Por que Millenials curtem tanto astrologia?

Em uma época estressante e baseada em dados, muitos jovens encontram conforto e insights no zodíaco — mesmo que não acreditem exatamente nele.

Originalmente publicado no The Atlantic, com o título “A Nova Era da Astrologia”, por Julie Beck

Astrologia é um meme e está desabrochando e se desdobrando da mesma forma que eles. Nas mídias sociais, astrólogos e máquinas de memes de astrologia amontoam dezenas de centenas de milhares de seguidores, as pessoas brincam sobre Mercúrio retrógrado e categorizam “os signos como…” literalmente qualquer coisa: raças de gatoscitações de Oscar Wilde,personagens de Stranger Things, tipos de batatas fritas. Em publicações on-line, horóscopos diários, semanais e mensais, e pequenas listas relacionadas ao zodíaco florescem.

Este não é o primeiro momento que a astrologia teve e não será o último. A prática tem existido por aí de várias formas por centenas de anos. Mais recentemente, o movimento New Age dos anos 60 e 70 veio com uma boa parcela de ajuda do zodíaco. (Alguns também referem-se ao New Age como a “Era de Aquário” — o período de 2000 anos depois que dizem que a Terra entrou no signo de Aquário).

Nas décadas entre o boom do New Age e agora, enquanto a astrologia certamente ainda não desapareceu — você ainda podia encontrar horóscopos regularmente nas páginas de algumas revistas — ela “voltou a atuar um pouco mais no backstage” diz Chani Nicholas, uma astróloga de Los Angeles. “E então aconteceu algo nos últimos cinco anos que forneceu a ela uma popularidade, uma relevância para este tempo e lugar, que ela não tinha tido por bons 35 anos. Os Millenials aceitaram e entraram nesse jogo”.

As muitas pessoas com quem falei para escrever este artigo disseram que sentiam que o estigma atrelado à astrologia, embora ainda exista, tinha recuado uma vez que a prática tinha agarrado um ponto de apoio na cultura on-line, especialmente com pessoas mais jovens.

“Nos últimos dois anos, nós realmente observamos uma readequação das práticas New Age, muito voltada em relação a um quociente Millennial e nova Geração X”, diz Lucie Greene, diretora mundial do grupo de inovação J. Walter Thompson, que monitora e faz previsões de tendências culturais.

Callie Beusman, editora sênior da Broadly, diz que o tráfico para os horóscopos do site “cresceram exponencialmente”. Stella Bugbee, presidente e editora chefe do The Cut, diz que um post normal sobre horóscopo no site teve 150 vezes mais tráfego em 2017 do que no ano anterior.

De alguns modos, astrologia serve perfeitamente para a era da Internet. Existe uma baixa barreira para entrada e profundidades quase que infinitas para minerar se você tem vontade de fazer uma pesquisa pelo Google e entrar pelo buraco do coelho branco. A disponibilidade de informações profundas on-linedeu a esta onda cultural de astrologia uma certa erudição — mais piadas sobre o retorno de Saturno, menos cantadas baratas do tipo “ei gracinha, qual seu signo?”

Um princípio rápido: astrologia não é uma ciência; não existe evidência que o signo zodiacal de alguém se correlaciona de fato com a personalidade. Mas o sistema tem seu próprio tipo de lógica. Astrologia atribui significado à colocação do sol, da lua e dos planetas dentro das 12 seções do céu — os signos do zodíaco. Você provavelmente sabe o seu signo solar, o mais famoso signo zodiacal, mesmo se você não é um especialista em astrologia. É baseado em onde o sol estava em seu aniversário. Mas a localização da Lua e cada um dos outros planetas no tempo e localização do seu nascimento adicionam nuances à sua figura pintada pelo seu “mapa astral”.

“Os jovens hoje em dia e seus memes são o contexto perfeito para a astrologia.”

