arquivo

Lifestreaming

I

“Escorpião normalmente vive através de processos de morte e renascimento, e também lida com questões de poder, sexo, transformação e cura”. (Casa X, Marte, Saturno e Plutão)

II

Hoje eu sonhei que conversávamos sobre uma série de coisas, emendando as conversas que tivemos ontem de tarde e à noite, durante o jantar. A gente estava na cama e você fazia um cafuné na minha nuca e nos meus cabelos, e aquilo me excitava. Acho que era manhã, já. Nos beijamos longamente e eu queria aquilo, eu queria você. Você prendeu meus cabelos de lado, delicadamente, como sempre faz e eu… Acordei. Com raiva. Quis voltar pro sonho. Não consegui. A raiva aumentou. Esperei que passasse. Tentei abstrair. Esqueci, fui fazer outras coisas. Mas a vontade, ainda existe.

III

Quase perdi o ônibus, perderia a viagem e teria que ficar mais uns dias por lá, tendo que aturar todo o acontecido. No dia anterior tínhamos brigado. Aquela seria a última briga pois foi o limite de tudo. O cúmulo de tudo chegou na agressão e da falta de respeito mútuos. Quebrei um quadro, sem querer. Não me importei na hora, eu estava com muita raiva. Eu só queria ir embora. Fui. Voltei no dia seguinte ou dias depois, não me lembro mais. Faz tanto tempo. Voltei porque aquilo precisava ser finalizado de algum modo. Eu sabia que estava indo embora para nunca mais voltar. Acho que fomos buscar minha mala na casa dela e faltava algumas poucas horas pro fim. Eu estava pronta pra ir. Eu não estava pronta pra ir. E trepamos, desesperados. Foi desesperado, triste e violento… Como tudo. Eu não tirei minhas roupas, não tirei minhas botas, na verdade eu preferia assim. Foi rápido e desesperador. Não tínhamos tempo. Nunca tivemos. Foi uma boa maneira de me lembrar de você pela última vez. O sexo parece revelar o que as pessoas são e sentem verdadeiramente, na hora do orgasmo. E você parecia assustado. Ou ao menos parecia que esperava qualquer coisa menos aquilo. Eu também não esperava aquilo. A flecha atirada que se volta contra mim mesma. Eu não queria e queria ao mesmo tempo. Não me esqueço daquele seu último olhar. Uma memória acertada. Fui embora da mesma forma que cheguei: do nada. Faltava meia hora pro ônibus sair. Fomos correndo. Não senti absolutamente nada me despedindo de você. Estava completamente vazia. Consegui chegar a tempo de nunca mais precisar voltar.

IV

Lembrei esses dias de algumas coisas que aconteceram há alguns anos atrás e pensei “cacete, eu fiz tudo mesmo isso? Por que?”. Atualmente eu não reconheço mais essa pessoa que fez todas essas coisas… E nem foi há tanto tempo atrás assim não, 2013, talvez 2011 também. É complicado. Esses dias percebi que houve um fim de ciclo na minha vida e me vi não sendo muito reativa em relação a isso. Não é questão de estar em negação não, isso já estava previsto de algum modo e não fui pega inteiramente de surpresa. Era o esperado, então passadas as burocracias, a aceitação aconteceu sem maiores problemas. Entendi o que houve e tentei lidar com isso de forma madura, não-reativa e estava realmente preparada para o que poderia acontecer. Usei meu plano B e toquei a vida porque é assim que as coisas são. Aí comparei com alguns anos atrás e fiquei um pouco chocada com a forma que eu (não) lidava com fim de ciclos. Tudo bem que era outro momento, existiam outras coisas me influenciando, eu me sentia muito mal, sempre, em relação à tudo… E posso dizer que não lidava porque de certa forma pra mim sempre foi muito mais cômodo entrar em negação e ir por um caminho auto-destrutivo. Eu sinto muito, hoje, pela forma que me tratei há alguns anos atrás… Mas hoje eu consigo me perdoar por isso. E a tentativa, agora, é a de não repetir esse tipo de comportamento.”Everything I ever let go of has claw marks on it“. Hoje eu sei que, quando é assim eu me machuco também. E isso não é um valor pra mim, não quero e não preciso mais viver deste jeito. Eu compreendo que não precisa mais ser assim. Existem outros meios. Existem outras coisas. Existe vida além de toda essa morbidez. Eu não preciso mais disso. E esta é uma escolha que eu decido ter, todos os dias.

