Anti-mérito

Há alguns dias já uma frase tem me assombrado. Ela foi escrita por uma ex-colega de ensino médio no instagram, com quem nem tenho mais contato direito. Sabe aquelas pessoas que você nem lembra mais que existe e reaparecem do nada e você aceita por educação, mesmo porque vocês não tem mais NADA em comum hoje em dia? Então. Ela cresceu, casou, leva uma vida pacada, bancária, casinha, maridinho, vidinha, etc., um tédio, tudo como manda o figurino. No instagram dela, várias fotos de viagens pela Europa. Que bom, né? Sei lá. Aquelas fotos não me diziam muita coisa sobre ela. Em uma das fotos, que parecia mais simples, uma selfie em casa ou qualquer coisa do tipo, a frase: “todo mundo vê as foto que eu tiro na Europa, mas ninguém vê as marmita que eu como”. A frase me chocou um pouco e, a longo prazo, me deixou com raiva. Com muita raiva.

Achei que pudesse ser inveja – porque nunca estive na Europa e este é um dos meus sonhos mais antigos de todos – mas a verdade é que eu tenho vários amigos próximos que vivem viajando e vivem tirando fotos por lá e não sinto inveja deles, então descartei isso. O que me inquietava e continuava me incomodando era outra coisa. Pensei muito nessa frase até que me veio uma resposta: “filha, ninguém tá te impedindo de tirar foto das suas marmita… pode tirar foto delas também, sabe? tá liberado”. Tem aquela coisa também de dizerem que tudo o que te incomoda nos outros é o que te incomoda, na verdade, em você mesmo. E isso é verdade. Bem verdade. Quando eu era mais nova, com uma resposta como essa eu já daria “o problema como resolvido”. Mas a verdade é que não é bem assim que algumas coisas funcionam. Algumas coisas só se simplificam ficando ainda mais complexas, por mais contraditório que isso pareça.

Tudo bem dizer que é um fudido. Muita gente é. Mas porque que a gente não fala do quanto é fudido diariamente? Tipo: o tempo todo? Ok, na verdade existem pessoas que fazem isso de fato e suas vidas são verdadeiros e imponentes muros das lamentações… Algumas pessoas realmente gostam de se vangloriar do quanto são miseráveis (eu mesma inclusa, já fiz muito disso e hoje me esforço para não fazer mais). E eu tenho uma teoria de que isso se trata pura e simplesmente de vaidade, carência e um profundo egocentrismo. Sinceramente não sei como essas pessoas não enjoam de si mesmas em algum momento, porque né… Enfim. Mas nós não costumamos falar destas coisas porque não produz efeito algum ficar falando só de privações, de tudo o que é difícil. Ninguém quer falar muito disso, ninguém gosta de mensurar o tamanho da merda toda, de expôr suas limitações genuínas – e não só por vaidade e atenção.

Privação e sacrifício geralmente são facas de dois gumes: todo mundo acha FODA quem se priva e se sacrifica em prol de alguma coisa ou algo maior, mas absolutamente NINGUÉM quer falar sobre isso quando efetivamente faz isso – ou porque não o faz nunca e acha ok ser medíocre ou porque sente vergonha nisso. E a princípio não é muito claro o porquê disso ser uma vergonha, mas eu vou chegar lá nos próximos parágrafos. Privação e sacrifício são sempre um orgulho quando se tratam do outro (que obviamente está tomando no cu) e uma vergonha absurda quando é com a gente (porque, enfim, sabemos que estamos tomando muito no cu). E todo mundo passa por isso em algum momento da vida. Todo mundo. A diferença é que algumas pessoas escondem bem e outras não fazem tanta questão assim de esconder e não há julgamento moral aqui: ninguém é melhor ou pior por mostrar ou esconder qualquer coisa, todo mundo sabe onde aperta o próprio calo.

E toda a questão de mérito é uma palhaçada pois está necessariamente (perversamente, talvez) vinculado a privações e sacrifícios. A Patrulha da Virtude™ sempre se apressa pra me dizer “você é guerreira”, “você é foda”, “você é esforçada” como se essas coisas fossem elogios quando na verdade mesmo, não são. Isso tudo só corrobora com tudo de violento que eu sofro pra apenas ser. Claro: eu tenho mérito porque eu pago o preço de TUDO o que quero com SANGUE porque eu simplesmente não tenho outra alternativa. Eu não tenho opção. Eu não posso me dar ao luxo de escolher e isso é a minha vida. “Viu só? Você conseguiu!”. Consegui a que custo, cara-pálida? De quais coisas tive que abrir mão, mesmo que temporariamente? O quanto de energia tive que gastar, quantas noites não tive que dormir, o que que eu tive que sacrificar? Não se fala disso. Ninguém quer falar disso.

Eu sinto muita raiva pois eu frequentemente tenho a impressão de que a Patrulha da Virtude™: 1. acha que é fácil ou é vantagem quando totalmente não é; 2. quer me usar de exemplo pra outros “como eu” ou “parecidos comigo”; 3. quer, de forma bastante sutil, tirar uma da minha cara pois eles mesmos nunca ou jamais se prestaram a sacrifício real algum.

“Mas, Dora, as pessoas não falam isso por mal”. Não, não falam por mal. Porque o mal já está naturalizado, nesse sentido. A errada sou eu por questionar isso tudo. Claro.

É que até hoje eu nunca tinha experimentado a sensação de ser invejada por ser uma fudida. Mas ela existe e eu não sinto absolutamente orgulho nenhum disso. Eu me recuso, terminantemente, a honrar qualquer mérito. Estou numa cidade de proporções bizarras e não tenho como me deslocar por aqui sem depender completamente de transporte público. Semana que vem entrarei numa maratona de duas semanas acordando às 4 da manhã, passando 5 horas diárias no trânsito, trabalhando 10 horas por dia e tendo, todos os dias, 3 horas de aula à noite. Não sei quando, como e nem se vou dormir direito, vou tentar fazer isso nas horas que sobrarem. E aí está, se você acha que algum dia eu vou colher louros, ou que vou ter vantagem alguma sobre qualquer coisa: esta é a minha marmita.

E me fode a vida inteira vir gente falando “nossa, como vc é guerreira”… Meu foda-se eu ser guerreira, sabe? Essa não é a questão. Ou ao menos não deveria ser, mais. Eu só tomo no cu nessa porra pra conseguir sobreviver. Então enfia o mérito e os “elogios” no cu, com fritas. Não quero ele, não. Valeu. O meu nível de desgraçamento mental já tá bem alto por aqui. Grande bosta eu ter passado num mestrado se a minha estrutura pra realizar isso é completamente precária e absurda. Grande bosta eu conseguir coisas boas se pra desfrutá-las eu sou obrigada a viver em uma existência que é naturalmente violenta e abusiva – e, agora, cada vez mais. E eu me submeto a isso e resisto a isso por n motivos e n variáveis: por sobrevivência, por querer ver beleza, verdade e significado nas coisas, por construção de identidade, mas principalmente e infelizmente por afeto. Afeto, sim.

Eu sou uma fudida. Todos somos. E não é mérito algum ser uma fudida. Também não tenho orgulho nenhum em ser uma. E nem das coisas que aparentemente “ganho” no processo todo.

 

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