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Ayurnamat

Todas as sutilezas que plantaram em mim estão brotando.
Uma a uma.

E a cada expirar no meio do caos, uma delas desabrocha.
Isso, sim, parece que não vai ter fim.

Isso, sim, é maior do que qualquer outra coisa.

Fomos ao cinema. Antes de entrar na sala escura, falávamos de anseios, expectativas, medos e delírios. Alucinações também, causadas fisiologicamente de forma natural (biológica, problemas de DNA) e nem tanto (privação de sono, alimentação, etc.). Houve uma cena no início do filme em que o personagem principal chega em casa e há um software à sua espera, que em dado momento se transforma em um holograma, translúcido, mas bastante real. Nesse momento eu dei um suspiro, profundo. Eu nunca consigo me conter. E meus suspiros são uma de minhas características mais óbvias e profundas ao mesmo tempo. Eu não preciso afirmar nada, justificar nada… Apenas suspirar. É espontâneo. E está tudo num sopro meu. Ele notou o suspiro e me questionou acerca dele, como sempre, muito atento aos meus detalhes. Suspirei porque me lembrei de todas as coisas que existem entre o meu sono, o meu sonho e a minha vigília, nesse momento. Suspirei a princípio também porque achei tudo muito triste. E por conta do espelho, obviamente. Suspirei profundamente principalmente porque houve uma identificação imediata com o personagem principal. Como ele, também vivo em ilusões e em realidades paralelas – com um pouco menos de tecnologia envolvida, mas ainda assim, de modo bastante similar. Realidades que eu crio sozinha para mim e me são mais caras do que qualquer outra coisa que dizem ser real. O real não me interessa, na maior parte do tempo. Não achei que o meu suspiro fosse se estender tanto, mas acabou se estendendo. Se estendeu à minha memória como ela é, à total ausência de afeto – o mundo é um lugar hostil – e a frequente busca por ele, a partir de ilusões enquanto dispositivos que uso para conseguir sobreviver de forma um pouco menos áspera em meio a tudo isso. Meu suspiro se estendeu também às coisas escondidas em cantos escuros de nossas cabeças, às coisas implantadas – não por nós – e principalmente, às coisas esquecidas. A um passado que tem a possibilidade de ser reinventado, que seja sempre meio irreal. Todas essas coisas como ícones aos quais veneramos por toda uma vida sem nos perguntarmos muito exatamente os porquês, disso tudo. As datas, as milhas, os marcos, as fugas, as memórias, as lembranças… São dados que levam nossos pés ao nosso destino. Destino, então, que se torna uma escada a qual não mais precisamos escalar, mas onde nos recostamos e apenas cumprimos o que precisa ser realizado.

Reduzir o amor a sua faceta mais idealizada, romântica e pueril é no mínimo ingênuo e arriscado. Pois coloca o significante como idêntico a um sentido específico, impondo um único conceito possível, ou certo para o que daremos o nome de amor.

O amor pode ter muitos nomes, facetas e diversas saídas … Inclusive mortíferas e destrutivas.

O ódio mantém tantos laços quanto o amor.
O ódio, não como um antônimo do amor, mas como uma outra polaridade, dotada de uma intenso investimento libidinal. São faces de uma mesma moeda.
Não se odeia qualquer um, como não se ama qualquer um.

(W. M-C. M.)

“You Fish like to zig-zag back and forth as you wiggle your way closer and closer to your loosely defined destination that gains clarity as you approach it.”

Escrever não parece ser necessário. Esta é a forma que arrumamos para nos comunicar. Consigo ler o que há na curva das tuas letras. E o que entendo me deixa saudosa. Erro, ainda e muito, e acolho isso. Temos essas cores, a ausência delas, os contrastes e alguns sons. Essas intersecções curiosas, atípicas. Um passado distante e longínquo em comum, futuros completamente incertos. Existem sonhos, que nos movem, nos fazem pulsar. Não há nada a ser dito ou provado, existem apenas pistas. Trivialidades, quase sempre. Pensamentos recorrentes e oníricos. Sistematicamente vagos. “Me lembrei de você”. Lembranças claras do que é efetivamente desconhecido. Despreocupação. Desinteresse. Desapego. Temos nós, em série. E são esses desenlaces que nos prendem, de forma consistente. 

