Sobre o assombro

Eu ia escrever sobre amor e sobre as coisas que aconteceram essa semana, mas não vou não. Estou com preguiça e não tenho tempo. Só vou fazer questão de deixar registrado algumas coisas que me lembrei esses dias, enquanto discutia sobre isso.

Quando eu disse pra ele que o amor não existia e que o que existiam na realidade eram interesses (sexuais, afetivos, fraternais, etc.), a expressão que ele fez com o seu rosto foi a mesma como se eu tivesse descoberto um segredo que ele guardava, a muito custo, a sete chaves. Nessa época, o que restava do que já tínhamos sido sorria para nós como um câncer terminal.

Enquanto bom ilusionista que era, o amor era uma de suas atuações preferidas.

Ele nunca precisava me dizer nada diretamente. Jamais precisou. Lê-lo nunca foi tão fácil assim, mas ele se esforçava pra ser imprevisível (o que era bastante previsível) e, com o tempo, ler as nano-expressões de seu rosto tornou-se mero hábito. Como se ele fosse um quebra-cabeças a ser desvendado, porque, obviamente, uma porção de coisas eram escondidas de mim.

De algumas, desconfiava (e acabaram se confirmando depois). Outras, por falta de maiores provas, tenho como convicção até hoje. Não o absolvo de nada por pura falta de merecimento, mesmo. Também não condeno minha lentidão para perceber as coisas antigamente, nem minha falta de ação. Existiam uma série de sentimentos, sensações, vontades e angústias que perturbavam as águas da minha percepção.

Hoje, com a água calma, enxergo mais claramente do que nunca. Só que desta vez, no mundo.

Ele fez a mesma exata expressão quando falei que eu tinha plena segurança que conseguiria levantar um bom dinheiro sendo uma prostituta que se dedicasse muito bem ao seu ofício. Eu acreditava que as orelhas empinassem por temas como dinheiro e sexo, mas não era nada disso. Os olhos arregalavam e a boca ficava entreaberta, esganiçada, quase que babando por algo subjacente à tudo isso.

Poder.

Foi um completo assombro, visivelmente. Escondido em vão de forma pobre e meio ressentida. Mais tarde colocado devidamente no rol de todos os meus defeitos e de como aquilo fazia de mim – junto com uma porção de outras coisas – uma das mulheres mais desprezíveis a já ter pisado nessa Terra. Enfim.

Nessa época eu só me sentia confortável o suficiente para chegar a este tipo de constatação, com aquela pessoa. Confiava a este ponto. Ainda sou bastante tola, nesse nível. Talvez jamais deixe de ser.

As pessoas só nos ouvem de verdade quando ousamos falar uma linguagem que elas entendem e se identificam plenamente – por mais que insistam que não. Por mais que insistam que se sentem chocadas, ofendidas. Por mais que tentem, inutilmente, dissimular isso. Não sou tão versada em cinismo quanto gostaria e inclusive, nesses dois casos, o que falei não foi intencional ou proposital.

Acho que a expressão de total assombro mexe com a minha libido de uma forma que tenho certo receio de reconhecer mais profundamente.

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