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Místicas

Vamos falar um pouquinho sobre experiências de rendição ritualizada. Psicólogos nos dizem direto que é no ato de largar mão das coisas que você descobre quem você é. Mas ter em mente a morte do Ego, no entanto, ter em mente qualquer tipo de rendição ritualizada parece muito com morrer, mas apenas para aqueles que resistem a isso. Aqueles que eventualmente percebem que a morte não existe, ao menos, que a morte psicológica não é nada além de uma ilusão, O último “Viva!”, a última resistência antes que você se atire ao abismo e perceba que ele é uma cama de penas. Terence McKenna falou sobre isso, ele disse: “esse é o segredo, isso é o que todos os xamãs, professores e sábios compreenderam. Esse é o objetivo alquímico. É assim que magia é feita. Você se atira no abismo e percebe que é uma cama de penas”.

Nossa sociedade hoje é construída, sabemos, de forma que muitas pessoas são afligidas com uma quantidade patológica de ansiedade e depressão. É o que Jamie Wheal chama de “século 21 normal” – esse estado fibrosante de um ego superativo que surge de uma falha na ignição de um modo de rede padrão que é a mente autobiográfica que é, essencialmente, tornado em uma doença que é algo tipo uma desordem autoimune do eu e a ruminação excessiva e a auto-consciência que caracteriza depressão e ansiedade ambas vem de uma mente que se tornou muito ordeira, muito rígida, muito hiper-vigilante. É como se todos estivéssemos vivendo com uma micro síndrome de stress pós-traumático perpétua. E o que as pesquisas nos mostram, e isso me auxiliou tanto na minha vida criativa, é que em containeres seguros e com as precauções adequadas utilizadas, a experiência de rendição em êxtase, a experiência de morte do ego, o que Jamie Wheal chama de “o êxtase da crucificação” é na verdade onde toda a cura é feita. É quando você morre no momento que você percebe que todos os seus medos são infundados. Você percebe que tudo o que você quer está no outro lado do medo. É como o filme “O Jogo” do David Fincher nos revela naquela frase que cita a bíblia, João, capítulo 12, algum versículo: “Considerando que uma vez eu estava cego, agora eu posso ver”.

É difícil transcrever em linguagem essas instâncias de rendição em êxtase. Atirar-se no abismo e perceber que é uma cama de penas vem para você como um domínio que existe fora do tempo. O eu experiencia isso como uma liberação do incessante diálogo interior. Somos livres para sermos nós mesmos. Nos tornamos infinitos, é o que parece. Momentos encantados transitórios nos quais prendemos a respiração, compelidos a contemplações estéticas que sequer compreendemos ou talvez nem mesmo desejemos. Cara a cara com algo proporcional a nossa capacidade por maravilhamento. Nós experimentamos de novo o êxtase dificilmente suportável da energia direta que explode em nossas terminações nervosas. Recontextualizamos o eu como um condutor maravilhoso em um buraco atemporal do qual moléculas e significados fluem de neurons para nébulas e vice-versa. Vemos o mundo em um grão de areia e vemos o paraíso em uma flor selvagem. Seguramos o infinito nas palmas das nossas mãos e seguramos a eternidade em uma hora. E aí o momento passa. E todas as contradições são reconciliadas. Homens e mulheres superaram os deuses. E o que encontramos depois desses momentos encantados? O que encontramos depois desses momentos opiantes adjacentes quando nos derramamos, quando transbordamos, quando nos rachamos ao meio que a luz entre? Descobrimos que pessoas reportam sentimentos de bem estar em seu dia a dia – sentimentos aumentados de compaixão, criatividade, alegria e uma sensação de ter vislumbrado a verdade noética, uma sensação de ter encostado no infinito, um sentimento de comunhão com o cosmos, um despertar ontológico, uma experiência espiritual de avaliação contundente com o que é, uma integração do espaço e tempo através do nervo óptico. Nós nos tornamos o que contemplamos e contemplamos o infinito. Miguel de Unamuro escreveu: “No sentido trágico da vida, eternidade, eternidade. Nada que não seja eterno é real”.

Então a questão permanece. Nós sabemos o que fazer. Nós sabemos o caminho. Sabemos o que precisamos fazer para nos curar. Como transformarmos nossas iluminações passageiras em uma luz permanente? Como tornamos nossos auto-sistemas de baldes furados e peneiras para cálices? Jamie Wheal disse: “Como podemos nos tornar inteiros? Como podemos nos tornar sagrados?”. Essa se tornou a principal preocupação da minha vida.

(Jason Silva)

A verdade é que, eu não posso eliminar a morte e o sofrimento das pessoas quando eu estou trabalhando com a morte e o sofrimento delas. Mas eu posso ser uma presença onde elas podem mudar sua consciência de tal modo que não passem por suas experiências de morte e sofrimento da mesma forma. Mas eu não posso eliminar todo o sofrimento das pessoas. E a habilidade de estar com alguém quando o seu coração está sendo quebrado porque elas estão sofrendo e você não tem o poder de eliminar esse sofrimento, e o sentimento que você tem nessas condições, deve ser algo pelo qual se deve refletir. Você precisa tirar tempo para refletir sobre isso, para que então você possa encontrar paz dentro dessa situação.

Parte dos motivos de eu fazer isso é porque eu cultivei esses planos de consciência – a Alma e a Consciência – onde a natureza do sofrimento que existe no plano físico é parte do mistério do universo. Isto é, dentro do mundo do plano físico, você não sabe a resposta de porquê o sofrimento está acontecendo. Por que uma criança nasceria para uma vida de apenas sofrimento? Por que alguém viveria tanto assim? Por que uma pessoa não sentiria dor alguma enquanto outra pessoa sentiria muita dor? O predicamento é que a forma que o sofrimento é disperso neste mundo não é razoável. Talvez seja cármico, mas não é razoável, o que é uma ideia bem interessante porque karma e razão não são a mesma coisa. Então você encara apenas o não saber.

Minhas experiências tem sido as de que o meu próprio sofrimento acabou se tornando graciosidade e que eu geralmente vejo o sofrimento alheio como graciosidade mesmo que as pessoas não vejam assim, mas eu não digo a elas que “é graciosidade”. Porque para elas é sofrimento então eu faço o que posso para aliviar aquele sofrimento, mas ao mesmo tempo minha compreensão de que elas ganharão sabedoria através do sofrimento não me faz, de nenhum modo denegrir a natureza do sofrimento. Sofrer não é um erro de sistema, e o predicamento é o de que a maioria das pessoas respondam ao sofrimento com sentimentos de que fizeram algo errado, ou alguém fez algo errado e é por isso que isto ocorre. E estas são as coisas psicológicas das quais as pessoas tem medo, é isto.

