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Lifestreaming

I

Acabei de ser completamente honesta com alguém e isso está me fazendo sentir adulta. É um sentimento bem bobo na verdade, sei que vai passar. Mas acho interessante analisá-lo enquanto ele ainda acontece. Me aconteceu algo, novamente, que eu (ainda) não sabia se gostava ou não. Quando aconteceu, eu decidi que não gostava, pois me senti mal por algum motivo. Não queria aquilo. Ao invés de ser reativa, apenas me reservei o direito de dizer “bem, eu não esperava por isso”. E esperei um pouco mais de tempo passar e a parada sedimentar. Isso levou apenas alguns minutos a mais. Aí eu realmente comecei a pensar sobre isso e a questionar o que eu estava sentindo, pois não se tratava de raiva, mas de uma inquietação apenas (essas coisas tendem a se confundir com uma frequência impressionante). “Na verdade mesmo, eu gosto disso, mas não  deste modo, desta forma” e comecei a escrever um pequeno script deixando claro de forma bem explícita (pontuando) o porquê da inquietação com a situação. Isso levou segundos: gostaria de deixar as coisas claras entre nós, nada contra o que ocorreu, mas me desagrada a forma como ocorreu pois na verdade eu prefiro esta outra forma aqui (dei um exemplo) e me sinto meio chateada quando as coisas não saem do meu modo. Não se sinta obrigado a nada apenas SAIBA o que eu estou sentindo, o que eu gosto e o que não gosto. Só isso. A minha inquietação se dissipou.

II

A fumaça saindo da sua boca enquanto você fuma, o óculos, o sotaque e os estrangeirismos. Eu queria me pegar menos vezes repousando os olhos delongadamente em quem não deveria. E a esta altura eu simplesmente sei que não deveria. Estou velha e não quero mais problemas pra mim. E você é um problema que eu não vou resolver. Uma frieza que é ora típica, ora protocolar, o estender de mãos ao invés de me beijar o rosto como todos os outros, e a não-despedida. Acho engraçado, mas não rio na sua frente. Jamais tentei te seduzir e jamais tentarei. Não haverá esforço algum da minha parte. As faíscas já são óbvias quando nos aproximamos, em todo caso. Te uso pra me observar. Pra observar como me comporto, o que quero, o que penso, o que desejo. E principalmente COMO, de que forma faço isso tudo. Te uso pra fortalecer minha própria estrutura. Quando você começou a digitar o endereço de um site que deveríamos ver, na barra de endereços apareceu na lista um site de putaria. Vi e não sorri. Seria constrangedor se apenas não fosse interessante demais. Fingi que não vi, obviamente, e de qualquer modo, somos todos adultos aqui, o que há demais? Mas fiquei curiosa e fui visitar o tal do site depois, sim. Eu queria ver. Foi bem frustrante. Um senso estético de pornografia completamente padrão e lugar comum, absolutamente nada do conteúdo me fez brilhar os olhos. Mas aí pensei também que eu não possuo o mindset de putaria. Segundo o digníssimo Louie CK, I’m a tourist in sexual perversion, he’s a prisoner there. Bem, talvez ele esteja certo. Resume bem. Meu tesão é em outras coisas. Meu tesão é em quases. E isso eu já tenho de sobra.

