Entrevista

As coisas que me aconteceram foram ilusões muito bem elaboradas. Aconteceram há muito tempo atrás e ainda teimo em pensar que são, hoje ainda, verdadeiras. Ou que irão se repetir de algum modo. Final de 2011 tive uma entrevista um tanto quanto violenta. E foi de propósito. Era um professor, grego, muito rude, bonachão. Estava cumprindo um papel: quatro anos de convivência me diziam claramente que ele não era nada daquilo. Mas naquele dia ele foi a pessoa mais grosseira e desprezível que já conheci. Ele precisava ser, fazia parte do jogo. Eu não sabia muito bem o que queria da minha vida. Estava terminando uma segunda graduação, terminando um relacionamento, deprimida por não ter passado no mestrado que queria e em vias de ter de me resignar a fazer um que eu definitivamente não queria. Não queria, mas tentei. Me inscrevi. Fiz a prova. Fui na entrevista. Por algum motivo eu acreditava que precisava de alguma garantia de algo na minha vida. Era uma babaca ingênua (como se eu pudesse ter controle sobre muita coisa na minha vida). Insegura. Ainda sou, bastante. Me inscrevi de qualquer jeito, sem vontade. No dia da prova me auto-sabotei esqueci meu RG em casa, voltei pra buscar, deu tempo, fiz a prova da forma mais nas coxas possível. Não queria. Sinceramente esperava ser reprovada. Não fui, passei. Nunca fiquei tão triste, aquilo tudo mais parecia uma condenação do que uma vitória. Nunca imaginei que aplicar para algo que eu NÃO queria fosse me causar tanta angústia. E eu mesma causei minha própria angústia, por não saber o que queria da minha vida de forma mais clara. Passei na porra da prova e teria de ir na entrevista. Estava tão puta e louca e desesperada da minha vida que fui sem tomar banho, sem pentear os cabelos. Fui com zero preparo. Fui como se fosse encontrar meus colegas amigos pés-de-barro no pé sujo da esquina. E obviamente que fui recebida com um tiro de escopeta no meio da minha cara. “O que que você está fazendo aqui? Você não ia tentar mestrado em outra universidade?”. Isso foi dito com uma pesada dose ironia e sarcasmo, uma vez que já sabiam muito bem a resposta. O mundo é um lugar hostil. Sei disso desde que nasci. Mas eu já estava tão fodida da minha vida e tão desinteressada no meu próprio futuro e no que seria de mim, que me resignei ali mesmo. Não tive reação emocional alguma. “Eu não passei na outra universidade. Acontece.”. Fui usada como saco de pancada durante a entrevista várias vezes e pra mim era um deleite perceber o assombro a cada vez que eu não tinha uma resposta emocional. Final de 2011 eu estava decididamente morta por dentro por uma série de motivos pessoais e isso até acabou ajudando. Bastante. Talvez mais do que eu imagine. Tinha me acontecido muita, muita, mas muita merda mesmo e eu praticamente estava funcionando no automático. “Por que você resolveu tentar por lá também?”. Não sei bem ao certo de onde tirei forças pra responder cada pergunta irônica, tendo em vista que a minha auto-estima estava inexistente por conta de 2011, mas consegui responder sem me auto-depreciar. Porque eu sou boa no que faço (ao menos nisso, já que não sou em tantas outras coisas). Porque lá havia um grupo e uma linha de pesquisa em que o foco era exatamente o que eu queria fazer da minha vida e achei importante tentar. Porque lá é reconhecidamente um lugar de excelência e eu acredito que mereço (por mérito, mesmo) ao menos ter a possibilidade de ocupar esse lugar. Não sei de onde tirei forças, sinceramente, até hoje. “E por que você acha que é boa o suficiente pra estar aqui?”. Tinha todas as respostas na ponta da língua, todas respondidas num tom monocórdico e semi-cordial. Porque eu tenho publicações pelo departamento e sei inglês. Porque sou uma pesquisadora de ponta e faço bem pesquisa (talvez, um dos últimos interesses que me restam nessa vida). Porque trabalho bem. Sabe… Repetitivo. Curiosamente, não fiquei contra mim mesma em nenhum momento (o que costuma ocorrer quando sou tão diretamente confrontada por quem sempre acreditei que jamais seria hostil comigo). Terminei a entrevista e já estava olhando o relógio. Não tinha nada pra fazer depois, de qualquer modo. Estava cagando. Só queria ir embora dali o mais rápido possível. Não queria passar. Não queria ficar. Queria outra coisa, queria outra vida, queria me livrar daquilo tudo, de todas as memórias, queria deixar tudo aquilo que tinha me acontecido pra trás, queria finalmente terminar com aquele ciclo horrível de uma vez por todas. Era um processo de ruptura muito maior do que imaginei a princípio. Quando conversavam comigo em São Paulo me perguntando o que seria do meu futuro eu respondia “se tudo der certo, venho pra cá. se tudo der errado, também”. E deu tudo certo dando tudo muito errado. Passei naquela entrevista horrível e fui chamada. Virei eternamente persona non grata na minha alma mater. Meus colegas me odiavam, me chamavam de burra por não me inscrever e duvidavam de mim. No entanto, me recusei a me inscrever num lugar onde não queria ficar mais e vim – sem absolutamente garantia alguma – pra uma das cidades mais caóticas e hostis do país. E estou viva e operante há cinco anos. E esperando a próxima entrevista e o próximo futuro. Que certamente não serão como 2011. Nem de longe.

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