Sentir dor no seu corpo é ter dor no seu corpo, mas todas as coisas fisiológicas que vão junto com a dor no seu corpo como, “eu mereci,” “não sou bom o suficiente,” “estou fracassando, dah dah dah,” “não comi direito”, “não fiz a coisa certa,” essas coisas são o que vão acabar com você. Essas coisas vão acabar com você.

O que minha própria experiência pessoal tem sido é que, tendo ido de uma identidade com ego para uma identidade com a alma ou com a testemunha, eu encontrei um espaço e uma forma em relação ao mistério do universo que me permite estar com o sofrimento, meu e dos outros, que habita este plano, de forma que não me subjugue. E eu não sou subjugado pela minha impotência de eliminar isso, e eu não preciso desviar o olhar disso, e eu lido com isso na medida em que isso aparece pra mim sem sentir a necessidade de carregar tudo isso comigo.

-Ram Dass, October 1995

Artigo de autoria de Clive Treadwell, publicado originalmente no site Rebelle Society com o título original Transformation: if you’re enjoying it you’re doing it wrong

Transformação é literalmente o progresso de uma forma para outra.

Se você está interessado em crescimento pessoal e usa palavras como transformação e metamorfose, você provavelmente já viu uma grande quantidade de imagens de borboletas, simbolizando o processo e sua pretendida consequência.

Este será você algum dia! Você é uma humilde lagarta mas você está criando asas, querida! Você será capaz de voar! Então você lê todos os livros, você passa por coaching e você vai em todos os seminários com vários outros ingênuos idealistas aspirantes. Tem vários abraços e compartilhamento e auto-congratulação mútuas sobre como vocês estão salvando o mundo juntos.

Abordado deste modo, o processo nada mais é que um esporte ou um hobby, e talvez seja a melhor forma de prevenir que a verdadeira transformação ocorra mesmo. É como se esconder em plena vista. Por conscientemente (e só Deus sabe o quanto você e os seus amigos adoram usar esse termo) assumir a causa da transformação, você a está obstruindo e aqui estão os porquês:

  • A transformação não é algo que você escolhe, ela é quem escolhe você. Considerando o que está envolvido, nenhuma lagarta em sua plena consciência jamais decidiria se tornar uma borboleta.
  • A transformação ocorre sozinha. Com borboletas, acontece dentro de um casulo que as previne de um mundo exterior. Então, sem amigos, sem abraços, sem conversas brilhantes, sem seminários, sem posts inspiradores do Facebook. Se realmente estiver acontecendo, é mais provável que você delete sua conta do Facebook porque se sentirá muito sozinho.
  • A transformação começa dissolvendo o seu antigo eu. Literalmente, uma vez dentro daquele casulo, a primeira coisa que a lagarta faz é dissolver a si mesma em uma substância amorfa de proteína. Existem algumas estruturas básicas que provém continuidade funcional, mas além disso, é um imenso colapso que faz com que não reste nada da identidade da lagarta para que ela possa se apegar. Se a sua identidade está envolvida em ser transformacional, então na melhor das hipóteses o que você está fazendo é se tornar uma lagarta melhor.
  • A transformação é uma merda. Você não quer falar sobre isso, você só quer que isso termine. Porque sua identidade foi dissolvida, você provavelmente não tem muitos amigos e pode se ver com pessoas com quem você não se identifica como parte do processo. Você pode pensar em suicídio com frequência, e isso é natural porque de certo modo você está passando por uma morte em câmera lenta e é razoável querer acelerar esse processo e terminar logo com isso.
  • A transformação é confusa. Uma lagarta não tem nenhum conceito sobre o que significa ser uma borboleta e se você estiver realmente passando por uma transformação, você estará constantemente tendo que perder seu próprio conceito do que isso pode significar. Sua auto-imagem se torna tão batida que é inutilizável. E este é o objetivo e isso leva muito tempo porque você é muito apegado a ela. Mesmo a auto-imagem de alguém que não é apegado a sua auto-imagem é um tipo de apego que precisa ser dissolvido.
  • A transformação é inevitável. Uma lagarta não pode impedir a si mesma de se tornar uma borboleta porque todo o processo já está codificado e instalado em seu DNA. Quando uma lagarta passa pela metamorfose, o que são chamados de discos imaginários já estão em seus lugares para se tornarem novas características tais como assas, pernas e antenas. A única coisa que você pode fazer para ferrar com o processo é tentar impedi-lo.
  • A transformação é maior que você. Isso deveria te animar quando você estiver pra baixo e deixá-lo pra baixo se estiver se sentindo especial porque você decidiu transformar a si mesmo. Se você tiver sorte, você vai ficar tão cansado de si mesmo e sua própria história de ascensão que você vai apenas se render e deixe que ela lide com você.

Então como você se rende ao processo? Cá estão algumas dicas:

  • Comece parando. Considere parar de fazer aquelas coisas que você acha que vão consciente e deliberadamente te levar a uma evolução pessoal, tais como ler livros de auto-ajuda, fazer yoga, cantar mantras, músicas espirituais e ter conversas profundas e significativas com pessoas que pensam como você. Cheque para ver se elas não são parte de um complexo de ego que precisa ser dissolvido.
  • Suspeite do conceito de pessoas que pensam como você. Seja cauteloso ao projetar seus ideais nos outros e ao colocá-los em um pedestal.
  • Suspeite de suas próprias crenças auto-limitantes que te fazem depender dos outros ou em ideias pré-concebidas sobre como as coisas devem ser.
  • Na dúvida, pare o que está fazendo e espere por direções.
  • Vá em direção ao escuro. Se você encontrá-lo por dentro ou por fora, dá no mesmo. Você classificou seus conteúdos psíquicos em pilhas marcadas como boas e ruins. Os bons você reivindicou para si mesmo e os maus você mandou embora para que se virassem sozinhos. Você precisa deles de volta. Dê as boas vindas a eles quando retornarem e peça desculpas por abandoná-los e ser uma pessoa tão egoísta e mesquinha.
  • Comece a usar a palavra interessante ao invés de bom ou ruim. Isso promove uma abordagem imparcial à sua experiência sem criar uma nova persona de alguém que está levando uma perspectiva distanciada de sua experiência.
  • Cuidado com os punheteiros intelectuais. Essas são as pessoas que só falam e não fazem nada e se você está começando, você provavelmente é uma delas. A maioria das pessoas é assim não porque a conversa é fiada, mas é porque é de graça mesmo. Ao mesmo tempo, percebem que esta é uma estratégia perfeitamente compreensível de navegar pela vida, então não seja muito rígido com eles ou consigo mesmo por tentar. Valeu a tentativa.
  • Resista a tentação de compartilhar sua experiência de modo que a formalize e te faça sentir especial. É ok ser incompreendido e levado a mal uma vez que você não entende a si mesmo ou não gosta muito de si mesmo também.
  • Veja a si mesmo como um processo. Mantenha o processo aberto por quanto tempo conseguir antes de parar com isso temporariamente para pedir ajuda ou conceitualizar o que está acontecendo (isso inclui pedidos de ajuda para entidades como anjos ou guias espirituais). Tente se lembrar que você não faz ideia do que está acontecendo ou o que que está envolvido nisso tudo e encontre força em sua própria ignorância. A estrada poderia tomar um caminho diferente de meia volta em qualquer ponto e você vai passar reto por aquela parede na qual você acha que vai bater. Depois de um tempo você pode até passar a curtir isso.
  • Observe a nova ordem que está emergindo na sua experiência. Isso é o que vai te manter interessado e é o que vai te manter nos trilhos. Ao longo do tempo você vai aprender a confiar mais e se basear mais nisso.
  • Preste mais atenção na energia das coisas e das pessoas. É aí que a ação está.
  • Lembre-se que não é pra ser divertido, você sabia que não seria, e se você tivesse que fazer tudo de novo, você faria a mesma escolha porque você é um fodão ou uma fodona cósmica. Você consegue, soldado!
  • Quando tudo mais der errado, fique puto e resmungue. Se você não for acostumado a xingar, aprenda. Não importa muito a forma que fizer isso. Tudo o que importa é que você se mantenha no caminho e siga em frente.

Ela me disse que para que o verme se desfaça demoram sete anos sem nos tocarmos. Sem entrarmos efetivamente em contato um com o outro. Os vermes de luz percebem quando estão a ponto de morrer e se agitam dentro de nós, no nosso baixo ventre, tornando o fio de ligação cada vez mais espesso, cada vez mais notável. Eles não querem morrer. Não querem ser esquecidos. Seus corpos se contraem, se angustiam e se revoltam. Urge uma reconexão pois o elo não pode, de modo algum, ser finalizado em definitivo. Caso isso aconteça a alimentação vai deixar de ser contínua e quando isso acontece o outro perde essa boca livre porém finita para sempre e deixa de nos sugar efetivamente. E isso tudo independe das circunstâncias: casamento, noivado, novo relacionamento, qualquer coisa. O vínculo está constituído de forma seminal, onde há um receptor que é atuante, por todo esse tempo. E esse receptor não quer ser esquecido e não aceita ser morto. Por volta do sexto para o sétimo ano, ficamos bêbadas, vamos em festas, fumamos, equalizamos nossa vibração de um modo ou de outro, reencontros acontecem e nossa faz tanto tempo porque não, porque não hoje, porque não agora, sempre foi assim, sempre foi bom, não há nada que impeça (ou até há mas). O nosso corpo se contorce e se contrai, vibra pedindo e se retrai, a coluna se arqueia e as noites insones e cheias de dores aparecem, as preocupações e angustias profundas os sentimentos absurdos que sequer deveriam estar ali e estão vigilantes impunes incisivos. E nos abrimos pra eles, pra tudo isso, o verme de luz cordado insiste e demanda chegar até o outro lado, até a outra ponta. Coisas acontecem, tornam a acontecer e permitimos simplesmente porque estamos desatentas, porque não estamos acordadas o suficiente, porque estamos num estado de estupor, entre o sono e a vigilia, de volúpia, de paixão, de memória e de lembrança, olhos semicerrados, boca entreaberta, uma porta languidamente ambígua, ali para o outro dar o significado que bem entender, para fazer o que quiser, para moldar o agora de acordo com o seu desejo. E assim as coisas são, dizemos quando permitimos que as coisas aconteçam. Quando temos uma perspectiva consciente o discurso de auto-responsabilidade muda para assim eu o quis. Esse estado de torpor e ilusão cabe na palma da nossa mão, tal qual um brinquedo mal cuidado. Isso requer cuidado trabalho compaixão disciplina diligência. Essa consciência nos prepara para que efetivamente encaremos de frente o desafio de soltar o fio-verme de luz que habita em nós. Sim, soltar pois se as cortamos, as pontas ainda permanecem e retornam a alimentar a relação. É preciso deixar ir com graciosidade, mas diligentemente. Soltar é menos danoso do que cortar, para ambas partes. Existem inúmeras maneiras de soltar: plantar a lua entregando o verme pra terra comer continuamente, jogando o nome ao fogo e pedindo pras salamandras se alimentarem de todo e qualquer vínculo que ainda esteja sendo alimentado, pedindo a grande mãe de fogo que consuma, devore e transmute tudo o que há ali e tudo o que já aconteceu. As ferramentas são infinitas, mas não devemos, nunca nos privar de utilizá-las e nem mesmo hesitar em seu uso, para nosso próprio bem. E para um possível bem que seja ainda maior. Que assim seja e assim se faça.

Now it’s the mopping up operation which may take many lifetimes. It’s all purification from here on out. It’s just cleaning up: it’s getting your body together, getting your heart open, getting your mind calm down. And understanding that a conscious being, recognizes that she or he has taken birth and the function of an incarnation is to end suffering. And that means wherever it exists. On any plane it existed. And you recognize that the optimum thing you to do to end suffering is to work on yourself and how you work on yourself depends on your dharma, what is you root through and for me my work on myself is to do what I’m doing this minute. If I think I’m doing this, I still got a way to go. Until this is just being done and I’m just part of the audience as you are. Am I attached to being the speaker? Am I looking for the rush of your appreciation?

