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Lifestreaming

Quanto mais a gente tem medo que uma coisa aconteça, maiores se tornam as chances dessa mesma coisa acontecer. Lei da correspondência que chama? Algo assim. Insistimos em pensar “qualquer coisa menos isso”. Na verdade existem inúmeras variações de pensamentos parecidos com este que eventualmente tomam forma: “eu não quero que isso acabe”, “fulano nunca vai me trair / me deixar / me abandonar / me magoar”, “tenho certeza que isso não vai dar certo”, “eu não quero nunca ir embora”, “eu não quero ficar aqui”, “eu não quero perder meu emprego”, “eu não quero terminar sozinha”, “eu tenho muito medo dos meus pais morrerem”. Pensamos tanto na negação que muitas vezes deixamos de viver nossa própria afirmação.

O medo é a negação extrema do desejo e absolutamente nenhum ato de coragem é capaz de surgir disso. Sabemos muito sobre o que não queremos e quase nada sobre o que efetivamente queremos (e me incluo nisso). Essa é uma época que parece que lidamos demais com o anti-desejo – pro bem e pro mal. E menosprezamos e às vezes até desprezamos o que efetivamente desejamos, como sonhos bobos ou inatingíveis. Olhamos pro buraco ao invés de olhar pro queijo – e sim, o queijo existe, não aceito cinismo algum que me diga que não. Mas esse tipo de mindset pernicioso – focado no medo, na ausência e na possibilidade de dor – produz muito mais escassez do que qualquer outra coisa.

O universo ouve, diuturnamente, nossos piores medos. Inclusive aqueles que escondemos de nós mesmos, lá no fundo. Ele ouve com um nível bem acertado de detalhes exatamente a forma que alimentamos esses medos e como eles crescem em nós e na nossa vida. You can run but you can’t hide. Eventualmente a vida se compromete em fazer a gente se confrontar com esses medos – pelo amor ou pela dor. Não existe escapatória disso – pra ninguém – podemos tentar nos proteger o quanto quisermos. É preciso coragem e é preciso não ter tanto medo do medo. E a parada mais difícil de se fazer é justamente encarar a vida e os acontecimentos ao longo de seus desdobramentos.

E se o medo vier, que venha. Como tudo o que existe, ele certamente encontrará inúmeras resistências.

Nenhuma existência é impune – por mais que, a princípio, não pareça.

 

I
“Você abandonou sua família. Você nos abandonou!”

II
Eu vivia chorando. Eu me sentia uma merda de pessoa. Vivia murcha mesmo, sendo sugada o tempo todo. Parecia uma uva passa. Me sentia mal comigo mesma, culpada o tempo inteiro. Me sentia profundamente incapaz de qualquer coisa sozinha. Impotente mesmo. Mas a verdade é que desde essa época, nunca mais chorei que não fosse de TPM. Sinto menos medo da vida, das coisas, de tudo e isso é muito bom. Tenho percebido que tenho me soltado mais. Tenho rido mais. Tenho conseguido manter pessoas que efetivamente me amam – e as quais eu amo – a minha volta… Uma série de coisas sabe? Que antes eu não tinha. Estou bem melhor. Assim: muito mesmo.

III
Ah, cara… Nem sei se sou forte nem nada. Eu só não aguentava mais sofrer, sabe? Eu era maltratada e não merecia aquilo. Eu não sei definir o que sinto hoje. Eu queria muito ser amiga dele, sabe? Mas ele jamais quis ser meu amigo. De verdade. Ele quis se vingar de mim, o tempo todo. Do início ao fim. A última coisa que ele quer e que ele quis, foi ser meu amigo. Não vou me relacionar com alguém que faz questão de me tratar como lixo. Então ao mesmo tempo que sinto saudade, eu sinceramente dispenso. Sinto saudades de conversar com ele mas eu sei que preciso pagar um preço muito caro pra me relacionar com ele sabe? Eu não quero mais isso, não. Eu não tinha parado pra pensar no que eu sinto sobre ele até hoje.

IV
Na verdade acho que nem cheguei a concluir nada, não. As coisas só se transformam. É bom lembrar do que rolou pra ter certeza de tudo o que eu não quero e não vou permitir mais que aconteça, pois agora eu sou responsável por mim mesma. E é bom poder perceber que hoje estou melhor sim, com mais saúde mental, bem mais tranquila, seguindo meu caminho. Sem aquele inferno que era antes. Eu chorava horrores. Eu vivia deprimida. Vivia rezando pra que ele simplesmente morresse e sumisse da minha vida. Ele não morreu literalmente, mas morreu de amores por uma outra moça. O que é quase a mesma coisa que a morte, enfim. E assim foi mais fácil que ele me esquecesse. Acho. Sim. Eu sofria bastante.

