Ruiner

Às vezes fico com a impressão de que eu meio que nasci pra arruinar coisas em série. Ou pra me meter onde não sou chamada. Algo assim. Nunca foi tranquilo e não é algo pontual. É quase como se fosse um motivo, o meu motivo de existir. Fui e sou filha de uma mulher que, biologicamente, não podia (e não pode) ter filhos. Sou a incapacidade dela encarnada. Inclusive no núcleo familiar, do qual inclusive ela é a maior provedora, não sou eu quem dito as regras, mas sou eu quem terminantemente as recuso. E sempre recusei. No entanto, ao mesmo tempo que sou desprezível por isso, ela ouve o que eu tenho pra dizer pois sabe que jamais vou falar qualquer coisa ou fazer qualquer gesto com o intuito de bajulá-la. É um tipo estranho de confiança. Acredito que de certa forma eu transpus isso pra minha vida pessoal de modo inconsciente. Se existe algo bom e bonito, eu vou lá arruinar, mesmo que eu tente evitar isso a todo custo. É algo que acontece completamente à revelia das minhas vontades. E acontece, sempre, repetidamente. Eu sou esse limite. Essa limitação. O “daqui você não passa”, o “aqui você não pode”. Eu demarco coisas. Tudo isso sem querer, não intencionalmente, sem ter exatamente um propósito. Mas já se repetiu tantas e tantas vezes que acabei percebendo esse padrão. E em certa medida, esse padrão independe de mim e das minhas ações: ele apenas se desdobra de acordo com a minha realidade e os acontecimentos. Não sei se algum dia isso vai parar de acontecer. Ou diminuir. Não sei, mesmo, se tenho controle sobre ou se sou capaz de mudar isso. Tenho tentado nos últimos anos e isso tem me levado ao completo isolamento. Não reclamo, não tem sido ruim, muito pelo contrário. Me fez e me faz repensar uma série de comportamentos meus que não suporto mais e ver até onde posso tentar mudar. Mas só o fato de ser consciente dessa característica – minha? da minha existência? – já ajuda de um tanto.

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