(Ram Dass on Dharma, 1973)

Feche a porta de julho. Eu sei que não foi divertido e eu sei o porquê. A vida te forçou a se focar em tudo o que não estava certo. E te pediu pra seguir em frente com isso e de várias formas um antigo capítulo teve que ser deixado pra trás. Você não deve estar completamente pronta. Você pode estar querendo muito seguir em frente. Você pode não estar se sentindo bem relação a isso ainda. Mas não importa. Uma nova realidade está nascendo aos poucos. Mas ainda não está aqui. Não em toda a sua forma. Você está no meio de um período aparar as arestas. Um padrão recorrente. Um congelamento de tempo. Como preencher sua vida? Como fazer um bom uso desses momentos? Essa é uma época para se pensar em marcos pessoais. Coisas que você precisa incorporar na sua vida. Não projetos profissionais, mas modos de vida. Hábitos diários de aprendizagem, de executar seus planos, estilos de vida de saúde e bem estar e organizar as suas finanças para o sucesso. Essa é uma época para se pensar em marcos pessoais. Marcos que exigiram prolongados e lentos períodos de luta e dedicação necessários. Existe pressão externa. Pessoas querendo que você faça as coisas de modo diferente, aja diferente, que seja alguém que você não é. Há pressão interna e uma bronca interna, auto-desapontamento, colocando a si mesmo pra baixo por não estar mais avançado na vida. Uma certa raiva por ter entendido tudo. Um estado permanente de se sentir preso, quando você não está. Isso é muita coisa pra lidar. E nada te dará as respostas que você procura a não ser o tempo. Enquanto você deixa que os dias se tornem semanas, enquanto pacientemente espera as novas oportunidades aparecerem. Você entenderá porque parece que as coisas se movem tão lentamente, porque parece tão impossível avançar e porque por um segundo parece que tudo desintegrou nas suas mãos. Mesmo que tenha sido tudo uma ilusão. Tudo ainda está organizado. Ainda no lugar onde precisa estar. E muito será ganho a partir de tempos como estes. Se não há ação a sua volta é por um motivo. A vida está te pedindo para organizar a sua existência fora dos seus projetos e luta profissional. A vida está te pedindo para ter uma melhor estrutura fora do seu trabalho. Para que quando você retorne para tempos mais ocupados, você lidará com eles melhor, porque a estrutura externa estará forte e firme e perfeitamente capaz de dar conta do que for. Então evitar isso é seu único remédio? Como você pode fazer com que isso seja frutífero? Como transformamos uma pausa em uma oportunidade? Já foi dito mil e uma vezes e aqui está mil e duas: tudo deve ser curtido com moderação. Quando você está chateado e não sabe o porquê. Quando você culpa os outros por coisas que você nem acha que são tão sérias assim. E seu estado mental não parece se aquietar… É sinal de falta de equilíbrio. Excesso se apoderou de uma área da sua vida. E porque é tão raro pra nós, ter tanto espaço vazio na nossa vida. Aqui e agora mesmo é a época perfeita para que você busque seu equilíbrio. Em algum lugar na sua vida está faltando moderação. Você está sentindo os resultados negativos do excesso em alguma parte específica da sua vida. Tem muito disso: organize todas as coisas. Você não é fraco, frágil ou necessariamente errado por se manter aprisionado em excesso, todos nós lutamos contra o excesso todos os dias da nossas vidas. E quando dominamos equilíbrio em qualquer área em específico, sempre esquecemos, sempre recaímos e eventualmente precisamos dominar novamente e consertar de novo o mais rápido que pudermos. Essa é uma parte da experiência humana, como cultivar otimismo, não há ponto final, nenhum platô a ser alcançado. Equilíbrio é uma luta de uma vida inteira. Mas você pode melhorar nisso. Você pode alcançá-lo e mantê-lo por períodos de tempo mais longos. Mas é inevitável: você irá perdê-lo. Você terá de começar tudo de novo. E embora a trajetória seja para cima, haverão muitos passos para trás no processo. Você foi até o extremo e agora você precisa retomar o seu caminho. Comece a se movimentar. Comece a se equilibrar. E não sofra durante o processo. Não seja dura consigo mesma, apenas continue se movimentando agora. Onde exatamente você está em desequilíbrio? Pode ser um excesso de descanso e lazer, ou indulgência de algum tipo. Talvez o oposto, um excesso de trabalho e restrição. Ou um excesso de gastos e ostentação. Ou um excesso de comportamentos não saudáveis, ou um excesso de limitações auto-impostas. O que quer que seja é um excesso e é seu trabalho e missão encontrar o seu caminho de volta para o equilíbrio. Procure reencontrar as energias que estão faltando na sua vida o ano todo. Quanto exercício, quanto sexo, quanta interação social, quanto trabalho, quanta comida, quantos encontros amorosos, quantas viagens, quantas compras e ostentações com gastos, quanta ênfase na sua vida amorosa, quanto foco no amanhã, quanta gratidão pelo hoje. A resposta é o suficiente. Nem tão pouco, nunca demais. Nunca sempre, nunca nunca. No fim das contas tudo está buscado e organizado em seu lugar e tempo apropriado. Alguns anos para alguns e alguns para outros, alguns colidindo e outros nunca no mesmo tempo e lugar. O futuro está vindo. Mas não estará aqui por enquanto. Portanto, este é um ano para ideias e visões, não ações. Para limpar sua vida diária, não para andar em frente. Você vai me ouvir falar disso nas suas previsões, visões do seu futuro, imagens claras para seu próximo passo na carreira, oportunidades específicas para serem buscadas e novos caminhos para começar a trilhar. Todos eles estarão na sua mente ao longo do mês. Espere ocorrências estranhas, sinais que o universo está tentando te dizer algo. Momentos de clareza sobre a sua missão na vida. Agosto e setembro terão muitas surpresas por acaso. Mas lembre-se: a busca por equilíbrio é a única coisa que importa agora mesmo.

“Quando você reverência as coisas do universo reverência a si mesma e a sua existência atual, sem ignorar todas as outras características e histórias que compõe seu ser na totalidade. Tenha calma com seu eu interior. Respeite suas vontades ocultas, seja responsável, não superestime ou menospreze o tempo porque ele não existe só na sua concepção atual dele. Sinta, intua e faça! Agir é meta. Ajude, se doe, o tempo que for possível e inclusive para você mesma. Dar ao todo inclui dar a si e de si.

Você é mais forte do que lembra.

