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Lifestreaming

Resolvi fazer novamente a promessa para São José, só que desta vez com um pedido diferente. Primeiro selecionei 35 frutas, por conta da minha idade. Fui sortear e aí que o problema começou. A primeira fruta que saiu foi Açaí. Achei irrelevante, pois eu nem como tanto açaí assim. A segunda foi amêndoas. Indiferente também. A terceira: vagem. Achei tudo muito fácil, me irritei um pouco e resolvi reduzir de 35 para 14 frutas, colocando somente as que realmente fariam muita falta pra mim em vários sentidos. Eu sou pisciana né? Adoro o bom martírio.

No sorteio das 14 frutas, a primeira que saiu foi: tangerina. Eu me revoltei e pensei “mas não é possível!”. Ok. Eu até que gosto de tangerina, mexerica, pocãn… Mas sinto que não me faria tanta falta assim. E essa é uma fruta que também não tem muitos derivados. Antes de sortear outras, fui falar com uma amiga que também fez a promessa e contar sobre essa minha frustração. Ela me falou “Dora, você já fez academia?” e eu respondi que sim. Ela falou “Então… Ficando um ano sem uva em 2018-2019 você já pegou o peso pesado então agora tudo vai parecer mais fácil. Aceite a tangerina porque é essa a restrição com a qual você vai precisar lidar desta vez”.

De início, eu não quis aceitar de jeito nenhum. Na minha lista havia: cacau, tomate, café, guaraná… até uva novamente. Me irritou bastante o fato de só sair algo relativamente fácil como a tangerina. “São José escolheu a tangerina. Vai fazer sentido em algum tempo. Confia”. Eu só tinha uma certeza: não sairia uva novamente. Estava bem tranquila quanto a isso e se saísse, eu não ia pirar muito também não. Tangerina me remete muito a minha família, é coisa de gaúcho comer tangerina no inverno. Gosto do suco e gosto de picolé. E é isso. Enfim… Pedi por propósito e entendo que este não é um pedido trivial. Mas depois pensei um pouco mais sobre isso e acabei entendendo algumas coisas.

Trabalho e propósito sempre foram muito importantes pra mim e não é de hoje. Sempre foram desde que eu me conheço por gente. E nesse sentido eu já tenho meio caminho andado: fiz cursos que gostei, tive uma formação que me realizou, gosto e tenho orgulho de tudo o que alcancei sozinha. Tenho o privilégio de nunca ter odiado meu trabalho. Sou muito bem encaminhada, meu trabalho não é excruciante, nunca foi: gosto do que faço. Sempre gostei. Sempre me esforcei muito pelo meu trabalho, mas ele nunca foi um martírio pra mim. Nunca foi algo que veio com dificuldade, nem a duras penas. Sempre fluiu. Então faz sentido sair uma sequencia de frutas que não é exatamente muito desafiante: é porque, desta vez, não precisa ser.

Eu só sei que dá pra ser melhor. E dá mesmo. Com mais propósito. Mais bem encaminhada, mais alinhada com quem eu sou e com quem estou me tornando. E de fato: isso nem vai precisar ser um puta sacrifício. Eu só vou precisar prestar um pouco mais de atenção mesmo e tentar perceber as lacunas sutis que existem por aqui. Vai dar trabalho, sim – trabalho dá trabalho. Mas não vai precisar ser excruciante. Nunca precisou.

Baco de boas tirando 01 naninha.

O que é?

  • Ano passado, dia 19 de março (dia de São José), durante o meu expediente de trabalho eu fiquei sabendo de uma tal de promessa para São José, que se fazia com frutas.
  • Na hora pensei “frutas? ah, moleza!” e resolvi fazer.
  • Eu já sabia que frutas tinham um papel importante na minha vida, mas não sabia dimensionar bem o quanto.
  • Para quem não come frutas parece que pode fazer de doces também, pois o que vale é o esforço e o foco direcionado mesmo.

Como funciona?

  • Diziam que podia pedir duas coisas: ou um bom relacionamento (bom mesmo, duradouro, sério) OU um bom emprego. Disseram também que, para casamento, bom mesmo é São José, pois Santo Antônio só traz tranqueira. Pro Santo Antônio é melhor pedir prosperidade.
  • Depois também fiquei sabendo que para São José róla pedir qualquer outra coisa além dessas duas aí que mencionei. Mas resolvi ser mais tradicional mesmo e minha promessa foi uma das duas primeiras.
  • Como eu como frutas regularmente, não só coloquei todas as minhas fruta que mais gosto, como também fui um tanto quanto OUSADA e coloquei inclusive TOMATE com a possibilidade de me fuder por um ano sem nada de tomate (pizza, molho, cachorro-quente, massa, etc.);
  • Mas no meu caso acabou saindo UVA, o que também foi bastante triste mas né, vâmo lá porque a intenção é essa mesmo.

Isso mesmo: não é só a fruta, mas todos os seus derivados

Um ano sem uva. Um ano sem (por ordem de importância e deliciosidade para mim):

  • Suco de uva preta com água de côco (meu suco favorito)
  • Suco integral de uva branca ou preta;
  • Uvas frescas sem semente;
  • Sorvete de passas ao rum;
  • Sorvete de uva;
  • Picolé de uva;
  • Vinho;

Essas foram as coisas pelas quais eu SOFRI, mesmo. Mas tinha outras que eu também não podia mas não senti tanta falta, tipo uva passa que não ligo muito, champagne e essas coisas.

Quebra da Promessa?

Inclusive ao longo de um ano eu passei por algumas situações que me fizeram achar que eu tinha quebrado a promessa e fiquei bolada algumas vezes. Meus amigos e amigas das místicas dizem que NÃO, mas eu desconfiei que quebrei a promessa pelo menos três vezes ano passado:

  • Uma numa vez no final de maio, que fui num ritual pra Hécate e bebi uma dose pequena de vinho, pois isso fazia especificamente parte do ritual;
  • Outra vez no final de julho numa festa de 50 anos de casamento dos meus padrinhos, eu bebi champagne, que contém uva. Mas na hora nem me liguei disso;
  • Outra vez, mesma situação, no final de novembro, numa comemoração de casamento de um casal de amigos, bebi champagne para brindar com todo mundo;

Mesmo passando por esses acontecimentos, não abandonei a promessa e continuei evitando uva de qualquer modo. Sei lá, senti que precisava persistir no negócio. E outra: eu não tomei essas coisas de forma consciente. E a ingestão ocorreu mais por contexto que por gosto propriamente dito. Então para mim eu não tinha quebrado nada. Só acho chato ficar sem, mas é bastante tolerável ficar sem vinho e sem champagne. Basicamente, eu só gosto mesmo de duas coisas com uva: suco de uva com água de côco e suco integral de uva. Por essas coisas sim eu sofri.

