Uma questão de trabalho

Dora, estou em um emprego que eu detesto. Eu sinto uma tristeza tão grande por não conseguir arranjar outra coisa para poder sair de lá (sair sem ter outro trabalho não é opção infelizmente) que, no momento em que coloco o pé na porta, já me sinto inundada pela angústia. É como se o ambiente me engolisse, não sei explicar. É quase físico o negócio.
Tem algum ritual para eu impedir que a energia do lugar me derrube tanto?

Pergunta originalmente feita anonimamente via Curious Cat/Twitter.

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Olá Anon!

Vamos por partes.

Palavras que você usou: “detesto”, “tristeza”, “angústia”, “engolisse” e “derrube”.

Primeiramente, eu sinto muito que você sinta todas essas coisas em relação ao seu trabalho. Veja bem a palavra que eu uso: TRABALHO. Trabalho não é emprego, é algo muito mais profundo e complexo que isso. Trabalho, na minha humilde concepção, alinha-se muito ao propósito de vida. É algo com o qual você gasta uma quantidade de energia enorme, imensa, diariamente. Você tem noção do quanto isso é importante? Querendo ou não, achando bom ou não, o trabalho faz uma parte muito grande da nossa vida e não temos como ignorar isso. Deve ser muito difícil mesmo trabalhar com essas palavrinhas que você usou aí em cima. Isso posto, vamos ao problema.

Ao que tudo indica, você não gosta do seu atual EMPREGO e me pediu um “ritual para impedir que a energia do lugar te derrube tanto”. Novamente, vamos por partes: você já sabe que esse trabalho não combina mais com você. Isso me parece ser um fato. Ao que tudo indica, você já está procurando outro trabalho para sair do atual emprego – ou ao menos eu imagino e espero que sim. Para mim, não faz mais O MÍNIMO SENTIDO você gastar energia para tolerar um lugar em que não suporta mais estar. De verdade, mesmo. Digo isso de coração.

É claro que existem questões de ordem prática né: os boleto chega e ninguém é doido de largar um emprego pra ficar a deus dará. Isso realmente não é nada sábio.

Mas me parece que você precisa mudar algumas coisas internamente. Algumas perspectivas internas suas mesmo. E isso é um processo, leva tempo e esforço. Não é passe de mágica. Não é bagunça. É o que eu tenho chamado há algum tempo já de disciplina íntima.

Perceba a quantidade de palavras negativas você direcionou ao seu atual emprego (ou seja, a você mesmo/a?) que, querendo ou não, direta ou indiretamente, está ligado ao seu trabalho. Sinceramente, eu não vejo como se utilizar das energias dessas palavras possa te ajudar a conseguir algo novo.

Por que você não vira esse jogo?

Por que que ao invés de sentir que seu trabalho é um estorvo, você não se sente grata por ele? Grata por ele te permitir pagar as contas, que seja! Grata por ele mostrar a você e te ensinar qual é o tipo de ambiente que você NÃO quer estar. Grata por ele ter te feito evoluir a ponto de você perceber que, agora, você precisa ir para uma outra fase, uma nova fase.

Perceba as partes boas que esse seu emprego ruim te trouxe. Pense nas suas qualidades e em como você pode explorá-las em outro lugar, com outras pessoas, por outras perspectivas. Simplesmente PARE DE FOCAR nas coisas péssimas, ruins e difíceis pois toda vez que você estiver fazendo isso, você estará na verdade CELEBRANDO-AS. Não ALIMENTE isso. PARE com isso. Simplesmente PARE. Quebre esse ciclo. Eu sei que falar é fácil, mas isso precisa começar de algum modo, algum dia.

Eu NUNCA, JAMAIS vou te recomendar ritual algum pra você tolerar o lugar ruim onde está. Nunca. Jamais.

Mas eu estimulo sim que você faça rituais de agradecimento, de prosperidade, de pedidos de melhoria, de mentalizações do que você quer de MELHOR pra você. JAMAIS vou indicar o oposto disso simplesmente porque NÃO FAZ O MÍNIMO DE SENTIDO.

*Breve relato de experiência pessoal*: antes de sair do meu antigo emprego, eu procurei emprego por 8 meses, planilhei e monitorei vagas ativamente, espalhei currículos e mentalizei exatamente o que eu queria (o que queria fazer, pessoas, trajeto de casa-trabalho, etc. TUDO). Fui grata por tudo (genuinamente) que o antigo emprego me trouxe. Pedi pelo novo. Pensei nisso diuturnamente. Foquei minha energia nisso, nesse pedido. O emprego em que estou hoje veio EXATAMENTE como pensei, pedi e foquei. Perto de casa, equipe boa, trabalhando com o que sei fazer de melhor. Ele é perfeito? Longe disso. Mas é onde eu preciso estar HOJE e reconheço o meu merecimento e reconheço também que atraí exatamente o que vibrei. E claro, sou grata pra caralho sim.