Você não lembra de tudo porque não pode agora mas lembra do necessário e lembrar das missões te dá boas armas para continuar subindo. Você seguirá sendo amada e assessorada nesse plantio que também é colheita. Amamos você!”

Título original Solar Eclipse in Cancer – July 2018, por Chani Nicholas em seu site pessoal

Colagem por Chani

No dia 4 de julho imagens de Therese Patricia Okoumou inundaram nossas timelines e telas. Com nada além de água embaixo dela e os pés da liberdade acima dela, e os olhos do mundo sobre ela, ela arriscou sua própria vida para deixar claro o princípio mais importante possível.

Estamos aqui para amar e proteger uns aos outros.

Através de sua ação sincera, Okoumou disparou o alarme para o nosso despertar moral coletivo e pessoal.

Dia 12 de julho, às 23:48 (no Brasil), a lua nova e o eclipse solar parcial ocorrem aos 20° do signo de câncer. Se o signo de câncer nos ensina qualquer coisa é que nós realizamos a curadoria de uma vida bem vivida desenvolvendo e demonstrando nossa habilidade de nos importarmos. Se um eclipse nos ensina qualquer coisa ele nos ensina que é de nosso maior interesse direcionar nossos esforços para o que é mais impactante. Nos introduzindo em um tempo de crescimento pessoal, eclipses preenchem a lacuna entre nossas vidas privadas e sociais. Com nossas questões coletivas amplificadas, o que normalmente existe apenas por baixo da superfície de nossas situações, torna-se exposto. O que inibe nosso acesso à verdade é ceifado.

Rapidamente.

Com um pouco mais do que a crueza-emocional-da-lua-nova-em-câncer, esse eclipse solar nos introduz em uma época de crescimento rápido e cura acelerada através de nossos processos emocionais. Câncer é o fluído amniótico no qual toda vida começa e se desenvolve. A ressaca emocional desse eclipse pode nos subjugar momentaneamente, mas também nos traz de volta a sabedoria que obtivemos no poder das origens das nossas histórias. Como fomos criados, amados e acalentados? Como precisaríamos aprender a fazer isso por nós mesmos? Como estamos sendo pedidos para transformar uma ferida dentro de nossa genealogia para que esse dano seja interrompido?

Câncer revela a criança interna que está carente. Nos ensinando como abraçar, nutrir e amar em toda sua plenitude o que parece estar faltando dentro de nós.

O primeiro de três eclipses do próximo mês, o eclipse solar parcial desta quinta feira pode ser o menos visualmente deslumbrante deles, mas não deixe com que a ótica te engane. Através de bases astrológicas seus significados que não tem relação com o impacto visual, este eclipse vem com uma carta secreta em sua manga. Em uma oposição exata a Plutão em Capricórnio, um planeta incrivelmente potente de transformação, destruição, renascimento e poder certamente deixará sua marca.

Não podemos construir uma família fingindo que dinâmicas abusivas são amor. Não podemos construir um país a partir de terras roubadas que enjaulam crianças roubadas e fingirmos que isso é para o melhor interesse de nossa família nacional. Não podemos mentir pra nós mesmos em relação aos nossos sentimentos e nos tornarmos adultos que sabem como gerenciar conflitos com os outros. Este eclipse nos pede para eliminar, descompactar e quebrar o poder que dinâmicas abusivas tiveram em nossas vidas e no mundo, para que nós consigamos achar uma melhor forma de construirmos uns com os outros.

A fim de proclamar, para todo o mundo testemunhar, que arriscaremos tudo pelos inocentes, pelos incompreendidos, pelos famintos, cansados, pelas massa  para os mal entendidos, para as massas amontoadas que desejam respirar livres, devemos também estar dispostos a arriscar tudo por nós mesmos. Devemos estar dispostos a ir nas profundezas do nosso próprio inferno interior se quisermos trabalhar para desmantelar os infernos que vemos sendo incessantemente erguidos no mundo externo. Devemos saber que somos tão merecedores de proteção quanto aqueles pelos quais estamos dispostos a lutar.

Não há nada mais poderoso do que uma declaração de amor em face a crueldade. Não há nada mais poderoso do que um cuidado gentil e deliberado em um mundo tão cheio de violência. Não há nada mais decente, apropriado ou sagrado do que um ato radical de solidariedade. Com este eclipse, que possamos relembrar que o equilíbrio de fazer por nós mesmos e pelos outros é difícil de atingir, mas que é imperativo se estivermos dedicados a escalar os monumentos de liberdade, amor e proteção que são nossos para reivindicarmos.

I

Acho que ainda não sei lidar com fim de ciclos. Parei de romantizar tanto as coisas, acreditando que elas “não acabam, mas se transformam”. As coisas acabam sim, a gente querendo ou não. Percebendo ou não. Fico com a fama de mal amada, de quem não tem memória, de quem nunca se importou com nada de verdade, de quem não sabe o que é amar, de quem nunca teve nada. Bem. As coisas acabam, independente do que você acha ou deixa de achar de mim. Elas deixam de fazer sentido e aí a gente chuta cachorro morto pelos mais variados motivos: carinho e respeito, pelo histórico, por tudo o que já passamos juntos, porque já cheguei até aqui então não vou desistir agora, morrer na praia. E mais um bando de mentiras que gostamos muito de acreditar que são verdades.

II

Há algum tempo pedi pra ela jogar pra mim e no meio de uma família inteira de espadas (overthinking) saiu a Lua. Um longo caminho pra eu, besoura, chegar em mim mesma. Eu quero o sol, mas sigo o reflexo da lua… Sendo que o meu sol é na verdade interno. Já está tudo aqui. O que estou esperando? Não sei ao certo. Sempre espero que o pior aconteça, nesse sentido específico. O que é bem imbecil da minha parte pois se eu esperar o pior ele VAI acontecer. Por que não esperar outra coisa? Porque entre os altos e baixos, chacais, esfinges, torres existem todas ilusões as quais preciso enxergar e saber lidar. Existe o caminho que não pode ser apenas contemplado, mas vivenciado. E as ilusões estão toda saqui na minha vida, cada uma ao seu modo. O que estou esperando?