V

Dia desses sonhei com uma pessoa que na verdade eram várias. A pessoa que eu via era um homem, meio grande, meio alto, não me lembro direito de detalhes do rosto dele. A única coisa que lembro com certeza era que ele tinha uma tatuagem no lado esquerdo do peito e que ela estava descascando, em processo de cicatrização. Ele era um homem mas ele tinha camadas de gente nele… É difícil explicar. Eu queria muito me encontrar com ele na vida real. Lembro que no sonho me sentia muito bem com ele ali, me sentia muito feliz, era uma energia estranha, boa. E lembro também que eu ficava olhando ele e ficava tentando encontrar nele algumas pessoas em específico, pois ele parecia conter várias pessoas que eu conhecia em si. E eu me frustrava pois não conseguia encontrar ninguém direito, só sabia que ele era uma fusão de várias pessoas que eu amo, amava, amei… Não existia tempo verbal, ele era tudo num só. Ele era quase puro amor. Perto desta pessoa eu só conseguia sentir isso. A gente estava num lugar que parecia uma casa antiga e era tipo um escritório, um lugar com estantes enormes e cheias de objetos. A gente conversava sobre algumas coisas e ele me falou que eu deveria escolher alguns objetos que gostasse mais ou ir apenas mexendo nos objetos que me chamassem mais atenção, pois a partir das minhas escolhas e movimentações ele faria uma “leitura” de mim. Tinham vários bibelôs, imagens e objetos que nem sei dar o nome, de várias cores e formatos. Fui olhando e mexendo, até terminar com todas as estantes e no final, quando ele ia começar a falar o que ia dizer, eu o abracei bem forte. E ele me abraçou de volta. E esta foi a melhor sensação do mundo. Soltei do abraço e acordei. Senti uma saudade que aos poucos foi ficando dolorida e depois passou. Não sei quem era, não sei quem foram. Só sei que foi.

Quis uma moto. Por anos. Por cerca de 2 anos. Não tinha como. Esse ano teve como. Me planejei desde o início. A burocracia toda, a porra toda. Transferência de CNH, mudança de nome, atualização, renovação, fotos, digitais, caras feias, sorrisos. Tirei férias, peguei todos os dias pra ter aulas de moto. Exercitei minha atenção e coordenação, sempre soube andar de bicicleta, não foi difícil. Tomou todo o meu tempo, toda a minha atenção e parte do meu descanso. Fiz a prova e passei de primeira. O timing foi favorável e agora eu pude comprar uma moto. Pesquisei um pouco antes, escolhi 3. Refinei. Das 3 selecionei uma. Liguei, marquei encontro. Vi ontem, conheci os donos, ou melhor, a dona, ontem.

Conversamos por algum tempo e a dona da moto é gente finíssima. Tinha outra pessoa interessada na moto, um cara, que viu a moto quinta-feira e ficou de dar a resposta até domingo. Até a gente se ver ele não tinha respondido. No desenrolar da conversa, notei que ela também passou por processos de vida impressionantemente semelhantes aos meus e aí a identificação ficou maior, já entendi algumas coisas de cara. Ela também me disse que o nome da moto é “Eudora”, nome grego, que significa “generosa” ou ainda “bom presente”. Bom, nem preciso mencionar que a moto já tem parte do meu nome nela né? Reforcei mais de três vezes que queria a moto e, caso o rapaz não ligasse, que gostaria da preferência na compra.

O rapaz ligou. E ela não quis vender a moto pra ele pra vender pra mim. E agora são vários ritos de passagem, várias últimas vezes, várias caídas de ficha, uma atrás da outra. Cancelamentos, solicitações, cartório, transferência, assinaturas, acordos, pensar em segurança, pensar em proteção e uma caralhada de novas informações que estão sendo absorvidas. Sempre róla a voz interna da auto-sabotagem e da travação, que me diz não. Também rolam vozes externas que conseguem ser ainda piores: morte, atropelamento, pernas amputadas, acidente, decapitações com linhas com cerol, cuidado, você vai cair, você vai se acidentar, numa dessas você pode acabar morrendo.

Bom, eu posso morrer de qualquer jeito.

