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Dasein

O nome “bênção do útero” sempre me incomodou porque eu basicamente tinha duas visões bem limitadas e limitantes acerca do meu próprio útero:

  1. Como um órgão que serve para me causar dor e sofrimento uma vez ao mês e que me impede de ter praticidade na vida e
  2. Como um órgão que serve para para procriar e parir, exclusivamente.

Essa mentalidade completamente Handmaid’s Tale é bastante recorrente no nosso dia a dia… Quer ver só? “É gorda? Tá grávida. Tá com o buxim xei de hambúrguer? Tá grávida. Tirou foto com a mão na barriga? Tá grávida. Tá enjoada por algum motivo? Tá grávida, óbvio.” Olha só: a gente não é só parideira não tá? Não é assim que funciona a parada.

Às vezes um cachimbo é só um cachimbo? Sim, às vezes é. Mas eu meio que me recuso a ter esse tipo de visão de forma muito sistemática. Um útero é só um útero? O que o meu significa pra mim? O que significa carregá-lo, efetivamente? É só biologia?

Esse pensamento biológico e essa mentalidade Handmaid’s Tale se deve por eu viver numa sociedade completamente imersa em misoginia, machismo e opressão a tudo o que é feminino. Por eu viver numa sociedade onde me odiar e odiar um órgão que faz parte da minha natureza é o que é considerado “normal” e “adequado” para esse sistema de castração e invisibilidade sistematizada ao qual estamos inseridas, onde sequer enxergamos a nós mesmas.

Hoje eu digo que não tenho uma visão romantizada sobre a menstruação. Tenho uma visão realista. São coisas distintas. Eu costumava focar na dor e no sofrimento pois aquele era o meu mundo, o mundo que criei pra mim, no qual eu fazia questão de permanecer imersa, por anos a fio. Quando comecei a enxergar o todo, as coisas começaram a mudar sensivelmente pra mim e na minha vida.

Hoje me perguntaram no curious cat sobre a junção enlouquecedora da lua vermelha. Bom, o ciclo menstrual inteiro é enlouquecedor. E é enlouquecedor porque tratam-se de quatro mulheres, completamente diferentes, ao longo do período de um mês só, ou seja, as quatro fases do nosso ciclo: donzela, mãe, feiticeira e anciã. Cabe a nós otimizar cada um desses arquétipos de acordo com o ritmo de nossa própria vida.

É importante saber otimizar as características expansivas das fases de donzela e mãe e saber lidar com as energias e com a internalização de questões durante as fases feiticeira e anciã. Saber se respeitar e respeitar seus limites em casa uma das fases, ao meu ver, é essencial para extrair o que há de melhor nelas. O nosso ciclo é enlouquecedor sim, mas é fascinante. E inclusive pode ser nossa maior fonte de poder, se entendido com sabedoria.

E nenhum ciclo nosso é igual ao outro. Cabe a nós — e ninguém mais — saber “ler” essas sutis mudanças e observar nossos próprios padrões de vida. Carregamos um micro-cosmo dentro de nós e isso nos dá possibilidades imensas de criação… E isso não necessariamente tem a ver com engravidar ou fazer bebês, mas de criar nosso próprio caminho, nossa própria vida, mesmo.

Esta será minha primeira Bênção do Útero como Moon Mother. Antes de fazer a iniciação, em agosto deste ano, participei de Bençãos por um ano e meio. Fiz a iniciação porque me pareceu importante pra mim e para o meu caminho. Sempre pesquisei sobre o meu próprio ciclo e adoro conversar com outras mulheres sobre isso, porque acredito que isso é algo que nos une.

A quarta Benção do Útero deste ano é sobre a aceitação da nossa sexualidade e desde agosto eu tenho pensado nisso. Pensar na nossa sexualidade é muito importante, como nos relacionamos com ela, como nos sentimos e quais tipos de padrões gostaríamos de quebrar pra ter uma vida melhor e mais saudável nesse sentido. A Bênção, mais do que uma reunião de mulheres, nos proporciona um excelente espaço para este tipo de reflexão.

O modo pessoal que encontrei pra aceitar minha sexualidade foi parando de fazer sexo (sim, de qualquer tipo, até sozinha). E essa decisão não faz muito tempo na verdade, deve ter iniciado em agosto (não marquei data, nem nada). Acho interessante a ideia de dar um reboot no sistema pra ver o que emerge. E também não estou gostando muito das coisas que estão emergindo, e o que estou percebendo em mim mesma… Talvez porque pela primeira vez estou me forçando a olhar pra minha própria sombra.

E falando em sombras, essa minha primeira Bênção, além de falar sobre sexualidade, será na lua cheia em Áries… Então acho que essas questões do chakra base (sexo, agressividade, raiva, ação, energia) estão realmente em evidência pra mim.

