Radical

Em setembro estive em Campo Grande e em julho deste ano cortei meu cabelo bem curto, novamente. Não cortava o cabelo assim há cerca de dez anos. Não acho que fico bem com esse corte, mas senti que deveria fazê-lo. Da última vez também foi assim. É um corte com o qual me acostumo, não que gosto. Quando me acostumo completamente a ele, ele já está comprido novamente. Fiquei 2 dias em CG em setembro e, não tendo mais o que falar ou reclamar sobre mim, minha mãe inventou de criticar o meu cabelo. Disse que estava curto demais, que não era feminino, que não ficava bem em mim. Que eu ficava feia com aquele cabelo. O de sempre: minando a minha auto-estima e acabando com o meu espírito sempre que tivesse a mínima oportunidade. E aí veio a derradeira frase: que cortar o cabelo curto assim era radical demais da minha parte.

Apenas perguntei a ela, mãe, escuta aqui: qual é o meu nome?

Silêncio. É Isadora, não? A inspiração para o meu nome e para quem eu sou, foi Isadora Duncan, não foi? Pelo que li dela, ela era uma artista muito pouco convencional, na verdade. Na verdade mesmo foi ela quem levou a disrupção no ballet clássico e foi a matriarca da dança moderna, quebrando uma série de padrões impostos até então, indo contra tudo o que estava estabelecido na dança clássica. Dançou nua, descalça, no frio, nas condições mais precárias, em qualquer condição na verdade. Tinha uma vida pessoal completamente escandalosa. Perdeu dois filhos de forma absurda e trágica. Enlouqueceu totalmente. Teve poucas paixões, curtas e extremamente intensas. Viveu em miséria e histeria. Era absolutamente idealista. E ela foi espetacular até mesmo em seu último momento. Ela se foi dizendo “Adieu, mes amis! Je vais à la gloire!“. Como todo artista de verdade, até o seu fim precisava ser uma afronta, ter um significado, nem que fosse um último riso de escárnio na cara da morte.

Sendo esta pessoa a inspiração para a minha existência, para quem eu sou, para tudo o que faço, para a minha aura, você realmente se preocupa que eu seja “radical”? Que eu seja feia?

Ora, sinceramente mãe… Existem muito mais coisas pra se preocupar comigo, mas esta não é uma delas…

Afinal, Isadora não é um nome. Isadora é um destino. 

Me chame pelo meu verdadeiro nome e o aceite pelo que ele é.

Demorei muito tempo me enchendo de mim mesma pra chegar até aqui.

E nada vai me fazer parar agora.

P.s.: desconfio que a ideia do que é radical para mamãe esteja um tanto quanto ultrapassada.

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