Sobre a esperança

A esperança é uma merda e é fonte de grande parte de seu sofrimento hoje e sempre. É isso mesmo o que você leu. Chega mais menino, chega mais menina, que eu vou tentar explicar:

Contam os mitos que, há muito tempo, os deuses estavam putos da vida com a humanidade. Prometeu havia roubado o fogo dos deuses, entregando-o aos macacos pelados. Desde então, a humanidade passou a ser vista como ameaça. Estes deuses, loucos da vida e soltando raios pelas ventas, entregaram a Epimeteu uma caixa como presente de casamento.

Prometeu havia advertido ao irmão: “não abra jamais um presente dos deuses”. Pandora, contudo, abriu a porra da caixa. E, de dentro dela, saíram todas as pragas do mundo: peste, miséria, fome, angústia, eduardo cunha, tristeza, inveja, ciúmes.

A única coisa que ficou dentro da caixa foi a esperança.

Alguns interpretam isso de uma maneira positiva: após a desgraça, sempre resta a esperança. Insisto – e não sou o único – que tal interpretação é ingênua. A esperança é, ela mesma, a última desgraça da caixa de Pandora. É a raspa do tacho da vitamina de misérias que os deuses deram para tentar impedir a potência da humanidade.

Eu sei, bem sei o quanto isso soa contraintuitivo. “Esperança” é palavra usada e abusada em palestras ruins de autoajuda. Quase todos os ditados do senso comum falam da importância de “ter esperança”. Quero tentar convencer vocês do contrário. “Ter esperança” é, em geral, sucumbir à impotência. É sempre melhor ter outra coisa do que esperança. E, observe bem: quando não der pra ter outra coisa e só lhe restar a esperança, meu amigo, eu não queria estar em seu lugar.

Não confunda esperança com desejo. O desejo pode ter um combustível volitivo que impele à ação. Se eu desejo a pessoa amada, vou na sua direção, tento conquistá-la. Se eu desejo ter melhor saúde, posso cultivar bons hábitos. Se eu desejo que meu país melhore, posso tomar atitudes – mesmo que pequenas – para tentar atingir meu objetivo.

A esperança é uma espécie de desejo, mas não é, ela mesma, o desejo em si. É como uma subcategoria: é também um desejo, porém impotente. Quer ver?

Esperança é um querer impotente. Você a sente quando seu querer de nada adianta. Exemplo: a pessoa amada está doente e fará uma cirurgia. Você não é médico e nada pode fazer durante a cirurgia além de esperar que tudo corra bem.

Esperança é ignorância. Você a sente quando não tem a menor ideia do resultado de algo futuro, presente ou passado. Exemplo: você descobre que tem um tumor. Não sabe se é maligno ou benigno. Até sair o resultado da biópsia, o que lhe resta? Ter esperança.

Ou seja: a esperança é um desejo broxa. E, veja bem, não é que seja possível viver sem ela. Não tem como não senti-la, em algum momento ela é tudo o que nos resta. Mas percebe que, quando tudo o que podemos fazer é sentir esperança, é porque estamos mais impotentes e ignorantes do que nunca?

Só que, se ela é inevitável, não a cultive como virtude. Ela não é. Esperança, só quando não tiver jeito. Enquanto tiver jeito, não fique esperando. Note que até no cristianismo, religião que exalta as três virtudes teologais como sendo fé, esperança e caridade [amor charitas ou agape], até no cristianismo a esperança [e a fé] são virtudes meia-boca que não fazem o menor sentido no Paraíso. Quem diz isso não sou eu, é a Bíblia na Carta aos Coríntios: a fé e a esperança passarão, porque são virtudes de peregrino, mas a caridade não passará. Porque no Paraíso não há a menor necessidade de se ter fé [já que tudo se revela], muito menos de ter esperança [pois já se está no Reino]. O amor, contudo, se desvela em quaisquer mundos.

Muita gente hoje sofre porque tinha a esperança de não haver impeachment. O sofrimento é tão intenso quanto mais intensa era a esperança. Muita gente hoje se regozija porque tem a esperança de que os problemas do país se acabarão graças ao impeachment. O sofrimento futuro será tão intenso quanto mais intensa é a esperança atual. Em qualquer banda do espectro político em que nos encontremos, por mais diferentes que sejamos, somos todos escravos da Caixa de Pandora e submissos à escravidão da esperança.

Não precisamos ser. Eu já vi pessoas queridas morrerem de doenças incuráveis. Algumas delas se mantiveram acorrentadas pela esperança até o fim, esperando por um milagre que nunca veio. Poderiam ter feito muitas coisas até a hora final. Ficaram em casa, esperando. De certa forma, elas são como nós: todos nós temos a doença incurável da vida e vamos morrer. Alguns, contudo, ficam parados, não fazem nada. Esperam. Vivem atados ao desejo impotente.

O que eu posso desejar a todos os que hoje sofrem, além de vida? Chega mais, menino, chega mais, menina, vou lhe pedir uma coisa:

Viva desesperadamente.

 

(Alexey Dodsworth, 31/08/2016, em seu facebook.)

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