Teoricamente, o que o horóscopo deve fazer é oferecer informações sobre o que os planetas estão fazendo no momento, o que vão fazer no futuro e em como tudo isso afeta cada signo. “Pense nos planetas como se eles estivessem em uma festa”, explica Susan Miller, a popular astróloga que fundou o site Astrology Zone. “Você pode ter três pessoas conversando juntas, duas podem estar brigando num canto, Vênus e Marte podem estar trocando beijos. Meu trabalho é entender as conversas que estão acontecendo todos os meses e explicá-las para você”.

“Os astrólogos sempre estão tentando reduzir esses conceitos gigantes a pedaços de conhecimento mais fáceis de digerir”, diz Nicholas. “Os jovens de hoje em dia com seus memes são o contexto perfeito para a astrologia”.

A astrologia expressa ideias complexas sobre personalidade, ciclos de vida e padrões de relacionamento por meio de abreviaturas com os planetas e símbolos do zodíaco. E essa abreviatura funciona bem on-line, onde símbolos e atalhos costumam estar embutidos na comunicação.

“Primeiro, gostaria de dizer que considero a astrologia um fenômeno cultural ou psicológico e não científico”, diz Bertram Malle, cientista cognitivo social da Brown University, em um e-mail. “Mas a “astrologia completa” — que vai além dos horóscopos sobre seu signo solar no jornal — oferece um poderoso vocabulário para capturar não só personalidade e temperamento, mas também desafios e oportunidades da vida. Na medida em que alguém aprende esse vocabulário, ele pode ser atraente como uma maneira rica de representar (não explicar ou prever) experiências humanas e eventos da vida e identificar alguns possíveis caminhos para lidar com as coisas”.

As pessoas tendem a recorrer à astrologia em momentos de estresse. Um pequeno estudo realizado em 1982 pelo psicólogo Graham Tyson descobriu que as “ pessoas que consultam astrólogos” fazem isso em resposta a agentes de estresse em suas vidas — particularmente os estresses “ligados aos papéis sociais do indivíduo e aos seus relacionamentos”, escreveu Tyson. “Em condições de alto estresse, o indivíduo está preparado para usar a astrologia como um dispositivo de superação, mesmo que em condições de baixo estresse ele não acredite nela”.

De acordo com os dados da pesquisa da American Psychological Association, desde 2014 os Millennials foram a geração mais estressada e também a geração com maior probabilidade de dizer que seu estresse aumentou no ano passado, desde 2010. Millennials e pessoas da Geração X têm estado significativamente mais estressados ​​do que as gerações mais antigas desde 2012. E os americanos como um todo viram um aumento do estresse devido ao tumulto político desde as eleições presidenciais de 2016. A edição de 2017 da pesquisa da APA descobriu que 63% dos americanos disseram que estavam significativamente estressados ​​sobre o futuro de seu país. Cinquenta e seis por cento das pessoas disseram que ler as notícias era algo estressante e era significativamente mais provável que Millennials e pessoas da Geração X falassem isso, em comparação com pessoas mais velhas. Ultimamente, as notícias muitas vezes tratam de lutas políticas internas, mudanças climáticas, crises globais e da ameaça de uma guerra nuclear. Se o estresse faz a astrologia parecer mais interessante, não é surpresa nenhuma que mais pessoas pareçam ser atraídas por ela nesse momento.

Os horóscopos de Nicholas são uma prova disso. Ela tem cerca de 1 milhão de leitores mensais on-line e recentemente assinou o contrato para um livro — um dentre quatro novos guias de astrologia convencional vendidos em um período de dois meses no verão de 2017, de acordo com o Publisher’s Marketplace. Anna Paustenbach, editora de Nicholas na HarperOne, me disse em um e-mail que Nicholas “está no comando de um ressurgimento da astrologia”. Ela acha que isso acontece em parte porque os horóscopos de Nicholas são explicitamente políticos. No dia 6 de setembro, o dia depois de a administração do Trump anunciar que estava rescindindo o DACA — o programa de proteção por ação diferida para imigrantes ilegais — Nicholas enviou sua newsletter típica para a próxima lua cheia. Nela, encontramos o trecho:

A lua cheia em peixes… pode abrir os mananciais de nossos sentimentos. Pode nos ajudar a ter empatia com os outros… Que usemos esta lua cheia para continuar a sonhar e trabalhar ativamente no sentido de criar um mundo onde a supremacia branca seja abolida.

