Ressentimento

Nunca tinha percebido esse padrão, mas a verdade é que em algumas épocas do ano – não sei se chega a ser sempre a mesma época – me parece que todas as pessoas que eu conheço entram de férias ao mesmo tempo. E todas realizam viagens maravilhosas, conhecem o mundo, países diferentes, lugares diferentes. Fazem coisas fora da rotina de suas vidas. Não me lembro de ter olhado isso tudo com olhos de inveja – não quero que o outro tenha isso! – mas é bastante frequente a sensação de tristeza – queria ter isso também. Aí hoje percebi que róla um ressentimento real por eu nunca ter feito nada disso. Por eu nunca ter me proporcionado nada disso, há alguns anos já. Eu me ressinto, fico triste, culpo o passado, o mundo, a existência. O que é bobo, bem infantil, na verdade.

Isso tudo começou há alguns dias já, quando comecei a repensar algumas decisões de vida. É recorrente o desejo de largar tudo, jogar tudo pra cima e de fato voltar pra debaixo de uma pedra, de onde eu talvez jamais tivesse ter saído. A vontade é de desistir de tudo mesmo. Quanto maior é a exigência de sacrifício, mais tentadora é a vontade de desistir de tudo. E só eu sei o quanto tenho me sacrificado. O quanto tenho aberto mão de uma série de coisas que gostaria de estar fazendo, por outras. Me ressinto com isso também. E isso tem acontecido de uma forma bem ampla… Achei que fosse só com uma decisão, mas são com várias… É com uma postura que eu tenho, perante a tudo o que me acontece. E tudo o que eu escolho – sim, escolho – acolher na minha vida. E isso me chocou um pouco.

Essas coisas, essas respostas, aparecem via meditação, que me traz consciência sobre algumas coisas que num plano maior costumo ignorar. Só que diferente da psicanálise, essas coisas não vem de forma externa, nem de forma fácil e nem de forma lenta: vem como num soco. E batem forte e pesado. E é tudo interno e não há como escapar, não há como confrontar. Está ali. E o desafio é justamente aguentar o tranco da consciência e agir em relação a isso de uma outra forma, não analítica, não estratégica, nem nada disso. Não é um jogo de xadrez. Não estou tentando tapear ninguém aqui, neste espaço onde piso, passo a passo, um pé por vez. O confronto, nesse campo, é uma luta por poder muito mais sutil, onde eu posso ter a visão e o controle do que ocorre, em certa medida. Isso definitivamente não é entretenimento. Eu não sou idiota.

Não quero e não vou me ressentir nem de mim mesma e nem das minhas decisões. Vim aqui pra crescer, não pra me lamentar. Passar por isso tudo que estou passando foi e é uma escolha contínua e não um castigo. E se eu escolhi isso, foi por algum motivo. Tudo o que eu preciso nesse momento é me lembrar desse motivo. Reforçá-lo. Enaltecê-lo. Comemorá-lo. Dentro de mim mesma.

Eu não sou idiota.

Não tenho do que me ressentir. Vou integrar. Acolher e lidar com tudo o que acontece. Se ressentir é o caminho mais fácil, mais cômodo. Mais rápido. E o sofrimento perdura por muito mais tempo, até que você finalmente aprenda o que precisa ser aprendido. Acolher e integrar dói. É difícil. Não é atalho e nem é pra ser. Mas te dá uma força quase que incomensurável.

É uma merda estar no olho do furacão? Sim, é uma merda. Sim, sempre dói. Sim, vai ter sempre drama porque eu sou um macaco sem rabo. Mas eu me recuso a pular o fogo. Estou aqui pra passar por ele.

Então que seja.

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