III

A atração foi e é inevitável. Ouvi aquilo tudo, percebi aquilo tudo, respirei fundo, fui pra casa. Nunca agi em relação a isso. A atração estava aqui, existindo, no meu chacra básico. Visceral, violenta, despudorada. Cheia de vontade e desejo. Sempre senti isso, nunca deixei de sentir, deixei estar. Só que em dado momento eu elaborei em cima disso, papel, caneta, escreva nos mínimos detalhes tudo isso aí que você sente. Destampei o bueiro. Encarei uma por uma das minhas sombras, de tudo o que era sujo, baixo e vil. Aceitei e reconheci tudo isso como parte de mim, como um presente. Entendi o contexto e as limitações. Me validei e me recolhi justamente para poder me apropriar disso da maneira menos danosa possível. Depois deste passeio, entendi a ilusão e me permiti uma série de afetos de coração aberto: abraços, carinho, troca de gentilezas. Sem medo, me permiti poder gostar da maneira mais genuína possível. E foi bom. É bom ainda. O impulso ainda está ali, ele existe e não o nego. Mas agora está sob o meu domínio.

IV

Esse cara é um idiota. Não, ele não é. Não sei bem o que ele é. Hm. Isso muito me interessa.

Quem ele é?

V

Ela se jogou do sétimo andar. Não achei que fosse me chocar. Me choquei. Senti muito. Ainda não consegui conceber muito bem tudo isso. Consegui muito menos naquele dia que te vi, já tendo te idealizado por meses a fio. O que eu sentia por você vinha de um outro lugar, um lugar que eu julgava – ingenuamente – mais elevado. Apenas olhar pra você era capaz de encher o meu corpo inteiro de ternura, como uma onda de calor e amorosidade. Bem, é assim que isso funciona, parece, chacra cardíaco, sistema circulatório. A morte dela me forneceu um senso de urgência que eu até então desconhecia. Não achava que estivesse fazendo nada errado – e não estava. Sabia que as coisas não seriam mais como antes. Não queria que as coisas fossem mais como antes. Por um momento achei absolutamente injusto guardar o que eu tinha de melhor dentro de mim, sendo que eu podia simplesmente oferecê-lo a quem eu acredito que tanto merece. Me angustiei ao ponto da comunicação. Coloquei meu coração nas suas mãos, para que você fizesse o que quisesse com ele. 

VI

Eu só queria dizer que, meu deus, eu sou muito a fim de você.

VII

Você pegou meu coração pulsando com as duas mãos e, com um cuidado que eu nunca vi antes na minha vida, abriu meu peito e colocou ele de volta no lugar onde ele pertence e de onde ele jamais deveria sair. E, por isso, por esse cuidado, eu te agradeço. Tudo o que eu disser, tudo o que eu teimar em colocar no mundo em relação a isso que aconteceu, vai soar grosseiro e errado, mas a verdade é, que quando temos uma noção melhor de onde as coisas vem e quando entendemos como elas funcionam, toda dor passa a fazer um tipo diferente de sentido… E é justamente através dela que a compaixão consigo mesmo se torna implacável, irresistível. E foi aí que percebi que havia caído em mais uma ilusão auto-imposta e ri, sozinha. Meu ego está ressentido, obviamente. Mas procurei apenas sentir o que aconteceu e entender a dimensão e o significado daquilo tudo. E percebi que isso, que eu acredito existir, na verdade é só mais um véu a me separar do outro. São nomes, termos, palavras, coisas… Existem no mundo e estão aqui.

Talvez o que eu quero não esteja, nem seja. Haverão outros véus. Muitos deles. E eu jamais estarei preparada pra nenhum deles. E devo aprender com todos. Afinal, estou aqui pra isso. 

 

Plantando a Lua do Sagrado Feminino

Já a mulher pertencente ao Ciclo da Lua Vermelha é a mulher que possui o ciclo ao inverso das fases lunares, sendo assim, a mulher tem a sua menstruação na Lua Cheia e a sua fertilidade se dá na fase escura da lua (Lua Negra ou Lua Nova). Como o auge da fertilidade ocorre durante a fase escura da lua, há um desvio das energias criativas, que são direcionadas ao desenvolvimento interior, em vez do mundo material. Diferente do tipo Lua Branca, que é considerada a boa mãe, a mulher do Ciclo Lua Vermelha é bruxa, maga ou feiticeira, que sabe usar sua energia sexual para fins mágicos e não somente procriativos. (Curandeiras de Si)

Se menstruamos na fase da lua cheia isto indica que quando atingimos o auge fértil estaremos na lua nova. A energia da lua cheia de recomeço acontece banhada não pela nossa criatividade senão pela limpeza do nosso corpo. Simbolicamente, isto pode significar que a mulher está a curar-se interiormente, ou seja, a energia da lua nova, da criatividade, ficará voltada para o nosso interior, indicando que a mulher está mais voltado para o seu auto conhecimento. Diz-me que a mulher que está no ciclo da lua vermelha é a bruxa, a feiticeira, a maga, porque está na busca e conquista do seu poder. (Viver o Feminino)

Por outro lado, a mulher que ovula na lua negra e menstrua na lua cheia pertence ao ciclo da lua vermelha. Nesse caso, como o auge da fertilidade acontece na fase escura da lua, as energias criativas são direcionadas ao desenvolvimento interior e a energia sexual é usada para fins mágicos, relacionando-se com o arquétipo da bruxamaga ou feiticeira – aspecto do feminino costumeiramente negligenciado e temido pelo patriarcado. (Obscura Realidade)

 

Eu estava escorada no balcão do bar, não lembro bem no que estava pensando, quando de repente tenho uma sensação quente na parte de trás do meu braço esquerdo. Tirei o meu braço rapidamente, assustada. Não vi que era o seu braço encostando no meu, entregando coisas pra algum outro alguém atrás de mim. “Desculpe!” você me falou, por me tocar sem querer. Eu já estava alcoolizada e provavelmente respondi “ah, não foi nada” com a voz alcoólica mais macia que consegui fazer. Não nos tocamos com frequência. Das duas vezes que estive no bar, estendi minha mão direita e te cumprimentei com a voz mais firme que consegui fazer. O lugar estava cheio, minha presença precisa ser notada e eu não gosto de ficar com a garganta seca por muito tempo. Gosto do som da sua voz, da curva de cada uma das suas letras que caem no meu ouvido.