Keep me guessing. Keep me in the tip of my chair.

Gosto assim.

(“I’d pay all my dues to the dark just to be lit by a glint of you”.)

– Eu queria poder dançar essa música pra sempre com você.

– Nós já estamos dançando, Dora. Nós já estamos! Observe.

Deixar de se identificar com algo, às vezes, é uma das piores coisas que pode acontecer a alguém. Primeiro porque não há nada a ser feito nessa situação. E segundo, porque você fica num limbo por tempo indeterminado. Sem data pra acabar. Mas o passo mais difícil de todos é finalmente assumir a falta de identificação. Dói. Não é bonito. Vira tudo de cabeça pra baixo. Piora bastante. E por muito tempo. E é excruciante e parece que não vai ter fim. Até que termina e vc nem percebe. E vc sai do outro lado. Eu falo dessas coisas, mas a real é que eu me cago de medo disso. É uma das coisas que mais tenho medo. E sei que vai acontecer de novo. Você se prepara a vida inteira, cria vínculos, afetos, histórico e você acredita que aquilo é parte da sua vida e de você. E aí, um dia… você descobre que não. Real. Oficial. De verdade. É devastador. Sempre. Arrasa com tudo. Mas eventualmente é o que nos faz crescer, por mais que pareça que não. E se repete sempre… Em maior ou menor escala. Mas se repete. É cíclico. É a porra da vida. Existir não é pra amadores.

Existir nos acomete de demandas. Demandas que não queremos nos apropriar, pois envolvem desconforto, dor, sofrimento. Deslocamentos. Nunca deslizamos efetivamente, a superfície é exposta sempre com granularidades indefiníveis e indefinidas. Pensar em e lembrar desta estrutura que me mantém viva é um difícil exercício que tento fazer com que seja recorrente. É uma prisão isso tudo, sim, seja em maior ou em menor escala. Por isso tenho mais medo do tédio que da morte. E não sei se minha aparente coragem — para o que quer que seja — é só mais uma máscara ou se é, na verdade, só mais um impulso de vida, alguns desses solavancos que acontecem às vezes e me acometem a destinos indeterminados.

Não temer a morte, não (buscar pelo, mas não) temer o enfrentamento, não ter absolutamente nada a perder, viver sem muito apego ao passado e sem obsessão com perspectivas, conseguir ressignificar os acontecimentos — bons e ruins — sem maiores transtornos… Como se eu fosse algo à parte disto aqui. A impressão que tenho é a de que: ou sigo esse impulso de vida e visto essas carapaças, ou me vejo extremamente fragilizada e impedida de continuar em qualquer caminho, não ando, me arrasto. Admito que não dou conta de carregar tudo isso comigo, o tempo todo, para todos os lugares. Não tenho espaço, não tenho como, não posso. E toda essa aparente leveza demanda um peso, uma dívida: tem um custo, que eu devo estar disposta a bancar (com a vida, mesmo).

De qualquer modo, a vida sempre diz: sofrer é bom pra você. Não existe força sem resistência. Existir (resistir? re-existir?) exige uma superação contínua dos dias, de todos os dias, de tudo o que é vivido, sempre. Se não há superação, raramente há existência. E as pessoas adoram uma história de superação, mas sem jamais questionarem-se os porquês disso. Não compreendem que abrir os olhos, descobrir-se, colocar os pés no chão e decidir levantar, todos os dias, é uma superação por si só, de deixar um estado de descanso. Que um estado de descanso por um longo período de tempo, é, na verdade, patológico e que a partir disso muito se perde, muito sentido se perde. Que a superação muitas vezes requer na verdade uma transmutação — elas parecem andar juntas — e que isso auxilia em todo o processo de vivência.