Tempo da Promessa

  • De março até meados de junho eu estava levando a promessa numa boa, nem lembrava muito, só levava na flauta;
  • No mês de JULHO, eu sonhei uma noite que eu me banhava com uma garrafa de suco integral de uva e acordei deprimida de vontade;
  • Foi nesse mês que pra mim a promessa começou a valer mesmo e até então eu não tinha recebido a graça ainda;
  • De julho a dezembro sofri bem, várias pessoas comendo e pedindo coisas de uva na minha frente e era isso né? Fazer o quê.
  • Em janeiro eu já tinha sofrido tanto, que comecei a fazer graça de tudo, porque o sofrimento ficou tão caricato que eu tinha me cansado já e só me restava rir da porra toda mesmo.

Estratégia para lidar com as dificuldades da Promessa

  • Toda vez que você estiver sofrendo por não poder comer a fruta que quer, pense com muito carinho mesmo no pedido que você fez e direcione todo o seu fluxo de energia para isso, sempre;
  • Pense nesse pedido cada vez mais. Cada vez com mais detalhes, cada vez mais profundamente. Até ele aparecer, até ele se materializar; Até ele não ter outra alternativa que não seja existir pra você;
  • Equilibre-se entre pensar muito no pedido e soltá-lo para o universo ao mesmo tempo; É um exercício de lembrar e esquecer-se; Só que não pode virar obsessão e também não pode ficar no esquecimento completo;
  • Alimente a egrégora: fale pra TODO MUNDO do seu convívio que você está fazendo essa promessa. Fiz isso pois pra mim sofrer sozinha era pior (eu acho);

Aspectos de Vida

  • Estava bem cética, desde o início; Achava que não ia rolar pra mim; Me achava um caso perdido. Tive que trabalhar bem & bastante esse sentimento de não merecimento aí; Haja orações, N tipos de curas, Thetahealing, energizações, auto-cuidado e auto-responsabilidade;
  • Algumas coisas precisaram acontecer na minha vida ANTES (aconteceram em setembro), para que meus caminhos se abrissem; Foi um ano de aprendizados IMENSOS pra mim; Em mais de um sentido; Em alguns sentidos não tinham nada a ver com a promessa em si, mas fizeram parte do caminho de maneiras completamente inesperadas mesmo; Sou grata a todos os ensinamentos;
  • Percebi também eu tive que fazer a minha parte, em vários sentidos; Tive que manter uma vibração alta, ter o pensamento focado no que eu queria todas as vezes e também, no momento certo, tive que “dar meus pulos” e ir atrás do que eu queria, procurar mesmo; Dar a cara a tapa. Confiar. Acreditar, mesmo. Se eu ficasse em casa só esperando a graça cair diretamente dos céus ou se eu fosse cética demais da conta, talvez não sei se rolasse.

A graça

  • Rolou em novembro de 2018, mas eu só fui perceber meses depois mesmo porque a parada não é imediata; Não funciona assim;
  • Esperei passar alguns meses e a parada foi se tornando cada vez mais real, até ser de verdade mesmo; Fiquei bastante impressionada com o resultado; Não só me sinto feliz com o resultado, mas sinto que ganhei várias outras coisas no caminho também;
  • E sim, São José é firmeza demais da conta e ele não brinca em serviço; Então você também não deve brincar. Saiba pedir, mas mais ainda: saiba receber.

Faria de novo?

  • Largada. Faria tudo de novo sim.
  • Vou fazer hoje de 2019-2020, mas vou mudar o pedido;
  • Vamos ver que fruta vai sair hoje a noite. Por hora, estou tal qual baco na imagem deste post.

 

Hoje

Eu queria fazer várias postagens sobre os dias das mulheres. Mas fico com a sensação de que estarei pregando pra convertida. Ou ainda: jogando pérolas aos porcos. Tento prestar atenção melhor nessas sensações e nos porquês delas enquanto escrevo esse post. A minha bolha inteira está falando a exata mesma coisa… Há alguns anos, já. E as coisas não mudam, sabe? Pelo contrário: tudo parece piorar muito. E são textos e palavras de ordem que não são de hoje que conheço. Isso me dá sentimentos conflituosos, porque ao mesmo tempo que acho importante se expressar, também acho que seja infrutífero se for feito desse modo, meio superficial demais. Tenho pegado um ranço muito forte de ativismo de sofá. A gente fica falando, postando, twittando, dando like, tapinhas nas costas, se congratulando o tempo inteiro, etc., mas o que foi feito de fato pra melhorar qualquer coisa? O que foi feito de real para melhorar a vida de mulheres ao meu redor, diretamente? Aí quando eu vejo que tudo o que foi feito ainda é muito pouco, me frustro e me dá um desânimo incomensurável. É isto: é 2019 e eu estou um tanto quanto desanimada nesse dia.

