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Egotrip

E de repente o silêncio, durante o filme. Qualquer coisa que eu dissesse seria tremendamente estúpida. Disse muitas coisas estúpidas essa noite. Não me importei tanto, mas naquele momento eu sabia que era diferente. Olhei pra tela, fria. Movimentos contínuos e repetitivos. Uma vontade que não se alcança. Meu olhar é de admiração e um pouco de tédio. Sempre existe um pouco de tédio nessas situações. No entanto, eu salivo. Espasmos, pavlovianos. Quero isso na minha boca, quero isso em mim. Engulo uma saliva, espessa. Bom filme, penso. Falo. Eu tremia, de frio. Vamos ao próximo. Um bastante específico. Eis que noto uma movimentação diferente, mas nada digo. Observo, entendo o que acontece. Ah, é isso então? Aliás, é isso também? Não ofereço ajuda. Continuo olhando a tela, me sentindo meio boba. Me entedio. E então percebo que o filme não está exatamente ali. Experimento olhá-lo, o outro, brevemente em seus detalhes. Indicador esquerdo na têmpora, um olhar vazio que escaneia a tela, lábios entreabertos. Uma eventual coceira na cabeça. O indicador direito pressionando com todos os outros dedos, um desejo, nada reprimido. Voltei o olhar pra tela. Repetitivo. Desinteressante, pra mim. Eu queria algo que eu não visse todos os dias. Resolvi encarar o outro, dessa vez mais lentamente. Felizmente o fiz exatamente na janela de momento certo, um bom timing. Os seguintes segundos duraram séculos e tudo aconteceu ao mesmo tempo. As nuances azuladas da tela no rosto, enquanto ele corava suave e timidamente. Os olhos se apertando, não fechados, mas semicerrados. Um suspiro, longo e baixo, meio que sem cadência, como que se escapando pela boca seca e entreaberta. A expressão de total desligamento da realidade e os pequenos espasmos do corpo. Uma respiração levemente entrecortada, após o término. O indicador esquerdo, ainda na têmpora, mesmo que não exista mais concentração alguma ali. O filme acaba. Agora eu sei que a sensação de tédio volta mais forte. Aquele desejo, mesmo que breve, de morte. Talvez um ódio meio irracional. Sei disso. A tela desce. Sei também que foi bom poder ver isso. O meu indicador direito, entre meus dentes, contendo os espasmos de saliva. E uma vontade específica. Acho que o outro não notou que eu o observava, muito de perto, o tempo inteiro. Isso torna tudo ainda mais interessante. Eu deveria ir dormir agora, qualquer outra coisa que eu diga será estúpida. Está silencioso por aqui.

Eu durmo. Durmo o tempo todo. Durmo na maior parte dos dias. É assim que eu passo. Às vezes, tento me acordar. É difícil, sou preguiçosa, pra tudo. Tentava me acordar, sem muito sucesso. Resolvi insistir. Não só insistir, mas persistir nesse pequeno despertar. E de repente as coisas ficaram claras na minha mente. De repente estava tudo ali, na minha frente, se desabrochando. As coisas existiam e era tudo real. Não houve transição. Não houve cerimônia alguma e nem mesmo formalidade. Na verdade nem pensei que eu pudesse estar acordando. Nada. Simplesmente me vi, ali, naquela situação querida, desejada, fantasiada. E nada me pareceu tão concreto quanto isso há um bom tempo. As gotas de água caíam na minha pele. Havia uma certa angústia. Era um momento onde a urgência ocorria sem pressa alguma. Eu te via entre vapores. E tudo estava claro pra mim. Não havia nada para mim além daquele simulacro. Naquele momento eu havia acordado, plenamente, em mim. E isso durou por alguns instantes, não sei o quanto, perdi totalmente a noção de tempo. Parece ter durado até você me sussurrar docemente: ‘eu estou querendo você agora’ e, assim, me fazer adormecer novamente. Algo me diz que há uma estranha ligação entre esses mundos. Afirmo isso porque sinto como se tivesse te tocado, de um modo ou outro. Algo me diz que, ou estamos acordados o tempo todo, ou estamos dormindo, o tempo todo. E eu quero tudo. Eu quero todas essas coisas. De novo. E tudo parece acontecer como deve acontecer. Tenho déjà vus, sucessivos. Sei do que estou falando.

[I want to have it all. And I’ll die alone, trying.]

Lembro de quando fui te visitar e sua casa fedia a cigarro. Lembro da sua cama, lençóis amarrotados e queimados. Você era um viciado. Não tomava água: bebia coca-cola e fumava, desesperadamente. Eu me lembro de tudo. Dia desses, queimei meus lençóis e me lembrei de você. Hoje, eu entendo alguns dos prazeres que você costumava sentir. Não entendo o vício ainda, não entendemos, apesar de já termos conversado muito sobre isso. Não nos víamos a três anos. Achei que tinha acabado, mas lá estava você, querendo me dar abraços inapropriados em lugares inadequados. Não sabia exatamente o que achar disso, então não achava nada. Te abraçava sem intenção de nada, olhava pro lado e acendia um cigarro. Não sou difícil, só te achava improvável.

Na semana passada eu olhava pela janela e não lembro exatamente o que via. Acho que via tudo aquilo de novo, aquelas coisas que eu costumava sentir. Tenho toalhas fofas e semi-novas, mas prefiro usar as que eu comprei em 2007, que estão velhas e fodidas. Me acostumei a elas. Preciso jogá-las fora. Você olhou pra mim e disse “eu não estou ouvindo mais nada do que você está falando”. Eu me senti, me sinto, confortável demais estando muito próxima de você. No entanto, não sei te tocar. Não sei que abordagem devo ter, parece tudo tão surreal quando você está por perto. Você é perfeito demais, pra mim. Alguns hábitos são mais difíceis de se livrar que outros. A companhia de um cigarro é irremediável e insubstituível porque é efêmera. Queria ser menos autoconsciente pra poder ser mais viciada, sem precisar sentir tanta culpa. Mas a culpa também tem um gosto bom.

Hoje é sábado, fumo sozinha em casa. Houve uma festa pra qual não fui convidada. Sempre existem festas para quais não sou convidada. Me falaram “que pena que não te convidaram, não?”. Respondi que sim, pois é. Até agora não entendi porque eu não disse que simplesmente não me importo (É verdade. Nem um pouco). Me recostei no travesseiro ortopédico, inspirei solidão e expirei memórias, obsessivas, repetidas. A impressão que tenho é a de que cada pessoa com quem me relaciono sabe de algo que ninguém mais sabe ao certo. Às vezes, eu estou certa. Não gosto muito de estar certa. No meu edredom vermelho-terracota queen-size eu me deito, acendo o abajur e fragmentos de você me invadem, sem cerimônia. Sem pedir licença. Seus cabelos soltos na cama. Seu gemido raivoso. A textura da sua pele enquanto eu apertava sua cintura contra o meu rosto. Hoje, fumo na cama. “Isso faz mal pra você, D.”. Não posso evitar, sou uma colecionadora.

Fiz muitas coisas hoje. Me sinto drenada, mas não fiz metade das coisas que deveria ter feito. Jogar coisas fora me esvazia. E dá um certo cansaço. Quando cheguei aqui nesse apartamento, lembro que quando eu adormecia, sempre pensava (sonhava?) que alguém o invadia, entrava no meu quarto e ficava me observando dormir. Às vezes ainda sinto isso, mas cada vez menos. Me desfiz de boa parte de um passado hoje. As sacolas com as coisas mofadas, velhas e que não me pertencem mais, fazem barulhos. Elas parecem vivas. Como se soubessem que deverão partir. Senti frio e acendi outro cigarro. Penso em trocar os móveis do meu quarto de lugar amanhã. Mantenho a cama próxima da janela no verão e distante dela quando começa a esfriar. Hoje foi um dia que se passou e eu não tive desejo. Nada me preocupa mais do que passar dias sem desejo. Por que isso me preocupa? Por que deveria?

Presto atenção em detalhes que talvez devessem passar desapercebidos. Passo a língua no meu lábio inferior antes da próxima tragada. É tudo tão claro pra mim, lembro como se fosse hoje do seu rosto. Fiz questão de conter o meu prazer apenas para olhá-lo, com olhos bem abertos, por vários instantes. E nesses momentos sorrateiramente te engavetei na minha memória. Dei meu olhar mais demorado e passei a mão pelo seu rosto. Lembro da sua barba recostando no meu peito, enquanto me chupava o seio. Do timbre dos ais trêmulos que saíam da sua boca, que eu silenciava, beijando. Das suas mãos se apropriando de mim e daquele seu olhar, em que você piscava lentamente enquanto sentia prazer. A luz vermelha iluminava o meu quarto e tudo o que eu queria, enquanto estava em cima de você, enquanto você me penetrava, era olhar bem no fundo dos seus olhos e deixar de existir.

Você era nada menos que uma divindade, em mim.

Meu cigarro termina. Digo a mim mesma “isso faz mal pra você, D.”.

Sei disso, mas não posso evitar. Nem quero.

Hoje foi uma pseudo segunda-feira. Saí de casa e passei o dia com o olhar nulo, não via mais nada. Às 18h fui em direção a Avenida Paulista para tomar um ônibus pra casa e me senti embaixo d’água. Carros, ônibus e centenas de pessoas passaram por mim e eu passava, como se de ressaca. Você me disse que eu era como domingo. Fez muitas perguntas, embora não tivesse pressa alguma pelas respostas. (Um domingo não precisa ser explicado). Como seria a textura de uma manhã de domingo, ao toque? O que haveria de diferente em olhos de domingo? O quão lento e, ainda assim, o quão contínuo esse domingo poderia ser? Não satisfeito, insinuou pensar ainda em modos de se apreender e de se desperdiçar um domingo, sussurrando que talvez os melhores dias sejam aqueles que desperdicemos com menos cuidado. Não bastando isso, passou então a fazer demandas: um domingo lentamente úmido, um domingo que molhe os dedos que o tocam. Um domingo que se abra lentamente, que deslize pela ponta dos dedos. Um domingo que tenha cheiro, que tenha gosto, que seja quente. Um domingo que tenha sutis reentrâncias, que tenha absurdos relevos. Um domingo que tenha segredos. Um domingo que saiba e sinta e prove e revele cada textura que guarda em si.

E assim, ele fez o tempo parar hoje, nessa segunda-feira errada.

(Ele me disse que eu era como um domingo.)

Nunca imaginei que eu fosse sair de casa algum dia para qualquer coisa. Hoje saí de casa para ver. E foi muito bom. Proveitoso. Já falei isso por aqui: uma das coisas que mais me atraem nas pessoas é a forma que elas enxergam as coisas. Descobri que, observar isso é também uma forma de observar a mim mesma. Um dos meninos buscava cores e as conseguia de modo impecável, composições excelentes, buscas interessantes. Gosto do que ele faz, mas o que ele faz não é o que eu faço. Tento fazer parecido, o resultado é bastante pobre. Ainda não sei ao certo o que faço, mas tenho algumas dicas já. Olho pra outras coisas. Os meninos perceberam isso logo quando apontaram pra uma janela com azulejos cheios de adornos e disseram “vai lá, Dora, essa foto é sua”. Era como se isso que existisse não fosse de propriedade de mais ninguém (um sentimento estranho, enfim). Eu gosto do abandono. De ruínas. De (im)permanências. E principalmente, de texturas. As cores – gosto delas até, mas – são meras consequências do que eu enxergo. Raramente penso em cores ou anseio por elas – ao contrário do meu colega. De tudo, a textura é o que mais me atrai. Sentir que posso tocar algo (ou sentir que posso ser tocada por esse algo, ao enxergá-lo). Isso responde algumas coisas.

Eu obedeço a texturas.

Posso passar por tudo, mas nunca passo por elas incólume.

E gosto, muito, disso.

Eu li em algum lugar que, quanto mais coisas você faz, mais rápido o tempo passa. Essa coisa de tempo e espaço tem sido diferente pra mim agora. Tenho pouco dos dois. Não sei como preenchê-los. Pareço nunca ter o suficiente de nenhum. Não tenho tempo pra pensar no que quero, não tenho espaço para as coisas que amo. Parece que eles me são subtraídos, roubados mesmo em alguns momentos, pelo passado, pelo que há, por arrependimentos que sequer deveriam existir. O que aconteceu, aconteceu e o que deveria importar é o agora, somente. Não há nada que eu possa fazer para fazer isso parar. Às vezes eu apenas gostaria que fosse fácil. Às vezes eu penso que não mereço tudo isso. Mas se eu vivesse fora disso, minha vida provavelmente teria ainda menos sentido do que tem hoje. Não tenho tempo pra fazer tudo o que eu quero, nem mesmo pra ter tudo o que eu quero. Queria um gato, mas não posso porque sou sozinha e não quero ser irresponsável. Tenho pensado demais, tenho sido impulsiva de menos. Tenho escolhido coisas demais. A impressão que eu tenho é de que o tempo é curto demais para continuar cometendo erros. Na verdade, não sei mesmo o que escolher. Então escolho o que estiver pela frente e me obrigo a pegar no tranco. Vejo coisas escapando de mim. Vejo que quero fazer mais, produzir mais, mas me vejo inerte, pensante. Dear prudence. Sinto um medo absurdo de viver, da vida, das coisas. Tenho medo de me machucar repetidamente e não suportar mais isso, em algum momento. Isso me paraliza, inibe qualquer tipo de desejo que eu tenha. Mas volta e meia acontece algo que me obriga a repensar tudo isso. A pensar que tudo isso, na verdade, não tem tanto problema. Quando alguém que você conhece morre tirando a própria vida é assim. É como se o suicídio metesse o pé no freio não só do outro, mas no seu também. São sentimentos confusos. “Como ela pôde?”. “Como eu queria!”. Essa morte criou um espaço pra que eu pudesse pensar, em mim, em coisas. Sua ausência criou um espaço em mim, me deu um tipo de tempo diferente deste o qual estou acostumada. Um tempo paralelo, toda vez que penso nela. Um tempo de “E se..”‘s, que insistem em ficar em loop na minha cabeça. Me fez repriorizar certas coisas. Esse final de semana, enquanto eu meditava sobre a sua morte – uma morte verdadeira, uma morte de fato, irrecuperável – eu consegui ser produtiva. Consegui fazer coisas que antes não havia motivação, ou era mais difícil que eu fizesse. É como se ela me dissesse, num tom suave como a voz que conheci: “Dora, você tem todo o tempo do mundo e estes espaços que você tem agora, são todos seus”. Tenho todo o tempo, tenho todo o espaço, tenho toda a angústia como ela também teve, só que a minha é suportável, tolerável, por hora. Só há falta de execução – minha própria, das coisas – na minha vida porque sou uma covarde. E deleto da minha vida tudo o que for espelho, todos os covardes que conheci são tipos errados de heróis, com os quais não mereço me identificar. Não são, não devem ser, dignos de empatia.

0

Comprei uma blusa de inverno cinza e usei ela hoje pela primeira vez. Estava frio de manhã e saí também com o cachecol vermelho. Atrasada, sempre. O dia passou como sempre passa. Caminhei pra onde sempre caminho, tento em vão manter o hábito de fumar pra prestar mais atenção na minha respiração. Ponho o pé no freio da rotina e relaxo, deixo suspensos meus pensamentos, subo pra aula.

a.

Vamos nos encontrar na estação Paulista? Cruzo os braços, acendo um cigarro. Recebo um abraço apertado quebra costelas, olhos sorrindo pra mim, cheios de curiosidade. A linguagem corporal é bastante óbvia. Eu nunca sou a primeira a encostar, eu nunca quero que seja real. Mas ela existe: a leve inclinação, os pés em andeor, o tênis ao lado do tênis, o olhar amistoso que o cigarro provoca, a química da nicotina na cabeça que desacelera, vulnerabiliza, lubrifica a conversa e a espera. Estou cansada, tenho um jantar pra fazer de almoço amanhã, tenho textos pra ler, coisas pra escrever e entramos no ônibus. Recosto minha cabeça no seu ombro e você faz cafuné em mim, suas mãos tremendo. Isso é completamente desnecessário, não precisa ser assim e então eu te beijo, protocolar. Eu queria – o beijo – mas queria acabar com aquilo também. Eu faço as coisas para acabar com elas. Falei no seu ouvido que vou ser um engodo, mas você não se importa, então tudo bem. De repente me aparece uma vontade de falar de tudo. Uma vontade de contar todas as coisas, que você saiba tudo sobre mim, pois é assim que sempre agi. E me sinto incrivelmente cansada, de repassar todas essas histórias na minha cabeça. Te poupo disso. Te poupo de cada uma delas. Não vou dizer nada, não vou contar nada, não sei nem o que é isso. Não quero mais saber de tudo, de todas as histórias, de tudo o que aconteceu. Engulo essas histórias, as mantenho pra mim. Você não merece, eu não mereço, ninguém merece. Te deixo na esquina, um abraço apertado e uma promessa a ser cumprida. Uma promessa efêmera, pois esse é o único tipo que ando disposta a aceitar.

e.

Você vai me levar até o topo de uma montanha deserta e querer que eu grite de lá de cima. É muito provável que eu o obedeça. Você faz coisas esquisitas quando está bêbado e estando comigo, você certamente estará bêbado (porque você é assim). Você falará numa língua que não entendo, você falará em várias línguas que eu não te entendo, você estará frio e eu finalmente poderei te entregar seu cachecol verde, preto e branco que fiz pra você. Queria sentir suas mãos apertando meus ombros enquanto você diz “que bom que você está aqui, vamos nos divertir”. Só isso seria o suficiente. Apenas isso e eu já poderia voltar pra casa.

d.

Provavelmente estarei alcoolizada porque sou tímida. Não tenho coragem para te dizer tudo o que eu gostaria de te dizer. Vou me restringir a manter uma distância saudável, apesar de querer te abraçar. Acho que você é a única pessoa que eu sinto vontade de abraçar e dizer que tudo pode ficar bem. Note: tudo pode não é garantia de que tudo irá, lindinho. Quero descobrir a linguagem que pode falar ao seu coração. Mas sou atrapalhada com essas coisas e sei que não vou descobrir nada. Mas estarei perto. E estarei por perto. Sempre a uma palavra de conforto à distância. É o que importa.

c.

Quando eu chegar em Bruxelas, vai ser diferente de como foi no Rio daquela vez. Você vai estar me esperando com uma plaquinha no aeroporto e provavelmente como conhece melhor a região, já vamos ter marcado de comprar as passagens direto pra Holanda. Não vamos poder perder tempo porque eu vou estar de passagem, mas vamos andar de bicicleta e passear por alguns lugares desconhecidos num lugar desconhecido. Só quero que você, como um bom moço, me leve ao Red Lights District. Mas também quero reservar um dia inteiro só pra ficarmos só trancados no quarto do hostel fumando maconha e procurando um ao outro entre os lençóis. Clichê, mas a vida inteira é um clichê muito do mal feito então não estamos perdendo nada aqui. Nota importante: não deveremos ter nenhum tipo de restrição moral, independente da época em que isso acontecer e do contexto de nossas vidas.

b.

Vocês raramente se atrasam. Chegam juntos e eu não sei bem como agir. Nunca soube. Falam sobre o trânsito, falam sobre um possível atraso, falam sobre algo de um cotidiano particular que não me pertence. Que jamais irá me pertencer. Sinto um bem querer no peito toda vez que os observo. A mera existência de vocês me faz acreditar que coisas boas ainda podem existir, não pra mim, mas no mundo. Os olho com o olhar mais terno que consigo fazer e isso é notado por vocês e por quem nos observa. Me faço então adaptável em sentidos que eu jamais imaginava ser, e em situações onde isso é demandado de mim. Minha voz fica ora mais grave, ora mais aguda, me sinto um experimento entre quatro mãos, me sinto uma experiência. Sou a melhor experiência de mim mesma, entre vocês. Vocês podem atuar para o mundo todo, mas não precisam atuar pra mim. Me dissolvo inteira dentro de um olhar meigo e de um sorriso tímido, dentro de toda a suavidade que é possível. Me reafirmo quando sou posta contra a parede e um olhar me observa, nos observa, severo, intacto, pleno, quase satisfeito. Convivo entre vocês, por um segundo, por alguns momentos, pela eternidade.

 

 

Várias coisas na minha vida são mentiras, minha identidade inclusive. A forma como resolvi me constituir também não tem sido verdadeira a mim mesma. Sofro com isso, mas decido conscientemente viver um dia após o outro apesar de tudo. Meu currículo de vida é esse, e isso não é algo do qual simplesmente consigo me livrar. Ninguém consegue. Fui dormir me sentindo culpada a troco de nada e sonhei com você. Tudo o que fiz foi consciente dessa vez, não deveria existir culpa. Mas existiu, em algum lugar. É algum resquício, de alguma coisa, que deve ser removido também em breve, em alguns meses. Preciso arrumar espaço para isso, também. No sonho eu te pedia permissão para alguma coisa. Lembro que eu ria enquanto pedia permissão. Ria porque isso não fazia sentido nenhum, absolutamente. Apenas fui advertida que eu não deveria fazer o que eu iria fazer, quando acordasse. “Quem é você pra me dizer o que fazer ou não? Ou para me dar qualquer tipo de lição?”, te perguntei. A relação de poder estava muito clara ali, mais clara do que jamais esteve. O ódio – ressentimento, raiva, mágoa, etc. – se colocava como preocupação e é assim que funciona. Já a algum tempo percebo esses detalhes, acredito que fiquem cada vez mais nítidos de perceber com a idade. É através deles que as pessoas se denunciam, deixam escapar verdades inteiras suprimidas, não ditas, escondidas de si mesmos, dos outros. Aprendo, aos poucos, que existe mais de um tipo de mentira. Que a mentira é plural, cheia de conectividades e que se alastra rapidamente, como uma rede neural, tanto interna quanto externamente. Coisas que queremos acreditar. Coisas que gostamos de acreditar só porque nos fazem bem. Mas que se dissolvem com o tempo, com os dias. Como tudo. Volto então para um lugar de onde jamais deveria ter saído. Te disse que não podia mais ficar, que precisava ir e você não fez nada (nunca fez). Abri a porta, coloquei minhas mãos para trás. Não invadi nenhum espaço vital, eu nunca invado, não sou assim. Permaneço distante, sempre. Apenas olho, observo, sobre-encosto, percebo tremores, me alimento de hálitos, do que não existe, do que é falso, do que é mentira. Acordo novamente. Ela me olha, me vê e já sabe quem eu sou. Me chama de ‘colecionadora de intangíveis’ e esse posto sempre me apeteceu. Coleciono memórias fragilizadas. Coleciono atos efêmeros. Coleciono pessoas que jamais existiram, pois eu mesma jamais existi pra elas. Jamais fui real. A esta altura, acredito que jamais vá ser algum dia. Apenas me afasto e observo as árvores.

E elas são perfeitas.

I think I keep saying

I’m old

and I keep saying

I’m tired

as an excuse

for not doing

what I should be doing

from my life.

 

I keep doing that

to keep myself

from the best

I know I can

be.

a.

Esses dias uma conhecida mais velha e mais sábia que eu, me perguntou “se você pudesse se livrar de uma dor, qualquer dor, você gostaria de livrar-se dela ou mantê-la?”. Não tentei dar uma resposta óbvia e pronta pra uma pergunta aparentemente imbecil. Ela falava de uma cisma, de uma dependência e não necessariamente de uma dor física. Era possível englobar uma série de coisas, imaginei. É claro que ninguém conscientemente quer permanecer, indeterminadamente, com dor alguma seja ela subjetiva ou nem tanto. Pensei um pouco e, na minha infindável e infinita ingenuidade, decidi que não queria, mesmo, permanecer com a dor. Que preferia me livrar dela pra assim viver melhor. Que preferia que ela passasse, sumisse, desaparecesse. Porque viver com dor é mesmo muito ruim. Em sua sabedoria, ela apenas me desejou sorte e que a minha dor finalmente se aplacasse algum dia.

b.

Sou bastante cética e quase sempre que consigo, desconfiada. Desde que vim morar na Liberdade, nas lojas que frequento via um produto que prometia tirar qualquer tipo de cheiro da sua mão. Não era caro e era bem simples: um sabonete de inox, onde só era necessário lavar com água fria pra tirar o cheiro das mãos. Cozinho quase sempre aos finais de semana e utilizo muito alho e cebola. O alho particularmente deixa um cheiro muito forte nos dedos, difícil mesmo até de tirar com sabonete comum. É um cheiro que demora dias pra sair. Demorei meses até me decidir por comprar o sabonete de inox. Não acreditava na mágica que a propaganda dizia que faria, mas acabou que era sim verdade. Descobri também que esse sabonete tirava outros odores das mãos como por exemplo o de água sanitária. Achei incrível, esse sabonete. Tive vontade de comprá-lo para pessoas que gosto muito e que também cozinham, mas não entendia porque jamais o fiz. Mantenho esse ‘sabonete’ na porta da geladeira, pra uma melhor eficiência na hora que eu for usá-lo. Ele deixa um cheiro ferroso nas mãos, que pode facilmente ser tirado com sabonete comum e aí sim a mão fica super limpa. Hoje percebi que, de alguns tempos pra cá – não sei precisar exatamente quando – quando estou usando o computador ou fazendo alguma outra coisa com as mãos, percebo sensivelmente que o cheiro de alho está ali. Acho muito desagradável na hora, mas nada faço. Não é o sabonete de inox que está deixando de fazer efeito. Eu estou parando de usá-lo. Por que isso acontece?

c.

Quando eu era adolescente, antes de tudo, antes da internet fora da internet, antes da internet ser banida da internet, eu visitava sites que me fizeram eu me acostumar com as piores coisas já vistas pela humanidade. Era praticamente um Videodrome: vídeos, fotos, imagens, tudo possível e imaginável do PIOR que o ser humano é capaz de realizar passava pela minha retina inabalável. Tudo aquilo começou a se banalizar pra mim e a se internalizar com tanta força à quem eu estava me tornando (eu estava em formação, era nova) que fui percebendo, aos poucos, que talvez eu não devesse ser tão curiosa em relação a coisas tão, tão obscuras. Mas como sempre, eu sempre acabo indo longe demais. I love to hit rock bottomChegou um momento em que eu não sentia mais nada, onde cheguei ao niilismo total. Não sentia choque, não sentia nojo, não sentia tristeza. Tinha sonhos surreais onde eu assassinava gente e acordava como se nada tivesse me acontecido. Imaginava que se um dia alguém se matasse na minha frente, eu possivelmente não daria a mínima. Qualquer situação extrema jamais era extrema o suficiente pra mim. Me tornei uma adolescente insatisfeita e entediada, que estava sempre querendo mais, quanto mais depravado melhor, quanto pior melhor. Tudo que não fosse muito doentio era um tédio pra mim. Mas ao mesmo tempo que eu me entediava algo muito mais aterrador acontecia dentro de mim: eu simplesmente entendia, dentro de mim, que tudo aquilo que eu via e consumia não podia – e não iria – mudar. Nem parar. Aprendi isso cedo demais, rápido demais. As coisas não mudam: sempre parecem outras na superfície, sempre são as mesmas na essência. Sabemos disso. Deixei de sentir horror e estar consciente disso era horrorizante pra mim. Queria sentir as coisas novamente. Queria sentir qualquer coisa novamente. Queria me sentir mais humana. Queria me permitir sentir compaixão e empatia pelos outros, pelas coisas, por tudo. Foi uma escolha, possivelmente uma das decisões mais conscientes que tomei, tão cedo. E isso só seria possível se eu rompesse com esse padrão de consumo de mortes, torturas, abusos, violações. Tudo de pior já produzido pelos piores homens do mundo. Pensei que fosse ser mais difícil do que foi. Esse mundo ruiu para mim e voltei a me tornar uma pessoa temente à tudo, assustada, cheia de horrores, com toda a carga emocional que a insegurança que uma vida adulta traz a uma vida jovem. No entanto, algumas coisas jamais mudam.

Eu ainda sou aquela que não abala o olhar.

(quando me presto a enxergar algo)

a.

Esses dias eu tive um sonho com mapas, mas não foi um sonho comum. Nunca olhei pra mapas direito, preferia prestar atenção nas cores utilizadas para diferenciar Estados em mapas políticos. Ficava observando os contornos das limitações pra entender ou imaginar com o quê aqueles Estados todos se pareciam. Foi assim que aprendi a pintar também, segurava a canetinha com firmeza e demarcava os contornos exatos do que quer que fosse. E depois que o contorno estivesse perfeito eu o preenchia com cores, com as que gostava mais. Sempre me preocupei com a forma, desde criança. E geralmente me apaixono por quem me mostra o oposto disso. A última vez que vi um mapa cometi um erro. Não me constrangi. A pessoa não se constrangeu, também, em me ensinar. Foi uma história breve e bonita, como todas deveriam ser.

b.

Hoje me falaram que alguém que conheço tem câncer nas duas mamas. A notícia veio pra mim como um soco no estômago. A vida é irônica: ela é médica. “Ela devia saber”. A operação será na sexta e então será iniciado o tratamento com quimio. Me senti arrasada. Nunca sei o que dizer em momentos como esse então prefiro não dizer nada. Senti como se fosse comigo. Me senti mal mesmo. Pensei as coisas mais óbvias e estúpidas, como sempre penso, ‘mas ela é tão nova’, ‘ela ainda em uma filha’, ‘como assim isso aconteceu só agora?’. Senti tristeza. Senti como se todos os meus problemas, as minhas angústias realmente não significassem nada. Ela terá os melhores médicos à disposição, será bem tratada, será cuidada, por todos. Mas ainda não consigo tratar isso como algo leve, assistindo de fora. Assistir de fora mesmo sabendo que a pessoa terá toda a assistência e carinho do mundo me parece muito mais difícil do que se eu tivesse que enfrentar o problema, sozinha, como quase sempre enfrento todos os meus problemas.  Talvez se fosse comigo eu tentaria reagir melhor, não me preocuparia tanto, não tenho filha, não tenho marido, só meus pais me amam, não faria tanta diferença, não seria necessário o drama. Tenho minhas próprias demarcações. 

c.

Lembra que te falei sobre um primo meu que abandonou a namorada de 10 anos para se casar com outra mulher em outro estado? Não só casou, como teve um filho, constituiu família, etc. A loucura foi tanta – atravessar Estado, abandonar família, largar namorada – que eu realmente acreditei que ele fosse ser feliz pra sempre. Eu acredito em coisas demais. Ele veio falar comigo hoje, dizendo que voltou pra casa e está em processo de separação. Isso acabou comigo. Como assim? O relacionamento dele parecia perfeito. Mas aparentemente, a auto-estima dele está em frangalhos – o que geralmente acontece quando um relacionamento termina. Ficou me dizendo que se sente todo errado, mas que quer ser uma pessoa melhor, se vestir melhor, falar melhor, ler mais. Me diz que precisa “correr atrás do tempo perdido”. Perguntei a ele: que tempo perdido, primo? Não há tempo perdido. Não há nada perdido. O que existe, agora, são escolhas. E agora você está escolhendo ser alguém diferente. Quer experimentar isso. Não será melhor, nem pior: será uma outra situação. E eu estou aqui, se você precisar. Segure firme. Não sinta pena de si mesmo. E não se sinta errado, nunca, pois você não fez nada de errado. Você já é uma pessoa ótima. Você é o melhor que pode ser.

a.

Sonhei com um mapa fantasma, que aparecia em mim, na minha pele inteira. Existiam contornos nos meus braços e seios, costas e barriga. Mas eram contornos sutis, só eu parecia enxergar que eles estavam lá. Era como se em meu corpo existisse uma espécie de bicho geográfico. Sei que isso é uma micose, uma doença, mas era isso o que existia em mim, no sonho. Como se algo me habitasse… Uma alma, um fantasma. E meu corpo não era finito. E a micose, o mapa, se expandia pelo meu corpo de acordo com as relações que eu ia tendo. Eu me relacionava e apareciam lugares diferentes, diferentes contornos, mas não desse mundo que conhecemos. Era algo que se expandia pra sempre, que não tinha fim – o que me angustiava durante o sonho também, porque eu sempre queria mais e eu nunca estava satisfeita. Sempre haveria mais alguma parte, mais algum canto, mais algum espaço que eu pudesse preencher, que pudesse ser preenchido. A angústia era tanto que eu queria que aquilo, aquela doença, aquele mapa, me consumisse inteira, consumisse toda a minha pele, que não houvesse mais espaço em mim para

contornos,

fronteiras,

demarcações.

Queria algo que não tivesse mais fim. Algo que me extrapolasse. Um lugar onde eu não pudesse perder. Quis morrer, no sonho. E no meio dessa fantasia de dissolução, dessa angústia perturbadora, dessa quase morte onírica, me apareceram duas perguntas: 

O que resta, depois disso?

(resíduos, detritos)

&

Você não pode matar um fantasma, pode?

perhapsperhapsperhaps

Sentei naquela poltrona que até agora não sei se é confortável ou não. Talvez o ambiente faz com que ela fique mais confortável. Não sei se é pra ser confortável, também. Ian pediu que eu esperasse, pois ele estava terminando de ler um livro. Não sei se fez isso pra me testar, pra ver se eu achava rude ou porque ele é assim mesmo. Talvez os dois. Tive vergonha de perguntar qual era e sobre o que era o livro. Não é possível ver a capa de nenhum dos livros que ele possui. Ele diz que ficar olhando capas de livros é “coisa de imbecil”. Nem ousei perguntar como ele faz então pra ter tantos, de qualquer forma. Ele produz as capas de seus próprios livros, todos com pinturas abstratas, com um acabamento excelente, mas sem nenhum design gráfico, sem letras, nem indicação nenhuma de título ou autoria. Nada. Ele nunca organiza nada na casa dele. Mas a sua sala de estar me causa uma comoção completamente censurável. São várias estantes de livros, todos encapados com pinturas abstratas. Não é uma simples estante: são quadros. São quadros infinitos. Vários livros vivem jogados, mas o jogo é esse: as estantes não tem livros, tem cores… E se iluminam… E obscurecem de acordo às vezes com uma vontade, às vezes de acordo com uma aleatoriedade, sem muita previsibilidade, dependendo do tempo, da vontade, da displicência do Ian. Quero decifrar essa pessoa, mas sei que jamais conseguirei: o jogo é esse. Pensei que pudesse existir um padrão entre as cores utilizadas e os temas, alguma correlação do tipo, mas não. É caótico mesmo, tudo escolhido ao bel prazer dele. Olhava pela janela da sala e o sol se punha em São Paulo, nas minhas cores preferidas, laranja e cinza. As pessoas gostam de olhar as bibliotecas dos outros, os livros dos outros e pensei nisso essa semana eventualmente. Estava pensando se existe alguma norma ISO ou NBR que padronize lombadas. Veja bem, toda vez que vamos pesquisar livros numa estante pelas lombadas acabamos exercitando nosso pescoço: cada lombada é virada pra um lado, não existe mesmo uma formatação padronizada, onde podemos identificar o item rapidamente. Para Ian, pressa parece ser só mais uma palavra. Estava pensando no meu problema com as lombadas dos livros quando ele sentou na poltrona à minha frente e me disse: “Você é muito óbvia, Dora… Sabia? E a sua obviedade te faz mesquinha”. Leu mais alguma coisa no livro que folheava e me disse: “Seja menos mesquinha, você só tem a ganhar com isso”. Eu não soube o que pensar. Ele fala de um jeito… E me olha de um jeito. Mas não me deixo intimidar. Ele me faz pensar que realmente o colar mais bonito que eu poderia vestir são mãos estrangulando o meu pescoço.

Sonhei que estava ouvindo música na rua e que enquanto eu andava – da rua pro ônibus, do ônibus pro metrô, do metrô pra rua de novo, etc. – as pessoas por quem eu passava cantavam as músicas que eu estava ouvindo no momento. E eu pensava ‘que droga, eu não quero ouvir as pessoas, quero ouvir as músicas’. Geralmente a gente ouve música na rua pra se isolar do mundo e das pessoas a nossa volta, não precisar responder a nada, etc. Eu me irritava com o fato de que todo e qualquer rosto que passasse por mim estivesse dublando as músicas que eu estava ouvindo. Por isso tirei o fone de ouvido por um momento e aí tudo parou. E ficou um silêncio absurdo, ninguém falava nada, não havia nem o barulho da cidade, nada. Colocava o fone de ouvido de novo e para cada rosto que eu olhava lá tava a pessoa de novo dublando a música que eu ouvia. Ainda preciso pensar mais sobre esse sonho.

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