Raiva

Dias atrás me liguei de que tive dois sonhos sobre o mesmo tema, por duas noites seguidas. Não notei de imediato, pois o sentimento foi muito sutil no sonho e demorei pra desenvolvê-los enquanto acordava e me recobrava. Preciso desdobrar os sonhos assim que acordo e é sempre difícil decifrá-los, entender seu contexto na minha vida e entender porque os tenho. Dissociar o que sinto enquanto ser atuante no sonho e enquanto ser que sonha. Mas toda tentativa é válida.

Sonho I

Sonhei que estava em alguma manifestação na universidade. Tinha gritos, correrias, bombas de gás lacrimogêneo. Eu estava confusa e com medo, claro. Lembro-me que saí correndo não em direção de fugir da confusão, mas ao encontro dela. E de alguma forma muito estranha e totalmente não proposital eu soquei alguém importante lá. Quase que no mesmo momento em que fiz isso eu já sabia que estava fodida. Sabia que ia ser pega e que iam me infernizar. Mas não fiz nada com intenção, com propósito, foi sem querer mesmo, não foi na maldade. Machucou? Bom, lamento, tá na chuva é pra se molhar, vida que segue. Fui pega na mesma hora e tudo aconteceu de forma muito rápida no sonho: fui levada para uma sala pra ser interrogada. Fui insistentemente acuada por uma mesa com 5 pessoas, 2 mulheres e 3 homens que tentavam me fazer “confessar” o que eu tinha feito e principalmente como tinha feito. Pessoas que nunca tinham me visto na vida e me julgavam com base em nada, sem sequer me conhecer. No começo não queria responder a pergunta alguma, neguei todas as acusações, falei que se tratava apenas de um acidente e era isso. Mas obviamente eles foram insistentes na história em que eles preferiam acreditar e que queriam que eu verbalizasse e aquilo foi aos poucos me irritando muitíssimo. Em dado momento fiquei muito puta mesmo e revidei dizendo que soquei sim e que foi de propósito, e que socaria de novo se preciso. E que foi sim na maldade mesmo. E que tudo o que eu mais queria naquele exato momento era socar a cara dos cinco que estavam ali até desfigurá-los. Quis dar o que os satisfizesse, mesmo que momentaneamente, mesmo que isso fosse me foder depois. Só queria que parassem de me acusar falsamente. Depois que estourei no sonho e disse essas coisas, acordei sentindo muita raiva, uma raiva que subia do estômago até a área central do peito e depois pra cabeça.

Sonho II

Sonhei que estava em um mercado fazendo algumas compras para casa. Nesse mercado havia uma seção em que tinham algumas pedras que pareciam não ter preço algum, estavam simplesmente dispostas ali. Não pareciam a venda, não pareciam ser de alguém, não eram preciosas: simplesmente estavam ali, dispostas. Tive um episódio de cleptomania e peguei as duas pedras e coloquei-as entre meus seios, como se quisesse roubá-las do mercado. Estava quase chegando no caixa quando um segurança começou a me sondar e ele tentava, discretamente e sem sucesso, me revistar e me impedir de sair do mercado. Notei isso na hora e fiquei muito, muito puta. E no sonho considerei que agi como normalmente NÃO ajo: dei um puta de um piti do caralho, gritei pra todos os presentes que quisessem ouvir que aquele segurança estava me ameaçando, que ele me achava uma ladra e, sim, as pedras estavam no meio dos meus peitos. E eu estava profundamente ofendida com tudo. Só sei que fiquei tão puta no sonho que larguei o meu carrinho de compras onde estava, saí esbravejando do mercado e correndo, como se estivesse fugindo mesmo. Depois comecei a voar e em dado momento era como se eu estivesse subindo para algum lugar com o auxílio de uma corda. Aí eu acordei, sentindo um misto de raiva e medo, medo de ser pega fazendo algo errado realmente.


No Sonho I considero que enquanto estou acordada normalmente tenho este tipo de reação mesmo. Não me defendo quando preciso, pelo contrário: deponho contra mim mesma. Além disso não distribuo a minha raiva equitativamente, eu a acumulo ao ponto dela voltar-se contra mim mesma, sempre. Não sei porque ainda ajo assim, mas é o que acontece, é bastante comum. Nesse sentido não tenho nenhum senso de auto-preservação e meu comportamento tende a ser puramente auto-destrutivo mesmo, ainda mais em lidando com pessoas que efetivamente querem e torcem por me ver muito mal. Até este sonho, nunca tinha parado pra pensar sobre isso, mas tudo isso o que escrevi acima é muito real. É um padrão que gostaria de quebrar. Isso de “não sentir raiva” não existe. Raiva é essencial pra funcionarmos enquanto humanos. No entanto preciso saber equalizá-la de modo que eu não seja irascível e não acabe me prejudicando sem necessidade alguma disso. Já tomei decisões bastante imbecis em momentos de raiva. E sim, geralmente odeio me sentir acuada e quando isso acontece eu me torno uma camicase mesmo: ao invés de manter minha auto-preservação, deixo-a em suspenso por questão de minutos e simplesmente ataco (ao outro, à mim mesma, enfim, tudo a mesma coisa), por mais que me arrependa disso depois. Geralmente depois disso não há para onde retornar. Acredito que terei um longo caminho até mudar esse tipo de comportamento, mas já é interessante me saber consciente dele. Provavelmente me sentirei acuada mais vezes ao longo da vida e vou me ver obrigada a lidar com isso de modo razoável.

Já o Sonho II tem várias interpretações. Quando eu faço coisas erradas, para mim em algum nível, elas não são consideradas moralmente erradas, mas sim um desvio apenas, uma doença (cleptomania). É sempre como se não fosse nada demais, quando na verdade é. E eu sempre assumo o risco, mesmo sabendo que posso ser pega. O que achei curioso no sonho foi o fato de eu ter dado um piti quando o segurança desconfiou de mim. Na vida real faço bem o oposto disso: quando me acusam de algo que fiz de errado, tento primeiro assumir o erro mesmo e depois pedir desculpas por tê-lo feito e prometer melhorar da próxima vez. Não dou piti porque acho realmente exaustivo, perda de tempo e acredito que não me leve a lugar algum, realmente. Novamente: eu evito o embate, reprimo raiva entre ouras coisas, etc. E o fato de eu ter fugido no sonho denota algo que é recorrente comigo: o escapismo. Ao invés de encarar e resolver o problema de fato, eu vou embora, fujo, mesmo que lidar com essa fuga seja mais frustrante e ainda mais desgastante que lidar com o problema. Parece um contra-senso, mas é bem real. E acontece com frequência comigo.

Os dois sonhos tratam sobre a raiva que eu sinto e sobre como eu lido com ela (ou não né). Preciso rever tudo isso, ver o que permanece e o que vai precisar ser mudado. Preciso evoluir a partir deste ponto que estou, pois nenhum dos dois exemplos me pareceu muito bom – e estão intimamente relacionados com o que sou e quem sou hoje. Hora de mudar.

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