V
O relacionamento inteiro foi baseado em vingança. Se não foi a partir de mim, foi contra mim ou foi por minha causa em algum sentido. Esse foi o tom de tudo na verdade, o pano de fundo. Por eu ser quem eu sou, por eu gostar de quem eu gostei, por ter feito, desejado, querido muito algumas coisas. E por mais que ele fizesse atrocidades comigo, ele nunca se dava por satisfeito. Nenhuma maldade nunca era o suficiente e eu sempre podia ser um pouco mais humilhada e destruída. Ele sempre que podia escrotizar ainda mais, ir ainda mais baixo e ele se divertia, muitíssimo, com todas essas possibilidades. Pra pra ele, eu nunca tinha sofrido o suficiente. E sofrimento nenhum seria o suficiente pra mim, porque eu merecia tudo aquilo mesmo. Eu tinha que sofrer “mais do que ele sofreu” como se pra compensar e tal. Mas a verdade é que, sendo quem ele é, uma pessoa infeliz, o sofrimento não tinha fim pra ele. Logo, o meu também não deveria ter. Era algo que não tinha e não teria fim, nunca. E você acha mesmo que com tudo isso que eu passei eu tenho condições pra ter qualquer relacionamento hoje em dia? Ainda estou me recuperando da bizarria toda.

VI
Na verdade o que eu achei mais maravilhoso por parte do universo foi o fato de ter aparecido outra mulher, perfeita para a ocasião. Porque a verdade é que: se não fosse por ela, ele não ia parar. Ela foi a morte perfeita.

VII
Eu acho que ele queria que eu me matasse. De preferência por causa dele. Essa seria sua melhor assinatura em uma obra de morte. Esse seria o verdadeiro gozo e o verdadeiro ápice de qualquer coisa que ele já teve comigo. Nada mais.

Sede, vai existir sempre. Garrafas precisarão ser preenchidas. Solitude parece ser perceber que as garrafas estão vazias, enchê-las, depois beber e ficar satisfeita. Solidão é acreditar que alguém irá preenchê-las e, mesmo com isso acontecendo perfeitamente, morrer de sede. Dá pra confundir um com o outro. Também dá pra sentir as duas coisas ao mesmo tempo. A coisa é mais complexa do que a gente (não) imagina. E como as coisas se repetem nessa vida né gente, esse longo dia da marmota… Pretendo morrer de qualquer coisa, menos de sede. Encham suas garrafas. Bebam mais água. Faz bem.

Esses dias tenho observado algumas coisas e chegado em algumas conclusões que me inquietam um pouco. Talvez me inquietem porque eu nunca as tenha vivido. Talvez eu já as tenha vivido e não saiba ou não me recorde direito, com os detalhes necessários. Acho que já passei por essas coisas sim, igualzinho e hoje elas me irritam porque devem muito fazer parte de mim e ainda não sei, sei lá.

É horrível presenciar online quando um relacionamento termina. É pior quando você é amigo de verdade das duas pessoas ou de uma delas. É feio. Toda a passivo-agressividade. As indiretas constantes. As fotos com caras chorosas. É tudo muito feio e necessário. É preciso viver o luto. E o luto se vive em fases e re-términos, são vários até o derradeiro, que nunca sabemos muito bem quando vem. Nem as pessoas envolvidas. Mas o caminho, ele é sempre tortuoso. É difícil nutrir empatia.

Algumas pessoas já fazem isso de forma efetivamente contrária e não gostam de se expôr: nem para o bem, nem para o mal. Por N motivos. Porque já sofreram demais. Por motivos de negócios. Por quererem ter um milhão de amigos e se sentirem seguros e amados de alguma forma, ao menos uma vez na vida. Essas pessoas geralmente implodem, para o bem e para o mal. A impressão que fica – que pode estar errada – é que elas tem rabo preso. Nunca sabemos o que está acontecendo e nem saberemos. É difícil nutrir empatia.

Mas a verdade, ela é só uma: é dolorido pra quem fala e é dolorido pra quem cala. Não há escapatória disso aqui. Estamos todos condenados à isto: todo mundo, sem exceção, sofre. Existem os que falam e existem os que fingem que não e criam uma realidade paralela. Mais cedo ou mais tarde, a realidade bate. De um jeito ou de outro. E ela nunca bate leve. O meu trabalho tem sido não mais o de evitar o sofrimento, mas reconhecê-lo, acolhê-lo e integrá-lo em mim mesma pra poder saber qual é a melhor forma de evitar com que isso ocorra a quem me cerca. The way out is through. 

Acho que escrevi isso pois estou, aos poucos, me desapaixonando por alguém quem gostei muito esse ano. Os motivos estão todos aí: velados, logo, absolutamente visíveis e explícitos. Suspiro em desencanto… É o meu suspiro mais triste de todos.