Que, felizmente ou não, a inquietude, a angústia e o sofrimento são condições para que haja existência. E que isso é sim muito perturbador de compreender, mas extremamente necessário, pois é parte do todo. Guerras, sofrimento, violência, peste, preconceito… E o guru nos diz calmamente: “você não vê que tudo é perfeito?”. E do meu entendimento, humano, limitado, me indigno e não vejo e se vejo, é como se não quisesse enxergar. Mas o guru não diz somente isso: “há trabalho a ser feito”. Há a re-existência, a resistência, a superação e a transmutação… Estamos nesta condição. Precisamos abrir os olhos, nos descobrirmos, colocarmos os pés no chão, decidir levantar e decidir o que fazer a partir disso. E essa é uma decisão de vida, e essa é uma decisão diária. É um exercício pra uma vida inteira. E talvez de mais de uma.

Janeiro. Will. Gi e Rachel. Fevereiro. Contratação. Passaporte. Silvia. Promessas. Março. Admissão. Homologação. Consulta Will (Revolução Solar). Aniversário. Luiz Rodrigo. Charlley. Abril. Presentes, Michelle. Indecisão. Thiago. Cirurgia. Déborah. Maio. Caboclo Sol Poente. Defumações. Banhos. Patrícia. Decisão. Vários exames de saúde. Hocico. Três gatas. Junho. Alexandre. Respostas. Tatuagem. Diploma. Perícia. Julho. Mãe. Chá de Raul. Mineiro. Sobaria. Irmã. Cirurgia. Agosto. Giulia. Edital. Bênção do Útero. Vaga. T. Entrevista. Dinda. Setembro. Zé e Marina. Renovação CNH. Overload, Katatonia. Marlon. Consulta Will (Trabalho). CNH nova. Campo Grande. Outubro. Tatuagem. Déborah. Curso. Projeto. Prova. Apresentação de trabalho. Rituais. Cômoda. Novembro. Entrevista. Espelho. Inscrição. Energização. Tatuagem. Dezembro. Amigo oculto. Roda da Fortuna. Good Omen. Curso. Prova de Proficiência. Deck de Tarot. Jaloo. Bênção do Útero. Aprovação no Mestrado. Natal na Michelle. Will.

Hoje mais cedo estava pensando nisso de corresponder e ser correspondido. Algumas vezes fiz gestos, como mandar cartas e presentes e não fui correspondida. Isso é algo que pode acontecer. Às vezes fico pensando que prefiro não ser correspondida do que ser correspondida “por educação”. Me sentiria péssima se sequer desconfiasse do segundo caso. Acredito que nos meus 20 anos, isso de não ser correspondida (que na verdade se tratava de muitas vezes não ser correspondida como eu esperava) me deixava profundamente magoada. Hoje em dia, dez anos mais velha, já não empreendo mais qualquer gesto afetuoso esperando retorno, simplesmente faço.

Acredito que fazer um gesto esperando retorno, ainda mais se for um retorno profundamente idealizado, mata a intenção. E a intenção, acima de qualquer coisa, é minha. Ou seja, o que o outro faz ou deixa de fazer dela, não é exatamente um problema meu.

O problema de hoje em dia é que eu sinceramente acredito que trocas, intenções e gestos se tornaram tão frívolos no geral, que às vezes fico com a impressão de que as pessoas sequer sabem o que estão fazendo uma com as outras. Uma para as outras. No que estão empreendendo. Como se tudo fosse feito de forma automatizada, meio inconsciente. Se for pra ser assim, fazer por fazer, fazer por educação, por tradição ou o que for, prefiro não fazer. Por isso me isolo, não socializo, me considero uma monja urbana que eventualmente em alguns anos irá virar uma ermitã do mato. Eu sinceramente acredito que as coisas precisam ser genuínas. Não falo tanto de autenticidade, mas de uma verdade mais rara.

