Jogos de poder

“O agressor só se torna agressor porque a vitima o autoriza”

Depende do agressor, depende da vítima e, principalmente, depende do contexto em questão. Por algum tempo acreditei que “as pessoas se ofendem porque querem”. Em alguns casos, as hostilidades são óbvias, como em casos diretos de ofensas de racismo, sexismo e homofobia. Em outros, é mesmo um pet-peeve que existe vida afora e, independente de quem você for, as pessoas não vão ter o mínimo de consideração com você, eventualmente vão te tratar mal e convenhamos também que ninguém é obrigado a ir com a sua cara sempre – nem com a minha. As pessoas são umas pulhas: não gostam do teu cabelo, não gostam do teu jeito de ser, não gostam de como você anda, qualquer motivo é motivo. Eu não tenho muita paciência: fodam-se as pessoas. Muitas vezes elas são plenamente escrotas porque isso reflete uma série de ausências da vida pessoal delas que nunca serão sanadas ou curadas e muitas vezes sequer virão à tona em momento algum. Algumas pessoas são incuráveis e dessas a gente desiste porque não há nada a ser feito, realmente.

Falam sobre vitimização e sobre como as pessoas não aprendem a lidar com o que as ofende mas a verdade é que falar sobre e reclamar disso já é lidar com isso. E o que pode ofender não é algo uniforme, encaixotado, pronto. Última vez, que me lembro, me ofendi com sarcasmo e passivo-agressividade. Tenho tido baixa tolerância pra essas coisas. Mas eu diria que de forma bem abrangente (eu, sendo mulher, parda, sortêra, crasse mérdia, ~estudada~ etc.) ninguém que eu conheça na rua, por exemplo, está autorizado a me agredir sem no mínimo esperar represália ou resistência da minha parte. É muito certo que eu vou revidar, nem que me coloque em risco por isso. Inclusive já aconteceu. Mas é inegável que, por ter essas características que citei aí em cima, em alguns contextos (burocráticos, lidando com autoridades, etc.) isso faz de mim alguém muito mais vulnerável e mais suscetível à vários tipos de agressões do que eu não gostaria. Infelizmente isso ainda é verdade. É um tanto quanto foda pensar que existem pessoas ainda mais vulneráveis do que eu: financeiramente, sem estudo, indígenas, negras, menores de idade… Não vou nem chegar aí.

Essa questão da autorização e/ou permissão geralmente acontece quando é um outro tipo de relação – e aqui eu só vou falar de relações consensuais e entre adultos, ok? Esse tipo de permissão para esta vulnerabilidade em específico só existe quando confiamos em alguém o suficiente pra isso. Pra acreditarmos que essas pessoas, em quem depositamos nossa confiança, não irão nos machucar nunca. Ou que esta seria a última coisa que essa pessoa faria. Mas o fazem. Às vezes de forma muito explícita, às vezes de modo quase imperceptível. Às vezes a repetição é tanta, que esses comportamentos agressivos se naturalizam. E aí não se trata mais de uma relação propriamente dita, de um relacionamento, mas sim de um jogo de poder. E é essa naturalização que seria a autorização da agressividade e ela, de modo algum, exime o agressor de culpa – seja ele ou ela quem for. A vítima ainda é vítima: ela só não está consciente disso. A agressividade não é provocada: ela é consentida (sim, são coisas absolutamente diferentes) sob circunstâncias muito sutis e específicas. O difícil mesmo é discernir e distinguir o que sentimos durante todo esse processo e buscar sempre sair desse estado de vulnerabilidade: financeira, de sobrevivência, emocional e seja mais qual for. Dados todos os vetores e variáveis que conheço hoje em dia, acho que este é um desafio muito difícil de se cumprir. É sempre sofrido. Mas é necessário. E é um aprendizado único, para cada pessoa.

Tenho o péssimo hábito de me martirizar em algumas circunstâncias. As circunstâncias que mais me martirizei foram justamente as quais insisti em levar em frente jogos de poder que não tinham lugar, nem espaço, nem sentido mais na minha vida. Tinha uma idéia surreal de que eu deveria “persistir em quem eu realmente amava, senão isso não seria amor verdadeiro”, que eu “deveria amadurecer pra aprender a partir da experiência” pois “quem tem um porquê, suporta qualquer como” ou “vai e se der medo, vai com medo mesmo” entre outras frases prontas e delirantes todas advindas do meu auto-engano. Quando a verdade é que eu não queria mesmo é largar o osso e aceitar a realidade. Porque é duro demais não se sentir amada. Isso é muito mais difícil do que uma série de abusos. Em nome disso, autoriza-se uma série de ações que seriam inimagináveis quando estamos em nosso “normal”. Uma das frases da Silvia (sobre a morbidez, etc.) que mais me chocou em seção foi “socou porque era socável”. E, em partes, isso faz sentido pra mim.

Entendo que, para amarmos e sermos amados de volta, precisamos nos fazer vulneráveis. Verdadeiramente. O amor é um bicho bem complicado e envolve perdas e danos sim, sabemos. Precisamos ser “socáveis” porque nem sempre vai ser agradável, nem sempre vai ser um mar de rosas sem fim e as coisas vão ser difíceis – mas as dificuldades se superam a partir do momento em que se lembra o que é mais importante: o amor, a relação. Então sim, dói. E é difícil, mas é necessário. E ao mesmo tempo, também há um limite: a partir do momento que a sua vida ou sua sanidade mental estão em sério risco, trata-se de uma outra discussão. Neste caso, não dá pra ser vulnerável sempre e não podemos nos fazer “socáveis” em hipótese alguma. E isso não se trata de não suportar tough love. Tough love is no love. Jogo de poder não é relação. Jogo de poder é algo frio, calculista e desprovido de significado. Precisamos estar em atenção e observar os padrões, verificar de perto o que acontece, como nos sentimos e se possível tomar ações para nos defendermos. Reagir, pedir ajuda, levantar a guarda, dizer não, fazer o que for preciso, tomar as rédeas. Retomarmos o que é nosso por direito. Retornarmos à quem somos.

 

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