III

Uma das coisas mais difíceis que eu estou aprendendo este ano é: eu posso gostar de uma pessoa, achá-la muito foda e etc., e, ainda assim, não querer trepar com ela. Não querer, não precisar, me recusar. É muito difícil chegar neste ponto, mas eu preciso, por mim mesma. As coisas tendem a se confundir muito pra mim quando eu gosto de alguém, principalmente nesse sentido sexual da coisa, é bastante complicado. Sempre fui mega passiva e sempre achei que tivesse que aceitar tudo. Mas a verdade é que eu entendi homens mais novos não me atraem muito, sexualmente. Não tenho paciência. Não quero aprender a ter. Mas que posso sim me relacionar com eles, conversar, ir em lugares, mostrar a cidade, fazer uma série de coisas que um casal faria… Menos trepar. Essa parte a gente pula. Essa parte não vale a pena. Não vou dizer que jamais farei isso porque é bobo e porque pode acontecer. Acho que o que me desconcerta com este menino novo em questão não é nem a idade, mas a sensação de quase que uma indiferença. A sensação iminente de que não precisava ser eu, sabe? Podia ser qualquer outra. E isso não é exclusividade de homens mais novos, mas é exclusividade de homens que só pensam em meter (ou seja, grande maioria). Não há um encontro, não há um significado, tem somente aquilo, que poderia ser outra coisa também, desde que estivessem metendo. Com jovens isso é mais evidente pois: jovens. Mas todos são assim, em algum ponto, independente de idade – porque são homens. Mas eu posso escolher não querer isso pra mim. Essa falta de envolvimento, de cuidado, de consideração, do que quer que seja. Não tô a fim disso. E acredito que isso vai me fazer permanecer sozinha por muito mais tempo.

Última vez que isto aconteceu eu tive tempo mas não sabia o que fazer da minha vida, pra onde ir. Foi “a pior época da minha vida”, sendo salva apenas pelo fato de que ele veio me visitar e ficou uns dias. Não foi uma época de introspecção não, foi uma época depressiva mesmo. Que quase entrei em colapso. Esquecia de tomar banho e saía com a mesma roupa cinza por dias seguidos. Nada fazia muita diferença pra mim. Os sucessivos abandonos impulsionaram ainda mais o meu auto-abandono. Me deixei completamente sozinha. Me larguei. Foi horrível, mas sobrevivi. Eu sempre dou um jeito de continuar por aqui. Esse ano foi diferente. Diferente demais: eu não tive tempo. Não houve tempo pra introspecção, mas por outros motivos. Eu estava cheia de mim mesma. Tive muitas coisas pra fazer. Eu tinha muita vida pra viver, muito a agradecer… Eu não tive tempo de viver luto de nada, porque não houve do que me lamentar. Só houve uma mudança, nada demais. E eu só tive tempo de ser forte e de me fortalecer. E eu descansei bastante também. Descansei pra um caralho. Respirei e me renovei. Aprendi a ter fluência no trânsito de São Paulo, que é muito mais orgânico do que jamais imaginei que seria. Conheci muitas pessoas e não só isso, mas tive verdadeiros encontros, pessoas que me olham nos olhos e falam a mesma língua que eu, que se aproximam, que me fazem eu me sentir um pouco menos sozinha, mesmo que momentaneamente. Tive aulas da pós-graduação, fui em todas mesmo quando tava ficando chato, no final. Castrei as três gatas porque era isso o que tinha que ser feito e foi tarde até. Ajudei um amigo a fazer uma viagem internacional, dando muito apoio moral e conversa. Cantei no karaokê músicas cafonas com amigas que gosto muito. Fui em vários rituais e cada um deles abriu olhos diferentes meus que estavam fechados e eu sei que existem muitos mais a serem abertos. Senti muito a sua falta e amei cada memória que ainda me resta de tudo o que houve, mesmo as ruins – é o que me fez ser quem sou, é o que me faz estar aqui, logo, sou grata. Caí de moto, mas contatei o pessoal do grupo de moto e vieram consertar, pessoal gente boa, pessoas incríveis que trabalham com as mãos. Fui num show muito foda perto de casa com amigos de longe. Dei algumas caronas de moto pela primeira vez. Peguei um freela que me ensinou umas coisas e me deixou muito bolada, mas consegui resolver. Fui chamada pra dar aulas e aceitei na lata, mesmo sem ter muita certeza se é isso mesmo o que quero pra mim. Ajudei uma amiga a conseguir um estágio FODA na minha área. Descansei meus olhos por mais tempo do que deveria em algo que considero bonito e ainda não aprendi a lição da beleza (mas sei que ela está por vir e será logo). Senti falta (e ainda sinto) da minha família, dos meus pais, de estar entre os meus de algum modo. Senti falta de gente que não merece que eu sinta nada por elas. Fui pra Santos de moto e voltei. Não soube o que queria e soube, exatamente, o que não queria em absoluto. Fiz uma tatuagem pra marcar o tempo e farei mais outras pra marcar o tempo novamente. Gritei com a minha mãe, me arrependi, vi que eu era uma imbecil, pedi desculpas, segui em frente. Me olhei no espelho e senti dismorfia corporal, várias vezes, talvez diariamente. Fui paciente e esperei. Meditei em casa, andando, pilotando a moto. Orei em romeni todos os dias antes de dormir. Fui mesquinha e mão aberta. Li um livro sobre o sagrado feminino. Menstruei em todas as luas novas. Ovulei em todas as luas cheias e, assim, criei o meu presente. Enfim… Não houve tempo pra introspecção. Mas houve um tempo necessário para uma série de coisas que pavimentaram (e muito) o agora. E agora haverá mais.

