Invisível

I

Não estou acostumada com gentilezas gratuitas. Tive pra mim, desde sempre, que o mundo é um lugar hostil por natureza e está sendo bem difícil me desfazer dessa ideia. Para mim, não existe gentileza gratuita, assim como não existe almoço grátis: as pessoas sempre querem algo em troca, por mais que insistam que não. Remover essa ideia da minha cabeça vai ser algo que ainda vai demorar mais algum tempo. Esta última terça feira eu parecia estar com um magnetismo um pouco acima da média: pessoas (do sexo oposto) me dando bom dia e segurando portas abertas para que eu passasse. Eu sempre acho isso estranho, mesmo porque nunca me aconteceu antes. É muito estranho deixar de ser invisível para quem já foi invisível por tantos anos a fio. Em princípio, esse estranhamento também tem a ver diretamente com a construção da minha identidade: é como se eu fosse alguém que não merecesse portas abertas e bom dias, em certa medida. É também uma questão de auto-estima. E eu sei que mereço, mas isso me lembra também que a não-invisibilidade tem seu custo. E se eu cheguei até aqui, é porque devo estar disposta a bancá-la. Só que eu não possuo referência alguma em relação a isso: sempre fui relegada ao segundo plano de tudo. A vida inteira, por todos, em tudo. Sempre trabalhei em bastidores, corri por fora, comi pelas beiradas. O que fazer e como agir quando isso muda radicalmente de uma hora pra outra?

II

Não sei o que fazer. Mesmo. Não tenho a puta ideia. Por fora sou uma mulher, por dentro me sinto uma menina assustada. Preciso abandonar essa menina, o quanto antes, antes que ela me prejudique. Esses dias, depois do almoço, eu estava tomando um picolé (coisa que faço todo fim de almoço), quando de repente passa por mim um homem muito atraente, cerca de uns 40 e poucos anos. Não sabia dizer se era da mesma empresa que eu ou não, só pensei o que sempre penso quando vejo alguém muito atraente, “nossa, que homem bonito” e ok, continuo o fluxo de pensamento qualquer que eu esteja tendo e sigo com o meu dia. O que eu não contava era que esse cara me seguisse até onde eu estava, me desse um olhar fulminante e me dissesse “você tinha o cabelo mais comprido, não?”, com um sorriso. Reagi da forma mais infantil possível: fiquei visivelmente constrangida, evitei contato visual e respondi timidamente “sim”, emudecendo logo em seguida. Pretty awkward. Depois fui embora e disse “boa tarde!”. Sinceramente, este não é mais um comportamento aceitável de minha parte. A impressão que tenho é a que eu sabia o que fazer em relação a isso quando era mais nova e parece que me esqueci e preciso me lembrar. Mas a verdade é que quando eu era mais nova eu era tão escapista quanto hoje, só que com uma estratégia diferente. Eu partia para outro extremo: para transcender uma timidez completamente paralisante e uma auto-estima completamente minada (por bullying na escola, pela minha mãe, etc.) eu me expunha ao máximo possível me hipersexualizando, porque aparentemente essa era a única forma que eu poderia ser interessante, que eu poderia ser visível pra alguém.“Nice shoes, wanna fuck?” era eu com 20 e poucos anos. Não havia muito critério e era como se o “amor” de qualquer um, de qualquer jeito, bastasse. Era como se eu não tivesse nada a perder. Era como se eu não valesse muita coisa, também (segundo plano, bastidores, correr por fora, comer pelas beiradas). Eu mesma me colocava nesse lugar. Coisa da idade, acho. Em muitos casos e por algum tempo isso “funcionou”. Hoje em dia isso não tem mais a ver comigo, não me identifico mais com esse comportamento. Não quero mais isso, não quero mais confundir as coisas. Queria poder apenas baixar a guarda e estar com o outro, com quem quer que seja. Quero apenas estar disponível. Olhar nos olhos e conversar sobre qualquer coisa. Estar completamente ali, com a situação. E lidar com ela, de fato. Parece simples, mas na verdade este é um dos maiores desafios pra mim, hoje.

 

III

Hoje sonhei com uma paixão antiga. Ok que eu até queria mesmo que tivesse sido um wet dream mas na verdade não foi nada disso. No sonho conversávamos tranquilamente em algum lugar, tomando um café. Só de lembrar do sonho, meu coração se alegra, meu rosto se ilumina e eu sinto uma felicidade e uma serenidade que mal consigo começar a descrever. Ele me contava de como estava a vida, dos lugares que pra onde tinha viajado, sobre o que tinha feito até então e queria me ouvir. Eu não lembro direito do que dizia pra ele, mas falei algumas coisas também. (Provavelmente disse pra ele sobre todas as coisas que escrevo aqui, agora). No sonho eu fiquei com aquela sensação que sempre tive com ele e tenho até mesmo hoje, quando penso nele: fiquei completamente à vontade (como se estivesse em casa mesmo), me senti relaxada e com aquela estranha certeza de que tudo, de um modo ou de outro, vai acabar ficando bem. De que estou segura, protegida. É difícil explicar como uma pessoa só consegue me trazer tanta, mas tanta paz. Só sei que é uma sensação muito boa. E eu acordei com ela. Passei, ironicamente, o dia de finados inteiro com ela. Amanhã tenho uma prova e hoje seria um dia em que eu provavelmente ficaria ansiosa o dia inteiro e não fiquei, em nenhum momento. No sonho, eu estava completamente com a guarda baixa nesta conversa e apenas estava ali. Esse sonho foi um excelente presságio e me fez repensar algumas coisas. Sobre minha identidade, sobre quem eu penso que sou, sobre como tenho agido no mundo e porque ainda uso recursos dos quais não preciso mais. Foi uma conversa e tanto. E sou muito grata por ela.

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