Ancestralidade

Minha avó fugiu com meu avô, porque queria casar com ele e meu bisavô não permitia. Minha mãe nasceu desse amor. Minha mãe só casou pra poder sair de casa e trabalhar. Ela queria ser bailarina e pro meu avô, dançar era coisa de PUTA. Minha mãe casou, saiu de casa, dançou pela vida a vida inteira e a maior dor da vida dela, até hoje, é a morte do meu avô. As atitudes delas, todas, são feministas mas para navegar nesse mundo e principalmente para sobreviver ela teve que ter outro tipo de comportamento socialmente – nada feminista. Minha mãe é conservadora. E minha mãe me teve. Nasci em uma casa com base matriarcal, era minha mãe quem pagava as contas e botava comida em casa. Sempre foi. Fui uma adolescente rebelde. A primeira vez que fui num ginecologista, com 16 anos, minha mãe tentou se matar porque não queria conceber que sua filha estava fazendo sexo. Ela nunca esteve preparada pra lidar com nada disso. Ao menos não com a própria filha. Minha mãe me oprimiu de formas incrivelmente cruéis e violentas a vida inteira em relação ao meu corpo, me fazendo me sentir rejeitada, não amada, não quista. Me fazendo me sentir uma aberração. Contando vantagem pra todo mundo sobre mim, mas em casa arruinando e devastando qualquer resquício de alma que eu tivesse, me destruindo por dentro mesmo. Por anos a fio. Hoje sei que não era minha mãe, era outra coisa. Era uma herança de violência que ela carregava e que reproduzia comigo porque isso era tudo o que ela sabia sobre amor, infelizmente. As pessoas não são perfeitas, são limitadas. As coisas se transformam e se repetem. E eu sobrevivi a isso, não à minha mãe. Com o tempo eu tive o meu momento certo de cortar o cordão umbilical da nossa relação, estabelecer limites e dizer em alto e bom som “daqui, você não passa, eu sou outra pessoa e exijo respeito”. Foi duro. Foi uma das coisas mais difíceis que fiz na vida. Me senti a mais ingrata filha do mundo, a pior pessoa do mundo. Foi absolutamente necessário. Nossa relação também se transformou quando me tornei uma mulher adulta e me vi em situações de extrema fragilidade e vulnerabilidade. E eu em algum momento soube dizer não a essa situação. Porque eu tenho mãe. E não qualquer mãe: mas a minha. Porque eu tenho uma família, independente de qualquer defeito. Porque eu tenho pra onde voltar e não preciso depender financeiramente ou emocionalmente um homem ou de qualquer outra pessoa pra nada nessa vida. Eu tenho o privilégio ancestral de poder manter a minha integridade física e como pessoa, intacta. Incólume. E minha mãe tem sua parte nisso. E por isso eu sou profundamente grata.

Violência Justificada

O movimento feminista não é essencialmente violento, mas pode ser e é aí que está a graça da coisa toda. E assim o é porque a violência é uma linguagem que os homens entendem muito bem. Isso quando não é a única linguagem que são realmente capazes de compreender. Pessoalmente não me agrada o “olho por olho, dente por dente” mas algumas mulheres se satisfazem resolvendo algumas questões assim. Pessoalmente não acredito que esta seja a resposta definitiva pra nada, apenas uma resposta-espelho por conta do tempo de opressão. Algumas mulheres se cansam em definitivo. Algumas perdem a paciência e com ela, também a razão. Não compactuo com todo o ódio, nem com toda a misandria: acho infantil, na verdade. Desnecessário. O ódio, a violência e a misandria me servem apenas pontualmente, mas eu jamais sirvo a elas. Também não condeno a violência feminina, mas não atuo nesse sentido porque eu não sou assim, eu não sou isso. As mulheres também não são assim, boa parte do tempo. Acredito sinceramente que o sangue que a gente jorra é de outra natureza.

Os homens e o masculino

Desde 2013 eu tenho tentado – e falhado, algumas vezes – recuperar a minha relação com o masculino. Essa sempre foi uma questão pra mim, a minha vida inteira e eu não havia percebido até então. Tem sido um caminho e tanto. E recuperar – e, principalmente, curar – minha relação com o masculino, significa curar a mim mesma, curar partes adormecidas em mim. De 2013 até 2015 fiquei em uma encubadora e somente em 2016 é que comecei realmente a trabalhar essa questão curiosamente quando comecei a trabalhar mais a sério questões do Sagrado Feminino, através das Bençãos Mundiais do Útero. Só aí é que as questões começaram a emergir e pude compreender o Sagrado Masculino e como ele era valoroso e de quais modos. Em 2017 me tornei Moon Mother e a partir daí entrei em celibato (voluntário, rs) e comecei a observar da forma mais lenta e analítica possível os meus processos de atração, de repulsa e de afeto pelos homens e como eles se desenvolviam. Fiquei um tanto quanto desconcertada com tudo o que descobri que havia em mim. Descobri paredes de sombras imensas, que não cabiam em mim e tive que fazer vários shadowwork pra acolher essas sombras e mantê-las sob os meus domínios, na medida do que me foi e me é possível. Tive que descobrir e definir o que eu queria em uma relação, o que eu buscava e busco e – acreditem – não é nada fácil saber exatamente o que se quer. Me vi obrigada a redefinir a minha referência de masculino e de masculinidade pra mim, de vários modos, sabendo inclusive detectar masculinidade tóxica, toda vez que ela se apresenta. Tive que aprender a combater a estrutura, não os homens em si. Tive que aprender a ter amigos homens. Tive que aprender que sentir desejo não é sinônimo de me submeter cegamente e inconscientemente a ele. Tive que aprender a perdoar, genuinamente, todas as atrocidades que foram feitas contra mim nessa vida nesse sentido. Aprendi também que é possível continuar sentindo e emanando afeto, mesmo não sendo correspondida. Todos os aprendizados são incomensuráveis e fizeram de mim uma pessoa melhor, sim. Não foi fácil, não é fácil e é extremamente necessário. É o que me faz viver hoje em dia, basicamente.

A mulher selvagem

Hoje em dia eu sangro na terra porque me vejo como parte dela. Eu devolvo pra terra o que não foi semeado. Eu me canso e me esqueço das coisas e não quero socializar e então eu não me obrigo. Me respeito e abro espaço pra mim mesma, o espaço que eu quiser. Não tenho mais medo da introspecção porque é nela que eu me encontro: jamais me sinto sozinha. Não tenho medo de dizer ao outro: não vou, não quero, não posso, isso não me agrada. Não faço questão nenhuma de ser agradável, se não quero. Hoje entendo que não há nada errado em ser incisiva, em fazer o que há de melhor e exigir isso também, de quem quer que seja. De fazer o que precisa ser feito como brincadeira, de me levar menos a sério e levar menos o mundo a sério também. Hoje eu sei que em um momento do mês eu sou o puro Sol e quero amar a todos indistintamente. E nessa época do mês eu estou muito sociável, agradável, minha pele está linda independente do que eu faça e o meu cabelo também. Hoje em dia eu aceito um pouco melhor as minhas oscilações bruscas de humor e entendo que não estou ficando louca ou tenho algum problema grave: são apenas a forma que meus hormônios operam e está tudo bem. Num dia eu amo o mundo com a força de mil sóis e no outro eu quero matar o primeiro que me olhar torto com as minhas próprias mãos, se for preciso. Isso ocorre aqui dentro e é bastante real. Não me censuro mais, não escondo mais minhas sombras de mim mesma, nunca mais. As encaro, frente a frente, com os cabelos desgrenhados, olho diretamente naqueles olhos injetados e digo em alto e bom som: quem é soberana, aqui, sou eu. E danço com ela. Danço e escrevo e pinto e cozinho até me sentir muito, muito cansada novamente. Até meu Sol interno terminar de se pôr e eu virar pura Lua Cheia novamente. Um pedaço de mim se vai mas eu sei que sempre amanheço depois. E eu sangro na terra mesma de onde vim, que é a mesma pra onde vou. E mais um ciclo se fecha e outro se inicia novamente. Me entendo como mulher cíclica e respeito e honro cada uma das minhas fases e cada um dos meus ciclos integralmente. E a compaixão por mim mesma e pelo meu caminho só aumenta.

