Relicário

Semana passada, sexta-feira, uma conhecida veio falar comigo sobre um texto que escrevi aqui há não muito tempo atrás. Eu raramente releio os meus textos e o que escrevo, simplesmente escrevo, largo aqui e vou embora. Não me considero, nem nunca me considerei, escritora. Não penso no que escrevo, só sigo um fluxo que acho que precisa ser seguido naquele momento e os textos saem. Não planejo palavras, não penso em estruturas, não sou sequer criativa. E se tudo isso calha de acontecer em algum texto meu é quase como se fosse por acaso, não por intenção. E não retorno nas cenas dos meus crimes.

Mas ela me atentou para o texto e disse que se identificou com ele. E aí fui relê-lo e me veio um assombro profundo. Aquelas palavras, aquela pessoa não parecia ser eu. Na verdade aquela pessoa definitivamente não era eu. Mas era. Cada linha, cada verdade, cada relato da minha vida. Era tudo eu, ali. Terminei de ler o texto me sentindo meio mal. Na verdade terminei o texto com a pior sensação do mundo: eu estava com pena de quem escreveu aquilo. Foi horrível me dar conta de que me utilizo, e muito, deste artifício para conseguir atenção. E né: atenção de que tipo será que eu recebo agindo desta forma?

Que tipo de coisa será que eu atraio pra mim e pra minha vida glamourizando as piores e as mais tristes coisas que já me aconteceram, como se ainda acontecessem, como se ainda fossem vívidas? Preciso mesmo disso? Até quando? Ok, que por algum tempo da minha vida isso deve ter me ajudado, mas hoje em dia isso não me serve mais. Não me identifico mais com isso, nem de longe. Auto-comiseração é o pior sentimento que a gente pode nutrir pela gente mesmo. O ódio e a raiva pelo menos tem uma chance de causar algum tipo de movimento. Agora me parece que nada de bom pode vir de pena. É um sentimento completamente estéril.

A impressão que eu tenho é que às vezes – muitas vezes – eu utilizo este espaço como um relicário de mágoa, uma egrégora de melancolia. E isso tudo pode ser feito de forma muito bonita, sim, às vezes até poética. Mas até isso pode ser mudado, em mim. E eu quero essa mudança porque não vejo mais sentido nesse tipo de comportamento e não me sinto lá muito confortável com as consequências disso tudo, o que isso tudo me traz. Quero outras coisas e neste caso eu tenho opções. Existem outras coisas, na minha vida. Mas da forma que eu escrevo, parece que não. Há algum tempo parei de documentar as coisas que me acontecem e não entendia o porquê.

É porque este espaço tem (tinha) este tipo de objetivo. Que pode – e deve e será – ressignificado. É por isso, também, que tenho postado tantas músicas e tão poucos textos. Posso também estar contornando e deixando passar coisas outras que me acontecem com a intenção de justamente focar no “propósito” deste espaço, suprimindo outras coisas igualmente importantes. Como se este fosse um propósito fixo, imutável. E não é. Coisas ruins e tristes acontecem com todo mundo e também na minha vida – não ignoro este fato, estes fatos. Mas não ignorar não significa que eu deva homenageá-los sempre e colocá-los num patamar de importância irreal.

I’m bigger on the inside. 

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