Chakra Básico, né mores

A sincronicidade dos temas e questões desta Bênção estão tão claras pra mim que hoje apareceram duas expressões disso “por acaso” nas minhas timelines do twitter e facebook. No facebook, uma prima minha de segundo grau postou o seguinte trecho do Mulheres que Correm com Lobos, da Clarissa Pinkola Estés:

“No entanto, a natureza selvagem nos ensina que devemos enfrentar os desafios à medida que se apresentem. Quando os lobos são atormentados, eles não saem dizendo, “Ah não! De novo!!!”

Eles saltam, investem, correm, desaparecem, fingem-se de mortos, pulam na garganta do agressor, fazem o que tiver de ser feito.

Portanto, não podemos ficar escandalizadas com a existência de entropia, deterioração, tempos difíceis.

É preciso compreender que as armadilhas preparadas para capturar a alegria da mulher irão sempre se alterar e mudar de aparência, mas na nossa própria natureza selvagem nós iremos encontrar a energia absoluta, a libido exigida por todos os atos de coragem que forem necessários.”

O segundo “aviso” foi via twitter, onde um conhecido postou uma música da incrível Diamanda Galás, cantora avant garde que eu desconhecia. Busquei mais informações sobre ela e fiquei absolutamente encantada, ela é completamente selvagem:

Nesse período abstêmio, percebi que sou absolutamente mesquinha sexualmente, de modos muito sutis que antes eu não percebia. Que a forma que sinto atração é completamente torta, que não respeito meu tempo, nem o do outro. E que, muitas vezes, eu não me deixo respeitar — o que é péssimo também. A forma que busco os relacionamentos no geral, que sinto atração, também não lá exatamente muito saudável. A forma que me sinto em relação ao que me é erótico, como me sinto em relação ao que é belo… As coisas que eu gosto e que deixo de gostar. Como lido com minhas infinitas carências.

A tentativa é de observar isso tudo lentamente, como testemunha de mim mesma. E o resultado não é muito bonito, nem nada iluminado. Bem o oposto disso. Parei de trepar e abriu o bueiro de tudo e agora tô vendo direitinho quem eu (penso que) sou. Não é bonito, nem agradável. It’s a dirty job, but someone has to do it. E eu ainda tenho uma série de perguntas não respondidas em relação a minha própria sexualidade. Preciso pensar bem mais em sexo. Bem mais. E não fazer me ajuda muito com isso.

Não lidar pode ser sim uma excelente forma de lidar com as coisas.

Ainda em questões de chakra base, vejo que rólam algumas coisas inclusive com a minha moto (sim, eu ando de moto). A maioria das vezes que me acidentei, foi por não acelerar o suficiente. Não por ter medo de acelerar mais, mas não o suficiente e aí a moto sempre morria e eu caía. Por não querer incomodar os carros do lado com o ronco e o barulho da minha moto (ele é bem alto). Então tem também algumas várias questões que estão interconectadas e nas quais devo pensar mais, tais como: imposição (aceleração), intimidade, simbiose, reivindicação de espaço, ser espaçosa, incomodar, ser inconveniente, fazer barulho… Enfim, basicamente existir. Enfim, basicamente tudo entrelaçado nessa grande teia da minha vida…

Essa Benção do Útero de outubro já foi maravilhosa. Ela nem aconteceu ainda e eu só tenho a agradecer.

Hoje deu tudo errado pra mim. E vou ter que abrir mão de alguns sonhos por algum tempo.

(Eu me aproximando de você, a cada passo minha respiração descompassava, o tempo entrava em processo de lentidão. Em câmera lenta o seu abraço não queria soltar. O meu olhar no seu. O seu olhar em mim e silêncio. O silêncio.)

Não havia como ser de outro jeito. Já há algum tempo que não aprendo nada direito, parece.

(Estava frio e passeamos. Não soube como pegar no seu braço, demorei pra isso. Às vezes tenho a impressão de que desaprendi. Você só me faz perceber que apenas não me lembro direito. Me traz pra perto, sem querer.)

E aí fico me perguntando como ser menos dura comigo mesma, mas às vezes não tem muito jeito.

(Você quis fumar e desistiu. Disse que era por minha causa, para não estragar o beijo. Achei aquilo uma bobagem e acabei estragando tudo o quanto antes. Pronto. Pode fumar, agora.)

É provável que eu fique na merda e tenha que adiar alguns planos por no mínimo uns 2 anos por conta de hoje. Bem… Acontece. Vivendo e aprendendo.

(“Eu me sinto tão confortável com você”. Se deitou na minha cama e me puxou para cima de si, como se eu não fosse nada. Se encaixou em mim, como se eu fosse a que restasse. E me deu de presente um ato falho: “meu amor”.)

Eu estou aqui pra aprender.

E aprender significa saber errar.