Passei meses sem perceber isso, final do ano percebi, despercebi e no início do ano percebi novamente. Eu me confundo, me distraio. Mas as coisas se encaixaram. E no início é sempre tudo muito estranho. Não me constranjo mais, não sou uma menina. Acho que nunca fui, só que sempre pelos motivos errados. Em um dos passeios, assim que cheguei, fui reta e direta te cumprimentar, sem medo algum. Eu estava com um batom escuro, você me olhou com olhos arregalados, pois achava que eu fosse te ignorar. Mas naquele dia eu já sabia. Te cumprimentei, com abraço e beijo mas foi isso. Eu não tinha nada a oferecer naquele momento que não fosse um desejo cego, vazio. Não tinha te aprendido ainda. E ainda não haviam todas as coisas que existem agora, hoje. Eu não as carregava em mim.

Agora entendo que não preciso ter medo. E que também não quero programar nada, planejar ou pensar em nada. No momento, eu só quero sentir. Só sentir. Estar aberta pra isso, de fato: pro sim, pro não, pro que vier. Eu só quero estar ali. Sei que tenho um longo caminho pela frente. E quero isso.

Sonhei que estava num escritório com espelho pra frente do mar, trabalhando, quando de repente a terra se dobrava e avançava em direção ao prédio. Dava pra ver os outros estados, dobrados, vindos do céu. Até que o mar veio. Primeiro, foi aterrorizante. E depois tudo muito, muito, muito errado. Eu diria num primeiro momento que “sonhei com um tsunami”, mas não. Era algo muito pior. Era a terra se dobrando e vindo do céu, com tudo junto. E antes do primeiro impacto, eu estava em meditação. Não o senti, porque na hora que bateu no vidro, acordei pra essa realidade aqui. Enfim…

Vai ter mudança. E não vai ser pequena e nem sutil. Vai ser brusca e a olhos vistos, de todos. É a terra no céu junto com a força avassaladora e devastadora da água.

Como continuar vivendo quando a gente sabe que a catástrofe está a espreita na esquina? E que somos pequenos e impotentes e que não há muito o que possamos fazer em relação a isso? Bom, a gente só levanta e vai trabalhar porque não há exatamente muito a ser feito mesmo.

Ao mesmo tempo em que fico prostrada, também fico inquieta. Sinto medo ao mesmo tempo em que quero mais é ver o oco, para que o marasmo e o tédio se dissipem ao menos temporariamente. As coisas são todas meio ambíguas por aqui, desde que eu consigo me lembrar.

A sensação e o sentimento mais demarcado que esses sonhos causam em mim é uma sensação de urgência mesmo. Mas urgência do quê, exatamente? Bem, o tempo e os caminhos vão mostrar… No tempo que me resta, eu danço no abismo. Não tenho pressa, mas não perco tempo. Apresso-me vagarosamente. Festina lente.

Dora, estou em um emprego que eu detesto. Eu sinto uma tristeza tão grande por não conseguir arranjar outra coisa para poder sair de lá (sair sem ter outro trabalho não é opção infelizmente) que, no momento em que coloco o pé na porta, já me sinto inundada pela angústia. É como se o ambiente me engolisse, não sei explicar. É quase físico o negócio.
Tem algum ritual para eu impedir que a energia do lugar me derrube tanto?

Pergunta originalmente feita anonimamente via Curious Cat/Twitter.

xxx

Olá Anon!

Vamos por partes.

Palavras que você usou: “detesto”, “tristeza”, “angústia”, “engolisse” e “derrube”.

Primeiramente, eu sinto muito que você sinta todas essas coisas em relação ao seu trabalho. Veja bem a palavra que eu uso: TRABALHO. Trabalho não é emprego, é algo muito mais profundo e complexo que isso. Trabalho, na minha humilde concepção, alinha-se muito ao propósito de vida. É algo com o qual você gasta uma quantidade de energia enorme, imensa, diariamente. Você tem noção do quanto isso é importante? Querendo ou não, achando bom ou não, o trabalho faz uma parte muito grande da nossa vida e não temos como ignorar isso. Deve ser muito difícil mesmo trabalhar com essas palavrinhas que você usou aí em cima. Isso posto, vamos ao problema.

Ao que tudo indica, você não gosta do seu atual EMPREGO e me pediu um “ritual para impedir que a energia do lugar te derrube tanto”. Novamente, vamos por partes: você já sabe que esse trabalho não combina mais com você. Isso me parece ser um fato. Ao que tudo indica, você já está procurando outro trabalho para sair do atual emprego – ou ao menos eu imagino e espero que sim. Para mim, não faz mais O MÍNIMO SENTIDO você gastar energia para tolerar um lugar em que não suporta mais estar. De verdade, mesmo. Digo isso de coração.

É claro que existem questões de ordem prática né: os boleto chega e ninguém é doido de largar um emprego pra ficar a deus dará. Isso realmente não é nada sábio.

Mas me parece que você precisa mudar algumas coisas internamente. Algumas perspectivas internas suas mesmo. E isso é um processo, leva tempo e esforço. Não é passe de mágica. Não é bagunça. É o que eu tenho chamado há algum tempo já de disciplina íntima.

Perceba a quantidade de palavras negativas você direcionou ao seu atual emprego (ou seja, a você mesmo/a?) que, querendo ou não, direta ou indiretamente, está ligado ao seu trabalho. Sinceramente, eu não vejo como se utilizar das energias dessas palavras possa te ajudar a conseguir algo novo.

Por que você não vira esse jogo?

Por que que ao invés de sentir que seu trabalho é um estorvo, você não se sente grata por ele? Grata por ele te permitir pagar as contas, que seja! Grata por ele mostrar a você e te ensinar qual é o tipo de ambiente que você NÃO quer estar. Grata por ele ter te feito evoluir a ponto de você perceber que, agora, você precisa ir para uma outra fase, uma nova fase.

Perceba as partes boas que esse seu emprego ruim te trouxe. Pense nas suas qualidades e em como você pode explorá-las em outro lugar, com outras pessoas, por outras perspectivas. Simplesmente PARE DE FOCAR nas coisas péssimas, ruins e difíceis pois toda vez que você estiver fazendo isso, você estará na verdade CELEBRANDO-AS. Não ALIMENTE isso. PARE com isso. Simplesmente PARE. Quebre esse ciclo. Eu sei que falar é fácil, mas isso precisa começar de algum modo, algum dia.

Eu NUNCA, JAMAIS vou te recomendar ritual algum pra você tolerar o lugar ruim onde está. Nunca. Jamais.