Ontem eu gritei. Eu gritava ao telefone. “Você está ouvindo alguma coisa do que estou dizendo? Você me ouve?”. Dizem que quando duas pessoas que se amam gritam uma com a outra é porque seus corações já estão distantes. Algo assim.. Não percebi na hora, mas percebi depois. O quanto sou mesquinha, egoísta. Quem não ouvia nada era eu, na verdade. Quem era orgulhosa e se recusava a dar o braço a torcer. A aceitar ajuda, cuidado, carinho. Eu sou reativa com quem não merece, com quem me quer bem. Demorei pra perceber isso mas percebi muito mais rapidamente que há alguns anos atrás. Fui meditar. Me senti mal, muito mal. Me senti triste, de verdade. E me aprofundei nessa tristeza, questionei ela de todos os modos possíveis. Por que eu gritei? Qual a necessidade disso? Desse tipo de reação? Por que mesmo reagi assim? E de repente me dei conta de que eu estava na verdade reagindo contra mim mesma. E fiquei profundamente triste. Com o que aconteceu. Comigo mesma. Com tudo. Não precisa ser assim. As coisas, elas não precisam ser assim. Me senti constrangida, com vergonha mesmo. Me senti tentada a me auto-depreciar no mesmo instante. Segurei essa tentação e a afastei. Inspirei, expirei, deixei ir. Mas me lembrei, de tudo. Hoje quando nos encontramos eu pedi desculpas, timidamente. No fim do dia não senti que o que eu disse foi o suficiente. Falei com outras pessoas, fiquei ainda mais consciente do ocorrido, chorei um pouco, fiquei angustiada. E então resolvi pedir desculpas por escrito, me responsabilizando pelo que aconteceu e falando sobre o quanto aquilo me aborreceu e do quanto estava (estou) chateada e constrangida com tudo. Pedi desculpas, pedi perdão, disse que a amava e que era grata, pela preocupação dela comigo. Ela tem razão. E não estou dizendo isso de forma passivo-agressiva, pra terminar uma discussão, nem nada do tipo. Mas estou dizendo genuinamente, com tudo o que eu sinto, de verdade. Eu sou boba às vezes, é verdade. Mas é meu dever me redimir, me perdoar e seguir em frente.

I

“Escorpião normalmente vive através de processos de morte e renascimento, e também lida com questões de poder, sexo, transformação e cura”. (Casa X, Marte, Saturno e Plutão)

II

Hoje eu sonhei que conversávamos sobre uma série de coisas, emendando as conversas que tivemos ontem de tarde e à noite, durante o jantar. A gente estava na cama e você fazia um cafuné na minha nuca e nos meus cabelos, e aquilo me excitava. Acho que era manhã, já. Nos beijamos longamente e eu queria aquilo, eu queria você. Você prendeu meus cabelos de lado, delicadamente, como sempre faz e eu… Acordei. Com raiva. Quis voltar pro sonho. Não consegui. A raiva aumentou. Esperei que passasse. Tentei abstrair. Esqueci, fui fazer outras coisas. Mas a vontade, ainda existe.