Minhas restrições com certos tipos de Feminismo

Sou contra e a favor de uma das principais pautas discutidas: o aborto. Pessoalmente não faria um, mas acredito que as mulheres devem ser as únicas a decidirem sobre seus próprios corpos. Para mim também é ok manter esse tipo de contradição. Existem certas práticas com as quais eu também não compactuo muito e vejo exemplos em alguns grupos: a ode ao sofrimento, a ode a miserabilidade e a incapacidade. O próprio movimento muitas vezes extirpa de mulheres capazes qualquer senso de agência sobre a própria vida, como se opressão fosse tudo o que existisse. É um terrorismo que faz com que mulheres deixem de enxergarem a si mesmas, não ajudando em nada. Não fecho em tempo algum com mulher transfóbica e isso, pra mim, sequer é passível de discussão. Até a misandria frequente demais, infantil e injustificada, também me faz querer deslegitimar completamente o discurso de alguns tipos de feminismos. Mas existem mais coisas que me perturbam além dessas. Para mim, ainda é extremamente difícil conviver com mulheres misóginas. Tenho duas na minha família, com as quais obviamente converso muito pouco, mas elas declaradamente odeiam feministas. Ou ao menos acham feminismo uma grande bobagem. Acho que a visão de mundo que ambas têm, é muito triste. Mas a perturbação pode ir ainda mais além. Se já é frustrante quando se trata de mulheres misóginas e conhecidas, a coisa realmente fica estranha quando tratamos de feministas misóginas. Até hoje só me deparei com dois tipos: 1. feministas que odeiam menstruar, odeiam o próprio útero e odeiam o próprio ciclo, por qualquer motivo que seja e 2. as que odeiam falar sobre reprodução, as child-free que odeiam mães e odeiam crianças. Uma pena elas não perceberem que esse auto-ódio e esse ódio ao que é biologicamente feminino é também parte de uma agenda do patriarcado para que sejamos nós contra nós mesmas. É um movimento que tem muitas sombras e eu faço questão de reconhecer uma a uma, pra saber melhor lidar com elas.

O que eu tenho feito? Efetivamente. Pra mudar. Qualquer coisa.  

O que eu faço é limitado pois entendo que só a cerca de 3 anos acordei pra essa questão. E ainda estou acordando, aos poucos. Já tive que lidar com uma tonelada de questões e ainda existem outras tantas… É muita coisa pra lidar e preciso ir com calma e persistência. Ainda há muito a ser feito, compreendido, estudado e executado. Mas como estou num mundo capitalista e é isso o que conta no final do dia, muito frequentemente, tenho tentado, na medida do que é possível apoiar mulheres nesse sentido: comprando. Há 3 anos também (2 como Moon Mother) tenho participado das Bênçãos Mundiais do Útero, do sistema da Womb Blessing. Entendo essa prática como um serviço que realizo para a egrégora de mulheres que também estão envolvidas com esse sistema. Também tenho feito Bençãos do Útero e Curas do Útero individuais, mas com menor frequência do que gostaria. Me sinto como uma estudante relapsa nesse sentido, mesmo porque, ainda estou dando conta de conciliar decisões que fiz no passado com coisas que sinto quero hoje. Então por hora tudo está bastante descompassado, mas com o tempo as coisas vão se acertar, aos poucos. Ainda tenho um longo caminho pela frente.

Mulheres que considero incríveis e pra mim são uma inspiração constante

Adriana Amaral, Ágata Sousa, Ale Nahra (Herbívora), rAna Marysa Santos, Bárbara Vieira, Camila Oliveira, Camille Chew, Carla Soares, Carol Almeida, Cátia Andressa da Silva, Cecile Dormeau, Cibele Garrido Godoy, Daniela Marques, Daniela Neder dos Santos Pereira, Dorothy Rocha, Elisa Polonio, Estela Miazzi, Fernanda Vidal, Flavia Barbosa (Capins da Terra), Giovanna Laloni, Giovanna Zanatta, Giulia Crippa, Giuliana Aggiunti, Isabela Framboisas, Juliana Gomes, Juliana Leuenroth, Larissa Anzoategui, Laura Pimentel, Laura Pinheiro, Liz Mandetta, Luciana Lupe Vasconcelos, Luciana Moraes, Luciana Terceiro, Luiza Guedes, Lyz Beltrame, Maíra dos Anjos, Maria Clara Carneiro, Mariana Rosa, Marina Macambyra, Marisa Martellote, May Shuravel, Nadiajda Ferreira, Neide Garrido, Paola Geoffroy, Paula Garde, Paula Macedo, Petrucia Finkler (Casa Panteon), Priscila Barbosa, Rachel Patrício, Regina Fazioli, Renata Micheleto Marques, Rosangela Pereira, Taís Oliveira, Tatiana Samper, Taty Guedes Vairagya, Taty Steimer, Thays Tonin, Victoria Mandetta

Quando eu não sei exatamente por onde começar eu geralmente tenho começado por dentro. Estou em uma semana ovulatória. Quando ovulo e vivo o arquétipo Mãe, me torno um outro tipo de pessoa. Sempre busquei personagens externos para compôr as histórias da minha vida. Faz pouco tempo que percebi que tenho mais personagens dentro de mim que jamais poderia imaginar. A Mãe é a doadora infinita. Estou me percebendo numa época em que eu não tenho medido esforços para ser o suporte de pessoas que nunca imaginei que eu pudesse querer ajudar. Que nunca sequer mereciam minha ajuda. Em um dos casos, uma indiferença e inaptidão completa, de alguém muito mais jovem que eu, que não poderia me ajudar de qualquer modo. No outro caso, alguém que cuspiu em mim boa parte da vida e que, até pouquíssimo tempo atrás, fazia pouco caso de absolutamente tudo o que tenho me tornado. Eu lembro. Me lembro bem, de tudo o que foi dito, de tudo o que foi feito. E eu resolvo, conscientemente, ajudar, estender a mão, dizer sim, que aqui dá, que aqui você pode, eu te ajudo, conte comigo para o que precisar, estou disponível. Porque eu posso. Porque é disso que sou feita.