Mas eu estimulo sim que você faça rituais de agradecimento, de prosperidade, de pedidos de melhoria, de mentalizações do que você quer de MELHOR pra você. JAMAIS vou indicar o oposto disso simplesmente porque NÃO FAZ O MÍNIMO DE SENTIDO.

*Breve relato de experiência pessoal*: antes de sair do meu antigo emprego, eu procurei emprego por 8 meses, planilhei e monitorei vagas ativamente, espalhei currículos e mentalizei exatamente o que eu queria (o que queria fazer, pessoas, trajeto de casa-trabalho, etc. TUDO). Fui grata por tudo (genuinamente) que o antigo emprego me trouxe. Pedi pelo novo. Pensei nisso diuturnamente. Foquei minha energia nisso, nesse pedido. O emprego em que estou hoje veio EXATAMENTE como pensei, pedi e foquei. Perto de casa, equipe boa, trabalhando com o que sei fazer de melhor. Ele é perfeito? Longe disso. Mas é onde eu preciso estar HOJE e reconheço o meu merecimento e reconheço também que atraí exatamente o que vibrei. E claro, sou grata pra caralho sim.

Coisas que eu recomendo você fazer (e eu vou me repetir aqui):

1. ACEITE que este trabalho, de fato, não é mais pra você. Falo de aceitação pois muitas vezes a gente ACHA que aceitou algo, mas verdadeiramente, genuinamente, ENGANAMOS A NÓS MESMOS e somos APEGADOS e não queremos de fato largar mão. Não largamos o osso nem a pau!!! Dizemos que não queremos mais, mas nossas ações são todas o contrário disso. Queremos coisas novas mas continuamos fazendo as mesmas coisas de sempre… Sabemos que isso é loucura. Como querer resultados diferentes fazendo sempre a mesma coisa? PERCEBA a si mesma, de verdade. Você REALMENTE quer sair desse trabalho ou só ACHA que quer? O que você faz ATIVAMENTE em relação a isso? Quais são seus padrões de pensamento em relação a isso?

*Breve relato de experiência pessoal*: solicitei meu CRB e fui bibliotecária de 2012 a 2014. Quis cancelá-lo em 2015 e meu pedido foi indeferido. Não quis brigar pelo indeferimento e segui pagando as anuidades. Mas eu não me atentei, naquela época, que eu não estava na verdade bem resolvida com a área, com o conceito do que é ser bibliotecária. E na verdade eu não era mais, só não conseguia nem queria lidar com isso, com esse sentimento, encarar isso DE FATO. Daí eu tive que começar todo um processo de desidentificação (?) como bibliotecária. Isso foi MUITO sério pra mim, pois me identifiquei assim por muito tempo e essa profissão foi a que eu quis e escolhi em detrimento dos desígnios e desejos externos, doa a quem doer! Não era simplesmente mais questão de “não precisar mais pagar o CRB”, mas algo bem mais profundo que isso: eu não me identificava mais como bibliotecária. Ponto. E me dar conta disso foi dolorido e sofrido, foi como um divórcio… Pois por muito tempo eu quis muito isso. Enfim, foi duro eu reconhecer que tinha acabado. Fiz um ritual de agradecimento, recordando todo meu histórico como bibliotecária, elencando TUDO o que a área me trouxe de bom, todos os aprendizados, todas as pessoas, entendendo como aquilo é parte indissociável de mim, das minhas escolhas e de quem sou hoje, de como me fez chegar até aqui e conquistar todas as coisas que conquistei. Fui profundamente e genuinamente grata, de verdade e entendi que me resolvi com essa questão de forma razoável. Solicitei o cancelamento do CRB novamente no começo desse ano. O cancelamento foi deferido. (Tá, pode ter sido “só coincidência”? Pode. Pois bem: foda-se. Pra mim foi bom. Não tô querendo provar nada pra ninguém não, isso só diz respeito a mim, exclusivamente).

2. AGRADEÇA AGRADEÇA AGRADEÇA pelo seu atual emprego. Eu não vou nem entrar no mérito do quanto de gente que tá desempregada porque eu imagino que você já saiba que o Brasil está em crise há alguns anos né? Mas enfim… AGRADEÇA. Veja todas as coisas que ele te trouxe de bom (NÃO É POSSÍVEL que não tenha ABSOLUTAMENTE NADA de bom, eu duvido! nada é totalmente ruim, nem totalmente bom). Veja os pontos positivos dele, quaisquer que sejam, mesmo que sejam os mais práticos: dinheiro, boletos pagos, segurança financeira, estabilidade, etc., qualquer coisa que seja, o significado disso é único e seu!!! Entenda como ele te fez enxergar e entender certas coisas, como te fez conhecer pessoas (boas ou ruins, não importa), como te fez evoluir como pessoa pois hoje você sabe o que é e o que não é bom pra você, o que você quer e o que você não quer! E o simples fato de saber e entender isso é um privilégio do caralho, que ninguém nunca nota. E last but not least: SINTA que com tudo o que você aprendeu, você está efetivamente pronta pra encarar uma próxima fase na sua vida. E aí você vai pro passo seguinte que é…

3. IMAGINE-se em um novo trabalho. Alimente isso, esses pensamentos, na sua mente diuturnamente. Como você quer se sentir no seu próximo trabalho? Como você quer que ele seja? O que você quer fazer? Com que tipos de pessoa quer trabalhar? Imagine em detalhes vívidos, escreva sobre isso, pense nisso diariamente, tenha FOCO nisso. Peça, imagine e realize. Abra esse espaço para o novo, pra ele poder vir efetivamente. Pare de focar no velho, no antigo, no que não é harmônico, no que não combina e que NÃO DÁ MAIS. Simplesmente PARE. SAI DAÍ ANON CÊ VAI MORRER!!!

Não vou dar receita de bolo pra ritual de prosperidade, agradecimento, etc., porque

  1. Ainda não me sinto APTA a repassar esse tipo de conhecimento pra terceiros, sou só uma estudante e curiosa que calhou de passar por algumas experiências que PARA MIM funcionaram; ou seja, nada é muito garantido por aqui;
  2. Ainda acho que a criação de rituais é algo muito íntimo de cada pessoa e vai depender muito do nível de conhecimento que ela tem dessas práticas e também de como a espiritualidade que ela tem está desenvolvida (ou não).
  3. Não tenho paciência pra quem tá começando (risos brinks tenho sim olha essa porra de textão enorme que eu escrevi)

Espero ter ajudado.

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