A segunda lei

Hoje mais cedo estava pensando nisso de corresponder e ser correspondido. Algumas vezes fiz gestos, como mandar cartas e presentes e não fui correspondida. Isso é algo que pode acontecer. Às vezes fico pensando que prefiro não ser correspondida do que ser correspondida “por educação”. Me sentiria péssima se sequer desconfiasse do segundo caso. Acredito que nos meus 20 anos, isso de não ser correspondida (que na verdade se tratava de muitas vezes não ser correspondida como eu esperava) me deixava profundamente magoada. Hoje em dia, dez anos mais velha, já não empreendo mais qualquer gesto afetuoso esperando retorno, simplesmente faço.

Acredito que fazer um gesto esperando retorno, ainda mais se for um retorno profundamente idealizado, mata a intenção. E a intenção, acima de qualquer coisa, é minha. Ou seja, o que o outro faz ou deixa de fazer dela, não é exatamente um problema meu.

O problema de hoje em dia é que eu sinceramente acredito que trocas, intenções e gestos se tornaram tão frívolos no geral, que às vezes fico com a impressão de que as pessoas sequer sabem o que estão fazendo uma com as outras. Uma para as outras. No que estão empreendendo. Como se tudo fosse feito de forma automatizada, meio inconsciente. Se for pra ser assim, fazer por fazer, fazer por educação, por tradição ou o que for, prefiro não fazer. Por isso me isolo, não socializo, me considero uma monja urbana que eventualmente em alguns anos irá virar uma ermitã do mato. Eu sinceramente acredito que as coisas precisam ser genuínas. Não falo tanto de autenticidade, mas de uma verdade mais rara.

Se doar verdadeiramente é a coisa simples mais complexa que existe.

Passei alguns anos querendo também conversar com certas pessoas e sendo completamente ignorada. E é claro que eu não vou ficar persistindo em me doar pra quem não corresponde. Ao mesmo tempo, acredito que nada é em vão. As coisas, as pessoas e as situações estão aqui pra nos ensinar e eu estou aqui pra aprender, mesmo.

Ao mesmo tempo que é difícil se entregar, eu também já estive do outro lado e não dei meu braço a torcer. Já recebi presentes, mimos, correspondências e não correspondi. Ficou por isso mesmo. Inclusive já fui cobrada por isso, da forma mais rude possível. Na época fiquei triste, hoje em dia eu acho graça. E não correspondi por uma série de motivos, mas entre eles porque eu sentia que estava sendo comprada – e evito deixar que alguém bote preço ou valor em mim, ou nas minhas ações. Não profissionalmente eu me recuso a ser monetizável. E também porque senti uma exigência implícita de retorno, uma carência que eu jamais conseguiria suprir de qualquer modo. Foi uma entrega que foi realizada na falta, na ausência e não na abundância e no compartilhamento. E eu não vibro essas coisas. Nunca vibrei. Não ressoo com isso.

Ou seja, as coisas são mais complexas do que a sua aparência. É fácil tanto julgar quanto se vitimizar, mas é difícil reconhecer que a vida tem seus padrões e eles transcorrem muitas vezes à revelia dos nossos desígnios e desejos.

 

 

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