III

Quase perdi o ônibus, perderia a viagem e teria que ficar mais uns dias por lá, tendo que aturar todo o acontecido. No dia anterior tínhamos brigado. Aquela seria a última briga pois foi o limite de tudo. O cúmulo de tudo chegou na agressão e da falta de respeito mútuos. Quebrei um quadro, sem querer. Não me importei na hora, eu estava com muita raiva. Eu só queria ir embora. Fui. Voltei no dia seguinte ou dias depois, não me lembro mais. Faz tanto tempo. Voltei porque aquilo precisava ser finalizado de algum modo. Eu sabia que estava indo embora para nunca mais voltar. Acho que fomos buscar minha mala na casa dela e faltava algumas poucas horas pro fim. Eu estava pronta pra ir. Eu não estava pronta pra ir. E trepamos, desesperados. Foi desesperado, triste e violento… Como tudo. Eu não tirei minhas roupas, não tirei minhas botas, na verdade eu preferia assim. Foi rápido e desesperador. Não tínhamos tempo. Nunca tivemos. Foi uma boa maneira de me lembrar de você pela última vez. O sexo parece revelar o que as pessoas são e sentem verdadeiramente, na hora do orgasmo. E você parecia assustado. Ou ao menos parecia que esperava qualquer coisa menos aquilo. Eu também não esperava aquilo. A flecha atirada que se volta contra mim mesma. Eu não queria e queria ao mesmo tempo. Não me esqueço daquele seu último olhar. Uma memória acertada. Fui embora da mesma forma que cheguei: do nada. Faltava meia hora pro ônibus sair. Fomos correndo. Não senti absolutamente nada me despedindo de você. Estava completamente vazia. Consegui chegar a tempo de nunca mais precisar voltar.

IV

Lembrei esses dias de algumas coisas que aconteceram há alguns anos atrás e pensei “cacete, eu fiz tudo mesmo isso? Por que?”. Atualmente eu não reconheço mais essa pessoa que fez todas essas coisas… E nem foi há tanto tempo atrás assim não, 2013, talvez 2011 também. É complicado. Esses dias percebi que houve um fim de ciclo na minha vida e me vi não sendo muito reativa em relação a isso. Não é questão de estar em negação não, isso já estava previsto de algum modo e não fui pega inteiramente de surpresa. Era o esperado, então passadas as burocracias, a aceitação aconteceu sem maiores problemas. Entendi o que houve e tentei lidar com isso de forma madura, não-reativa e estava realmente preparada para o que poderia acontecer. Usei meu plano B e toquei a vida porque é assim que as coisas são. Aí comparei com alguns anos atrás e fiquei um pouco chocada com a forma que eu (não) lidava com fim de ciclos. Tudo bem que era outro momento, existiam outras coisas me influenciando, eu me sentia muito mal, sempre, em relação à tudo… E posso dizer que não lidava porque de certa forma pra mim sempre foi muito mais cômodo entrar em negação e ir por um caminho auto-destrutivo. Eu sinto muito, hoje, pela forma que me tratei há alguns anos atrás… Mas hoje eu consigo me perdoar por isso. E a tentativa, agora, é a de não repetir esse tipo de comportamento.”Everything I ever let go of has claw marks on it“. Hoje eu sei que, quando é assim eu me machuco também. E isso não é um valor pra mim, não quero e não preciso mais viver deste jeito. Eu compreendo que não precisa mais ser assim. Existem outros meios. Existem outras coisas. Existe vida além de toda essa morbidez. Eu não preciso mais disso. E esta é uma escolha que eu decido ter, todos os dias.