Andando na rua tarde da noite ou de madrugada, como já cansei de fazer. Posso ser assaltada, sequestrada, estuprada, etc. Posso ser atropelada como pedestre também na rua. Algum maluco pode vir qualquer dia no metrô e me jogar na frente do trem, enquanto ele passa (já aconteceu, eu li no jornal). Posso tropeçar e cair por acidente no chão, bater com a cabeça e também morrer. Morrer eu posso a qualquer hora, por qualquer motivo. Ter uma moto e andar por aí com ela vai ser só mais um deles e isso me aterroriza bem menos que o fato de estar viva e não poder fazer as coisas que eu quero, que eu posso, que eu devo fazer e, last but not least, fazer as coisas do meu jeito. Aprendi já há algum tempo que a vibração do medo me impõe limites justamente para que eu possa ultrapassá-los.

Um a um.

Um de cada vez.

 

Há algum tempo já eu tenho tirado fotos da minha cara mensalmente. Mais pra registro do que pra qualquer outra coisa. Minha cara é ok. Não sou linda, não sou horrorosa, sou mais um rosto qualquer numa multidão. Mas ontem quando fui tirar a foto do mês alguma coisa mudou, em mim. Sempre me senti confortável sem maquiagem. Tiro as fotos com cara limpa geralmente, depois do banho passo um creme e marco o tempo. Só. Tentei fazer isso ontem e não funcionou. Olhava pras fotos e não reconhecia aquela pessoa. Não era tanto questão de eu estar bonita ou não naquelas imagens. Aquela pessoa não era eu, simplesmente. Rolou uma dismorfia leve. Parecia que faltava algo.

Ganhei meu primeiro batom faz pouco tempo, de uma loja que estava fazendo uma promoção. Era de um vermelho de uma cor um pouco mais fechada, mais pro cereja. Eu não gostava de maquiagem, nunca gostei. Tem sido um exercício, há alguns anos, me fazer usar maquiagem, batom às vezes. Comecei de forma tosca, roubando batons da minha mãe e da minha irmã. Não gostava de nenhum. Até ganhar este desta loja. Achava que vermelho não combinava comigo por eu ser morena. Bobagem. É costume. Depois comprei mais dois, da mesma loja: um vermelho mais aberto e outro cor de rosa, ambos foscos. Meu primeiro batom terminou hoje. Estes segundos que comprei ainda estão durando.

No meu aniversário este ano, decidi que queria mais dois batons de cores diferentes: um marrom (médio, um tom abaixo da minha pele, talvez) e um roxo (bem aberto, reluzente, que pode ser visto à distância). Eu nunca tinha escolhido cores com tanta precisão. Também nunca tinha dito pra vendedora insistente “não, esta cor não gosto, não quero, nada a ver”. Mas esse ano rolou tudo isso. Levei pra casa cores pelas quais me apaixonei e sei que serão de uso contínuo. Tenho usado desde o dia do meu aniversário, consistentemente. Por isso ontem me olhei na foto sem batom e não me reconheci. Fui pro espelho, passei um batom e um lápis de olho e ao que tudo indica, isso já virou um mini ritual… Uma parte minha.

Foi difícil, levou alguns anos, mas parece que encontrei algumas de minhas cores, agora. E tenho muito mais outras a descobrir.

“A verdadeira liberdade é um ato puramente interior, como a verdadeira solidão: devemos aprender a sentir-nos livres até num cárcere e a estar sozinhos até no meio da multidão”.

Hoje a vida me testou com uma silhueta improvável que vi de relance. A altura, o porte, o cabelo. Mas minha respiração não descompassou, não. Apenas ultrapassei e segui andando. Tinha coisas pra fazer. Ainda tenho.

Ainda há muito por viver.

