Momentos

Quando eu era mais nova, eu achava que na vida eu teria tudo o que meus pais não tiveram. Eles, inclusive, me diziam isso. Repetidamente. “Eu vou te dar tudo o que eu nunca pude ter”. O que era mentira, pois eu pedia coisas que EU queria e eles não me davam. Não os culpo: são pais e pais quase sempre fazem o que está ao alcance ou o que podem pros filhos. Mas eu cresci com essa mentalidade de que sempre tive o que meus pais nunca tiveram. E isso é verdade, em vários sentidos. Meus pais falavam disso pendendo mais para o sentido material, claro, pois não nasceram em berço de ouro: nenhum dos dois. Ambos “se fizeram” e se mantiveram ao longo dos anos com muito trabalho – o que também puxei deles. Só que esse aspecto material sempre pegou muito pra mim. Enfim… Hoje, estou velha e praticamente não dependo deles nesse sentido. E a frase “eu tenho tudo o que meus pais nunca tiveram” perdeu a potência e o sentido pra mim, mesmo porque eu NUNCA QUIS o que eles nunca tiveram. O que eles tiveram ou deixaram de ter, não é problema meu. Nunca foi.  Eu tenho outras coisas, coisas minhas e sou diferente – muito diferente, bizarramente diferente – dos meus pais em vários níveis. Eu basicamente não vivo a minha vida como eles imaginariam que eu deveria vivê-la. E hoje consegui observar que cada vez mais se trata menos de ter o que eles nunca tiveram, mas de ter a coragem de ser e principalmente de fazer o que eles nunca fizeram. De romper um padrão. De descontinuar uma herança. E sobre o fazer, eles ainda não fazem certas coisas por N motivos que não tem nada a ver com posses, ou com dinheiro ou com qualquer outro tipo de impossibilidade física, de saúde, etc. Não fazem porque não querem, não valorizam, não entendem, preferem outras coisas, outra vida, uma vida mais cômoda – ou porque também entendem que, na idade deles, “não dá mais tempo”. Dá sim. Sempre dá. Os motivos são outros, que não vou bisbilhotar e nem querer saber pois não é problema íntimo meu. Me lembro de uma vez, quando era mais nova, e saí de São Paulo pra Campinas pra encontrar alguém por quem estava apaixonada na época e minha mãe ficou furiosíssima. Foi uma tolice na época, admito, mas não me arrependo de ter feito. Minha mãe me dizia “você troca coisas boas na sua vida por momentos!”. Que coisas boas são essas, cára-pálida? Boas pra quem? E mesmo que você as conceitue como manda a cartilha: eu troco. Troco mesmo. Sempre troquei. E sempre vou trocar pois estes momentos é tudo o que há. E se eu não tiver isso, eu nunca vou ter nada. Deixo uma vida boa pra quem faz questão de tê-la. Eu quero outras coisas.

Eu quero o que vocês nunca foram. Nem fizeram.

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