V

Dia desses sonhei com uma pessoa que na verdade eram várias. A pessoa que eu via era um homem, meio grande, meio alto, não me lembro direito de detalhes do rosto dele. A única coisa que lembro com certeza era que ele tinha uma tatuagem no lado esquerdo do peito e que ela estava descascando, em processo de cicatrização. Ele era um homem mas ele tinha camadas de gente nele… É difícil explicar. Eu queria muito me encontrar com ele na vida real. Lembro que no sonho me sentia muito bem com ele ali, me sentia muito feliz, era uma energia estranha, boa. E lembro também que eu ficava olhando ele e ficava tentando encontrar nele algumas pessoas em específico, pois ele parecia conter várias pessoas que eu conhecia em si. E eu me frustrava pois não conseguia encontrar ninguém direito, só sabia que ele era uma fusão de várias pessoas que eu amo, amava, amei… Não existia tempo verbal, ele era tudo num só. Ele era quase puro amor. Perto desta pessoa eu só conseguia sentir isso. A gente estava num lugar que parecia uma casa antiga e era tipo um escritório, um lugar com estantes enormes e cheias de objetos. A gente conversava sobre algumas coisas e ele me falou que eu deveria escolher alguns objetos que gostasse mais ou ir apenas mexendo nos objetos que me chamassem mais atenção, pois a partir das minhas escolhas e movimentações ele faria uma “leitura” de mim. Tinham vários bibelôs, imagens e objetos que nem sei dar o nome, de várias cores e formatos. Fui olhando e mexendo, até terminar com todas as estantes e no final, quando ele ia começar a falar o que ia dizer, eu o abracei bem forte. E ele me abraçou de volta. E esta foi a melhor sensação do mundo. Soltei do abraço e acordei. Senti uma saudade que aos poucos foi ficando dolorida e depois passou. Não sei quem era, não sei quem foram. Só sei que foi.

Quis uma moto. Por anos. Por cerca de 2 anos. Não tinha como. Esse ano teve como. Me planejei desde o início. A burocracia toda, a porra toda. Transferência de CNH, mudança de nome, atualização, renovação, fotos, digitais, caras feias, sorrisos. Tirei férias, peguei todos os dias pra ter aulas de moto. Exercitei minha atenção e coordenação, sempre soube andar de bicicleta, não foi difícil. Tomou todo o meu tempo, toda a minha atenção e parte do meu descanso. Fiz a prova e passei de primeira. O timing foi favorável e agora eu pude comprar uma moto. Pesquisei um pouco antes, escolhi 3. Refinei. Das 3 selecionei uma. Liguei, marquei encontro. Vi ontem, conheci os donos, ou melhor, a dona, ontem.

Conversamos por algum tempo e a dona da moto é gente finíssima. Tinha outra pessoa interessada na moto, um cara, que viu a moto quinta-feira e ficou de dar a resposta até domingo. Até a gente se ver ele não tinha respondido. No desenrolar da conversa, notei que ela também passou por processos de vida impressionantemente semelhantes aos meus e aí a identificação ficou maior, já entendi algumas coisas de cara. Ela também me disse que o nome da moto é “Eudora”, nome grego, que significa “generosa” ou ainda “bom presente”. Bom, nem preciso mencionar que a moto já tem parte do meu nome nela né? Reforcei mais de três vezes que queria a moto e, caso o rapaz não ligasse, que gostaria da preferência na compra.

O rapaz ligou. E ela não quis vender a moto pra ele pra vender pra mim. E agora são vários ritos de passagem, várias últimas vezes, várias caídas de ficha, uma atrás da outra. Cancelamentos, solicitações, cartório, transferência, assinaturas, acordos, pensar em segurança, pensar em proteção e uma caralhada de novas informações que estão sendo absorvidas. Sempre róla a voz interna da auto-sabotagem e da travação, que me diz não. Também rolam vozes externas que conseguem ser ainda piores: morte, atropelamento, pernas amputadas, acidente, decapitações com linhas com cerol, cuidado, você vai cair, você vai se acidentar, numa dessas você pode acabar morrendo.