 

Ofereço esse suporte porque eu mesma não o tive na época em que mais precisei – assim como essas pessoas estão precisando dessa energia agora. Meu chão cansou de ser retirado de debaixo dos meus pés, repetidas vezes. Tive meus próprios desígnios e desejos extirpados de mim incontáveis vezes, em favor de outros, em favor dos outros, de desejos que nunca eram os meus – e sequer me davam espaço pra saber quais eram os meus próprios. Eu era pura forma, onde preenchiam sempre com o que bem queriam e entendessem. Hoje sou eu quem transborda, quem não tem limites. E a minha falta de limite chega a esse extremo: o de me rachar completamente para que a luz possa entrar e assim irradiar. Sem restrições, sem condições, oferecendo o que for possível oferecer, sem esperar por absolutamente nada em troca. Irrestrita, incondicional, sem limites, sem passado, nem futuro algum, apenas esse agora inescrupulosamente amoroso. Chuto a porta do sol em peixes com os dois pés e assim abro mais essa temporada. Esse sol pisciano sou eu, é a minha essência e é assim que eu me movo. E transpareço isso tudo ao modo do meu ascendente, cravado em pele, para que eu não me esqueça de suas lições, capricórnio: trabalho, currículo, disciplina, restrição. O fazer, o criar, o materializar.

 

E eu materializo, sim. Mas não sem sentimento, não sem um significado que eu sei bem qual é, porque ele é meu.

 

Porque ele sou eu.

 

Vou ajudar sim, irrestritamente, neste sentido. Sem nunca me cansar, sem nunca dizer não, sem pensar duas vezes. Vou bancar essa estrutura, sem reclamar, sem sequer me achar injustiçada. Porque na grande teia, eu sou esse fio. Porque na grande engenharia, eu sou essa engrenagem. E saber exatamente qual é o meu lugar, me confere cada vez mais sustentação e me imprime cada vez mais potência. Me torno grande, me faço imensa, como jamais quiseram que eu fosse (aquela mulher, a mulherzinha). De onde estou, não me reduzo mais. Nesse mundo áspero, obscuro e hostil, vou fazer a caminhada de quem estiver a minha volta e de quem pegar na minha mão, ser sim mais leve.

 

É essa a forma que eu me expresso e é isso o que eu sou, quando estou no meu centro, na minha autonomia e com plena soberania sobre mim mesma. Eu estou aqui pra isso. Então que seja.

 

Hoje fui na zona norte só com o GPS do googlemaps buscar uma compra que fiz na zona cerealista e não me perdi, nem peguei entrada errada, nem nada. Acho que estou virando mocinha. Parece que depois de 8 anos de São Paulo eu finalmente estou conseguindo identificar os corredores, as marginais e as radiais da megalópole e como eles funcionam. Tenho conseguido codificar datas, horários, climas, condições e deslizar pelo trânsito sem maiores problemas, indo sempre devagar porque já tive pressa, etc. E continuo sem medo.
 
Na verdade bem pelo contrário: cada vez mais fico com a impressão de que São Paulo é, na verdade, um grande fazendão com uns prédios feios e invasivos no meio. Tenho feito um exercício de mapear na minha memória o cheiro dos lugares por onde passo com certa frequência: as plantas do parque Trianon-Masp pela Alameda Santos, os eucaliptos cheios de orvalhos que me recepcionam toda vez que saio da Consolação e entro na Rebouças, o cheiro das águas frescas do Ibirapuera… Gosto do cotidiano, da repetição, do familiar, desses mesmos lugares. São sempre os mesmos mas todos os dias são como se fossem novos pra mim.
 
Quando eu era mais novinha e ainda tinha muito medo da maioria das coisas, enxergava a cidade como “a grande selva de pedra” que me engoliria em menos de 3 meses. A cidade ainda assusta em muitos sentidos, nada que eu não encare, mas essa sensação – de que não sei lidar com o imensurável – não existe mais. A sensação de hoje é a de que eu caibo aqui e agora tenho me posto a imaginar como deve ser o ‘resto’ do mundo. Ainda acho um pouco que os outros lugares devam ser obscuros também, com grandes selvas de pedras, mas essa é uma impressão passageira. A verdade é que o mundo inteiro deve ser mesmo um fazendão velho sem porteira, com pequenas grandes variações aqui e ali. Mas a real mesmo é que c’est tout la même chose, pra não dizer outra coisa.
 
A verdade mesmo é que algumas coisas não mudam, não importando muito pra onde eu vá. E eu não me importo muito em ir, desde que eu vá de moto.

I

Esses acordes sempre estarão aqui e, por algumas vezes, eles serão tocados ao longo da minha vida.

II

Relataram sobre um término de namoro de 2 anos, onde a pessoa morou com a outra e foi um fim bastante nefasto. Terminaram “se amando”, como se isso fosse possível. Conheço o nome desse filme. Ela saiu do local, no entanto levou consigo coisas de uso mútuo: colchão e roupas de cama. Saiu com pouco e, no momento, tem menos ainda pra comprar qualquer coisa nova que seja. Os outros sugeriram algumas limpezas pra ela, energeticamente: banho de anis, lavar os pertences com sal, reiki, defumação, colocar ao sol..

III

“O que você fez com aquela camiseta que eu te dei? Certamente você colocou fogo nela. Você tem motivos para isso. Eu sei disso. É o que eu faria.”

IV

“Vocês sabem de alguma limpeza boa para tirar a energia desses objetos?”.

Eu sei.

Queime-os.

V

Você me teve muito tempo antes que eu mesma tivesse. E este era nosso único tipo de linguagem.

Esta, é a sua herança.

VI

É meu dever conviver com esses acordes – que são persistentes mas que vão ficando cada vez mais tênues – até o fim da minha vida. Eles jamais deixarão de ser o que são, tocarão sempre do mesmo modo, todas as vezes. São absolutamente previsíveis.

VII

Não há espaço para nós e, acredito, nunca houve. Nem nunca haverá.

Mas há espaço para isto.