Às vezes fico com a impressão de que eu meio que nasci pra arruinar coisas em série. Ou pra me meter onde não sou chamada. Algo assim. Nunca foi tranquilo e não é algo pontual. É quase como se fosse um motivo, o meu motivo de existir. Fui e sou filha de uma mulher que, biologicamente, não podia (e não pode) ter filhos. Sou a incapacidade dela encarnada. Inclusive no núcleo familiar, do qual inclusive ela é a maior provedora, não sou eu quem dito as regras, mas sou eu quem terminantemente as recuso. E sempre recusei. No entanto, ao mesmo tempo que sou desprezível por isso, ela ouve o que eu tenho pra dizer pois sabe que jamais vou falar qualquer coisa ou fazer qualquer gesto com o intuito de bajulá-la. É um tipo estranho de confiança. Acredito que de certa forma eu transpus isso pra minha vida pessoal de modo inconsciente. Se existe algo bom e bonito, eu vou lá arruinar, mesmo que eu tente evitar isso a todo custo. É algo que acontece completamente à revelia das minhas vontades. E acontece, sempre, repetidamente. Eu sou esse limite. Essa limitação. O “daqui você não passa”, o “aqui você não pode”. Eu demarco coisas. Tudo isso sem querer, não intencionalmente, sem ter exatamente um propósito. Mas já se repetiu tantas e tantas vezes que acabei percebendo esse padrão. E em certa medida, esse padrão independe de mim e das minhas ações: ele apenas se desdobra de acordo com a minha realidade e os acontecimentos. Não sei se algum dia isso vai parar de acontecer. Ou diminuir. Não sei, mesmo, se tenho controle sobre ou se sou capaz de mudar isso. Tenho tentado nos últimos anos e isso tem me levado ao completo isolamento. Não reclamo, não tem sido ruim, muito pelo contrário. Me fez e me faz repensar uma série de comportamentos meus que não suporto mais e ver até onde posso tentar mudar. Mas só o fato de ser consciente dessa característica – minha? da minha existência? – já ajuda de um tanto.

“Pessoas nunca podem ser felizes juntas”.

“Impossível ser feliz trabalhando”.

“Odeio crianças”.

“Eu nunca vou ser capaz de amar nada”.

A assim vida se encarrega, um passo de cada vez, de eliminar todas as minhas certezas.

Ainda bem.

“Vocês dois são teimosos”. Na época, não entendi a frase, a expressão no rosto dele e tudo o mais. Aí eu me lembro disso. E hoje, faz todo o sentido do mundo.

Chega um momento que a gente cansa dos comportamentos auto-destrutivos. Se a gente não cansa é porque ainda não chegamos no limite. A gente acha que não, mas tem sempre um limite sim. Só que cada pessoa tem o seu, eles são meio infinitos em toda sua variedade. Tive dois limites que me lembro. Em 2007 eu quase morri engasgada no meu próprio vômito enquanto dormia bêbada. Por sorte, acordei a tempo de vomitar na minha kitinete inteira e depois voltar a dormir, chorando e com a garganta rançosa, doendo muito. Alguns anos, uma vesícula e boa parte do estômago depois eu decidi parar de beber. Não foi algo sofrido, não foi sequer uma punição. Foi apenas um reconhecimento de que isso não dá mais pra mim, em nenhuma circunstância. Já tive o suficiente, estou cansada e tenho outras prioridades agora. E em 2012 quando quase botei fogo em casa, pois dormi (cochilei) enquanto tinha botado uma água no fogão. Eu estava bastante exausta da minha rotina, fui fazer um chá e apaguei, acordei com o cheiro de fumaça em casa. Esses foram os dois dias em que me senti um fracasso como ser humano. Fiquei pensando “como posso cuidar de mim mesma deste jeito? isso não é certo”. Foi bem horrível como um todo. Mas estes acontecimentos foram úteis pois me sinalizaram um limite. Me vi forçada a repensar tudo o que rolava na minha vida nessa época. Isso porque nem vou entrar no quesito relacionamentos que enfatizam nossos comportamentos auto-destrutivos, porque aconteceu também e, na verdade, isso é bem mais complexo do que parece. Mas existe e é possível sim, por mais que a gente não acredite. Há algum tempo tenho tentado me responsabilizar pelas coisas, por todas essas coisas então enfim… Só posso assumir o que fiz de mal pra mim mesma e o que por algum motivo permiti que acontecesse. Fora isso, basicamente é cair e levantar – se você puder se dar ao luxo de viver uma vida na qual você pode aceitar romper um padrão auto-destrutivo. Porque mais importante do que só cair é principalmente reconhecer a queda. E decidir o que fazer a partir disso. O resto é só passado, lembrança, memória. Ficção.