Bom, eu posso morrer de qualquer jeito.

Andando na rua tarde da noite ou de madrugada, como já cansei de fazer. Posso ser assaltada, sequestrada, estuprada, etc. Posso ser atropelada como pedestre também na rua. Algum maluco pode vir qualquer dia no metrô e me jogar na frente do trem, enquanto ele passa (já aconteceu, eu li no jornal). Posso tropeçar e cair por acidente no chão, bater com a cabeça e também morrer. Morrer eu posso a qualquer hora, por qualquer motivo. Ter uma moto e andar por aí com ela vai ser só mais um deles e isso me aterroriza bem menos que o fato de estar viva e não poder fazer as coisas que eu quero, que eu posso, que eu devo fazer e, last but not least, fazer as coisas do meu jeito. Aprendi já há algum tempo que a vibração do medo me impõe limites justamente para que eu possa ultrapassá-los.

Um a um.

Um de cada vez.

 

Há algum tempo já eu tenho tirado fotos da minha cara mensalmente. Mais pra registro do que pra qualquer outra coisa. Minha cara é ok. Não sou linda, não sou horrorosa, sou mais um rosto qualquer numa multidão. Mas ontem quando fui tirar a foto do mês alguma coisa mudou, em mim. Sempre me senti confortável sem maquiagem. Tiro as fotos com cara limpa geralmente, depois do banho passo um creme e marco o tempo. Só. Tentei fazer isso ontem e não funcionou. Olhava pras fotos e não reconhecia aquela pessoa. Não era tanto questão de eu estar bonita ou não naquelas imagens. Aquela pessoa não era eu, simplesmente. Rolou uma dismorfia leve. Parecia que faltava algo.

Ganhei meu primeiro batom faz pouco tempo, de uma loja que estava fazendo uma promoção. Era de um vermelho de uma cor um pouco mais fechada, mais pro cereja. Eu não gostava de maquiagem, nunca gostei. Tem sido um exercício, há alguns anos, me fazer usar maquiagem, batom às vezes. Comecei de forma tosca, roubando batons da minha mãe e da minha irmã. Não gostava de nenhum. Até ganhar este desta loja. Achava que vermelho não combinava comigo por eu ser morena. Bobagem. É costume. Depois comprei mais dois, da mesma loja: um vermelho mais aberto e outro cor de rosa, ambos foscos. Meu primeiro batom terminou hoje. Estes segundos que comprei ainda estão durando.

No meu aniversário este ano, decidi que queria mais dois batons de cores diferentes: um marrom (médio, um tom abaixo da minha pele, talvez) e um roxo (bem aberto, reluzente, que pode ser visto à distância). Eu nunca tinha escolhido cores com tanta precisão. Também nunca tinha dito pra vendedora insistente “não, esta cor não gosto, não quero, nada a ver”. Mas esse ano rolou tudo isso. Levei pra casa cores pelas quais me apaixonei e sei que serão de uso contínuo. Tenho usado desde o dia do meu aniversário, consistentemente. Por isso ontem me olhei na foto sem batom e não me reconheci. Fui pro espelho, passei um batom e um lápis de olho e ao que tudo indica, isso já virou um mini ritual… Uma parte minha.

Foi difícil, levou alguns anos, mas parece que encontrei algumas de minhas cores, agora. E tenho muito mais outras a descobrir.

“A verdadeira liberdade é um ato puramente interior, como a verdadeira solidão: devemos aprender a sentir-nos livres até num cárcere e a estar sozinhos até no meio da multidão”.

Hoje a vida me testou com uma silhueta improvável que vi de relance. A altura, o porte, o cabelo. Mas minha respiração não descompassou, não. Apenas ultrapassei e segui andando. Tinha coisas pra fazer. Ainda tenho.