O pedido mais difícil e arriscado que já fiz para alguém com quem me envolvi romanticamente: “me ajude a sonhar”. Me auxilie a dar forma à sua matéria. Eu sempre me coloco, inteira, sem restrições, nas mãos do outro. Para que faça o que bem entenda. Sol em peixes, a entrega irrestrita, a dissolução total na qual não sobra pedra sobre pedra quando termina. “Toda carne, ao mesmo tempo que anseia por ser despedaçada, deve defender o terreno palmo a palmo”.

Acho que essa foi provavelmente uma das coisa mais românticas que já verbalizei a alguém.

Me ajude a sonhar e não me acorde jamais.

Tudo o que eu queria no dia 7 de fevereiro de 2019 era estar numa cidadezinha pequena no limite entre a Suíça e Alemanha, só pra ir num showzinho que eu queria muito mesmo ir. Um dia eu queria ser louca o suficiente pra comprar uma passagem de ida e volta só pra ver um show assim e voltar pra casa, como se não fosse nada. Fazer algo sem planejamento algum, por pura impulsividade e de forma absolutamente inconsequente mesmo. Já fui bastante inconsequente nessa vida…

Mas não o suficiente.

Este está sendo um começo do ano difícil. Não gosto do mês de janeiro, nunca gostei. É um mês moroso, onde nada de relevante acontece. Mas algumas coisas estão me angustiando. Coisas que decidi anos atrás, estão cobrando seu preço, com juros e correção monetária. Tenho recursos mas não quero pagar. Preferia estar gastando com outras coisas no momento. Preferia nunca mais fazer planos a tão longo prazo, pra não correr o risco da vida vir e me fazer mudar de ideia, me fazer jogar tudo pro alto e querer fugir com o circo. Mas não dou conta de bancar o arrependimento, não dou conta de bancar os “e se…”‘s provenientes disso. Provavelmente me atormentariam pro resto da vida. Falo como se estivesse tudo inviável, intolerável. Não está, não estão. Mas me vejo numa situação limite, que entendo mais como ilusão do que como real. É uma ilusão que gosto de alimentar, inclusive, para que ela se torne cada vez mais convincente. E preciso parar com isso. Preciso matar essa ideia.

Hoje a tarde foi difícil respirar. Desde a semana passada tem sido, mas hoje parece que foi o ápice. E não consigo respirar porque não consigo me organizar em relação as coisas que preciso fazer. Olho para o que tenho que fazer e não me identifico mais, não me enxergo mais ali e isso se torna uma obrigação terrível com a qual preciso me comprometer. Me puno antecipadamente, acreditando em mil coisas que ainda não são reais: acredito que sou péssima, acredito também que não vou conseguir entregar o que devo e que, se entregar, não será nem do jeito e nem da qualidade que eu gostaria que fosse. Isso me trava num nível que não consigo sequer virar a chave de ignição do troço direito. Quando me preocupo com algo hoje em dia, raramente fico puta ou plenamente perturbada, mas a minha preocupação fica nítida na minha insuficiência respiratória. Bocejos, sonolências, longos suspiros, inspirações infindáveis e que não satisfazem. Falta o elemento ar, a organização, o raciocínio, a oxigenação, a respiração plena.

Ao meditar ocorre na verdade um paradoxo: ao não pensar sobre isso, ao não pensar sobre nada na verdade, eu silencio, e me ponho a interagir com isso sem afetação. Sem o dia a dia. Sem a Dora. Sem a falta de ar. Sem bater ponto no trabalho. Sem nada: apenas isso. Apenas no problema que precisa ser pensado. Há alguns anos eu parei de querer resolver problemas. Isso não me satisfaz mais em nenhum nível. Às vezes tudo o que problemas precisam é ser e estar. As vezes problemas precisam apenas se expressar como tal. Não me identifico, não intervenho, não modifico. “O menor movimento é nefasto”. Apenas testemunho e os reconheço como parte da existência. No estágio pós meditativo nada se transforma: as coisas são como são. Existe apenas aceitação incondicional das coisas como são. Não existem meios termos. All is violent, all is bright. É um tipo de compaixão absurda. É apenas mais um modo de viver.

Vim aqui escrever tudo isso agora e encontro esse rascunho meu, de três anos atrás, escrito em 18 de janeiro de 2016, quando eu ainda nem sonhava em passar pelo que passo hoje:

“A rotina não é uma prática. A prática é uma prática (por mais imbecil que isso possa soar). É a prática também não leva a perfeição. Porque a perfeição não existe (somente no delírio). O que existe é a prática. Eu tenho uma rotina e nunca tive um dia sequer igual ao outro. As pessoas gostam de criar ilusões para si mesmas que as mantém imobilizadas (ou acomodadas).

Por que  é tão difícil ter cuidado com as coisas que são cômodas?”

Meu eu do passado retirou com a mão boa parte a angústia que esteve presente no meu eu de hoje.

Às vezes, eu tenho um certo receio de “virar ‘motociclista'” ou ainda virar ‘mulher motociclista’. Não quero me identificar com essas coisas. Prefiro só ser uma pessoa que anda de moto mesmo, nos meus próprios termos. Por 30 e poucos anos da minha vida eu me identifiquei com muitas coisas e gostava muito de nomear cada uma delas, às vezes muito literalmente. Para o resto da minha vida, o plano é justamente parar de me identificar com as coisas – com qualquer coisa que seja – e me abrir cada vez mais. Minha própria identificação e minhas definições me previnem de avançar e não desejo uma vida assim. Vai ser muito difícil morrer desse jeito. E eu mereço uma boa morte.

Não quero com isso dizer que serei uma ‘metamorfose ambulante’, pois isso é por demais cansativo e demanda uma energia que não estou disposta a gastar no momento. Não é pra mim. Falo sobre essa flexibilização para não mais obrigar a ser coerente, ser relevante ou a fazer sentido algum pra quem quer que seja. Até pra mim mesma.

Esses dias conversei com uma colega sobre isso, de se identificar com as coisas se baseando numa necessidade mais situacionista, de contexto mesmo. Em alguns lugares vão me cobrar isso e tudo bem, ajo de acordo. Mas no fim do dia, eu sou só uma alma. Mesmo. Na minha perspectiva, né? Por isso a minha ideia de não se identificar com nada. Tem muita coisa no mundo e todas essas coisas me cansam. Abrir mão disso, se esquecer disso, tentar não mais caber nesse mundo me ajuda a construí-lo de acordo com meu desejo… Cada ladrilho de cada passo que eu sou e cada passo que dou, é meu.