A astrologia oferece aos que estão em crise o conforto de imaginar um futuro melhor, uma lembrança tangível daquela frase clichê que, no entanto, é difícil de se lembrar quando as coisas estão difíceis: tudo passa.

Em 2013, quando Sandhya tinha 32 anos, ela baixou o aplicativo Astrology Zone, procurando uma ajuda para seu caminho. Ela sentia-se solitária e não valorizada em seu trabalho sem fins lucrativos em Washington, D.C., e estava saindo para beber quatro ou cinco vezes por semana. “Eu estava em um ciclo de sair constantemente, tentando escapar”, diz ela.

Ela queria saber quando as coisas iriam melhorar e a Astrology Zone tinha uma resposta. Júpiter, “o planeta da boa sorte”, entraria no signo do zodíaco de Sandhya, Leão, dentro de um ano, e permaneceria lá por mais um ano. Sandhya se lembra de ler que, se ela tirasse a bagunça de sua vida agora, iria colher as recompensas quando Júpiter chegasse.

Então, Sandhya passou o ano seguinte abrindo espaço para Júpiter. (Ela pediu que não publicássemos seu sobrenome porque trabalha como advogada e não quer que seus clientes conheçam detalhes de sua vida pessoal.) Ela começou a passar mais tempo em casa, cozinhar para si mesma, se candidatar a empregos e sair mais em encontros. “Eu definitivamente me distanciei de dois ou três amigos que sentia que não tinham uma boa energia quando eu ficava perto deles”, diz ela. “E isso ajudou significativamente”.

Júpiter entrou em Leão em 16 de julho de 2014. Naquele mesmo mês, Sandhya recebeu uma nova proposta de emprego. Em dezembro, Sandhya conheceu o homem com quem iria se casar. “Minha vida mudou dramaticamente”, diz ela. “Parte disso é como a crença em algo faz com que isso aconteça. Mas eu segui o que o aplicativo estava dizendo. Então eu dou um pouco de crédito a essa crença em Júpiter”.

Uma combinação de stress e incerteza sobre o futuro é um padecimento para o qual a astrologia parece ser o bálsamo perfeito.

Humanos são criaturas narrativas, constantemente explicando suas vidas e seus eus por costurarem juntos passado, presente e futuro (na forma de objetivos e expectativas). Monisha Pasupathi, uma psicóloga de desenvolvimento que estuda narrativa na Universidade de Utah, diz que, ao mesmo tempo que ela não dá crédito à astrologia, acredita também que ela “provê às pessoas um enquadramento muito claro para esta explicação”.

Ela dá um sentimento agradável de organização, não muito diferente de colocar uma biblioteca em ordem alfabética, pegar os eventos e emoções aleatórios da vida e classificá-los em estantes etiquetadas que ajudam bastante. Esse cara não está respondendo minhas mensagens provavelmente porque Mercúrio retrógrado fez com que ele não recebesse minhas mensagens. Eu demoro tanto tempo pra tomar decisões por causa de meu Marte em Touro. Meu chefe finalmente vai reconhecer todo o meu trabalho duro quando Júpiter entrar na minha décima casa. Uma combinação de estresse e incerteza sobre o futuro é um padecimento para o qual a astrologia parece ser o bálsamo perfeito.

Sandhya diz que ela busca a astrologia procurando ajuda em tempos de desespero, “quando eu só quero que alguém me diga que no futuro vai ficar tudo bem.” Ler seu horóscopo era como ver os próximos capítulos da sua própria história.

