fui pensando mais nisso ao longo do dia. Sempre achei meio bobo o conceito cristão de dar a outra face, sempre pensei “ninguém faz isso”. E ninguém faz mesmo… Também sempre tive dificuldade em entender o conceito de rezar por quem você não gosta ou por alguém com quem você já teve algum tipo de problema. Ou ainda, colocando em termos mais diretos e simples: rezar pelos seus inimigos. Isso nunca fez nenhum tipo de sentido pra mim. Acho que já tenho recebido sinais disso há algum tempo mas só hoje é que ficou claro pra mim.

Hoje depois desse sonho, acho que estou começando a entender isso. Mas estou bem no começo mesmo, pois ainda estou meio bolada e chocada com o fato de estar entendendo isso. Embora seja meio óbvio, este não é um entendimento muito racional. Sempre pensei que o que a gente não gosta e o que nos faz mal tem que ser aniquilado, né? E “tem mais é que se ferrar mesmo, foda-se” e rir da desgraça dos outros parece ser sempre a saída mais fácil. E é, de fato. No entanto, as saídas mais fáceis muito frequentemente não são as mais adequadas. Mesmo. Como uma amiga disse hoje, nossos inimigos nos mostram a nós mesmos, quem somos de verdade. É claro que a gente nem sempre vai conseguir pensar desse jeito, afinal somos humanos: vamos pensar que foi “bem feito”, vamos querer q o outro se lasque mesmo, etc. Tem vezes que essas coisas vencem. Mas elas nunca se satisfazem por completo: porque a gente sempre vai querer mais, até a aniquilação completa do outro. Elas se retroalimentam, essas coisas. Mas na medida em que pudermos ser consciente sobre elas e evitar alimentar isso, vou tentar fazer isso sim.

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