As coisas, todas essas coisas – mulher, brasileira, 30 e tantos anos, cor, cabelo, pele, peso, moto, pais, país, história, escolhas, decisões, cidades, lugares, amores, ódios, rancores – não valem a pena.. Não valem a pena carregar. Não valem a pena se identificar. Eu quero romper com todas elas. Elas todas são apenas insuficientes perto do que eu sou agora mesmo e mais ainda perto do que posso vir a ser.

O sino que é utilizado para chamar os meditadores para as atividades.

I

Cheguei ao Dhamma Sarana doente. Antes de sair de casa olhei minha garganta no espelho e estava inflamada, meus ouvidos também estavam entupidos e dentro da minha cabeça soava um “piiiiiiii” incessante. “Preciso passar na farmácia e comprar um antibiótico antes de ir”. Mas eu estava tão agitada e com pressa que não quis ir na farmácia. “Vou melhorar ao longo dos dias”. Cheguei lá por volta das 13h, larguei minha mochila na recepção, ali mesmo já confiscaram o meu celular (a ser devolvido só no último dia) e resolvi dar uma volta pelo local. Entrei numa trilha sem querer e encontrei uma cachoeira escondida. Me emocionei, achei lindo: “vou voltar aqui no último dia”. Voltei pra recepção e depois do check-in aguardei pelas primeiras instruções. No primeiro dia todo mundo fica meio desorientado mesmo, mas o Nobre Silêncio começa ao final da tarde, já antes da primeira seção de meditação. Dividi quarto com mais 9 mulheres, estávamos em 5 beliches. A ala das mulheres era separada da dos homens.

II

Como eu estava muito doente, a primeira coisa que fiz foi beber muita água para ir desintoxicando o corpo aos poucos. Bebi muita água mesmo, levei minha garrafa de 500ml e não deixava ela esvaziar em nenhum momento. Os primeiros 3 dias serviram pra eu me curar da garganta inflamada e fiz de tudo para que isso ocorresse naturalmente (chás, sucos de limão, laranja e maçã). Foram dias bastante regrados com relação aos horários e em como devíamos fazer as coisas. Ainda assim, saía pouco do quarto e da cama nos horários de descanso. Estava acabada, exausta do mundo exterior ainda e me recuperando de uma garganta inflamada, não queria muita agitação: queria só conseguir respirar direito. Não consegui fazer nada que não fosse meditar nesses três primeiros dias e felizmente eles foram bem nublados e chuvosos. Nesses dias aprendemos a meditação Ānāpāna e todo o meu esforço era pra curar minha garganta e para não tossir desesperadamente durante as seções para não atrapalhar os outros.

III

No quarto dia, eu já estava bem melhor da garganta, não sentia dores para engolir, nem nada. Lembrei que estava na minha TPM e que estava ficando cansada e com dores na lombar por conta disso. Lembrei também que eu queria fazer esse curso por pelo menos há uns 3 anos já, mas nunca rolava: ou não encaixava horários, férias ou tinha compromisso ou viagem e outras coisas da vida pra fazer. Nunca dava. Ou talvez eu não estivesse pronta pra ir, mesmo, pra ter este tipo de experiência. Mas neste ano o timing foi perfeito e eu consegui fazer a inscrição bem no meio das minhas férias, com antecedência e planejamento. Nesse ano deu certo e bem, há 3 anos atrás eu não tinha toda experiência com meditação que tenho hoje, por exemplo (isso porque ainda me considero bem leiga). Mas eu nunca tinha tido até então uma experiência de imersão em meditação, algo mais profundo mesmo, praticando diariamente, com horários regrados e em ambiente controlado. E no quarto dia só é que aprendemos a técnica de meditação Vipassana.

IV

A partir do quarto dia, durante os intervalos, eu já não ficava mais tão isolada no quarto, como estava melhor. Nesse dia fez sol e lembro que consegui passear pelo bosque, observar o riacho que passava por ali e finalmente comecei a ver os rostos das mulheres e tentar entender quem era quem por ali. Mas era difícil. A não-comunicação não se limitava apenas a fala, mas também a olhares, gestos e expressões. Nunca cheguei a ter problemas com mosquitos e/ou pernilongos porque aparentemente eu tenho o sangue muito ruim pra esses bichos. Uma das minhas atividades favoritas era pegar um pedaço de pau, sentar em um toco na frente da árvore e ficar derrubando as formigas do caule e rindo sozinha, muito satisfeita por perturbar as formigas. Acho que no dia 5 foi a primeira vez que pensei “mas que saco isso aqui!”. Assim que terminei esse pensamento, me perguntei: “você gostaria de estar em outro lugar agora?” ao que eu respondi, timidamente, “não”. “Então fique aqui e faça o que tem que ser feito. Você não é mais nenhuma criança”. 

V

Do dia 5 ao dia 7 foram os dias mais mágicos pra mim. Um mundo de coisas aconteciam internamente ao mesmo tempo em mim: nada acontecia e tudo acontecia ao mesmo tempo. Eu estava me adaptando àquele lugar e àquela rotina diária de meditação, enquanto aprendia uma técnica nova. Eu estava terminando de me curar de uma garganta inflamada, com sucesso (depois de litros de água e litros de chás e com uma alimentação vegetariana muito bem regrada). Tentava observar o ambiente e agir de acordo e conforme as regras. E aí, no sexto dia eu menstruei e eu previ isso, obviamente. Só que não é permitido o uso de medicamentos durante o curso. Tive cólicas bem intensas no início, que me incomodaram numa meditação pela manhã mas agi rapidamente. Plantei minha lua numa árvore bem alta e bonita que tinha por lá e também deitei de barriga no bosque, pois felizmente fez sol nesses dias também. Essas duas ações bastante simples fizeram minhas cólicas desaparecerem por completo, sem a utilização de nenhum tipo de remédio.