“Eu estou sempre preocupada”, diz ela. “Sou uma dessas pessoas que, depois que começo a engatar a leitura de um livro, pulo para a frente e leio o final. Eu não gosto de ganchos emocionantes, não gosto de suspense. Eu só preciso saber o que vai acontecer. Tenho uma história na minha cabeça. Eu estava esperando que certas coisas acontecessem na minha vida, e queria ver se vou ter sorte o suficiente para que elas aconteçam”.

Agora que eles aconteceram, “Eu não tenho lido muito [o meu horóscopo]”, ela diz, “e acho que é porque estou em um lugar feliz agora”.

Maura Dwyer

Para alguns, as previsões da astrologia funcionam como a pena do Dumbo — uma mágica reconfortante que ajuda a segurar as pontas até você perceber que poderia voar por conta própria o tempo todo. Mas é o inexplicável brilho místico da pena — mais suave e menos cansativo do que o brilho de uma tela — que faz com que as pessoas a busquem em primeiro lugar.

As pessoas estão começando a ficar cansadas de uma vida vivida tão intensamente na rede. Elas querem mais anonimato on-line. Estão ficando cansadas com ebooks, aplicativos de namoro, redes sociais. Elas desejam algo a mais nessa era de eus quantificados, localizações rastreadas e respostas indexadas a todas as perguntas possíveis. Exceto, talvez, perguntas sobre quem você é realmente, e o que a vida tem reservado para você.

Ruby Warrington é uma escritora sobre estilos de vida cujo guia New AgeMaterial Girl, Mystical World foi lançado em Maio de 2017 — bem à frente da onda de venda de livros de astrologia nesse verão. Ela também direciona um website místico esotérico, The Numinous, uma palavra que o Merriam-Webster define como “sobrenatural ou misterioso”, mas que Warrington define em seu website como “aquilo que é desconhecido ou incognoscível”.

“Eu acho que, quase como um contraponto ao fato de que vivemos em um mundo tão quantificável e meticulosamente organizado, há o desejo de conectar-se e tocar essa parte numinosa de nós mesmos”, Warrington diz. “Eu vejo a astrologia como uma linguagem de símbolos que descreve essas partes da experiência humana para as quais nós não necessariamente temos equações, números e explicações”.

O grupo de inteligência do J. Walter Thompson lançou um relatório de tendências em 2016 chamado “Unreality” que diz muito sobre a mesma coisa: “estamos cada vez buscando a irrealidade como forma de escape e uma forma de procurar por outros tipos de liberdade, verdade e significado”, diz o relatório. “O que emerge é uma apreciação pela mágica e pela espiritualidade, o sabiamente irreal, e os aspectos intangíveis de nossas vidas que desafiam o big data e a ultratransparência da web”. Esse tipo de reacionarismo cultural de mudança de 180 graus já aconteceu antes — após a ênfase do Iluminismo na racionalidade e no método científico nos séculos 17 e 18, o movimento Romântico viu as pessoas se voltando para a intuição, a natureza e o sobrenatural. Parece que nós estamos em um ponto de inflexão similar. A revista New York até usou a pintura romântica seminal Wanderer Above the Sea of Fog para ilustrar o artigo recente sobre antitecnologia de Andrew Sullivan, I Used to Be a Human Being.

JWT e outro grupo de previsão de tendências, WGSN, em seu relatório: “Millenials: a Nova Espiritualidade”, agrupam a astrologia com outras tendências místicas New Age que atraíram os jovens nos últimos anos: cristais de curabanhos de som e tarô, entre outros.

“Eu acho que se tornou geralmente menos aceitável apenas arbitrariamente cuspir nas coisas como ‘isso não é racional, ou isso é imbecil porque não é um fato’” diz Nicole Leffel, uma engenheira de software de 28 anos que vive em Nova Iorque.