Ainda há muito por viver.

Às vezes fico com a impressão de que eu meio que nasci pra arruinar coisas em série. Ou pra me meter onde não sou chamada. Algo assim. Nunca foi tranquilo e não é algo pontual. É quase como se fosse um motivo, o meu motivo de existir. Fui e sou filha de uma mulher que, biologicamente, não podia (e não pode) ter filhos. Sou a incapacidade dela encarnada. Inclusive no núcleo familiar, do qual inclusive ela é a maior provedora, não sou eu quem dito as regras, mas sou eu quem terminantemente as recuso. E sempre recusei. No entanto, ao mesmo tempo que sou desprezível por isso, ela ouve o que eu tenho pra dizer pois sabe que jamais vou falar qualquer coisa ou fazer qualquer gesto com o intuito de bajulá-la. É um tipo estranho de confiança. Acredito que de certa forma eu transpus isso pra minha vida pessoal de modo inconsciente. Se existe algo bom e bonito, eu vou lá arruinar, mesmo que eu tente evitar isso a todo custo. É algo que acontece completamente à revelia das minhas vontades. E acontece, sempre, repetidamente. Eu sou esse limite. Essa limitação. O “daqui você não passa”, o “aqui você não pode”. Eu demarco coisas. Tudo isso sem querer, não intencionalmente, sem ter exatamente um propósito. Mas já se repetiu tantas e tantas vezes que acabei percebendo esse padrão. E em certa medida, esse padrão independe de mim e das minhas ações: ele apenas se desdobra de acordo com a minha realidade e os acontecimentos. Não sei se algum dia isso vai parar de acontecer. Ou diminuir. Não sei, mesmo, se tenho controle sobre ou se sou capaz de mudar isso. Tenho tentado nos últimos anos e isso tem me levado ao completo isolamento. Não reclamo, não tem sido ruim, muito pelo contrário. Me fez e me faz repensar uma série de comportamentos meus que não suporto mais e ver até onde posso tentar mudar. Mas só o fato de ser consciente dessa característica – minha? da minha existência? – já ajuda de um tanto.

“Pessoas nunca podem ser felizes juntas”.

“Impossível ser feliz trabalhando”.

“Odeio crianças”.

“Eu nunca vou ser capaz de amar nada”.

A assim vida se encarrega, um passo de cada vez, de eliminar todas as minhas certezas.

Ainda bem.

“Vocês dois são teimosos”. Na época, não entendi a frase, a expressão no rosto dele e tudo o mais. Aí eu me lembro disso. E hoje, faz todo o sentido do mundo.

Chega um momento que a gente cansa dos comportamentos auto-destrutivos. Se a gente não cansa é porque ainda não chegamos no limite. A gente acha que não, mas tem sempre um limite sim. Só que cada pessoa tem o seu, eles são meio infinitos em toda sua variedade. Tive dois limites que me lembro. Em 2007 eu quase morri engasgada no meu próprio vômito enquanto dormia bêbada. Por sorte, acordei a tempo de vomitar na minha kitinete inteira e depois voltar a dormir, chorando e com a garganta rançosa, doendo muito. Alguns anos, uma vesícula e boa parte do estômago depois eu decidi parar de beber. Não foi algo sofrido, não foi sequer uma punição. Foi apenas um reconhecimento de que isso não dá mais pra mim, em nenhuma circunstância. Já tive o suficiente, estou cansada e tenho outras prioridades agora. E em 2012 quando quase botei fogo em casa, pois dormi (cochilei) enquanto tinha botado uma água no fogão. Eu estava bastante exausta da minha rotina, fui fazer um chá e apaguei, acordei com o cheiro de fumaça em casa. Esses foram os dois dias em que me senti um fracasso como ser humano. Fiquei pensando “como posso cuidar de mim mesma deste jeito? isso não é certo”. Foi bem horrível como um todo. Mas estes acontecimentos foram úteis pois me sinalizaram um limite. Me vi forçada a repensar tudo o que rolava na minha vida nessa época. Isso porque nem vou entrar no quesito relacionamentos que enfatizam nossos comportamentos auto-destrutivos, porque aconteceu também e, na verdade, isso é bem mais complexo do que parece. Mas existe e é possível sim, por mais que a gente não acredite. Há algum tempo tenho tentado me responsabilizar pelas coisas, por todas essas coisas então enfim… Só posso assumir o que fiz de mal pra mim mesma e o que por algum motivo permiti que acontecesse. Fora isso, basicamente é cair e levantar – se você puder se dar ao luxo de viver uma vida na qual você pode aceitar romper um padrão auto-destrutivo. Porque mais importante do que só cair é principalmente reconhecer a queda. E decidir o que fazer a partir disso. O resto é só passado, lembrança, memória. Ficção.

