Vingança e redenção

O quão óbvio, patético e pequeno não é buscar redenção em vingança? Sonhar com isso. Desejar isso. É tão mesquinho, tão pueril. Na nossa cabeça temos um sabor muito específico (e eu diria que raso) de vingança: aquela que nos satisfaz completamente. Aquela que nos sacia. Que nos preenche. Que se cumpre. Essa vingança existe plenamente na nossa mente. Mas a realidade é sempre outra.

A realidade e a vida sempre nos dobram e nos mostram o quanto não somos donos de porra alguma. Por mais que andemos por certos caminhos. Por mais que se planeje e arquitete o mais maquiavélico plano de vingança, que o prato seja comido frio ou não, que seja cozinhado por anos a fio… E aí quando a gente finalmente experimenta o sabor da vingança e sente um prenúncio de redenção… O momento passa. E a sensação vem, reverbera. E nos sentimos muito satisfeitos com ela, por alguns momentos.

E o momento passa, novamente. E laços são desfeitos. E pontes são queimadas. E separações são irreconciliáveis. E a chuva vem e lava todo o sangue derramado. A ideia para nós é a de sempre e para sempre poder reviver esse momento, esse sabor, essa redenção… Que na verdade, muitas vezes, sequer existiu. Acho que o mais duro disso tudo é eventualmente termos de admitir pra nós mesmos que esse sabor, a bem da verdade, nem foi tudo aquilo que imaginamos. Que na verdade, na verdade mesmo, esse sabor foi frustrante. Insuficiente.

A redenção tem uma regra que sempre nos foge: ela é sempre necessariamente decadente. A redenção genuína, não essas farsas hollywoodianas. Ela jamais é triunfante. A dualidade não chega a fazer muito sentido nessa seara. Ninguém nunca ganha nada. Ninguém sai por cima. Nada se cumpre, absolutamente. Na redenção sempre existe uma perda, um vácuo… Se forma uma lacuna ainda maior que aquela com a qual já temos de lidar. Nunca o oposto disso. E, assim, aprendemos. E assim se dá a continuidade do que somos, do que devemos ser.

A redenção pop, mesquinha, fuleira de se vingar e encontrar plenitude nisso acreditando que “agora sim tudo terminou bem” não nos sacia verdadeiramente, bem pelo contrário: nos torna ainda e cada vez mais impotentes diante de nosso real desejo. E é aí que mora o perigo, pois essa falta de saciedade costuma contraditoriamente se retroalimentar indefinidamente e assim nos movimenta rumo a comportamentos desviantes e destrutivos, para nós mesmos e para os outros. Vingança é mesquinhez. Redenção é uma ilusão a qual nos apegamos e gostamos muito de acreditar.

Nada nunca se cumpre. E é com isso que devemos conviver.

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