Bugbee, a editora chefe do The Cut, notou essa mudança há alguns anos. “Eu poderia apenas dizer que as pessoas estavam de saco cheio de um certo tipo de tom afiado,” ela disse. Nesse ponto, o site tem publicado horóscopos levemente irreverentes com gifs que servem para encapsular o humor de cada signo para a semana. Mas Bugbee percebeu “que as pessoas queriam sinceridade mais do que tudo. Então, nós meio que ficamos totalmente sinceros [com o horóscopo] e foi aí que vimos um interesse real acontecer”.

Mas um sincero interesse crescente em astrologia não significa que as pessoas estão indiscriminadamente abandonando a racionalidade por crenças mais místicas. Nicholas Campion, um historiador de astrologia, ressalta que a questão de saber se as pessoas “acreditam” em astrologia é impossível de responder e não é realmente uma pergunta útil a ser feita. As pessoas podem dizer que elas não “acreditam” em astrologia, mas ainda se identificam com seus signos zodiacais. Elas podem curtir ler seus horóscopos, mas não mudam seu comportamento baseados no que ele diz. Existem mais nuances do que essa estatística permite.

Muitas examinações convencionais de astrologia enquanto uma tendência estão profundamente preocupadas em desmascará-la. Eles gostam de apresentar a pesquisa da National Science Foundation que mede o quanto as pessoas pensam que astrologia é científica e lembram os leitores de que ela não é. E não é mesmo. Mas esse não é o ponto, na verdade.

Enquanto certamente existem algumas pessoas que aceitam a astrologia cegamente como um fato e a enxergam em paralelo como uma disciplina como biologia, isso não parece ser o caso entre vários dos jovens adultos que estão abastecendo essa renascença do zodíaco. As pessoas com as quais eu falei para este artigo geralmente se referiam à astrologia como uma ferramenta, ou um tipo de linguagem — uma linguagem que, para muitos, é mais metafórica que literal.

“Astrologia é um sistema que olha para ciclos e nós usamos a linguagem dos planetas”, diz Alec Verkuilen Brogan, um estudante de quiropraxia de 29 anos que mora na Bay Area e também estudou astrologia por 10 anos. “Não é como se esses planetas literalmente andassem por aí dizendo ‘Agora, eu vou fazer isso’. É uma linguagem que fala com as estações da vida”.

“Levamos astrologia muito a sério, mas nós também não necessariamente precisamos acreditar nela. É apenas uma maneira de olhar o mundo.”

Michael Stevens, um rapaz de 27 anos que vive no Brooklyn, estava na época da crise dos 25 anos na mesma época do eclipse solar total em agosto desse ano. “Tradicionalmente, sou um cético”, ele diz. “Sou casca dura, que nem a Dana Scully do Arquivo X. E aí um monte de merda começou a acontecer na minha vida”. Por volta da época do eclipse, no curso de seu trabalho com propaganda, ele ligou diretamente para a Susan Miller, do Astrology Zone, para perguntar se poderia colocar alguns anúncios no site dela.

Ela estava irritada, ele diz, que ele ligou pra ela no fim do mês, que é quando ela escreve seus famosos horóscopos extensos. Mas então ela perguntou a ele qual era o seu signo — Sagitário. “E ela disse ‘Oh, ok, essa lua nova está dura pra você’”. Eles conversaram sobre trabalho e problemas de relacionamento. (Miller não se lembra dessa conversa especificamente, mas diz “Eu sempre tento ser legal com as pessoas que me ligam do nada. É algo que eu faria.”)

Estudos mostraram que, se você escreve uma descrição de personalidade genérica e diz pra alguém que se aplica a essa pessoa, é provável que elas a percebam como correta — seja na forma de uma descrição do seu signo zodiacal ou outra coisa.

Stevens diz que poderia ter lido potencialmente sua conversa com Miller dessa maneira. “Ela diz ‘Você está passando por uma série de desafios agora”, ele diz. “Quem não está? É 2017”.

