Qualquer uma

Hoje me dei conta de que sou qualquer uma. De que posso ser qualquer uma. E que, paradoxalmente, ser qualquer uma não é pra qualquer uma. De que, na verdade mesmo, nada do que eu faça faz mesmo muita ou alguma diferença. Notar isso me deixou meio deprimida por alguns instantes, mas na verdade foi mais libertador do que qualquer outra coisa. Sou irrelevante. Não importo. Não faço a mínima diferença. Esse tipo de pensamento tem o efeito contraditório em mim. Ele não me limita, pelo contrário, me impulsiona a ser o que eu quiser, assim que eu quiser ser. Esta parte ainda não está muito bem esclarecida ainda: não sei o que quero. Em vários sentidos. Só sei o que não quero e isso ao menos já é um começo.

Sabia, por cima, que alguma mudança brusca aconteceria, só não imaginava que fosse tanta. E não imaginava que fosse assim. Me vejo sendo obrigada, forçada na verdade, a dizer mais não do que sim, para algumas coisas. Eu nunca fui assim. Sempre tive medo da escassez, o tempo todo. Sempre tive muito medo do que pudesse me fazer falta. Por isso o sim sim sim o tempo todo. Em um espaço muito curto de tempo, disse não para duas coisas que comumente diria sim. Ontem acordei e disse não, mais uma vez, para algo importante. Ainda não dimensionei muito bem o que esses nãos querem dizer, só os observo ali, espalhando-se aos poucos. Não concordo. Não acho certo. Não quero fazer parte disso. Estou deixando de aceitar coisas em série.

Estou deixando de engolir coisas que não preciso engolir.

Dizer não para coisas que não quero ou não me importo é um tanto quanto fácil. O que me assusta é dizer não, genuinamente, para coisas que amo. Ou que quero muito. Simplesmente reconhecer, de forma não afetada, que estas coisas não me servem, que não são pra mim. A imagem que me vem em mente é a de véus, que estou tirando um a um. Ainda não enxergo o que há por trás deles – e talvez isso jamais aconteça, enfim – mas eles estão sendo retirados. Ou ainda, estou consciente de que eles existem e não estou permitindo mais que perturbem a minha visão. Não sei o que é pior: chegar a dizer o não ou antes disso mesmo me perceber desgostosa com situações que há pouco tempo me entesavam muitíssimo. A partir disso acontece o estranhamento. A partir disso, aconteço.

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