Quando eu era mais nova, eu achava que na vida eu teria tudo o que meus pais não tiveram. Eles, inclusive, me diziam isso. Repetidamente. “Eu vou te dar tudo o que eu nunca pude ter”. O que era mentira, pois eu pedia coisas que EU queria e eles não me davam. Não os culpo: são pais e pais quase sempre fazem o que está ao alcance ou o que podem pros filhos. Mas eu cresci com essa mentalidade de que sempre tive o que meus pais nunca tiveram. E isso é verdade, em vários sentidos. Meus pais falavam disso pendendo mais para o sentido material, claro, pois não nasceram em berço de ouro: nenhum dos dois. Ambos “se fizeram” e se mantiveram ao longo dos anos com muito trabalho – o que também puxei deles. Só que esse aspecto material sempre pegou muito pra mim. Enfim… Hoje, estou velha e praticamente não dependo deles nesse sentido. E a frase “eu tenho tudo o que meus pais nunca tiveram” perdeu a potência e o sentido pra mim, mesmo porque eu NUNCA QUIS o que eles nunca tiveram. O que eles tiveram ou deixaram de ter, não é problema meu. Nunca foi.  Eu tenho outras coisas, coisas minhas e sou diferente – muito diferente, bizarramente diferente – dos meus pais em vários níveis. Eu basicamente não vivo a minha vida como eles imaginariam que eu deveria vivê-la. E hoje consegui observar que cada vez mais se trata menos de ter o que eles nunca tiveram, mas de ter a coragem de ser e principalmente de fazer o que eles nunca fizeram. De romper um padrão. De descontinuar uma herança. E sobre o fazer, eles ainda não fazem certas coisas por N motivos que não tem nada a ver com posses, ou com dinheiro ou com qualquer outro tipo de impossibilidade física, de saúde, etc. Não fazem porque não querem, não valorizam, não entendem, preferem outras coisas, outra vida, uma vida mais cômoda – ou porque também entendem que, na idade deles, “não dá mais tempo”. Dá sim. Sempre dá. Os motivos são outros, que não vou bisbilhotar e nem querer saber pois não é problema íntimo meu. Me lembro de uma vez, quando era mais nova, e saí de São Paulo pra Campinas pra encontrar alguém por quem estava apaixonada na época e minha mãe ficou furiosíssima. Foi uma tolice na época, admito, mas não me arrependo de ter feito. Minha mãe me dizia “você troca coisas boas na sua vida por momentos!”. Que coisas boas são essas, cára-pálida? Boas pra quem? E mesmo que você as conceitue como manda a cartilha: eu troco. Troco mesmo. Sempre troquei. E sempre vou trocar pois estes momentos é tudo o que há. E se eu não tiver isso, eu nunca vou ter nada. Deixo uma vida boa pra quem faz questão de tê-la. Eu quero outras coisas.

Eu quero o que vocês nunca foram. Nem fizeram.

Tenho acompanhado meu ciclo menstrual consistentemente há algum tempo. Na verdade acompanho há alguns anos, antes pelo calendário mesmo em papel e desde o fim de 2014 através de um aplicativo. Além deste aplicativo, tenho monitorado também junto com o ciclo menstrual a lunação e também minhas reações físicas e psicológicas durante esse período de 25-30 dias. Antigamente o que mais me preocupava era a minha TPM e o que eu sentia com ela. Isso não foi errado, mas era com o que eu me identificava na época – e olhando pra minha história antes, hoje isso faz todo o sentido. Na TPM o meu ovo está quase morrendo, o ciclo está no fim, sensação de fim de festa, eu sempre fui muito mórbida nesse sentido e não foi a toa que essa foi a parte do ciclo que sempre me chamou mais a atenção. Enxergando sempre a maior sombra, o “pior” lado, etc. É importante, também, mas não é a única coisa, o ciclo não se compõe só disso. Depois que eu comecei a usar o Clue e vi que existia uma “janela de fertilidade” e um dia fértil comecei a perceber o outro lado, outras coisas. E percebi que sou uma pessoa completamente diferente nesse período. Foi um pouco assustador, mas essa descoberta valeu totalmente a pena. Hoje eu sei que no período de um mês eu sou quatro pessoas completamente distintas e saber disso tem me ajudado muito, na minha vida em geral.