Quando eu era mais nova, eu achava que na vida eu teria tudo o que meus pais não tiveram. Eles, inclusive, me diziam isso. Repetidamente. “Eu vou te dar tudo o que eu nunca pude ter”. O que era mentira, pois eu pedia coisas que EU queria e eles não me davam. Não os culpo: são pais e pais quase sempre fazem o que está ao alcance ou o que podem pros filhos. Mas eu cresci com essa mentalidade de que sempre tive o que meus pais nunca tiveram. E isso é verdade, em vários sentidos. Meus pais falavam disso pendendo mais para o sentido material, claro, pois não nasceram em berço de ouro: nenhum dos dois. Ambos “se fizeram” e se mantiveram ao longo dos anos com muito trabalho – o que também puxei deles. Só que esse aspecto material sempre pegou muito pra mim. Enfim… Hoje, estou velha e praticamente não dependo deles nesse sentido. E a frase “eu tenho tudo o que meus pais nunca tiveram” perdeu a potência e o sentido pra mim, mesmo porque eu NUNCA QUIS o que eles nunca tiveram. O que eles tiveram ou deixaram de ter, não é problema meu. Nunca foi.  Eu tenho outras coisas, coisas minhas e sou diferente – muito diferente, bizarramente diferente – dos meus pais em vários níveis. Eu basicamente não vivo a minha vida como eles imaginariam que eu deveria vivê-la. E hoje consegui observar que cada vez mais se trata menos de ter o que eles nunca tiveram, mas de ter a coragem de ser e principalmente de fazer o que eles nunca fizeram. De romper um padrão. De descontinuar uma herança. E sobre o fazer, eles ainda não fazem certas coisas por N motivos que não tem nada a ver com posses, ou com dinheiro ou com qualquer outro tipo de impossibilidade física, de saúde, etc. Não fazem porque não querem, não valorizam, não entendem, preferem outras coisas, outra vida, uma vida mais cômoda – ou porque também entendem que, na idade deles, “não dá mais tempo”. Dá sim. Sempre dá. Os motivos são outros, que não vou bisbilhotar e nem querer saber pois não é problema íntimo meu. Me lembro de uma vez, quando era mais nova, e saí de São Paulo pra Campinas pra encontrar alguém por quem estava apaixonada na época e minha mãe ficou furiosíssima. Foi uma tolice na época, admito, mas não me arrependo de ter feito. Minha mãe me dizia “você troca coisas boas na sua vida por momentos!”. Que coisas boas são essas, cára-pálida? Boas pra quem? E mesmo que você as conceitue como manda a cartilha: eu troco. Troco mesmo. Sempre troquei. E sempre vou trocar pois estes momentos é tudo o que há. E se eu não tiver isso, eu nunca vou ter nada. Deixo uma vida boa pra quem faz questão de tê-la. Eu quero outras coisas.

Eu quero o que vocês nunca foram. Nem fizeram.

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