Coisas que eu recomendo você fazer (e eu vou me repetir aqui):

1. ACEITE que este trabalho, de fato, não é mais pra você. Falo de aceitação pois muitas vezes a gente ACHA que aceitou algo, mas verdadeiramente, genuinamente, ENGANAMOS A NÓS MESMOS e somos APEGADOS e não queremos de fato largar mão. Não largamos o osso nem a pau!!! Dizemos que não queremos mais, mas nossas ações são todas o contrário disso. Queremos coisas novas mas continuamos fazendo as mesmas coisas de sempre… Sabemos que isso é loucura. Como querer resultados diferentes fazendo sempre a mesma coisa? PERCEBA a si mesma, de verdade. Você REALMENTE quer sair desse trabalho ou só ACHA que quer? O que você faz ATIVAMENTE em relação a isso? Quais são seus padrões de pensamento em relação a isso?

*Breve relato de experiência pessoal*: solicitei meu CRB e fui bibliotecária de 2012 a 2014. Quis cancelá-lo em 2015 e meu pedido foi indeferido. Não quis brigar pelo indeferimento e segui pagando as anuidades. Mas eu não me atentei, naquela época, que eu não estava na verdade bem resolvida com a área, com o conceito do que é ser bibliotecária. E na verdade eu não era mais, só não conseguia nem queria lidar com isso, com esse sentimento, encarar isso DE FATO. Daí eu tive que começar todo um processo de desidentificação (?) como bibliotecária. Isso foi MUITO sério pra mim, pois me identifiquei assim por muito tempo e essa profissão foi a que eu quis e escolhi em detrimento dos desígnios e desejos externos, doa a quem doer! Não era simplesmente mais questão de “não precisar mais pagar o CRB”, mas algo bem mais profundo que isso: eu não me identificava mais como bibliotecária. Ponto. E me dar conta disso foi dolorido e sofrido, foi como um divórcio… Pois por muito tempo eu quis muito isso. Enfim, foi duro eu reconhecer que tinha acabado. Fiz um ritual de agradecimento, recordando todo meu histórico como bibliotecária, elencando TUDO o que a área me trouxe de bom, todos os aprendizados, todas as pessoas, entendendo como aquilo é parte indissociável de mim, das minhas escolhas e de quem sou hoje, de como me fez chegar até aqui e conquistar todas as coisas que conquistei. Fui profundamente e genuinamente grata, de verdade e entendi que me resolvi com essa questão de forma razoável. Solicitei o cancelamento do CRB novamente no começo desse ano. O cancelamento foi deferido. (Tá, pode ter sido “só coincidência”? Pode. Pois bem: foda-se. Pra mim foi bom. Não tô querendo provar nada pra ninguém não, isso só diz respeito a mim, exclusivamente).

2. AGRADEÇA AGRADEÇA AGRADEÇA pelo seu atual emprego. Eu não vou nem entrar no mérito do quanto de gente que tá desempregada porque eu imagino que você já saiba que o Brasil está em crise há alguns anos né? Mas enfim… AGRADEÇA. Veja todas as coisas que ele te trouxe de bom (NÃO É POSSÍVEL que não tenha ABSOLUTAMENTE NADA de bom, eu duvido! nada é totalmente ruim, nem totalmente bom). Veja os pontos positivos dele, quaisquer que sejam, mesmo que sejam os mais práticos: dinheiro, boletos pagos, segurança financeira, estabilidade, etc., qualquer coisa que seja, o significado disso é único e seu!!! Entenda como ele te fez enxergar e entender certas coisas, como te fez conhecer pessoas (boas ou ruins, não importa), como te fez evoluir como pessoa pois hoje você sabe o que é e o que não é bom pra você, o que você quer e o que você não quer! E o simples fato de saber e entender isso é um privilégio do caralho, que ninguém nunca nota. E last but not least: SINTA que com tudo o que você aprendeu, você está efetivamente pronta pra encarar uma próxima fase na sua vida. E aí você vai pro passo seguinte que é…

3. IMAGINE-se em um novo trabalho. Alimente isso, esses pensamentos, na sua mente diuturnamente. Como você quer se sentir no seu próximo trabalho? Como você quer que ele seja? O que você quer fazer? Com que tipos de pessoa quer trabalhar? Imagine em detalhes vívidos, escreva sobre isso, pense nisso diariamente, tenha FOCO nisso. Peça, imagine e realize. Abra esse espaço para o novo, pra ele poder vir efetivamente. Pare de focar no velho, no antigo, no que não é harmônico, no que não combina e que NÃO DÁ MAIS. Simplesmente PARE. SAI DAÍ ANON CÊ VAI MORRER!!!

Não vou dar receita de bolo pra ritual de prosperidade, agradecimento, etc., porque

  1. Ainda não me sinto APTA a repassar esse tipo de conhecimento pra terceiros, sou só uma estudante e curiosa que calhou de passar por algumas experiências que PARA MIM funcionaram; ou seja, nada é muito garantido por aqui;
  2. Ainda acho que a criação de rituais é algo muito íntimo de cada pessoa e vai depender muito do nível de conhecimento que ela tem dessas práticas e também de como a espiritualidade que ela tem está desenvolvida (ou não).
  3. Não tenho paciência pra quem tá começando (risos brinks tenho sim olha essa porra de textão enorme que eu escrevi)

Espero ter ajudado.

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