Ela me disse que para que o verme se desfaça demoram sete anos sem nos tocarmos. Sem entrarmos efetivamente em contato um com o outro. Os vermes de luz percebem quando estão a ponto de morrer e se agitam dentro de nós, no nosso baixo ventre, tornando o fio de ligação cada vez mais espesso, cada vez mais notável. Eles não querem morrer. Não querem ser esquecidos. Seus corpos se contraem, se angustiam e se revoltam. Urge uma reconexão pois o elo não pode, de modo algum, ser finalizado em definitivo. Caso isso aconteça a alimentação vai deixar de ser contínua e quando isso acontece o outro perde essa boca livre porém finita para sempre e deixa de nos sugar efetivamente. E isso tudo independe das circunstâncias: casamento, noivado, novo relacionamento, qualquer coisa. O vínculo está constituído de forma seminal, onde há um receptor que é atuante, por todo esse tempo. E esse receptor não quer ser esquecido e não aceita ser morto. Por volta do sexto para o sétimo ano, ficamos bêbadas, vamos em festas, fumamos, equalizamos nossa vibração de um modo ou de outro, reencontros acontecem e nossa faz tanto tempo porque não, porque não hoje, porque não agora, sempre foi assim, sempre foi bom, não há nada que impeça (ou até há mas). O nosso corpo se contorce e se contrai, vibra pedindo e se retrai, a coluna se arqueia e as noites insones e cheias de dores aparecem, as preocupações e angustias profundas os sentimentos absurdos que sequer deveriam estar ali e estão vigilantes impunes incisivos. E nos abrimos pra eles, pra tudo isso, o verme de luz cordado insiste e demanda chegar até o outro lado, até a outra ponta. Coisas acontecem, tornam a acontecer e permitimos simplesmente porque estamos desatentas, porque não estamos acordadas o suficiente, porque estamos num estado de estupor, entre o sono e a vigilia, de volúpia, de paixão, de memória e de lembrança, olhos semicerrados, boca entreaberta, uma porta languidamente ambígua, ali para o outro dar o significado que bem entender, para fazer o que quiser, para moldar o agora de acordo com o seu desejo. E assim as coisas são, dizemos quando permitimos que as coisas aconteçam. Quando temos uma perspectiva consciente o discurso de auto-responsabilidade muda para assim eu o quis. Esse estado de torpor e ilusão cabe na palma da nossa mão, tal qual um brinquedo mal cuidado. Isso requer cuidado trabalho compaixão disciplina diligência. Essa consciência nos prepara para que efetivamente encaremos de frente o desafio de soltar o fio-verme de luz que habita em nós. Sim, soltar pois se as cortamos, as pontas ainda permanecem e retornam a alimentar a relação. É preciso deixar ir com graciosidade, mas diligentemente. Soltar é menos danoso do que cortar, para ambas partes. Existem inúmeras maneiras de soltar: plantar a lua entregando o verme pra terra comer continuamente, jogando o nome ao fogo e pedindo pras salamandras se alimentarem de todo e qualquer vínculo que ainda esteja sendo alimentado, pedindo a grande mãe de fogo que consuma, devore e transmute tudo o que há ali e tudo o que já aconteceu. As ferramentas são infinitas, mas não devemos, nunca nos privar de utilizá-las e nem mesmo hesitar em seu uso, para nosso próprio bem. E para um possível bem que seja ainda maior. Que assim seja e assim se faça.

Estou ansiosa por uma série de motivos. Não vou listar todos aqui pois enfim, não sou obrigada. O fato é: estou ansiosa por uma série de motivos. Estou também a uma semana de menstruar e num período mais introspectivo do mês. A TPM pode estar influenciando nessa minha alteração de humor também. E geralmente quando eu fico nesse estágio, sinto uma “fome” que não cabe em mim. E ok, sentir fome é natural, todo mundo sente. Mas o ‘problema’ da minha fome é que os meus desejos nesse sentido são os piores possíveis. Eu não sei o que acontece. Fico com vontade de comer coisas que não são nem boas e nem mesmo gostosas. O que me dá mais raiva é que eu nem gosto dessas coisas, sabe? É absolutamente impulsivo. Não é por gosto, é por impulso, por pura ansiedade, por falta de reflexão. Por não conseguir ficar em paz comigo mesma. E isso me dá raiva.

Começa assim:

    1. Fico ansiosa com algo que geralmente sequer paro direito para analisar o que é. Simplesmente fico ansiosa e entro no piloto automático, foda-se a questão que eu tiver; Solenemente ignoro a questão que eu esteja tendo, na real muitas vezes ela nem se passa pela minha cabeça. Eu só entro em um estado contínuo de ansiedade mesmo e é isso. Pratico muito pouco o questionamento e talvez devesse praticar mais;
    2. Sinto vontade de comer algo claramente RUIM. No meu caso, geralmente miojo ou McDonalds, fast food, essas coisas. Na minha cabeça o ato de comer isso é compreendido como uma recompensa pelo momento que estou passando e como algo bom, com a grande expectativa de que isso vai me deixar feliz no curto prazo. Realidade: não deixa. Nem antes, nem durante e nem depois do processo. Nunca deixa. Não me lembro a última vez que isso foi efetivo ou funcionou de fato;
    3. Vamos supôr que eu ceda ao meu impulso de querer comer pra tapar o buraco da ansiedade e vá até o McDonalds e coma qualquer lanche (pois eu geralmente cedo). O que acontece geralmente está nessa sequência:
      1. Muito frequentemente o lanche não tem gosto de absolutamente NADA. Não é prazeroso, nem bom, nem gostoso. É mecânico e bem ruim;
      2. Eu como, o desejo permanece, a insatisfação também e a ansiedade idem. Nenhum vazio é preenchido. Geralmente, mesmo já tendo me alimentado, eu sigo com fome (?) por incrível que pareça. Continuo com um desejo por apaziguamento que simplesmente não passa (porque não é a comida que irá saciá-lo);
      3. Vejo que meu dinheiro foi jogado fora. Geralmente fico putaráça com isso. Fico putaráça, frustrada, com raiva e com ódio por ter comido algo ruim e que nem tava tão bom assim. A raiva retroalimenta a ansiedade e eu me odeio cada vez mais e isso aumenta a ansiedade e… IT’S THE CIRCLE OF LIIIIIIIIIIIIIIIIIIIFE!!!

