Má educação

Essa criança não tem limites!, dizem. Tem que aprender a respeitar. É para isso que serve a educação. É má, a educação, eu digo. E não sei muito bem do que estou falando, e não posso me impedir de falar, e não tenho como provar. Mas é má. A educação. Eu quase grito. Ela dói em algum lugar que não posso apontar.
Então a menina da cidade, que não tem limites, que não sabe respeitar, entra no mar.
Assim que os pés tocam a água, ela cai num silêncio. Até os olhos ficam em silêncio, dá pra ver o silêncio nos olhos da menina. O espanto de ter um longe adiante. O olhar se joga de um jeito, e o corpo… se estende com ele. Parece se ajustar enfim ao seu próprio tamanho. Infinito.
Ao mesmo tempo que a água fresca e também elástica, infinita, suave, lambe as canelas. Antes tão duras contra as quinas da mesinha de centro da sala-de-estar, agora as canelas amolecem e se misturam com as ondas ritmadas.
O passo adentro e para fora de si, continua. Vai. Quando se pode ir tanto assim? Quando se pode ir longe demais?
O corpo vacila com a onda maior. Equilibra-se de novo, e uma nova oscilação chega com ritmo. Dança do corpo que vai, com o olhar, arregalando-se. Tantas direções. E silêncio.
A força da menina, que não podia se conter num corpo tão pequeno, encontra-se na força do mar. Encontra seu tamanho. Tinha que experimentar o seu tamanho.
Vai encarar? O mar a gente não desafia, ninguém precisa falar. O corpo sabe. O encontro é sempre o encontro entre forças infinitas que precisam dançar.
A onda maior está vindo. Ela tem um jeito macio antes de arrebentar. Se toca a menina ali, é como um ninar no colo do mar. Mas se a onda arrebenta nela, atropela. Grita nos ouvidos, bate. Se não dançar, ou mais longe ou mais fundo, vai apanhar.
Limite e respeito, menina, você aprende é com o mar.

 

(Carla Ferro)

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