A segunda ilusão

I

Acho que ainda não sei lidar com fim de ciclos. Parei de romantizar tanto as coisas, acreditando que elas “não acabam, mas se transformam”. As coisas acabam sim, a gente querendo ou não. Percebendo ou não. Fico com a fama de mal amada, de quem não tem memória, de quem nunca se importou com nada de verdade, de quem não sabe o que é amar, de quem nunca teve nada. Bem. As coisas acabam, independente do que você acha ou deixa de achar de mim. Elas deixam de fazer sentido e aí a gente chuta cachorro morto pelos mais variados motivos: carinho e respeito, pelo histórico, por tudo o que já passamos juntos, porque já cheguei até aqui então não vou desistir agora, morrer na praia. E mais um bando de mentiras que gostamos muito de acreditar que são verdades.

II

Há algum tempo pedi pra ela jogar pra mim e no meio de uma família inteira de espadas (overthinking) saiu a Lua. Um longo caminho pra eu, besoura, chegar em mim mesma. Eu quero o sol, mas sigo o reflexo da lua… Sendo que o meu sol é na verdade interno. Já está tudo aqui. O que estou esperando? Não sei ao certo. Sempre espero que o pior aconteça, nesse sentido específico. O que é bem imbecil da minha parte pois se eu esperar o pior ele VAI acontecer. Por que não esperar outra coisa? Porque entre os altos e baixos, chacais, esfinges, torres existem todas ilusões as quais preciso enxergar e saber lidar. Existe o caminho que não pode ser apenas contemplado, mas vivenciado. E as ilusões estão toda saqui na minha vida, cada uma ao seu modo. O que estou esperando?

III

A atração foi e é inevitável. Ouvi aquilo tudo, percebi aquilo tudo, respirei fundo, fui pra casa. Nunca agi em relação a isso. A atração estava aqui, existindo, no meu chacra básico. Visceral, violenta, despudorada. Cheia de vontade e desejo. Sempre senti isso, nunca deixei de sentir, deixei estar. Só que em dado momento eu elaborei em cima disso, papel, caneta, escreva nos mínimos detalhes tudo isso aí que você sente. Destampei o bueiro. Encarei uma por uma das minhas sombras, de tudo o que era sujo, baixo e vil. Aceitei e reconheci tudo isso como parte de mim, como um presente. Entendi o contexto e as limitações. Me validei e me recolhi justamente para poder me apropriar disso da maneira menos danosa possível. Depois deste passeio, entendi a ilusão e me permiti uma série de afetos de coração aberto: abraços, carinho, troca de gentilezas. Sem medo, me permiti poder gostar da maneira mais genuína possível. E foi bom. É bom ainda. O impulso ainda está ali, ele existe e não o nego. Mas agora está sob o meu domínio.

IV

Esse cara é um idiota. Não, ele não é. Não sei bem o que ele é. Hm. Isso muito me interessa.

Quem ele é?

V

Ela se jogou do sétimo andar. Não achei que fosse me chocar. Me choquei. Senti muito. Ainda não consegui conceber muito bem tudo isso. Consegui muito menos naquele dia que te vi, já tendo te idealizado por meses a fio. O que eu sentia por você vinha de um outro lugar, um lugar que eu julgava – ingenuamente – mais elevado. Apenas olhar pra você era capaz de encher o meu corpo inteiro de ternura, como uma onda de calor e amorosidade. Bem, é assim que isso funciona, parece, chacra cardíaco, sistema circulatório. A morte dela me forneceu um senso de urgência que eu até então desconhecia. Não achava que estivesse fazendo nada errado – e não estava. Sabia que as coisas não seriam mais como antes. Não queria que as coisas fossem mais como antes. Por um momento achei absolutamente injusto guardar o que eu tinha de melhor dentro de mim, sendo que eu podia simplesmente oferecê-lo a quem eu acredito que tanto merece. Me angustiei ao ponto da comunicação. Coloquei meu coração nas suas mãos, para que você fizesse o que quisesse com ele. 

VI

Eu só queria dizer que, meu deus, eu sou muito a fim de você.

VII

Você pegou meu coração pulsando com as duas mãos e, com um cuidado que eu nunca vi antes na minha vida, abriu meu peito e colocou ele de volta no lugar onde ele pertence e de onde ele jamais deveria sair. E, por isso, por esse cuidado, eu te agradeço. Tudo o que eu disser, tudo o que eu teimar em colocar no mundo em relação a isso que aconteceu, vai soar grosseiro e errado, mas a verdade é, que quando temos uma noção melhor de onde as coisas vem e quando entendemos como elas funcionam, toda dor passa a fazer um tipo diferente de sentido… E é justamente através dela que a compaixão consigo mesmo se torna implacável, irresistível. E foi aí que percebi que havia caído em mais uma ilusão auto-imposta e ri, sozinha. Meu ego está ressentido, obviamente. Mas procurei apenas sentir o que aconteceu e entender a dimensão e o significado daquilo tudo. E percebi que isso, que eu acredito existir, na verdade é só mais um véu a me separar do outro. São nomes, termos, palavras, coisas… Existem no mundo e estão aqui.

Talvez o que eu quero não esteja, nem seja. Haverão outros véus. Muitos deles. E eu jamais estarei preparada pra nenhum deles. E devo aprender com todos. Afinal, estou aqui pra isso. 

 

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