Feliz aniversário

Na Avenida Paulista tem um adesivo que espalharam que pergunta a quem passa “já viveu um amor impossível?”. A pergunta serve justamente pra tirar a pessoa daquele momento de passeio e levar pra outros lugares, tira da avenida e leva pra pequenas ruelas de memórias. Não precisei pensar muito pra chegar na conclusão de que sim, na verdade acho que todos os amores que tive foram impossíveis. Não tenho sorte nesse sentido e parece que vai ser assim, na minha vida. Não me importo, já morri várias vezes e sigo vivendo. Não há muito a ser feito. Atualmente o amor mais impossível que vivo é o que sinto por São Paulo. Ele não é correspondido. Mas né, a gente persiste e tenta ver até onde isso vai, e no que vai dar. E tento, diariamente, relembrar o porquê que amo isso aqui – exatamente como amantes fazem, quando percebem que o relacionamento já se encontra desgastado, tentam lembrar dos melhores momentos, do início de tudo, do frescor que um dia já houve e certamente não existe mais. É sempre um frescor artificial, criado, mas nem por isso é mentiroso. Só não é mais o mesmo. Me acostumei com a cidade, do mesmo modo que nos acostumamos com qualquer outra coisa nessa vida. Me acostumei e aprendi a lidar basicamente com tudo o que é saturniano: as longas distâncias, os planejamentos, a pressa, a vida cronometrada, a falta de tempo, a minha cama, o relógio, os sorrisos, os infinitos dias cinzas de solidão, as pessoas que ainda estão ali pra mim, as oportunidades, as exigências, as recompensas, os mesmos lugares, mesmos passeios, mesmos restaurantes, tudo muito bom, a vida bem precária, as ruas bastante péssimas, a crueldade de tudo, a humanidade de tudo, o reconhecimento. São Paulo é muito. É muito para mim. E me ensinou e me ensina coisas que jamais conseguirei transcrever ou colocar no papel. No entanto, para o momento, essa cidade me cabe. Me sinto do tamanho dela. Sei o que fazer, por onde andar, todos os atalhos, tenho controle sobre tudo (o tempo, os atrasos, as chuvas, o trânsito), tenho todas as informações que preciso na palma da minha mão em segundos sempre, não tenho medo de nada e é quase como se eu não me sentisse sozinha, nunca. Já se foram 5 anos aqui e acho que consigo dizer que não sei se conseguiria morar em nenhum outro lugar no Brasil. Sempre penso nisso. Sempre acredito que existe essa possibilidade, mas meu ritmo agora é outro. Meu ritmo agora é o da cidade. Essa é a música que o meu corpo toca, agora. Inteiro. Ressoa. Sim, mesmo com todos os defeitos de uma cidade tipicamente uraniana. Talvez principalmente por isso. Não me arrependo de absolutamente nada, desde o primeiro dia que pisei aqui pra ficar. Essa cidade me edificou e construiu em mim uma resistência quase que indestrutível em relação às coisas que me colocavam pra baixo e que queriam me deixar pra trás. Me fez impôr limites, às vezes sérios demais a tudo, no entanto estritamente necessários para que eu conseguisse sobreviver, aflorar. Ser quem eu devo ser. Pra que minha identidade fosse minha e não afanada por qualquer outra coisa que fosse. Me testou pra que eu resistisse e, bem, aqui estou. São Paulo não perdoa e me ensinou a me perdoar, por tudo. A erguer o meu queixo, apesar de tudo, e seguir em frente. Me ensinou o meu verdadeiro valor, que não é, nem de longe, o que colocavam ou que colocam em mim, mas o que eu tenho. Nem mais, nem menos. São Paulo é bastante precisa, nesse sentido. São Paulo é a minha personal Mulholland Drive desde 2003. Para dizer o mínimo. “This town is the oldest friend of mine”.

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