Estou começando a basear algumas tomadas de decisões que tenho na minha vida de acordo com cada uma das pessoas que sou durante este ciclo. O desafio é sempre buscar pela sincronicidade das coisas. Sempre achei balela esse papo místico, mas tenho colocado esse papo à prova faz cerca de dois anos e hoje posso dizer com segurança: isso pode ser qualquer coisa, MENOS balela. É bastante sério. E funciona, se você for sábia o suficiente (e control freak o suficiente) pra analisar o contexto de forma holística e saber fazer o tempo das coisas funcionar pra você. Sempre reclamei de timing ruim na minha vida, como se o timing fosse algo completamente externo à mim, como se não fosse um problema meu também. Como se eu não pudesse dominá-lo, controlá-lo mesmo que em parte. É claro que não podemos controlar eventos da vida, como se chove ou não, que dia eu vou sangrar ou não. Mas é interessante manter as previsões e verificar as possibilidades daí em diante. Viver cansa, é cansativo mesmo, mas é pra isso que estamos aqui de qualquer modo, para aprender para melhor servir e para servir e assim aprender. Ninguém, por melhor que seja, foge disso. E isso tudo é bastante significativo pois quando entendemos isso, passamos a nos responsabilizar mais por nós mesmas. Parece fácil num primeiro momento, mas não é. É complexo, é difícil e é, a longo prazo, cada vez mais fascinante.

Os últimos três meses do final do ano passado foram intensos pra mim – e cruciais profissionalmente. Menstruei em luas cheias e as janelas de tempo de horários, datas, provas coincidiram ou com segundas-feiras, ou com luas novas que se deram nas mesmas datas (ou em datas aproximadas) da minha janela de fertilidade e dos meus dias férteis. Ou seja, dias de prosseguimento de ovulação, leia-se: estímulo, hipersensibilidade, pulsão, criação, magnetismo, afetuosidade. É como se eu tivesse superpoderes temporariamente e eles se manifestassem com mais potência e intensidade de acordo com a complexidade da sobreposição de cronogramas. Como filtros sobrepostos, o tecido da vida e dos acontecimentos se tornam mais reforçados, duplicados, a partir de determinadas coordenadas de temporalidade. O grande entendimento disso tudo é saber aproveitar o melhor possível cada uma dessas janelas e saber, também, quando recuar, quando também deixar de agir inclusive, quando não investir força (energia) em algo que não vai vingar, não vai ser frutífero, dificilmente dará retorno. A TPM nunca é o melhor momento pra agir em relação a nada: níveis baixos de vigor, de testosterona, de força de vontade. É tempo pra relaxar, meditar e treat yourself. E sim, já tomei decisões drásticas e bem ruins na TPM. E eu achava que “era assim mesmo”. Bom, eu estava enganada, mas agora já foi e só me arrependo do que não fiz.

No começo deste ano eu fiquei em um impasse mas consegui sobrepôr essas duas informações de tempo (menstrual e lunar) juntamente com outros cronogramas (de trabalho, estudo e prática religiosa) e percebi que numa semana que exigiria muito de mim, física e intelectualmente, eu estaria entre o meu período pré-ovulatório e de janela fértil (que no total dura cerca de 15 dias) e, assim sendo, com níveis de testosterona altos e com muito pique e resistência pra aguentar o tranco de qualquer coisa. Mas né, como sempre sou muito desconfiada e sempre acho que não vou dar conta de nada, que tudo vai dar errado e sempre dramatizo tudo além do necessário, o último recurso foi perguntar pras cartas de tarô o que elas achavam. Adquiri meu primeiro deck ano passado e achei a própria decisão de comprar um deck meio inusitada da minha parte. Nunca me identifiquei com nenhum deck, não achava nenhum esteticamente atraente até ter encontrado este. Temos nos relacionado bem, desde dezembro do ano passado. Sim, pra mim meu deck tem vida própria. Enfim. Sussurrei pra ele: e aí, dou conta se aceitar isso? Tirei uma carta, virei e: A Imperatriz. “Dá conta sim. Dá mais do que conta. Confia e vai!”. Confio. Confiei. E estou indo. E não está sendo, nem de longe, aquela loucura toda que a minha mente insistiu em imaginar. Está sendo puxado, sim. Difícil. Mas não tá impossível não.

E se estivesse impossível, eu demoraria um pouco mais de tempo pra fazer, mas faria igual porque eu sou dessas.

