Dedicatória

Ontem eu estava separando alguns livros pra doar, porque quero comprar alguns novos. E aí vi um livro antigo, que me foi dado como presente. Era um livro grande, de poesias, uma coletânea de Manoel de Barros, meu poeta preferido. Assim que vi o livro, pensei que precisava me livrar dele imediatamente. Ainda assim fiquei olhando pra capa, sentindo o peso do livro nas minhas mãos e algum tipo de tristeza esquecida. De repente me ocorreu: “será que esse livro tem dedicatória?” e busquei por ela. Tenho essa mania de sempre buscar, mesmo que inconscientemente, pelo que me dói. O masoquismo emocional está sempre presente por aqui, volta e outra. Cuido para que isso não tome conta de mim e me paralise por completo e em muitos casos preciso ser muito disciplinada com isso, senão, como tudo na minha vida, sai dos trilhos, cai no exagero, entra em desespero, etc. E tinha, uma dedicatória. Fiquei espantada, paralisada, lendo. Fiquei atônita primeiro, lendo as palavras repetidamente e entendendo o quão descoladas da realidade elas sempre foram. Palavras que, na verdade, nunca significaram nada. Ler cada uma delas me doía muito. Entender que elas nunca significaram nada, doía duplamente. Senti muita vontade de rasgar aquela página e manter o livro. Provavelmente, aquele foi o único livro que restou até agora. Na verdade, comecei a achar e a acreditar que tudo aquilo estava acontecendo para me testar, mesmo. Fiquei com dó de rasgar a página e estragar o livro. Senti uma tristeza muito grande, por tudo. Passei meu indicador direito sobre aquelas palavras, como se quisesse lê-las de um outro modo, entendê-las com um outro sentido, talvez. Tentei sentir compaixão. Foi difícil. Nem sei ao menos se senti direito. Fiquei olhando mais algum tempo pra aquilo tudo, não sei dizer por quanto tempo. Fiquei olhando e meditando sobre aquilo até que tudo efetivamente perdesse o sentido. Respirei profundamente. Esbocei um projeto de sorriso. “É… Pois é…”. E em um suspiro transmutei todo o “assim foi” para um novo “assim eu o quis”. Fechei o livro e o guardei na estante. E assim irei mantê-lo.

 

 

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