Reality check

A impressão que tenho a maior parte das vezes é que, enquanto todo mundo está bem, eu estou aqui: comendo terra. Isso é tão errado e em tantos níveis… Já falei sobre como essa minha pressa e também agora esse olho estão diretamente ligados à minha completa falta de gratidão com o que me acontece. Complicada essa vida da grama do outro sempre sendo a mais verde. E eu sei que isso é um exagero e uma ilusão. Tenho estado desmotivada e tenho meus motivos pra isso e estou tentando ver por onde posso sair disso. Não é algo fácil de se fazer. A sensação é a de caminhar em uma esteira, sem sair muito do lugar. Mas sei que isso é só impressão, mesmo. Sou profundamente injusta comigo mesma quando deixo de perceber todas as minhas conquistas pessoais de um ano pra cá. Mas não posso deixar de reconhecer que comigo tudo funciona da forma mais lenta possível, mesmo – e não há o que eu faça para modificar isso, as coisas comigo SÃO assim. Digo que “preciso melhorar no trabalho” mas foda-se, por entre as horas de trabalho existe a minha vida e minha vida não é um mero detalhe… Não vou tratá-la como tal. Existem coisas que também preciso fazer, tratar, olhar, cuidar. Curar. Aliás, se eu pudesse resumir esse ano em uma frase resumiria assim: um longo e complexo processo de cura. Cura das minhas cicatrizes mais profundas, mais doloridas. Mais escondidas. Eu finalmente olhei pra essas coisas, que evitava tanto olhar, depois de tanto, tanto tempo. E essas coisas não tem nada a ver com o meu trabalho. Por isso “perco o foco, me distraio”, só para anos depois me dar conta do que eu realmente quero… E voltar pros trilhos. Fato é: existem outras coisas mais importantes que trabalho. Mais importantes – bem mais importantes – do que só o que eu faço. Não adianta eu querer inventar de fazer planos à longo prazo: as coisas vão mudando, se repriorizando. Nada nunca fica igual pra sempre. Eu mesma vou me modificando, para atender ao que precisa de mim. É um processo contínuo. Tenho uma lista de coisas que quero fazer, de coisas com as quais me preocupo. De prioridades. E contraditoriamente, costumo não levar essas coisas muito importantes à sério: elas são só o meu norte, não necessariamente o meu destino. Sempre posso – e me permito – mudar de ideia quando quero. E ao contrário disso, costumo levar muito à sério o meu dia a dia, meu cotidiano e o que ele tem pra me ensinar. Aprendo em toda a oportunidade. Sou lenta e não adianta muito eu tentar ser diferente disso – quando tento ser diferente, tudo se atravanca, as coisas não funcionam e nada dá certo. Nada flui. Aprendi que tenho o meu próprio ritmo e aprendi a me respeitar. Aprendi que preciso dançar conforme a minha própria música. Estamos em outubro. Esse foi um ano difícil pra mim. Não fiz muito. Não produzi tanto quanto eu gostaria de ter produzido. Não me senti parte de nada. Na verdade, este ano eu só fiz UMA COISA. Apenas uma coisa. Não sei brincar: apostei todas as minhas fichas nisso e só observei o universo conspirar ao meu favor. E meu ano girou em torno disso. E foi bom até – na medida do possível, tudo deu muito certo. E essa foi outra coisa minha, que cultivei desde o início, sem a ajuda de ninguém, dependendo o mínimo possível de quem quer que seja. Tudo meu, do início ao fim. Mérito e merecimentos completamente meus. Sempre soube que seria capaz disso – assim como sei que sou capaz de muitas outras coisas que quero e planejo e estão na minha mente. Só que pra elas se desenvolverem em mim, eu preciso evoluir, desabrochar. Parar de dar cabeçada em parede e soco em ponta de faca. E isso vai demorar. Ok, vou ser justa: foi um ano trabalhoso, mas não foi um ano ruim. Nada de ruim aconteceu até agora, de fato. Foi só cansativo. Trabalhoso emocionalmente, pois tive que lidar com uma montanha russa de sentimentos e sensações que nunca havia lidado antes. A verdade mesmo é que eu estou bem, mas eu não estou satisfeita – o que são coisas BEM diferentes. E não estar satisfeita é bom pra cacete. Estou inquieta e já me preparando pra próxima mudança. E não estou indo mal: estou fazendo o que posso, com o que eu tenho e o melhor que posso. E não, não estou sendo condescendente comigo mesma: é a verdade. Sei bem pelo que passei e pelo que tenho passado, diariamente. Só não estou no lugar certo, nem na hora certa… Também nem fazendo a coisa muito certa. Mas é o que tem pra hoje, então eu vou fazer e vou fazer direito. Vou parar de idealizar que nem uma imbecil coisas que não me competem. Vou fazer o que tem que ser feito e continuar olhando pros objetivos de longo prazo. Uma hora eles acontecem.

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