Work hard, play harder. Eu achava que ser mulher era um suplício, um infortúnio, algo muito chato, que a menstruação era um fardo pesadíssimo que tínhamos que carregar, sempre um martírio e que seria muito melhor e “mais fácil” se eu tivesse nascido homem e me livrasse de todas essas intempéries. Mas a verdade é que eu estava profundamente enganada. Legal mesmo é ser mulher, compreender todas essas coisas, saber tirar proveito de cada uma dessas coisas e ter o prazer de ir ultrapassando, uma a uma, mesmo que lentamente, todas as barreiras que um sistema patriarcal nos impõe. Sou mulher e compreendi, depois de muito tempo, que posso criar e recriar a minha realidade e o meu timing a partir do meu ciclo e das conexões que faço entre o tempo das coisas. Analisando por esse lado de planejamento estratégico com viés místico, ser mulher é um tanto quanto incrível, sim. E poderoso. O que eu julgava ser a minha pior fraqueza é sim na realidade a minha maior fonte de força, de energia e de criação. O desafio está em saber fazer a composição do tempo, alinhando diferentes cronogramas com uma gama determinada de informações e em programar estratégias de acordo com todas as possibilidades que me aparecem no horizonte. E me satisfaz enormemente poder ser analítica deste modo, me estimula continuamente e eu me sinto auto-motivada a isto.

Fazer isso é fazer com que as coisas, na medida do possível, fiquem em meu favorecimento. E isso não é necessariamente mau, nem errado. Pelo contrário. Desde o ano passado, quando fiquei ainda mais consciente disso tudo, algumas coisas se engendraram e encaixaram de uma forma estranhamente harmoniosa, como eu não via há muito, muito tempo. E isso precisa ser reconhecido, por mim. Pode ter sido um combo de coincidências? Claro que pode. É uma possibilidade. É uma forma de ver o mundo, também. Mas não sei se é mais a minha forma.

Ou se foi algum dia.  

“My parents also made terrible mistakes with me and were quite tyrannic at times. Some of their mistakes delayed some very important and crucial factors in my career and professional life and made everything a lot harder for me, now that I’m an adult. My dad, even though I’m getting a masters degree, *still* mocks me for wanting to study and he himself never even went to college. When I was a kid, around 10, he said “I was reading too fast” and instead of giving me even more books, I was forbidden to read. And was that same prohibition that made me become a librarian. Today I can only pity him and his blatant ignorance. I wanted to drive, he also never let me. I always wanted to ride a motorbike and was emotionally blackmailed and had to hear something like “you’ll only ride a motorbike over my dead body”. My dad is 70 now, I’m 33 and this year I will buy and ride a motorbike and I really don’t care if he dies because of it. It’s not my fucking problem anymore. As a first child, now I know that parents – all of them, no excuses – really suck at parenting. I can be 100% sure that all around the world they are tottally obnoxious and have absolutely no idea on parenting and or how to raise anyone. They always raise someone to be on their standards, never to be better than them – especially if your’re a girl. Now that I’m grown up I can see my parents for who they really are: teenagers. They are tottally spoiled, stubborn, petty, mean, also make terrible mistakes and can be deeply flawed in a lot of aspects I never imagined and sometimes I really wonder laughing out loud: “Wow… How did I survive this fucking mess and managed to become a decent person?”. But the thing is: they’re just humans. And it’s ok to get really tired of all their bullshit and personal drama. I got really tired of all the emotional blackmailing, the blaming, their neediness. I don’t care being the black sheep of the family anymore, I really couldn’t care less that my parents nowadays are afraid of me or what I have to say: in this case, it is definitely better to be feared than loved. And it’s a choice. It’s horrible to say, to feel and to recognise this, but it’s always our choice to overcome them. And it’s not an easy thing to do, ever. And it’s always pretty harsh to feel compassion for people who, sometimes, were so despicable to us… But today I say can feel it. But I’m surely better off living very far away from both of them.”

Já falei aqui sobre nostalgia e sobre como nunca gostei muito deste sentimento. A sensação que tenho é a de que a gente fica tentando, desesperadamente, requentar a história ao invés de vivê-la e isso me irrita em alguns sentidos. Não gosto quando me pego nostálgica de algo. E não sei o que é pior: se pegar nostálgico de coisas, de épocas ou de pessoas. Acho que pessoas é o pior de tudo e tenho me sentindo um pouco assim esses dias. Sabe aquela sensação que a gente insiste em esconder de que não temos mais absolutamente nada a oferecer ao outro? É muito horrível quando ela fica evidente. Quando você se pega não tendo nada a dizer, nada a compartilhar. Quando o abismo fica claro, de realidades, de tempo, de distância. Quando tudo o que você fala parece e soa irrelevante. Quando tudo o que você ouve é ironia e sarcasmo. É cansativo. “Mas antes não era assim”.