Eu deveria parar e agir quando chegar no estágio B. Deveria existir um reconhecimento do que está acontecendo. Eu deveria me questionar mais, questionar mais meus ímpetos, impulsos e desejos. Deveria rolar esse reconhecimento da necessidade de recompensa a curto prazo. Reconhecimento da necessidade de reflexão sobre a minha atual situação e do que me incomoda e que simplesmente não pode ser suprido via alimentação. Entendo que tudo o que quero fazer comigo mesma quando me ligo desse círculo vicioso é me sentir meio burra e me menosprezar, menosprezar meus sentimentos, minhas sensações e quem eu sou. Mas eu quebrei esse padrão a algum tempo atrás e o movimento agora é para me acolher, nas coisas boas e ruins. E tentar ter compaixão comigo mesma e me ajudar sempre que possível a sair de círculos viciosos que não me fazem bem, simplesmente porque eu não mereço passar por isso repetidamente. E eu mereço coisas melhores pra mim. De verdade.

No meu caso, que é extremamente pessoal e específico quando vejo que sinto esse desejo que não é genuíno, tem algumas coisas que eu posso fazer pra me ajudar:

  • Tentar detectar se esse é um desejo genuíno ou se é motivado por ansiedade; Se for genuíno mesmo, bem foda-se, vá lá e coma, divirta-se, seja feliz. Se não for, tenta prestar atenção nos seus sentimentos e emoções, no que eles te dizem. Tenta lidar com o que acontece, ao invés de arrumar uma escapatória que não vai ser nem efetiva e nem vai te fazer feliz a curto prazo;
  • Feito isso, você sabendo o que é e o que sente, é claro que a fome não irá passar. O desejo vai continuar, claramente. É importante se esforçar pra lembrar das experiências ruins – que não tem nada a ver com culpa não – mas de simplesmente não ser gostoso, nem prazeroso. E recordar e trazer pro presente o fato de que isso não é, mesmo, uma recompensa: mas na verdade uma punição;
  • Eu não quero me punir quando já não estou passando por algo muito bom ou muito fácil, não é mesmo? Então o que eu recomendo? Sei lá. Ir lá fora e olhar o sol por uns 10 minutos. Recomendo vários copos de água, bebidos muito lentamente (que certamente não te farão mal). Recomendo se alimentar com comida que você considere boa mesmo: arroz, feijão ou algum prato realmente gostoso, que você goste e te dê prazer de verdade;
  • Observe o ciclo menstrual ou o ciclo lunar e entenda que suas oscilações de humor acontecem de acordo com essas variações (é real isso);
  • Ter compaixão consigo mesmo/a, em primeiro lugar; Esforçar-se para relaxar, se conseguir/puder meditar, tirar algum tempo apenas para respirar livremente; Beber água o mais lentamente possível; Comer coisas que sejam boas e nutritivas, antes de qualquer impulso;

Deixo claro que tudo escrito acima serve para mim e para mim somente. Não sou médica, nem especialista, nem nada: só sei de mim mesma. Vamos conseguir SEMPRE fazer isso? Não, nem sempre. Às vezes vou falhar, sim. Toda tentativa de agir como descrito acima é válida? Sim, absolutamente todas as tentativas são válidas. Hoje eu consegui agir assim. Amanhã vou conseguir? Não sei, talvez não. Mas só de ter consciência disso tudo, já é um avanço e tanto.

Today’s the day my life is gonna change
I’ve got to get up off the floor
There’s another world and it’s waiting for us
I’ve waited so long for so much more

Tonight’s the first night of my new life
Saying goodbye to everyone I’ve ever known
And we could spend the night together
I could be you
And you could be me too

The sun sets so early in December
The moon is bright and my heart is black
Promise me you’ll always remember
Never to find our way back
I was raining and I wanted to be the ocean
Was a star and I wanted to be the sun
They want from us what they cannot touch
Lost and found and glory bound

For so long I’ve waited so long
For so long
I’ve waited so long
For so long
Someone like you

There’s so much more

Nunca tinha percebido esse padrão, mas a verdade é que em algumas épocas do ano – não sei se chega a ser sempre a mesma época – me parece que todas as pessoas que eu conheço entram de férias ao mesmo tempo. E todas realizam viagens maravilhosas, conhecem o mundo, países diferentes, lugares diferentes. Fazem coisas fora da rotina de suas vidas. Não me lembro de ter olhado isso tudo com olhos de inveja – não quero que o outro tenha isso! – mas é bastante frequente a sensação de tristeza – queria ter isso também. Aí hoje percebi que róla um ressentimento real por eu nunca ter feito nada disso. Por eu nunca ter me proporcionado nada disso, há alguns anos já. Eu me ressinto, fico triste, culpo o passado, o mundo, a existência. O que é bobo, bem infantil, na verdade.

