Moto em 7 atos

I Início

Sempre quis ter moto. Tirei carteira com 18 anos, quis tirar AB, papai não deixou. Não por machismo, nem nada, mas por querer proteger sua filha de si mesma. Papai é um homem sábio. Hoje eu entendo: eu era absolutamente inconsequente mesmo, quando era mais nova.

Dirigi carro por algum tempo em Campo Grande quando morei lá, mas desde que saí de casa nunca mais dirigi. Em Floripa tudo era perto nunca precisei de nada nesse sentido. Aí vim pra Sampa e demorei uns 2 anos pra dimensionar o que era realmente a Grande São Paulo (acho que ainda não dimensionei direito, só sei que é muito grande mesmo). Trabalhei em alguns lugares, peguei muito ônibus, metrô, andei muito a pé até que isso começou a me roubar vida. Meu dia tinha 20 horas: 8 no trabalho, 8 dormindo, de 4 a 5 em trânsito e sobravam só 4 horas pro “resto”. Entendo que existem realidades muito mais duras que essa minha, mas pra mim isso foi ficando *realmente* muito difícil de naturalizar.

Sendo mulher e sozinha, pra mim não só era inviável como era até meio irresponsável ter um carro: um trambolho enorme, com quatro lugares (eu sou uma só!), enfiar mais um carro no trânsito imenso que é essa cidade, mais poluição, sem falar nos gastos que, sinceramente, não tenho grana pra bancar. Não queria isso. E também não via outra alternativa a não ser continuar pegando transporte público, me entalando tal qual sardinha, aturando sarrada de desconhecido, tolerando falta de educação, tudo o que auxilia, em muito, na impaciência, na tristeza, no desequilíbrio mental. E isso era diário. E já estava enchendo o saco.

II Inspiração

Aí saiu o filme do Mad Max em 2015. Eu conhecia os filmes antigos e fui despretensiosamente ver o Fury Road no cinema. Na tela grande eu vi as Vuvalini (as Many Mothers) pilotando no deserto e aquilo ressoou em mim com uma intensidade absolutamente fulminante. Um grupo de senhoras pilotando motos no deserto, protegendo umas as outras. No dia que eu vi aquilo, não me dei conta do quanto essas cenas tinham me impactado. Mas depois do filme comecei a pensar em uma moto como uma possibilidade de deslocamento, de libertação, de vida mesmo. Até então, eu achava que eu “não tinha mais idade” pra ter moto. Que era um devaneio juvenil meu. Eu ria de mim mesma quando pensava em incluir a categoria A na minha carteira. Me achava muito ridícula por simplesmente querer isso e essa parecia ser uma barreira intransponível. Piores que as barreiras do mundo, só as nossas. Tive que vencer algumas boas quedas de braço dentro de mim mesma, com meus próprios preconceitos, pra poder fazer esse desejo existir e vir a tona. Até que comecei a desejar isso com muita força e agi: me organizei e me planejei, meticulosa e sistematicamente, como boa parte das coisas que eu faço.

III Medos

Eu não tinha absolutamente nada: minha CNH não tava transferida pra SP ainda, não tinha carteira A, nem moto, nem nada. Tive que ir atrás, do zero. Com 33 anos, eu só avisei meus pais que tiraria carteira de moto. Não pedi autorização. Eles não disseram nada, mas por dentro acho que eles silenciosamente só esperavam (esperam, acredito) que nada de muito ruim acontecesse comigo. E de acordo com o que eles vêem na TV, “todo mundo” já sabe como é o trânsito em São Paulo: violento, caótico, hostil, etc. Tive que conviver com o medo, mas cheguei a conclusão que ele era um amigo antigo e que, com moto ou não, ele apenas permaneceria sendo meu amigo mesmo. Ter medo pode ser bom, não há nada de errado em ter medo. Precisei lidar não só com o medo de si, mas também com o medo dos outros. Foi um passo de cada vez.

Incluí a categoria A na minha CNH no final de março de 2017 e dia 5 de abril comprei a moto de uma mulher, da Tathy. Descobri que além do capacete obrigatório, também poderia ser interessante usar algumas coisas – pra me manter viva – tais como jaqueta, botas, luvas, equipamentos de proteção em geral. Foi aí que comecei a entender que parece que não é só uma moto, tem todo um contexto mais amplo, todo um universo. No primeiríssimo dia que saí de moto de casa pro trânsito, peguei a Rebouças de primeira, pra ir pra faculdade. Eu tremia, suava, coração disparado. “Você não tem medo?”. Tenho. O tempo todo. Mas aos poucos o medo foi se aquietando e se acomodando dentro de mim. Uma queda aqui, outra ali, aprendendo a cair 7 vezes e levantar 8, a voz do medo foi ficando cada vez mais quietinha, embora sempre presente. Hoje, mesmo sendo um sussurro, é ele que me faz prestar atenção, me deixa focada e evita muita coisa.