Ainda assim, ele diz que a conversa o fez sentir melhor; estimulou ele a tomar atitudes. Nos meses que se sucederam entre sua ligação com Miller e nossa conversa em outubro, Stevens largou seu trabalho com publicidade e encontrou outro em recursos humanos. Pouco depois de conversarmos, ele e sua namorada terminaram.

“[Eu percebi] que estava agindo como um NPC de merda em um RPG de D&D” diz Stevens, “então eu provavelmente deveria fazer escolhas e buscar algumas das coisas boas que poderiam acontecer se eu apenas [me importasse] em ser uma pessoa feliz de uma forma autêntica”.

A história de Steven exemplifica um comportamento que prevalece entre várias pessoas com quem conversei — que não importa se astrologia é real ou não; o que importa é que é útil.

“Nós levamos astrologia muito à sério, mas também não necessariamente acreditamos nela”, diz Annabel Gat, astróloga no Broadly“porque é uma ferramenta para autorreflexão, não é uma religião nem uma ciência. É apenas uma forma de se olhar para o mundo e uma forma de se pensar sobre as coisas”.

Beusman, que contratou Gat na Broadly, compartilha de seu modo de pensar. “Acredito em várias coisas conflitantes em várias áreas da minha vida”, ela diz. “Então, para mim, é fácil ter essas duas ideias na minha cabeça ao mesmo tempo. Isso pode não ser verdade de nenhum jeito, e também eu penso algo como ‘Bem, eu tenho três planetas entrando em Escorpião no próximo mês, então talvez eu deva ser mais sábia ao tomar decisões na minha carreira’”.

Esse comportamento é exemplificado pela coluna “Astrologia é Mentira” do The Hairpin, escrito por Rosa Lyster com títulos como “Astrologia é Mentira mas leoninos são famosos” e “Astrologia é Mentira mas taurinos odeiam mudanças”.

Pode ser que os Millenials estejam mais confortáveis vivendo nas fronteiras entre o ceticismo e a crença porque eles passaram muito tempo de suas vidason-line, ou seja, um espaço que é verdadeiro e falso ao mesmo tempo. Que muitas pessoas achem astrologia significativa é um lembrete de que as coisas não precisam ser reais para serem verdadeiras. Não encontramos verdade na ficção?

Descrevendo sua atitude em relação à astrologia, Leffel lembrou-se de uma citação do livro do Neil Gaiman, Deuses Americanos em que o personagem principal, Shadow, imagina se o raio no céu era de um pássaro mágico, “ou apenas uma descarga atmosférica, ou que as duas ideias fossem, em algum nível, a mesma coisa. E claro que eram. Esse era o ponto, afinal”.

Se a afirmação que “astrologia é falsa mas verdadeira” parece um paradoxo, bem, talvez o paradoxo é que seja atraente. Muitas pessoas me ofereceram a hipótese para explicar o reaparecimento da astrologia. Nativos digitais são narcisistas, alguns sugeriram, e a astrologia é uma obsessão em olhar para o próprio umbigo. As pessoas se sentem impotentes aqui na Terra, outros disseram, então elas estão voltando-se às estrelas. É claro que trata-se de ambos. Alguns acham que é um escape do pensamento lógico do “cérebro esquerdo”; outros cravaram a ordem e a organização que o sistema complexo trouxe para o caos da vida. Trata-se de ambos. Este é o ponto, afinal.

Compreender o apelo da astrologia é ficar confortável com paradoxos. Parece, simultaneamente, cósmico e pessoal; espiritual e lógico; inefável e concreto; real e irreal. Pode ser um alívio, em um tempo de divisão, não precisar escolher. Pode ser libertador, em um tempo que valoriza o preto e o branco, uns e zeros, olhar para respostas no cinza. Pode ser significativo desenhar linhas no espaço entre momentos de tempo ou o espaço entre os pequenos furos de luz no céu da noite, mesmo que você saiba, no fundo, que eles estão anos luz de distância e não têm nenhuma conexão entre si.

Tradução: Dora Steimer e Ágata Sousa.

Revisão: Taty Guedes.

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