Isso tudo começou há alguns dias já, quando comecei a repensar algumas decisões de vida. É recorrente o desejo de largar tudo, jogar tudo pra cima e de fato voltar pra debaixo de uma pedra, de onde eu talvez jamais tivesse ter saído. A vontade é de desistir de tudo mesmo. Quanto maior é a exigência de sacrifício, mais tentadora é a vontade de desistir de tudo. E só eu sei o quanto tenho me sacrificado. O quanto tenho aberto mão de uma série de coisas que gostaria de estar fazendo, por outras. Me ressinto com isso também. E isso tem acontecido de uma forma bem ampla… Achei que fosse só com uma decisão, mas são com várias… É com uma postura que eu tenho, perante a tudo o que me acontece. E tudo o que eu escolho – sim, escolho – acolher na minha vida. E isso me chocou um pouco.

Essas coisas, essas respostas, aparecem via meditação, que me traz consciência sobre algumas coisas que num plano maior costumo ignorar. Só que diferente da psicanálise, essas coisas não vem de forma externa, nem de forma fácil e nem de forma lenta: vem como num soco. E batem forte e pesado. E é tudo interno e não há como escapar, não há como confrontar. Está ali. E o desafio é justamente aguentar o tranco da consciência e agir em relação a isso de uma outra forma, não analítica, não estratégica, nem nada disso. Não é um jogo de xadrez. Não estou tentando tapear ninguém aqui, neste espaço onde piso, passo a passo, um pé por vez. O confronto, nesse campo, é uma luta por poder muito mais sutil, onde eu posso ter a visão e o controle do que ocorre, em certa medida. Isso definitivamente não é entretenimento. Eu não sou idiota.

Não quero e não vou me ressentir nem de mim mesma e nem das minhas decisões. Vim aqui pra crescer, não pra me lamentar. Passar por isso tudo que estou passando foi e é uma escolha contínua e não um castigo. E se eu escolhi isso, foi por algum motivo. Tudo o que eu preciso nesse momento é me lembrar desse motivo. Reforçá-lo. Enaltecê-lo. Comemorá-lo. Dentro de mim mesma.

Eu não sou idiota.

Não tenho do que me ressentir. Vou integrar. Acolher e lidar com tudo o que acontece. Se ressentir é o caminho mais fácil, mais cômodo. Mais rápido. E o sofrimento perdura por muito mais tempo, até que você finalmente aprenda o que precisa ser aprendido. Acolher e integrar dói. É difícil. Não é atalho e nem é pra ser. Mas te dá uma força quase que incomensurável.

É uma merda estar no olho do furacão? Sim, é uma merda. Sim, sempre dói. Sim, vai ter sempre drama porque eu sou um macaco sem rabo. Mas eu me recuso a pular o fogo. Estou aqui pra passar por ele.

Então que seja.

Chateada porque uma artista que admiro muito resolveu se afastar do instagram e listou os motivos. Basicamente disse que não estava conseguindo segurar a onda da ansiedade e de se comparar com outras pessoas o tempo todo e que ficava constantemente mal por isso. Ela é incrível, foda, linda de viver e absolutamente talentosa. Fiquei chateada mas compreendi e até me identifiquei, pois eu mesma me afastei de uma rede recentemente.

A pior cobrança nunca é a dos outros: sempre é a que vem de nós mesmos. Comparamos belezas, roupas, felicidades, comidas e bebidas, amores e sucessos. Somos obrigadas a estarmos sempre lindas. Sermos sempre pessoas muito legais. Produtivas. Felizes. E eu não vou nem começar a falar aqui sobre o quanto isso recai muito mais pesadamente sobre as mulheres porque este post não é sobre isso.

Nos tornamos, todos, pessoas ansiosas e depressivas. Sentimos raiva e fingimos que não, ou ainda, externalizamos essa raiva de forma obsessiva e constante – o que também não é muito melhor que negação. Nos tornamos hostis. Inversamente proporcional a isso, nos apaixonamos. De verdade. Veja bem: por ilusões que são a edição do recorte de uma vida. Por algo que está num monitor… É um tanto quanto patético, mesmo.

É realmente fascinante o poder que as redes exercem sobre nós, para o bem e para o mal. Sempre importante lembrar que tudo o que acontece online são recortes do recorte do recorte que é editado e, ainda assim, insistimos em acreditar em tudo por aqui. Na verdade quanto mais incrível é a ilusão, mais a idolatramos… E por mais que pareça, isso tudo não é tão banal nem fútil assim quando sentimos na pele os efeitos dessa armadilha que hoje permeia nossa vida…

E é uma dor bastante palpável, sim. Diária. Constante.