Se doar verdadeiramente é a coisa simples mais complexa que existe.

Passei alguns anos querendo também conversar com certas pessoas e sendo completamente ignorada. E é claro que eu não vou ficar persistindo em me doar pra quem não corresponde. Ao mesmo tempo, acredito que nada é em vão. As coisas, as pessoas e as situações estão aqui pra nos ensinar e eu estou aqui pra aprender, mesmo.

Ao mesmo tempo que é difícil se entregar, eu também já estive do outro lado e não dei meu braço a torcer. Já recebi presentes, mimos, correspondências e não correspondi. Ficou por isso mesmo. Inclusive já fui cobrada por isso, da forma mais rude possível. Na época fiquei triste, hoje em dia eu acho graça. E não correspondi por uma série de motivos, mas entre eles porque eu sentia que estava sendo comprada – e evito deixar que alguém bote preço ou valor em mim, ou nas minhas ações. Não profissionalmente eu me recuso a ser monetizável. E também porque senti uma exigência implícita de retorno, uma carência que eu jamais conseguiria suprir de qualquer modo. Foi uma entrega que foi realizada na falta, na ausência e não na abundância e no compartilhamento. E eu não vibro essas coisas. Nunca vibrei. Não ressoo com isso.

Ou seja, as coisas são mais complexas do que a sua aparência. É fácil tanto julgar quanto se vitimizar, mas é difícil reconhecer que a vida tem seus padrões e eles transcorrem muitas vezes à revelia dos nossos desígnios e desejos.

 

 

Os anos vão passando e não consigo encontrar nenhum lugar onde me identifique plenamente. Nenhum lugar, nenhuma situação. Consigo querer as coisas, planejá-las e executá-las sem maiores problemas. Mas não me lembro a última vez que tive uma decisão e fiz uma escolha verdadeiramente genuína, sem ser por impulso, sem ser por rompante. Não me vejo tendo tempo, não me vejo tendo espaço. Preciso priorizar o que precisa ser priorizado, tudo o que faço por aqui é por sobrevivência, não por gosto. Não por luxo. Não tenho tempo pra essas coisas, elas não são para mim. Não nessa vida. Às vezes isso de identificação plena parece ser uma ilusão, mesmo. O difícil agora é tentar fazer com que isso, que mais parece um defeito, trabalhe ao meu favor e não mais contra mim. Não chego a estar perdida totalmente, no entanto, não me identifico plenamente com algumas escolhas que fiz. Pretendo mantê-las no entanto. Mas compreendo que não mais caibo aqui. Que não servimos, juntos. Essa busca por identidade já ultrapassa alguns anos e não houve, até então, uma vez sequer em que eu me sentisse plenamente satisfeita. Com nada. Houveram apenas vislumbres disso. Enfim… Não acho que isso um dia finalmente vá acontecer, ao menos não nessa vida. Não me identifico mais nem mesmo com as pessoas com quem tenho andado por tanto tempo, por tantos anos. Olho para pessoas novas, para novas pessoas velhas, e entendo que sobrevivam e que tenham seus nichos, dos quais não faço parte. Fico sempre como alguém dissidente, na margem – e sequer tenho vontade de fazer parte daquilo tudo também. Não faço parte do grupo de gente bonita, elegante & sincera. Eu vivo num mundo que é movediço, mutável. Num mundo de sombras e projeções. Nesse lugar liso demais e iluminado demais no qual pra sempre terei essa falta de aderência, a qual agora questiono se é mesmo necessária e até que ponto. Até que ponto ela me faz eu me perder completamente de mim mesma, perdendo meu auto-significado, meu storytelling. E até que ponto essa mesma falta de aderência me faz ter unicidade e singularidade em meio a todo esse telar de vida.

 

(…)

Finally, I must thank those who were able to support me even though we found ourselves an ocean apart (…) and Isadora Steimer, for her friendship and overwhelming love.

“The greatest thing you’ll ever learn, is just to love and be loved in return”

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