IV Entusiasmo

Me surpreendi positivamente com o trânsito em São Paulo porque ele nem sempre é o que a mídia diz que é. Nem de longe. Na grande maioria das vezes, o trânsito é ok (pelo menos nas áreas onde eu transito, centro, etc) e em um ano nunca presenciei nenhum desentendimento, nem nada de muito horrível. Em absolutamente TODAS as vezes que eu caí no trânsito, as pessoas pararam e foram solícitas, me ajudaram a levantar, a levantar a moto, perguntavam se eu estava bem, se precisava de algo, etc. Nunca houve indiferença, nunca senti isso. Tudo muito diferente mesmo do caos e da desumanização que pintam na TV e que fetichizam no imaginário. Ou talvez eu tenha “sorte”. Também, não é por menos: peço proteção pra três guias todos os dias antes de sair de casa e os carrego comigo, pra onde quer que eu vá. Por algum tempo, pedi proteção só pra mim. Depois que isso se fortaleceu, hoje peço por mim e pra todos os veículos e pedestres que estejam ao meu redor. Se percebo que o dia está muito pesado, faço a oração de São Jorge antes de sair. Nunca imaginei que o fato de ter uma moto fosse se misturar com o desenvolvimento da minha própria espiritualidade, mas isso acontece sim, também.

V Mulher de moto

Algumas mulheres tem isso de pilotar “tão bem quanto homem” ou “pilotarem como homens”, mas pra mim essa é uma comparação descabida. Competição também é algo que não me apetece, nem nunca apeteceu. Eu não estou competindo com nada, nem ninguém. Não sou homem, nem quero ser e eu piloto como mulher mesmo. E é um estilo de pilotar, ao meu ver, completamente diferente: temos uma postura diferente, temos mais cuidado, nossas preocupações muitas vezes são outras. E isso é ok. Também observo diariamente no trânsito o machismo trabalhar ao meu favor: bastam ver que é “uma mulher na moto” que os espaços se abrem, os sorrisos, os “bom dia”. Já me chamaram de corajosa. Talvez eu seja, sei lá, isso nunca me interessou. Nunca fui assediada no trânsito, talvez porque já seja velha demais pra isso. Bom, tanto melhor, menos desconforto. E também nunca me privo de nada: piloto de vestido, de short, de saia e é sempre muito libertador.

VI Moto é perigoso

A real REAL mesmo, de coisas que eu vi e vivenciei em 1 ano andando de moto em São Paulo: 1. carros são lentos, mas nem por isso devemos subestimar o estrago que eles podem fazer; 2. a grande maioria dos motociclistas são kamikazes mesmo, por N motivos. Às vezes tenho a impressão de que muitos acham que estão andando de bicicleta – isso porque até pra bicicleta hoje em dia tem regras! – mas digo isso porque eles ignoram absolutamente toda e qualquer regra de trânsito e muitas vezes colocando a própria vida e a dos outros em risco. Róla muita coisa desnecessária, se arriscam de maneiras completamente intransigentes aí acidentes e mortes acontecem e: “moto é perigoso”. Bom: nem sempre. Só digo isso.

A frase “você não é todo mundo”, ouvida mil vezes durante a infância, sempre vem na minha cabeça quando estou no trânsito, vejo motociclistas fazendo merda e sinto um breve ímpeto de seguir a manada. Sempre me repreendo e nunca me arrependo. E muitas vezes acho que só sobrevivi por aqui e evitei muita coisa justamente por não entrar nessa onda de neurose e ansiedade que a cidade impõe sobre a gente. O desafio nunca é chegar primeiro ou mais rápido: o desafio sempre vai ser chegar viva e sem ter matado ninguém nem nada no percurso. Novamente: eu não estou competindo. Se eu atrasar, eu atrasei: minha vida e a segurança de todos veículos, pedestres e quem mais tiver ao meu redor pra mim são mais importantes do que quinze minutos. É sempre uma questão de prioridade, acho.

VII Cultura

A moto não é só uma moto. Conheci muita gente, fiz muitos amigos, meu dia voltou a ter 24 horas (que ainda são poucas, mas é o que tem pra hoje), chego rápido (mesmo sem ter pressa) no trabalho e na faculdade, volta e meia vou em passeios maravilhosos como o de ontem do Free Spirit Night Race, até agora fiz 3 viagens bem curtinhas mas que me ensinaram uma coisa e outra. Claro que tem o lifestyle e muita gente prefere focar nisso, mas entendo essa parte mais como um efeito colateral mesmo, de ter de se adaptar ao fato de ter uma moto: mudanças de roupa, mas também de corpo e de noção de espaço e principalmente de enxergar, de verdade, o outro. A caveirinha é sempre o símbolo mais óbvio e clichê por isso: porque por debaixo de tudo o que existe, no final mesmo, é isso o que somos. E é bom se lembrar disso, diariamente. Pra mim, é um privilégio poder reconhecer que andar de moto é um dos mais importantes exercícios de alteridade que já fiz na vida. Me obrigo a enxergar o outro independente de qualquer coisa e a estar atenta sempre. E ao mesmo tempo isso já é uma parte de mim, uma parte de quem eu tento ser. É uma paixão que não tem muita explicação, como toda paixão deve ser.

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