Acho interessante e extremamente motivador vivermos numa época em que ninguém mais sabe direito o que é real ou não. Acho divertido, de verdade. Tudo o que comparamos por aqui nada mais são que ilusões auto-impostas, para dizer o mínimo. E é isso divertido justamente porque nos força a nos questionarmos e a buscarmos o que é real, o que tem significado e o que é realmente importante, de verdade, pra nós. O resto, é perfumaria. Mesmo. De verdade. E é claro que falar é muito mais fácil que fazer. Mas ninguém nunca me prometeu que seria fácil, então estamos aqui pra isso.

I

Acho que ainda não sei lidar com fim de ciclos. Parei de romantizar tanto as coisas, acreditando que elas “não acabam, mas se transformam”. As coisas acabam sim, a gente querendo ou não. Percebendo ou não. Fico com a fama de mal amada, de quem não tem memória, de quem nunca se importou com nada de verdade, de quem não sabe o que é amar, de quem nunca teve nada. Bem. As coisas acabam, independente do que você acha ou deixa de achar de mim. Elas deixam de fazer sentido e aí a gente chuta cachorro morto pelos mais variados motivos: carinho e respeito, pelo histórico, por tudo o que já passamos juntos, porque já cheguei até aqui então não vou desistir agora, morrer na praia. E mais um bando de mentiras que gostamos muito de acreditar que são verdades.

II

Há algum tempo pedi pra ela jogar pra mim e no meio de uma família inteira de espadas (overthinking) saiu a Lua. Um longo caminho pra eu, besoura, chegar em mim mesma. Eu quero o sol, mas sigo o reflexo da lua… Sendo que o meu sol é na verdade interno. Já está tudo aqui. O que estou esperando? Não sei ao certo. Sempre espero que o pior aconteça, nesse sentido específico. O que é bem imbecil da minha parte pois se eu esperar o pior ele VAI acontecer. Por que não esperar outra coisa? Porque entre os altos e baixos, chacais, esfinges, torres existem todas ilusões as quais preciso enxergar e saber lidar. Existe o caminho que não pode ser apenas contemplado, mas vivenciado. E as ilusões estão toda saqui na minha vida, cada uma ao seu modo. O que estou esperando?

III

A atração foi e é inevitável. Ouvi aquilo tudo, percebi aquilo tudo, respirei fundo, fui pra casa. Nunca agi em relação a isso. A atração estava aqui, existindo, no meu chacra básico. Visceral, violenta, despudorada. Cheia de vontade e desejo. Sempre senti isso, nunca deixei de sentir, deixei estar. Só que em dado momento eu elaborei em cima disso, papel, caneta, escreva nos mínimos detalhes tudo isso aí que você sente. Destampei o bueiro. Encarei uma por uma das minhas sombras, de tudo o que era sujo, baixo e vil. Aceitei e reconheci tudo isso como parte de mim, como um presente. Entendi o contexto e as limitações. Me validei e me recolhi justamente para poder me apropriar disso da maneira menos danosa possível. Depois deste passeio, entendi a ilusão e me permiti uma série de afetos de coração aberto: abraços, carinho, troca de gentilezas. Sem medo, me permiti poder gostar da maneira mais genuína possível. E foi bom. É bom ainda. O impulso ainda está ali, ele existe e não o nego. Mas agora está sob o meu domínio.

IV

Esse cara é um idiota. Não, ele não é. Não sei bem o que ele é. Hm. Isso muito me interessa.

Quem ele é?

V

Ela se jogou do sétimo andar. Não achei que fosse me chocar. Me choquei. Senti muito. Ainda não consegui conceber muito bem tudo isso. Consegui muito menos naquele dia que te vi, já tendo te idealizado por meses a fio. O que eu sentia por você vinha de um outro lugar, um lugar que eu julgava – ingenuamente – mais elevado. Apenas olhar pra você era capaz de encher o meu corpo inteiro de ternura, como uma onda de calor e amorosidade. Bem, é assim que isso funciona, parece, chacra cardíaco, sistema circulatório. A morte dela me forneceu um senso de urgência que eu até então desconhecia. Não achava que estivesse fazendo nada errado – e não estava. Sabia que as coisas não seriam mais como antes. Não queria que as coisas fossem mais como antes. Por um momento achei absolutamente injusto guardar o que eu tinha de melhor dentro de mim, sendo que eu podia simplesmente oferecê-lo a quem eu acredito que tanto merece. Me angustiei ao ponto da comunicação. Coloquei meu coração nas suas mãos, para que você fizesse o que quisesse com ele. 

VI

Eu só queria dizer que, meu deus, eu sou muito a fim de você.

VII

Você pegou meu coração pulsando com as duas mãos e, com um cuidado que eu nunca vi antes na minha vida, abriu meu peito e colocou ele de volta no lugar onde ele pertence e de onde ele jamais deveria sair. E, por isso, por esse cuidado, eu te agradeço. Tudo o que eu disser, tudo o que eu teimar em colocar no mundo em relação a isso que aconteceu, vai soar grosseiro e errado, mas a verdade é, que quando temos uma noção melhor de onde as coisas vem e quando entendemos como elas funcionam, toda dor passa a fazer um tipo diferente de sentido… E é justamente através dela que a compaixão consigo mesmo se torna implacável, irresistível. E foi aí que percebi que havia caído em mais uma ilusão auto-imposta e ri, sozinha. Meu ego está ressentido, obviamente. Mas procurei apenas sentir o que aconteceu e entender a dimensão e o significado daquilo tudo. E percebi que isso, que eu acredito existir, na verdade é só mais um véu a me separar do outro. São nomes, termos, palavras, coisas… Existem no mundo e estão aqui.

Talvez o que eu quero não esteja, nem seja. Haverão outros véus. Muitos deles. E eu jamais estarei preparada pra nenhum deles. E devo aprender com todos. Afinal, estou aqui pra isso. 

 

Anos atrás me disseram que hoje era uma bobagem. Anos atrás fui tomada de assalto, nessa mesma data, pra não esquecer. A gente tenta deixar pra trás, fingir que não vale a pena, tenta esquecer. Isso, sim, é bobagem. A maior delas. Algumas coisas importam. Na verdade, só o que importa, importa. O resto é meio irrelevante mesmo.

A pior coisa que já fiz num desses dias foi pedir pra você me escrever alguma coisa. Meu Deus, foi tudo muito horrível. Tudo foi absolutamente sem espontaneidade: o pedido e o que você escreveu. Tudo muito errado, muito triste, muito sofrido. Hoje lembro disso rindo, mas na época sofri muito por não ter sido correspondida da forma que eu imaginava. Aquela foi a epítome de uma situação criada artificialmente, por ambas as partes. Tudo muito falso, tudo muito ridículo mesmo, na verdade. Sofri horrores, você não me ama de verdade, você só quer meu corpo, você só pensa em sexo… Justo quem dizendo isso, não? Enfim. Passou. É até divertido lembrar hoje, porque parece que não foi comigo de tão bizarro.

Reli um texto que escrevi há dois anos atrás, sobre como me sentia em relação a relacionamentos. Mesmo escrito em 2016, ainda reflete um pouco – muito pouco – do que vivo e do que sinto por aqui. Das necessidades que tenho. Mas muita coisa mudou, muita ponte foi queimada, muito comportamento foi revisto e alterado – mesmo que lentamente. Não sou mais a mesma pessoa, praticamente. Minhas expectativas e sentimentos são outros. Me relaciono com – e sinto, e quero, e desejo – o outro de formas drasticamente diferentes. E isso requer sempre muito trabalho interno e lutas diárias pra lidar com todas as minhas sombras. Pra lidar com cada uma delas. Nem sempre é possível né, mas na maior parte do tempo a gente tenta sim. Toda tentativa é válida, absolutamente.

Em 2016 já tinha dado uma certa guinada rumando pra auto-consciência e outros estudos de auto-conhecimento, mas ainda não tinha aceitado muito bem esse meu caminho de construção de identidade. Sim, parece bobo, parece raso, mas não é – eu só não quero e não vou ficar falando muito disso porque nem eu mesma sei ainda do que se trata direito, estou descobrindo. E tudo o que faço e descubro é extremamente pragmático, só diz respeito a mim, ao que eu vivo e como eu vivo. Não sirvo de exemplo pra ninguém, não. Só sei que estou nesse chão que estou pisando e que está se fazendo sob meus pés desde 2016 e só agora as coisas parecem estar ficando mais claras por aqui.

Não me privo de nada, no entanto: sinto atração constantemente, flerto, descubro cada vez mais coisas sobre minha própria feminilidade, adormecida por tantos anos, me apaixono profundamente por homens que me parecem muito interessantes, me declaro, observo cada um de meus ciclos e suas variáveis, me desapaixono aos poucos, sem perder a admiração, sem me perder demais no desgostar, simplesmente porque ele não me interessa e não vale mais a pena. Eu estou aqui, mas não sou mais daqui. Demoro muito pra gostar de verdade de alguém, então nada mais natural que demorar pra desgostar também. Tenho tentado ser menos volátil, mas nem por isso menos mutável. Todo o meu esforço tem sido para tentar ser menos reativa e muito mais contemplativa, do meu próprio corpo, do que sinto, do porquê sinto, das minhas emoções. Em enxergar o outro de verdade e evitar julgá-lo, principalmente sem fazer ideia do que a pessoa passou. Tudo ainda é um grande mistério e cada vez mais. Cada vez mais.

Mas me parece que nos próximos anos eu devo permanecer sozinha mesmo e em busca de descobrir mais algumas coisas por aqui e devo focar minhas energias exclusivamente nisso: pra me trazer cada vez mais ao mundo. Cada vez mais pra essa existência aqui e agora. Me abrir mais pra tudo isso o que existe. Pra descobrir minha verdadeira vontade. Pra fazer com que minha existência tenha propósito (mesmo que breve e irrelevante, etc.). Mas para que tudo seja eu e para que tudo seja meu, do começo ao fim. É bizarro isso porque eu já me acho absurdamente auto-suficiente, mas tudo o que me aparece me diz pra eu me tornar ainda mais independente. Talvez seja em outros níveis, em níveis que ainda não enxergo ou ainda desconheço. É bastante solitário sim, bastante triste… Mas é um caminho que eu sinto que deve ser tomado e eu estou tomando. E o mais importante: eu quero essas coisas mais do que qualquer outra coisa. Relacionamentos são legais sim, mas agora talvez não seja o momento pra mim – quem sabe talvez quando eu for mais velha, quando estiver mais madura pra caminhar com um outro alguém. Ou quem sabe talvez nem aconteça, enfim. Isso não é mais exatamente a coisa mais relevante da vida agora pra mim.

Os últimos dois anos tem sido o de uma luta, diária, pra ser menos amarga e pra não me tornar um poço de cinismo, por mais que o mundo e as pessoas me forcem a isso às vezes. Já fui isso por muito tempo nessa vida e agora isso não me serve mais. Não combina mais comigo, nem com quem eu sou hoje. Tomo muito cuidado com algumas armadilhas do feminismo que, por mais que nos façam acreditar que tenhamos motivos de sobra pra misandria, não quero odiar a todos os homens indistintamente. Não acho isso saudável, prefiro conviver. Nos últimos tempos tive a sorte de conhecer muitos caras que não são completos babacas e também tive a oportunidade de mudar o meu comportamento em relação aos homens. Aprendi que posso sentir afeto por eles, sem precisar me embrenhar num joguinho odioso e que só traz sofrimento e uma sensação terrível de segregação e inadequação. Não é eu e eles: sinto que posso fazer parte, de fato. Aprendi a lidar com as ilusões que a minha mente e o meu corpo projetam em mim, estudando sobre os mistérios do meu próprio ciclo e também da lunação. Enfim… Existem outras coisas em jogo, agora. Existem MUITAS coisas em jogo, agora.

E eu também descobri que não é força, é jeito.

É preciso muito jeito, pra transformar solidão em solitude. É quase uma alquimia, na verdade. E não só fazer isso, como fazer isso com graciosidade. É preciso um senso absurdo de persistência pra fazer com que todo o auto-abandono que sentimos seja sempre preterido. E que todo o cuidado consigo mesma seja feito diligentemente e de forma diária e constante. Ainda peco muito nisso, mas persisto. É preciso atenção para não aceitar nada menos do que eu acredito que mereço em termos de afeto, pra passar pelos desencontros com sorrisos e com o coração tranquilo e não reclamar muito do tempo, mas fazer com que ele trabalhe ao meu favor, ao meu próprio aperfeiçoamento, a mim mesma, quem eu sou, o que faço, o que penso, etc. Ainda terei muito tempo para passar comigo mesma e, bem, eu só estou no começo da jornada. Na escolha que volta e meia preciso fazer entre o medo e o amor, estou aprendendo cada vez mais a escolher o amor. Uma situação de vida por vez. Ainda acho que o amor é uma ideia sim e um ideal também. E relacionamentos até que fazem parte disso, mas são só uma parte. Mas eu amo mais é essa ideia, mesmo. Esse ideal. Acredito que essa seja a chave pro desdobramento de várias outras coisas.

O desafio não é mais tanto ter cada vez mais amor, mas ser.

E não parar.

Eu estava escorada no balcão do bar, não lembro bem no que estava pensando, quando de repente tenho uma sensação quente na parte de trás do meu braço esquerdo. Tirei o meu braço rapidamente, assustada. Não vi que era o seu braço encostando no meu, entregando coisas pra algum outro alguém atrás de mim. “Desculpe!” você me falou, por me tocar sem querer. Eu já estava alcoolizada e provavelmente respondi “ah, não foi nada” com a voz alcoólica mais macia que consegui fazer. Não nos tocamos com frequência. Das duas vezes que estive no bar, estendi minha mão direita e te cumprimentei com a voz mais firme que consegui fazer. O lugar estava cheio, minha presença precisa ser notada e eu não gosto de ficar com a garganta seca por muito tempo. Gosto do som da sua voz, da curva de cada uma das suas letras que caem no meu ouvido.

Passei meses sem perceber isso, final do ano percebi, despercebi e no início do ano percebi novamente. Eu me confundo, me distraio. Mas as coisas se encaixaram. E no início é sempre tudo muito estranho. Não me constranjo mais, não sou uma menina. Acho que nunca fui, só que sempre pelos motivos errados. Em um dos passeios, assim que cheguei, fui reta e direta te cumprimentar, sem medo algum. Eu estava com um batom escuro, você me olhou com olhos arregalados, pois achava que eu fosse te ignorar. Mas naquele dia eu já sabia. Te cumprimentei, com abraço e beijo mas foi isso. Eu não tinha nada a oferecer naquele momento que não fosse um desejo cego, vazio. Não tinha te aprendido ainda. E ainda não haviam todas as coisas que existem agora, hoje. Eu não as carregava em mim.

Agora entendo que não preciso ter medo. E que também não quero programar nada, planejar ou pensar em nada. No momento, eu só quero sentir. Só sentir. Estar aberta pra isso, de fato: pro sim, pro não, pro que vier. Eu só quero estar ali. Sei que tenho um longo caminho pela frente. E quero isso.
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