Abro o calendário e verifico todos os compromissos que existirão em até três semanas. Faço as contas. Espero. Anseio. Faço as contas novamente. Olho outras coisas. Volto para o calendário. Ele aberto é uma ilusão, muito forte, de controle. Não sei o que vai acontecer e é isso o que me aflige. Não é o fato de o tempo passar muito rápido ou devagar demais. Essas coisas na verdade não importam tanto assim. É o desconhecido. É o fato de amanhã acontecer algo que possa mudar tudo de forma inesperada ou abrupta. É o fato de algo acontecer antes ou depois do previsto ou do esperado. É o fato de eu me ver tendo que exercitar, novamente, a minha frustração, a cada minuto, a cada segundo que observo aquela estrutura. Que é apenas isso: uma estrutura de controle. E todo tipo de controle é uma ilusão. Não é a vida, de verdade. Mas eu gosto de me enganar, gosto de um auto-engano. E continuo olhando. E esperando.

I think that what must piss people off the most is the fact that, by watching them from a far, I was never really in an excruciating pain. It is as if I almost never felt anything, really. You see, even more than having proper encounters, I love being a witness of great encounters. I have priorities and also my own agenda. I don’t mind spending my own existence alone, once I’m able to watch things unfold and happen in the right way for everybody else. It never, ever, saddens me in any way. I know it kind of sounds like a sin but yes, I am that selfless – and helpless. Simply knowing how stuff works and watching them happen is enough for me. Actually, when that happens I tend to feel oddly satisfied, in a very particular way. And most people I know won’t ever understand that. Maybe that’s the core of my loneliness.

Termino de secar meu cabelo. Você vem me buscar, em breve. Me olho no espelho, me sinto fora de mim. Estou com fome. Coloco uma roupa, um tênis. Você aparece, poucas perguntas, algumas respostas. Um cigarro entardece em nós dois. Não era pra angústia ter vindo junto, mas ela foi insistente. Não me importo em respirar ao seu lado. Você dirige pra longe e chove. Não me leva pra onde deveria me levar. Desço do carro, num posto, quero pegar um pouco de chuva. Você me espera. Acho que me esperaria pra sempre. Você me busca. Me aninho no seu abraço úmido e então olho nos seus olhos. Seus lábios tocam os meus e eu já não sei mais o que fazer de você. Seu coração pulsa pela jugular, você vai morrer em breve. Não posso evitar e enfim, te envolvo em mim. Você me olha como se uma música terminasse. E voltasse. E terminasse, de novo, em meus braços. Limpo minha boca na manga da jaqueta. Pego as chaves do teu bolso. Dou a partida. Estou satisfeita. Acelero. Preciso voltar pro centro.

Há muito à ser feito.

“Rasguei minhas roupas na saída…

Nada mais queria levar.

Nem a dor da perda, esta, já não era minha.

Sinto que, no final, a dor deve ser maior para quem fica.

No meio das lembranças, dos objetos, dos móveis, de tudo que lembrava que aquilo que em algum momento tinha sido meu lar…

Rasguei minhas roupas, como rasguei-me em mil pedaços até conseguir me livrar da dor, do drama.

Me abandonei para que a coragem fizesse-me crer que era possível…

E foi, consegui.

Deixei pra trás os restos de uma vida, que de tão sofrida, nunca vai deixar saudades…

Consegui, me desnudei… E parti.”

There was a time when one country was overruning another which was buddhist and they were being very fierce with the buddhist monks, disemboweling them and killing them. And there was a particularly fierce commander of the invading army and when he would come into town the monks would all flee into the mountains. And he came into this town and he asks his agent for a report and the report was “all monks had fleed into the mountains but one”. And he got furious about this one monk who defied him. And he walked into the monastery and he pushed open the doors and there was the monk sitting right in the middle of the court and walked up to him and he said:

Don’t you know who I am? I could take my sword and run it into your belly without blinking an eye!

And the monk said:

And don’t you know who I am?

I could have your sword run through my belly without blinking an eye.

O salto. O caminhar. A boca escura. A soberba. O destemor. Não há nada que me cause mais medo que não seja eu mesma. E minhas escolhas impensadas. Sou de fato minha pior inimiga. E agora meu corpo padece. Terrivelmente. E respira.

Você se preparava para partir e me olhava, de cima. Haviam folhas espalhadas sobre a cama, o cheiro de todos os objetos, impregnados, nos lençóis, em tudo o que havia. Um a um, espalhados, ao meu lado. Você, todos. Um a um, você tentou decifrar. “Que porra é essa?”, você me perguntava. Te olhava e não sabia ao certo o que sentir. Nunca soube. Em uma das suas mãos, sempre algum objeto e aquele seu olhar, intrigado, levemente indignado. “O que significa isso?”. Com sua outra mão, você me tocava, como música e falava coisas que pareciam ininteligíveis. Parecia um sonho. Estava entorpecida com seu cheiro, seu movimento, seus questionamentos. E então soei, quase muda, preciso de você e sequer houve um momento de hesitação. E mais uma vez você construiu um monumento, em mim. Que me habita até hoje.

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