VI

Antes de ir, confesso que fiquei com certo receio pela alimentação ser vegetariana. Talvez me faltasse algum nutriente e eu me sentisse fraca, mas isso nunca ocorreu, em nenhum dia. Todas as dores e incômodos que sentia eram por causa da menstruação (dores leves na lombar) e por causa da posição de meditação (dores nas coxas principalmente). A comida era simples e a mesa era sempre farta. Comida feita com afeto, com capricho, com tempero – eu sempre percebo essas coisas, sempre. Todo dia algo diferente no almoço, só no café da manhã e no lanche das 17h que era sempre a mesma coisa. No entanto, não senti fome em nenhum dia. E nenhum dia, nada que eu comi foi insuficiente, nunca. Sempre era o bastante. E também foi por volta do sexto ou sétimo dia que me lembrei que eu estava a quase uma semana sem tomar café puro. Isso porque antes de ir eu dizia pra mim mesma “mas será que eu vou conseguir sobreviver sem café por dez dias?”. Descobri que sobrevivo sem muitas outras coisas por dez dias, aliás. O café foi o de menos.

VII

O banheiro era coletivo e a lavanderia também. Os quartos também eram divididos e eu aproveitava o menor uso do banheiro a noite para tomar banho. Certa noite, voltando bem tranquila do banho, vejo a porta do meu quarto aberta. Era o oitavo dia, ainda não tinha finalizado o Nobre Silêncio. Uma das moças do meu quarto está na frente da porta do quarto, sem entrar, assustada. Pensei “ué”. Ela pegou no meu braço e apontou pro rodapé da porta. Não enxerguei nada. Ela pegou uma lanterna e apontou para o rodapé da porta onde tinha uma aranha enorme. Dei risada, entrei no quarto e peguei o pote salva-inseto que nós tínhamos lá e retirei a aranha do quarto, sem emitir palavra. Essa não tinha sido a primeira vez que tinha tirado uma aranha do quarto, mas da outra vez eu estava sozinha e acho que ninguém viu. E ninguém ficou sabendo também porque eu não contei. Acho meio bobo se gabar desse tipo de coisa.

VIII

Os últimos dias (8, 9 e 10) foram os mais difíceis, mas acho que é porque todo processo é assim mesmo. Quando chega no final é sempre mais difícil. Para mim, foram os mais difíceis porque ao mesmo tempo em que eu (achava que) estava me aprofundando na técnica, eu também já estava bem cansada da rotina – embora continuasse levando tudo a risca. Mas bem achei chato que algumas pessoas voltaram a falar no dia 8, sendo que o fim do Nobre Silêncio só deveria ocorrer as 10h do dia 9. Acredito que se você se propõe e se compromete com isso, sabendo que existem regras, é meio infantil quebrá-las só porque pode. Sempre que eu ouvia alguém falando ou conversando eu saia de perto o mais rápido possível e me isolava. No dia 9 socializei, claro, mas não muito porque eu não sou muito de socializar mesmo, queria ficar mais na minha. No entanto fiquei sabendo de várias coisas que sequer percebi durante os outros dias: das várias pessoas que desistiram e dos dramas pessoais das pessoas, etc. Mas aquilo me cansava também.

IX

Entendi rapidamente porque Vipassana precisou estar na minha vida e o que ela me ensinou. A questão do sofrimento é algo que me aflige desde que eu me conheço por gente. Desde a primeira vez que eu ralei meu joelho e ele sangrou e eu chorei, chorei e chorei e de repente parei de chorar e me questionei pela primeira vez “por que eu ainda estou chorando?”, quando o sangue já tinha estancado. São coisas muito, muito básicas e que só são passíveis de entendimento a partir da experiência, da vivência. Coisas que até uma criança de 5 anos com o joelho ralado questiona e entende. O meu joelho ralado de adulta, hoje com 34 anos, tem mais a ver com paixões e com desejo do que com sofrimento, ódio ou rancor. Com esses últimos eu já sei lidar. Mas jamais me ocorreu que minhas paixões, meus desejos e principalmente minha impulsividade pudessem me trazer tanto sofrimento. E Vipassana jogou uma luz, imensa, incomensurável, sobre esse aspecto da minha vida que eu deneguei por tantos anos.

X

Até agora os cânticos do N. S. Goenka estão ecoando na minha cabeça. Principalmente a frase que encerrava todas as seções de meditação “Bhavatu Sabba Mangelam”, que significa “que todos os seres possam ser felizes”. Também me lembro dele falando sempre nas meditações para nos lembrarmos de “Anicca, anicca, anicca!” (impermanência, impermanência, impermanência!). Na manhã do último dia, depois da última meditação e do check-out de todo mundo, voltei à cachoeira que tinha ido no primeiro dia. Aquela era uma outra cachoeira e eu era uma outra mulher. O primeiro pensamento que tive foi “eu não quero ir embora daqui”. Meu segundo pensamento foi “ir embora de onde, Dora?”. O terceiro foi “Você já está aqui. Você está sempre aqui. Você já está em casa… E aqui, você é sempre bem vinda”. Me senti acolhida, me senti aceita, me senti profundamente amada… E senti que estava exatamente onde deveria estar. Foi uma sensação maravilhosa de contentamento tão forte, como nunca senti antes. Sentei, chorei e agradeci. Por tudo.

E depois fui embora.

“Anicca, anicca, anicca!”

 

– Sério, percebo uma mudança de atitude em você. Acho que você está mais tranquila e confiante do que das outras vezes que vi você falar de relacionamentos.

– Sim… Eu baixei a guarda. Estou vulnerável. Não estou forçando nada e também abri mão de querer controlar a parada. E o paradoxo dessa posição é que ao mesmo tempo que ela é extremamente frágil, também é incrivelmente poderosa.

– Na verdade é porque no contexto todo não existe poder de verdade. O que existe é o fluxo. Quando você tenta reter o fluxo, você “perde”. Quando você segue o fluxo, você “ganha”… Mas ainda assim “perder” e “ganhar” não são expressões muito adequadas. Mas enfim… Acredito que você saiba dessas coisas mais do que eu.

– Sim. As palavras são ruins, né?

– São porque trazem juízo de valor.

Um líder que representa ideias e ideais de um mundo que está morrendo e que venera a morte, o sacrifício cego e a escassez, como qualidades a serem perseguidas. Com fanáticos delirantes, suicidas, alucinados e cegos pela fé, que o apoiam porque não conhecem outro mundo além desse e também são incapazes de concebê-lo..

Em um lugar predominantemente hostil, permeado com uma extensa camada de vassalos ignorantes e escravos, onde os fracos – geralmente infiltrados – parecem não ter exatamente muitas chances. Ideias que precisam ser resgatadas e preservadas… O mundo é abundante, mas queremos muito acreditar que não é.

Ou ao menos de que ele não é pra nós todos.

Essa história já foi contada várias vezes, parece. E ela não vai parar de ser contada tão cedo, também parece.

 

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