Antes não é hoje. E hoje e agora é tudo o que importa.

Tenho feito a minha parte, fico na minha e evito conversa. Sempre tive a tendência em deixar a coisa acabar por si só, em não fazer nada, nunca, por educação. Na vida adulta dá muito trabalho ter que ficar explicando as coisas, todas. O melhor a fazer é não explicar absolutamente nada, nunca. A vida já é muito cheia de troço chato pra lidar e eu escolho conscientemente não ter de lidar com isso, com essas merdas todas. O melhor que eu faço é sair fora e acredito mesmo que toda a malandragem, a grandeza de espírito está em sair fora apenas, sem mágoa. Quando se consegue fazer isso é suficiente, pois nada se perde em definitivo. Apenas pára no tempo. E pode voltar, se tivermos sorte. Se soubermos ressiginificar um ao outro, as situações, a tudo o que houve. Se tivermos esta sorte, mesmo.

No momento, eu não quero e não vou lidar mais com as cuspidas no prato em que foi comido. Com os terríveis cacoetes sociais desgraçados que não são meus e que não reconheço. Com todas as piadas internas que não entendo. Com trivialidades que escondem nas entrelinhas uma arrogância que sequer deveria ser direcionada à mim. Não tenho nem tempo e muito menos disposição pra ter de lidar com essas coisas. E em contrapartida também sinto que eu não tenho absolutamente nada a oferecer nesse sentido. Não é mágoa cabocla. A parada toda simplesmente perdeu o significado. Só isso. Não existe mais troca. E não me permito mais permanecer em ambientes com água parada. Isso nunca me fez bem.

Sou fascinada com gente que diz que eu devo discutir ou até mesmo lutar para manter um relacionamento ou qualquer coisa assim. Isso nunca me pareceu sensato, mesmo na época em que me vi tentada a acreditar nisso. Dizem que, se eu não faço isso, o relacionamento nunca significou nada para mim. E sou eu, sempre, quem deve ter o papel de convencer ao outro de que ele é importante e do quanto me importo. Isso por muitos anos fez com que eu me sentisse que “eu não estava me esforçando o suficiente” ou ainda de que “eu não era digna” de estar com aquela pessoa em questão. Hoje em dia essa tentativa barata de manipulação não me ofende tanto quanto o outro assumir que eu vá passar por cima da sua liberdade de escolha, em qualquer tema que seja. If we don’t vibe, we don’t vibe. No hurt feelings. That is all. Não tenho mais tempo a perder, não posso me dar mais a este luxo.

Não vou ensinar nada a ninguém. Não vou fazer ninguém se sentir bem consigo mesmo em troca de nada. Não vou barganhar nenhum relacionamento. Não preciso disso. Prefiro, mesmo, ficar e ser sozinha.

Tenho uma melhor amiga há cerca de 15 anos e continuamos assim porque nos damos o devido espaço. E tentamos – sim, sempre há um esforço nesse sentido – não ser hostis uma com a outra (nem passivo-agressivamente, sem ironias, sem bullshit alguma). Ela é mega reaça e muito provavelmente jamais seria minha amiga se eu a conhecesse hoje, mas conseguimos conviver e ter um respeito mútuo. Isso tudo tem bem menos a ver com concordância e mais a ver com timing e empatia, mesmo. E é meio horrível se dar conta disso em um modo mais geral mesmo. Não gostamos de reconhecer isso mas a verdade é que tudo muda. As pessoas mudam também, tempos diferentes, realidades diferentes… Etc. Mas os valores pessoais permanecem, às vezes. Quando os valores não permanecem, eu pessoalmente saturo das pessoas. Não me identifico mais. As conversas não fluem mais. E tem coisas que quando se rompem não podem mais ser retomadas. E tudo bem. Só que tudo parece ainda muito mais triste porque somos nostálgicos. Mas a pessoa de quem a gente tem saudade não existe mais. E nem a gente existe mais do modo que era antes.

%d blogueiros gostam disto: