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Egotrip

I

Essa noite eu tive um sonho com o meu antigo trabalho. Sonhei que me chamavam até lá para algum tipo de atividade que eu deveria executar e eu me esforçava e ia, e aí quando eu chegava lá me diziam que não precisavam mais de mim. Me lembro que no sonho me senti bastante frustrada com isso mas no entanto eu fiquei lá. Eu não ia embora daquele lugar e ficava olhando as pessoas. Foi uma sensação bem esquisita e tão, tão familiar. Eu não era necessária ali mas esse fato não parecia me importar muito. No sonho isso não me importou muito, mas fiquei estarrecida com isso quando pensei no sonho, várias vezes ao dia. É como se em algum nível eu não me importasse em ser completamente inútil. Ou ainda, como se eu quisesse isso. No caso do sonho, o contexto não era exatamente muito feliz. O antigo trabalho me demandava coisas, posturas, entregas, resultados. Não podia me dar ao luxo de ser inútil ali. Mas no sonho eu era, eu fui. Tentei ignorar esse sonho conscientemente o dia todo – talvez porque ele tenha me deixado triste – e falhei. Várias vezes ele voltava pra mim, indicando algo. Até eu resolver escrever sobre ele por aqui e tentar juntar alguns pontos.

II

Hoje me deparei fazendo uma pergunta bem imbecil para uma colega experiente. Me senti imbecil bem logo depois de ter terminado a pergunta. Não tive tempo de me conter e não fazê-la. Me dei conta então de que tenho feito uma série de perguntas bem imbecis pra várias pessoas, geralmente esperando respostas sim/não quando na verdade, a vida é muito, mas MUITO mais complexa que isso. Como se uma resposta sim ou não fosse resolver os meus problemas ou qualquer problema que o valha. Aliás, esta é uma questão séria para mim: eu preciso PARAR de querer resolver as coisas, por algum tempo. Vou um pouco mais longe: eu preciso começar a não só não querer resolver as coisas, mas o exato oposto disso, adicionar ainda mais complexidade à elas. Não complicá-las, não fazer tudo errado, nem nada desse tipo – porque eu não sou assim, esta não sou eu. Mas me deslocar deste lugar onde estou, há anos. Praticar um pouco a tal da porra da alteridade. Observar mais. Entender, com calma, sem pressa, sem necessidade de resultados exatos, precisos, corretos, os porquês de as coisas de desdobrarem e como as coisas se desdobram. Eu tenho feito as perguntas erradas. E, obviamente, nenhuma resposta vai me satisfazer deste jeito. Claro. E eu sinto medo de uma série de coisas, parece. Isso me gera a famigerada travação. Não física, nem nada, mas de ação, mesmo. E a quem eu quero enganar mesmo, eu não estou contemplando porra alguma. Eu simplesmente não estou fazendo o que deveria estar fazendo.

III

Eu caí duas vezes de moto. As duas vezes foram no estacionamento, quando tive que sair de casa. E nas duas vezes eu precisava acelerar e na hora, por algum motivo que desconheço, eu me assustava, freava e caía. Não era pra frear, era pra acelerar, porra, eu estava em subida! Mas enfim, eu parava de acelerar, a moto morria e eu caía. Assim foi, duas vezes. Até então não tive nenhum acidente no trânsito, só estes mesmo. O problema da aceleração pra mim vem desde as primeiras aulas que tive de moto, do processo inicial de aprendizagem. Eu tenho, tive, medo de acelerar. Medo do barulho do acelerador, do próprio ronco da moto. Medo de uma máquina viva, explodindo continuamente, bem debaixo da minha virilha. Medo de perder o controle e me acidentar ou ainda pior, machucar os outros. Acelerei muito pouco nas aulas, é verdade. Tenho acelerado bem mais no trânsito, enquanto rodo e me acostumado mais com isso. Mas o que essas duas quedas ridículas no estacionamento me ensinaram foi que aceleração não implica em velocidade. E que sim, a aceleração é barulhenta mesmo, não tem muito jeito de ser diferente disso, é melhor eu me acostumar. E que numa subida, num caminho que me leva efetivamente pra cima, se eu não acelerar, eu também posso me acidentar. E possivelmente machucar outros também. Hoje em dia, quando pego um túnel e existe uma subida onde preciso acelerar, eu geralmente grito, pois isso me ajuda a manter a aceleração sem hesitar. Isso me ajuda a perder, mesmo que seja um pouco e por alguns momentos, o controle. E assim, paradoxalmente, a manter o equilíbrio.

IV

Eu preciso escrever e não consigo escrever. Passei o dia todo procrastinando, olhando as telas. Não li nem uma linha sequer. Não escrevi nem uma linha sequer. Tento me convencer de que preciso de uma estrutura e no momento ela é ausente. Não tenho a mínima ideia sobre o quê falar – como se eu não tivesse nada a dizer. Tenho coisa pra caralho pra dizer, mas não sei como, não sei por onde começar. Insisto que preciso de uma estrutura. Dou conta de fazer ainda pior: insisto que o que eu preciso escrever precisa ser FUNCIONAL e que precisa ser usado posteriormente, inevitavelmente, pois não quero “perder tempo”. Que tempo? Tempo do quê? Perder o quê? Enfim. Segundo eu mesma, o artigo que preciso escrever, precisa ter uma exata estrutura, abordar tais e tais assuntos, se encaixar em determinado contexto e, para mim, só assim eu vou ter feito um bom trabalho. E eu estou tão puta comigo mesma por pensar assim. Tão incrivelmente puta. Eu estou definitivamente com raiva disso, de mim. Agindo desse jeito eu estou simplesmente matando o meu próprio trabalho, matando qualquer tipo de espontaneidade e inviabilizando qualquer tipo de criatividade. Tá tudo errado. Eu preciso abrir mão disso. Não existe estrutura e não vai existir à priori. Querer ser funcional é uma verdadeira derrota pra qualquer tipo de pensamento que se preze. E no fundo, no fundo, eu já sei o que fazer. Eu sei exatamente o que fazer. Eu só estou com medo. Mas agora eu estou com mais raiva do que medo. E assim eu sei que vai ser mais fácil eu me movimentar em direção de qualquer coisa.

 

 

Li alguma vez em algum lugar sobre um método de tortura chamado “o quarto branco”. Ele é considerado o pior método de tortura de todos os tempos. Esses dias saí do metrô Liberdade sem conseguir respirar direito. Estou sempre fugindo de alguma coisa, nunca sei ao certo do que é. Minha essência é escapista, desde sempre. Esses dias, antes de viajar pra Campo Grande, contabilizei a quantidade de coisas das quais já consegui fugir com sucesso. Não sei se exatamente me orgulho de todas. Acho que não, não são feitos que brado por aí. Apenas reconheço. Já me falaram que eu pareço uma prisioneira, desde sempre. Ainda me identifico com isso. Nesse dia, subindo as escadas para fora da estação Liberdade, me dei conta do porquê dessa identificação persistente. Morei com meus pais por 23 anos. Por pelo menos 13 anos destes 23, morei num quarto sem janelas.

No quarto branco não fazem nada fisicamente com a pessoa em questão. Apenas a isolam de contato humano em um quarto branco e tudo o que oferecem a ela de comida, roupa, tudo o que for externo, também é branco. Só comecei a sair de casa aos 15 porque eu fugia dos meus pais super protetores. Era tudo muito, muito difícil. Inclusive fisiologicamente, só fui diagnosticada com hipotireoidismo aos 22 e não me tratei por muitos anos. A doença me fazia entrar num quadro ainda mais mórbido e depressivo, me oferecendo entre outros sintomas uma taquicardia repentina, letargia, enfastiamento, etc. Não queria tomar o remédio, aquilo era pra idosos, eu não merecia esse tipo de castigo. Só comecei a tomar o remédio religiosamente aos 27. Saí de casa aos 23 pois não haveria outra alternativa a não ser isso. E todos sabiam. Todos sentiam.

Nunca precisei colocar nada em palavras: jamais duvidavam da minha inconsequência e preferiram evitar qualquer desgraça.

As pessoas que passaram por esse tipo de tortura dizem que mesmo depois de libertadas do quarto branco jamais retornam a se sentir verdadeiramente livres, pois tudo o que é branco lhes remete à prisão. Desde que tive um teto meu, um teto próprio, tenho gosto por ficar em casa. Tudo comigo acontece muito lentamente, as aceitações, as mudanças, qualquer tipo de transformação. Eu demoro. Em Floripa lembro que ficava deitada na cama, olhando pro céu lá fora pela janela, observando as nuvens passarem, vendo o dia se acabar na minha frente, eu, impotente. A impressão que tinha era a de que jamais sairia dali. Até hoje não sei se, secretamente, eu não queria mesmo sair dali. Eu nunca sei. Mas queria e não sabia. Soube sob pressão e vim porque, desta vez, eu tinha alternativa. Mas tudo acaba por me sufocar com o tempo.

Sinto, muitas vezes, que minha estrutura de vida seja um tanto quanto similar ao quarto branco, em certa medida. Subindo as escadas da Liberdade – e morar neste bairro, para mim, hoje é a maior ironia de todas – senti uma grande melancolia, com uma certa ponta de angústia, sem saber o porquê direito. Cada degrau, escada acima, a epifania que abria minha consciência me fazia desfalecer. Confundo meus piores traumas com partes da minha identidade hoje em dia. Sinto repulsa de coisas com as quais sou, na verdade, intimamente familiarizada. Sou feita disso tudo, são partes inegáveis de mim. Me senti presa, novamente. Acho que senti, pela primeira vez, que não tenho, e nem terei, escapatória. Eu não deveria sentir tanto medo. Eu não sinto. Eu só queria que tudo isso passasse. E às vezes até isso é cansativo demais.

Mas talvez eu esteja condenada à isto. Talvez isto faça parte do meu currículo.

E talvez não exista sequer propósito em escapar.

Quando eu te abracei, eu nunca mais quis te soltar. E te apertei, com muita força. Queria exaurir todo o calor do seu abraço. Encostei minha cabeça no seu peito, pra ouvir as batidas do seu coração. Pra saber, entender, que você era vivo e estava ali, para mim. Não queria nunca mais te soltar. Não queria nunca mais sair daquele abraço. Fomos nos soltando aos poucos e você segurou meu rosto com suas mãos, dizendo “eu quero olhar pra você, quero olhar pra você, inteira”. E você olhou pra mim. “Você é perfeita”. Meus olhos brilhavam, não conseguia sequer respirar direito, você olhou nos meus olhos e sorriu, sem palavras. Não queria sair daquele momento e me entristeceu ter de fazê-lo.

(…)

A sensação que tenho é a de que tudo é uma corrida, meio que sem propósito. Estamos juntos, mas nunca estamos efetivamente juntos. Corremos, com a impressão de estarmos indo em direção um ao outro. Com a impressão de que, se corrermos o suficiente, em algum momento, em determinado momento estaremos próximos, estaremos juntos de verdade. Estaremos suficientemente juntos. Entendemos que nada disso é verdade. Não buscamos por um propósito ou propósitos, apenas seguida e repetidamente por significados tão efêmeros quanto essa linha de chegada imaginária, a qual pensamos ter vencido – e que sequer existe. Somos animais e sabemos disso. É uma corrida violenta por sobrevivência, por nutrição, por medo da morte, por medo da vida. E quanto maior for o medo da separação, da falta de conexão, mais violenta. E evidentemente, nos contraímos, nos afastamos. É involuntário. É natural. Bem como o que terminamos por sentir logo após a corrida termina.

(…)

Quando eu era mais nova, eu fugia de casa, dos meus pais, para me encontrar com o meu namorado na época. Até meus 15 anos, meus pais não me deixavam sair de casa e muito menos tomar ônibus sozinha. Era uma vida difícil, de prisão domiciliar mesmo. Com 16, quando comecei a namorar (escondido obviamente), eu fugia. Esperava eles dormirem, pegava a chave e saía andando à noite pela cidade, até chegar na casa do meu namorado que devia ficar cerca de 2,5km de distância da minha casa. Minha casa era, inteira, uma armadilha. Tudo precisava ser calculado e pensado. Meu quarto era em cima do quarto dos meus pais então eles ouviam cada passo meu. Quando eu me levantava da minha cama, a única coisa possível de ouvir em casa era a minha respiração. Tudo, do início ao fim, era um exercício de escuta do ambiente. Minha respiração era a primeira coisa que eu ouvia. A segunda, era o ronco do meu pai. Tirava o pijama, colocava uma roupa, pegava a mochila e o uniforme do colégio para o outro dia – estudávamos na mesma escola. Ía, pé ante pé, até a porta do meu quarto e girava a maçaneta de forma a não fazer barulho algum. Não sei como conseguia isso, mas conseguia. A escada da minha casa era de madeira e sempre, sempre rangia ao longo da noite. Descê-la era complicado, ela ficava próxima ao quarto dos meus pais e eles tinham o sono leve. Eu descia as escadas de meias, com os tênis na mão, para que eu fizesse o mínimo de ruído possível. Mal conseguia respirar ou ouvir minha respiração. Descer as escadas de dia era rápido, mas nas madrugadas durava uma eternidade, provavelmente era a parte mais difícil de tudo. Além disso eu ainda tinha que passar por mais uma porta, trancada, antes de ganhar a rua. Depois de ter descido, precisava girar um molho de chaves e uma maçaneta de forma a não haver ruído algum, o que era quase impossível. Quando eu fechava a última porta, sempre ficava com a impressão de que algum deles acordaria e não me encontraria no quarto. Ou me pegaria no flagra e me questionaria, fazendo algum escândalo. Isso nunca aconteceu. Talvez eles soubessem e percebessem, talvez não. Eu ganhava o portãozinho de casa e a rua, e aí andava com passos apressados até o centro da cidade. Corria, até. De noite. No frio. Em ruas escuras e mal iluminadas. Disso, eu não sentia medo. Nunca senti. Porque tudo fazia sentido assim que eu chegava.

(…)

Cada passo que dou, é como se o chão surgisse sob meus pés naquele exato momento. Como se a realidade fosse sendo criada a partir dos meus passos. Todos os dias, para onde quer que eu vá, uma nova realidade se faz.

A marcha é tudo o que há.

(…)

Não quero sair desse momento. Nunca mais.

por Leah Reich

Alguém me disse uma vez que sentir vontade de uma coisa em particular é a forma do seu corpo te dizer informações importantes. Você quer açúcar porque você tem comido muito disso. Você quer carne vermelha porque você está com pouco ferro. Você quer verduras verdes porque passou duas semanas no final do ano comendo comidas de natal e ano novo. Você quer comer uma panela inteira de purê para preencher o vazio onde estava o seu coração. Você quer o que é ruim pra você, você quer o que é bom pra você, você quer acessar o conhecimento enterrado profundamente em seu sangue e ossos. Você olha as células de soslaio, como se o DNA estivesse impresso nele como uma lista de ingredientes.

Mas um corpo pode te falar de outros tipos de fome. E se em minhas juntas eu posso sentir uma dor por uma cidade? E se os meus tendões são feitos não de tecidos conectores mas de um desejo-tricotado por uma pessoa? E se não for sangue o que corre pelas minhas veias mas os resquícios derretidos de tudo o que eu nunca deixei pra trás?

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Um amigo escreve pra mim: “Muitas vezes eu me pergunto se você seria, poderia ser sido mais você mesma se você tivesse crescido em outro lugar”.

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O eu que sou é um eu muito particular, construído através do tempo de qualquer número de partes, muitas das quais são produtos inconfundíveis do meu ambiente. Não todos. Em outro lugar eu teria sido rebelde e falastrona. Em qualquer outro lugar eu teria sido uma bola de sorvete, rápida para amaciar e com uma grande fita de melancolia correndo através do meu núcleo. Mas eu imagino os outros. Como aquela parte de mim que sentiu tão profundamente a distância entre eu e os outros. A parte que precisava fechar a distância, não importando o risco ou o que era requerido que fosse feito. Eu ia querer isso não importando onde estivesse?

O que é a necessidade, de qualquer modo. Se o seu corpo te diz que precisa de algo, como você pode ter certeza que é necessidade e não querer? Necessidade e não vã fantasia? Necessidade e não um passe de mágica, ou de estômago ou de coração?

Ou talvez o problema com o corpo e seus quereres e necessidades é em como você pode saber qual deles ouvir. Como você pode saber qual é o certo e qual irá te levar ladeira abaixo ao longo caminho distante de onde quer que você estaria, poderia estar.

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Meu corpo me diz coisas, mas eu não ouço. Meu coração, vísceras, mente. Todos tem vozes altas, altas o bastante que às vezes eu imagino se tem alguém perto de mim que possa ouvi-las quando elas reclamam em uníssono. Mas tão altas quanto elas sejam como elas podem se equiparar à memória muscular, pelo desejo de seguir o mesmo caminho, de novo e de novo, por açúcar e sal e aço e pele.

Em 2013 eu fiquei na merda no segundo semestre. Muito na merda. Aconteceu tudo ao mesmo tempo: perdi o emprego, rompi com alguém e fiquei doente. A desgraça, quando ela vem, nunca é pouca. “Você precisa ter amor próprio”, falavam pra mim, a vida inteira. Grandes merda amor próprio, eu pensava. O ano acabou e eu acabei junto com ele, na merda. Mas sabia que podia ser diferente e queria sair daquela situação. Em 2014 foi o ano de me recompôr. De ficar de pé de novo. A única forma que ousei começar a andar um pouquinho foi fazendo uma especialização. Foi bom. Não andei muito, mas recuperei minha dignidade. Já estava de pé novamente. E o ano terminou com fim de ciclos e mudanças, boas e drásticas. Ainda não tinha amor próprio porque não tinha muito tempo pra pensar nisso. O ano de 2015 foi corrido. Não vi passar. Muita coisa pra fazer. Arrisco dizer que foi um ano muito bom sim, produtivo. Foi um ano que gostei, sim. Fiz um pouquinho mais de coisas por mim, virei especialista, foi foda – no bom e no mau sentido. No começo de 2016 pude enfim descansar da tormenta de 2015 e pensar um pouco mais em mim. No tal do ‘amor próprio’, essas coisas. Mas sou rasa, entendo tudo errado, não sei das coisas. Não sei o que é amor, não sei o que é amar, de verdade. Não sei como fazer essas coisas. O próprio conceito de amor é algo que me irrita. Pra mim, amor próprio até então se tratava de eu fazer tudo o que sempre quis, o que mais gostei, o que mais gosto e gostava, independente de qualquer outra coisa no mundo. Ter amor próprio significava não ter imposição de limites de nenhum tipo. Era ser livre à exaustão e eu nunca tinha experimentado isso antes. Tinha apenas um vislumbre de como poderia ser. E tinha medo, também. Mas não consigo passar por nenhuma experiência sem fazer com que ela seja exagerada, sem fazer com que ela proceda à exaustão. E então, neste ano, no mês de março, andando já com as minhas próprias pernas, eu virei a chave e me mimei o máximo que pude. Me dei tudo o que eu podia. Me dei tudo que nunca, jamais me deram. Me dei o que sempre me foi negado. Eu estive presente em todos os momentos em que me rejeitaram. Fiz o diabo e eu não me cansava de me agradar. Isso durou o mês do meu aniversário inteiro… E foi bom. Até que eu saísse pela outra ponta. Porque, obviamente, isso passa. Enjoa. Enche o saco. E aí nesse retorno, nessa volta da náusea, a gente acaba aprendendo alguma coisa ou outra. E parece que eu aprendi uma coisa ou duas sobre o tal do ‘amor próprio’, que é, na verdade, uma grande bobagem. Um termo imbecil, marketeiro, falso. Eu achava que amor próprio fosse um paraíso cor de rosa, onde eu viveria sendo mimada pela eternidade. Isso é só mais uma ilusão. Amor próprio sequer devia ter esse nome. Pois ele, de verdade, não é fácil. É complexo. E não se trata de mimar-se. De se dar o melhor sempre. De fazer sempre o que se quer. É um pouco mais dolorido que isso. Por incrível que pareça, saber amar-se envolve saber estabelecer limites à si própria. É ser um pouco seu próprio pai e sua própria mãe. É saber dizer que não, não vai rolar. Não, você não pode. Não, você não vai. É saber dizer: chega, basta pra si mesma. É saber quando, como e porquê você deve se desautorizar uma série de coisas. E isso não é ruim, em absoluto. Como alguém que já voltou a ficar de pé e agora anda com suas próprias perninhas, acredito que isso possa ser o que chamam de amadurecer. Ainda estou me acostumando com a ideia. Com as restrições. Com os limites. Mas eles não me imobilizam: muito pelo contrário, me imprimem a velocidade que eu preciso para o momento, pra seguir adiante. Grandes merda a forma que nomeiam as coisas. Grandes merda o amor próprio. Aprendi a levantar. Hoje ando, devagar. Num próximo momento, eu vou dançar… Descalça. Até eu virar música.

Ano que vem vai fazer 10 anos que eu literalmente saí de casa. Volto pra lá e meu quarto não existe mais. Minhas coisas, não existem mais. É como se eu nunca tivesse existido naquela casa. Me reservam um quarto de hóspedes. Talvez eu nunca tenha existido, mesmo. Sair de casa foi um tiro no escuro literal, peguei o avião de madrugada pra Florianópolis. Eu não sabia pra onde estava indo. Ok, eu sabia, pois minha família passa o veraneio lá. Mas eu também não ficaria na casa deles. Eu conhecia a praia, mas eu não conhecia a cidade propriamente dita. Eu não tinha a mínima noção do que eu faria da minha vida. Apenas fui. Não consigo dizer que foi bom, só consigo dizer que precisava sair de onde estava. Cinco anos depois de Floripa vim pra São Paulo. Passei o primeiro ano aqui achando que estava de passagem. Achando que não duraria três meses. Achando que eu era turista, que estava de férias. Acreditando, realmente, que iria embora a qualquer momento. Mas, dessa vez, eu já sabia que não estava aqui de brincadeira. Vir pra cá não foi uma leviandade com a minha vida, foi proposital, consciente. Inclusive usei a frase “não estou aqui pra brincar” uma vez, quando confrontada. Falei essa frase com a maior seriedade possível: não para o outro, mas para mim mesma. Não estava, mesmo. Até 2013 eu estava muito insegura sobre a minha relação com a cidade e tudo o mais. Acho que ainda estou. Me adaptei a esse lugar, mas não me apeguei à ele. Não entendo porque eu funciono assim com quase tudo. Minha adaptação é fácil, mas é como se eu sempre estivesse pronta pra partir para a próxima. Gosto de São Paulo, mas iria embora a qualquer momento caso as coisas não dessem certo ou eu enchesse o saco. É só um lugar, como qualquer outro. E eu tenho opções. E gosto de saber que tenho opções. Não estou pronta pra ir embora daqui, ainda. Eu iria, sei lá, voltaria pra casa. Cuidaria dos meus pais e sobrinhos, sem problemas. Não sofreria com isso. Não tenho medo de desafios: onde eu ponho a mão – ou me permitam que eu ponha a mão – eu sei que floresce. Sei que sou capaz disso. Então não há motivo algum pra ter medo, de absolutamente nada. Meu único medo é o de ficar parada. É o de finalmente me estabelecer de algum modo. Realmente não sei o que vai acontecer. Realmente estou confortável e tenho mais medo do conforto, da acomodação, da segurança, da estabilidade do que de qualquer outra coisa. Estou sempre preparada pra caso as coisas venham a dar errado. Sei lidar com o que é errado: eu conserto. Sou feita disso. Só gostaria de ser um pouco mais receptiva com as coisas que efetivamente dão certo, porque com elas tenho mais dificuldade, não sei como agir, por uma série de motivos que ainda estou desvendando. Final de 2006 eu saí com duas malas de casa. Elas estão velhas e desgastadas. Preciso comprar malas novas. Aconteceu muita coisa por aqui, mas acredito que em pouco tempo serei catapultada pra uma próxima vida e, novamente, será como se essa nunca tivesse existido. Talvez tudo tenha sido fruto da minha imaginação. Talvez eu nunca tenha existido. Mesmo.

Nunca gostei de fazer a cama. Ou melhor: nunca vi sentido em fazer a cama, o que tem um significado ainda mais profundo. Nunca tive casa de revista. Meus pais tentaram, ainda tentam, mas eles também não tem estilo. As pessoas também não têm: vivem procurando imitar umas às outras e mesmo até algo aparentemente original, no fundo, não passa de uma cópia de algo que já existiu. Minha casa não é de revista. Não há tentativa. No entanto tenho gostado de algumas coisas ultimamente. Gostar, de qualquer coisa, é sempre um desafio pra mim. Gostar implica em escolher e eu não costumo me dar muito bem com escolhas. Enfim… Nunca gostei de fazer a cama. Não via sentido nisso. Dormir uma noite inteira em um lençol, acordar no outro dia, estendê-lo. Organizá-lo. Deixar bonito. Pra quem? Pra quê? Nunca entendi. O trabalho da minha vida é organizar coisas para os outros, fazer com que fiquem bonitas e funcionais. Na minha casa eu sempre esperei o oposto disso, por isso: a cama sempre desfeita, a estante incompleta, a escrivaninha bagunçada. Em casa eu posso. O último jogo de cama que lembro de ter tido (que lembro de terem escolhido por mim), foi um azul, com flores rebuscadas. Era bastante tedioso. E eu odiava arrumá-lo. Eu devia ser adolescente. Depois de sair de casa efetivamente, há quase 10 anos atrás, ainda continuava não me importando muito com a cama. A cama. O cerne de toda casa. O lugar que você passa 8 horas por dia, no mínimo, pra tentar manter a sanidade. O lugar em que você é você e nada mais por 8 horas. O lugar dos sonhos. Das descobertas. Do alívio. Da melancolia e da angústia. Do descanso. Desses 10 anos, pelo menos 6 foram dormindo em cama de solteira, o que sempre achei um horror. Me viro, a noite inteira. Sou espaçosa. Preciso de espaço. Sim, seis anos. Depois ganhei um estrado e um colchão de casal de uma amiga. Comprei um edredom imenso para o frio. Em menos de um ano, joguei o estrado fora e dormia com o colchão de casal no chão. No chão. Eu não tinha muito apreço por nada, na verdade. Por mim tanto fazia. Costumava me colocar nesses tipos de lugares. As colchas eram sempre brancas, sempre encardidas, com furos de cigarros que esquecia que estavam ali pois estava bebendo. Foi assim por cerca de dois anos e meio. Minhas costas doíam. Era só mais um cômodo da casa. Não fazia diferença. Nunca fez. Sempre desfeita, sim. Até que na metade desse ano resolvi comprar uma cama. Do meu tamanho. Que me servisse. Algo que fosse bom. Não me lembro a última vez que efetivamente tinha me dado algo bom de verdade. E aí veio a cama. Alta. Bate quase no meio das minhas coxas. Imensa. Me viro o quanto quero. Me espalho e ainda há espaço de sobra. Meio vazia. Por hora. Não tenho pressa, nem interesse, nem esse é meu foco ultimamente. Não me ocorreu que eu precisaria vestir aquela cama. Só depois que ela chegou que percebi isso. Eu não queria um jogo de cama que apenas me agradasse. Eu queria um jogo de cama pelo qual eu ficasse completamente obcecada (porque funciono assim). E achei um, onde o atendimento da loja era péssimo e ele já tinha saído de linha. Onde restavam poucas unidades em diferentes lojas por aí. Minhas obcessões são sempre as mais difíceis, não podia ser diferente. Mas eu queria aquelas cores, queria aqueles padrões. E tinha que ser aquele, pois jamais aceitaria nenhum outro. E durante essa busca comecei a observar outras coisas. O próprio ambiente onde estava. As outras coisas ruins que existiam por ali e que eu definitivamente não merecia. Comecei a perceber que eu não precisava aceitar qualquer coisa. E depois tudo aconteceu de forma muito rápida. Mudei de casa. Abandonei o apartamento antigo em questão de semanas, sem o mínimo de apego. Não doei o colchão antigo do chão: o fiz em pedacinhos e joguei fora. Não gosto de mudanças, mas tudo isso não foi uma questão de gosto, mas de necessidade. Sobrevivência. Notei que tenho (tinha, pois doei muita coisa) muito mais coisa do que eu realmente preciso. Objetos, jogos de cama, de banho, utensílios de cozinha, iluminação, roupas. Uma coleção de coisas que jamais partiu de uma escolha minha, mas que escolheram por mim. Doei tudo. O jogo de cama que escolhi e que quis, obcessivamente, chegou ontem. Ele tem duas cores com alto contraste: azul bebê e vinho. Uma padronagem meio indiana, com corações. Nunca me importei muito com azul, mas aquele eu quis. Dormi duas vezes já, ontem de tarde e hoje de madrugada/manhã. Acordei e pensei em ir fazer minhas coisas. Olhei pra trás, a cama estava desfeita. E isso me pareceu profundamente inadequado. Aí acho que pela primeira vez  em toda a minha vida, eu arrumei a minha cama. Eu quis. Sem que ninguém me mandasse. Sem me sentir obrigada porque alguém vem na minha casa e vou me sentir constrangida caso não esteja arrumado. Por nenhum motivo especial, mesmo. E que sim, eu sei que vou dormir novamente e vou desorganizar novamente. Todos os dias. Mas eu só quero que fique bonito. E quero algo bom pra mim. E quero poder cuidar disso.

E tudo isso não precisa fazer absolutamente nenhum sentido.

Fumar é um mau hábito. Mas quem disse que eu sou um bom hábito? Não habito em lugar algum e ao menos assumo isso, sem maiores constrangimentos. Habito no fluxo, desço do ônibus, ganho passos apressados, buzinas, esporros e eu penso, gosto de pensar, que eu amo muito tudo isso. Gosto de pensar que amo essa porra. Me apresso pra levar nãos na cara. Levo o não. Trago o não comigo. Trago. Está tudo errado e eu preciso me acalmar. Preciso viajar mais duas horas pra chegar onde preciso, pra chegar num lugar onde me sinto viva, pra chegar num lugar onde existe gente que fale a minha língua. Existem coisas para serem feitas e elas não terminam, o oposto disto, elas parecem não parar de se multiplicar e eu estou em todas elas, tenho que estar. E estou. Para cada não que me é dito, eu digo sim para todas essas coisas. Meu sim é mais forte, é sempre mais forte do que eu posso suportar. Mas se eu ainda suporto é por algum motivo. Suporto, quero, desejo. Preciso. É um grande tumulto mas eu entendo que no final vai valer a pena de um modo ou de outro. Não sei dar bom dia. Não sei me despedir. Eu fluxo. E na conversa do ônibus você surge. E eu falo e falo, falo como se não sentisse, falo de você como se você não fosse comigo. Simplifico, reduzo tudo o que foi tão grande um dia. Falo pra ela que eu sou uma problem solver e que você era um trouble maker. Tenho essa mania insuportável de querer leveza. Falei tudo em que acreditava, que você precisa de alguém assim, que não sou eu, que você precisa de alguém assado, que não sou eu. Que nunca fui eu, pois eu nunca fui nada. Há muito tempo eu simplesmente listei todas as características para você do exato tipo de pessoa que você precisava na sua vida (problem solver) e você, negou tudo o que eu disse e disse que não era isso, que eu era estúpida, reducionista, prática e que o que eu dizia era uma mentira (trouble maker). Mas cedo ou tarde, tarde, agora e já, tudo o que eu disse se tornou mais real do que aparentemente ninguém esperava. Ou esperavam, foda-se, nunca foi sobre eles, nunca foi sobre nós. E tudo bem. Achei ótimo. Achei melhor assim. Achava melhor assim até quando era dolorido demais achar que era melhor assim. E você sempre soube disso e jamais vai admitir. Falei isso tudo, como se nada fosse. Sempre foi algo. Sempre foi (e isso é uma declaração de alguma coisa). Segui um fluxo, abri um mapa, cheguei onde eu precisava chegar. Precisava esclarecer várias coisas e todas foram esclarecidas. Já me decidi sobre o que fazer comigo mesma. Um desvio, uma absorção menor e mais restrita. A mais restrita possível, foda-se. Algum tempo pra continuar existindo desse jeito, mas de outro – gosto de pensar que tudo vai continuar a mesma coisa apesar das mudanças. Enfim. Terei bengalas pro resto da vida, mais do que as que já tenho. Serei privada de alguns prazeres mas hey, não se pode ter tudo mesmo nessa vida. E eu quero que seja restrito. Eu escolho isso, conscientemente. No final da apresentação, algo potencialmente simbólico, um desenho de uma âncora que vai do peito ao baixo ventre. Entendi imediatamente que isso significaria que, em breve, vou navegar para onde eu tiver de navegar, sendo âncora pro resto da minha vida. Meio absurdo, muito real. É uma decisão. É a minha decisão. Quero isso. Escolho isso. Preciso disso. Ganho a rua, a noite está fria e chuvosa. Eu não queria estar em nenhum outro lugar que não aquele. Não queria cantarolar o que cantarolei passando por nenhuma outra rua. Naquele momento eu não tinha mais alma alguma. Tive que esperar e puxei um cigarro, inspirando o máximo que pude e soltando logo em seguida da forma mais consciente e esvaziada que a minha exaustão me permitiu fazer. Me senti completamente dopada logo em seguida. Me fundi na cidade. A companhia do cigarro fez com que a avenida inteira se esvaziasse e só sobrasse ali eu e a fumaça. Eu, a fumaça, o vento a minha falta de alma em toda a sua extensão. Sou um mau hábito. E fiquei pensando nos critérios que definem os hábitos como maus, entre luzes de carros, ônibus e conversas desanimadas de fim de dia. Coisas que não existem. Recostei minha cabeça no vidro e nada mais se passava por ali. Apenas meu cheiro de cigarro, suor de fim de dia e cansaço. Eu fedia à exaustão, você sabe bem como. Queria muito que me arranhassem dos pés à cabeça. Precisava de mais um cigarro. E a próxima coisa na qual pensei foi a de que, depois que eu passar pelo que eu tiver de passar, nunca mais nenhuma escolha minha será impune. E mentalmente tornei essa minha decisão uma oferenda à você. E à ela. Está decidido.

(…)

Essa cidade não é uma paixão.

Essa cidade é um vício.

E uma mentira.

Ouvi essa música e me lembrei do seu beijo.

(O beijo azul em câmera lenta na hora do rush.)

(…)

Não conseguia te ver claramente.

Sua pele estava naquele tom de azul bonito,

de fim de tarde, da sua cidade.

De quando o sol se põe.

Eu conseguia ouvir seu coração pulsando pelos poros.

Você me abraçava e não queria me deixar ir.

Não sabíamos o que fazer.

Foi um beijo desproposital.

(…)

O beijo

Foi

Um despropósito.

Despretensioso.

Você, com as mãos na minha cabeça.

Acredito que uma lágrima tenha saído de algum de meus olhos.

Sem história.

Sem passado.

(…)

Em mim

Aquele beijo

Ainda acontece.

[O passeio]

Fumando um cigarro nessa noite de domingo e me lembrando de um dos meus duzentos amantes.

 

Sim, duzentos.

 

Talvez muito mais que isso.

E de repente o silêncio, durante o filme. Qualquer coisa que eu dissesse seria tremendamente estúpida. Disse muitas coisas estúpidas essa noite. Não me importei tanto, mas naquele momento eu sabia que era diferente. Olhei pra tela, fria. Movimentos contínuos e repetitivos. Uma vontade que não se alcança. Meu olhar é de admiração e um pouco de tédio. Sempre existe um pouco de tédio nessas situações. No entanto, eu salivo. Espasmos, pavlovianos. Quero isso na minha boca, quero isso em mim. Engulo uma saliva, espessa. Bom filme, penso. Falo. Eu tremia, de frio. Vamos ao próximo. Um bastante específico. Eis que noto uma movimentação diferente, mas nada digo. Observo, entendo o que acontece. Ah, é isso então? Aliás, é isso também? Não ofereço ajuda. Continuo olhando a tela, me sentindo meio boba. Me entedio. E então percebo que o filme não está exatamente ali. Experimento olhá-lo, o outro, brevemente em seus detalhes. Indicador esquerdo na têmpora, um olhar vazio que escaneia a tela, lábios entreabertos. Uma eventual coceira na cabeça. O indicador direito pressionando com todos os outros dedos, um desejo, nada reprimido. Voltei o olhar pra tela. Repetitivo. Desinteressante, pra mim. Eu queria algo que eu não visse todos os dias. Resolvi encarar o outro, dessa vez mais lentamente. Felizmente o fiz exatamente na janela de momento certo, um bom timing. Os seguintes segundos duraram séculos e tudo aconteceu ao mesmo tempo. As nuances azuladas da tela no rosto, enquanto ele corava suave e timidamente. Os olhos se apertando, não fechados, mas semicerrados. Um suspiro, longo e baixo, meio que sem cadência, como que se escapando pela boca seca e entreaberta. A expressão de total desligamento da realidade e os pequenos espasmos do corpo. Uma respiração levemente entrecortada, após o término. O indicador esquerdo, ainda na têmpora, mesmo que não exista mais concentração alguma ali. O filme acaba. Agora eu sei que a sensação de tédio volta mais forte. Aquele desejo, mesmo que breve, de morte. Talvez um ódio meio irracional. Sei disso. A tela desce. Sei também que foi bom poder ver isso. O meu indicador direito, entre meus dentes, contendo os espasmos de saliva. E uma vontade específica. Acho que o outro não notou que eu o observava, muito de perto, o tempo inteiro. Isso torna tudo ainda mais interessante. Eu deveria ir dormir agora, qualquer outra coisa que eu diga será estúpida. Está silencioso por aqui.

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