O homem que não sorri

Houve um certo tipo de trilha sonora. Falei que estava espiando, apenas. Sempre espio. Foi estranho sentir aquela sensação de frio na parte superior do estômago. Essa pessoa me interessa. Mas por que? Quem é essa pessoa? Comecei a absorver então aquela ideia o mais lentamente que pude. Notei alguns devaneios. O sotaque, primeiro. Às vezes tenho a impressão de que as pessoas são rápidas demais em se desnudar pra mim. Ou vai ver é o meu olhar. No caso, o meu ouvir. Eu nunca tinha ouvido alguém suspirar enquanto fala. Na tentativa de elaborar alguma coisa e transformar em palavras algo que é vago, existiram mundos inteiros, pra mim. Cada pausa ou inflexão significavam tudo o que não era dito. O ar era aspirado enquanto palavras eram ditas e expirado ora como pontuação, ora como desejo. O que mais apreciei era reparar onde aquela voz se refreava. As paradas bruscas, quase como se não consentidas.

A frase era continua até ter uma hesitação, inesperada. E eu amava cada riso abafado que ouvia. Eu procurava padrões naquela escuta, naquela fala, naquele sotaque. Naquela vida, ali, na minha frente. Procurava, obsessivamente, construir o outro. Admiti que ficava pensando nas coisas que não eram ditas. “Às vezes falo para as paredes, sussurro”. Expressava pensamentos que não eram pra ser e eu sempre busco o que escondem de mim. “O que você descobriu?”, me perguntou. Que o que pode ser descoberto é menos interessante do que o processo, respondi. Estou curiosa sobre você, mas não muito. Um sorriso arrancado. Gostava de ouvi-lo quando tudo o mais silenciava. Assim podia fruir melhor de toda a sinuosidade das palavras, entender um pouco a gramática de alguns dos conjuntos de obsessões. Segui de guarda alta. “Isso não é um combate. Mocinha”. Touché, eu disse. Vulnerabilidades, então. Tudo bem, posso ser bastante vulnerável.

Um segredo constrangedor. Uma culpa. Coisas improváveis. E eu cantei. Eu sempre canto. Take one. “Uma manhã de domingo não requer truques”. “Você tem algum pedido para mim?”. Quero que você permaneça desconhecido. E meio inatingível. E que sempre seja brutalmente honesto comigo. Menos por ser uma desconsideração comigo, mais por ser uma consigo mesmo. Houveram, ainda, apropriações com aspecto de sonho. Etéreas. Aquelas não eram eu: aquelas eram eu sob o efeito daquela pessoa. Aqueles olhos não eram meus. Aquele sorriso não me pertencia e eu sabia disso. Mas eu gostava, gostava muito. Falei sobre algo que estava escrevendo. “Suas palavras foram todas as palavras de uma observadora. Como se você observasse a própria epifania”. Uma boa observação. Inclusive me fez repensar sobre como escrevo, sobre a pressa e o processo de escrita. Sobre dedicação. Me ensinou coisas que talvez nem fui consciente, na hora.

Pensava que deveria haver mais. Me peguei então distraída. Uma distração ritmada, com toda uma cadência e um pensamento fixo. Aquilo não foi, para mim, um entretenimento. Teve toda a seriedade e todo o peso que um momento efêmero tem por princípio. Aquilo, para mim, foi o fim. Um pequeno apocalipse. Então eu disse que se perder é sempre bom. “Você não sabe o que está falando, garota”. Esse certo tipo de autoridade desapegada me apetece bastante. Me é exposta uma figura com uma timidez indisfarçável, no tom de voz, no olhar, no sorriso discreto. Existem todas as características de um sujeito doce. Doce, porém indócil. E não há imposição quando a crueldade surge. Me fez andar, em desespero, pelos corredores estreitos das suas demandas. “Quero uma impropriedade. Quero que sintam o seu cheiro, mas não tenham certeza. Quero que tenham dúvida. Quero que você me fale exatamente o que não deve ser dito”.

Mais de mil pessoas ao meu redor. Mil ruídos urbanos. Meus olhos: nulos. Por fora, aparente apatia. Por dentro, uma ebulição. Não conseguia ouvir mais nada. Eu nunca resisto, apesar de ser uma boa resistente. Foi um êxtase raro, com o ambiente, com a vida… Como poucos. Me senti num dilúvio. “Me sinto um pouco vil”. Doce. É bastante doce. Só sei que vou me arrepender disso, em algum momento. “Sim, vamos. Faz parte da fruição”. Foi uma excelente inquietação. Certa vez, você me fez sentir como um pôr do sol. “Quero que você esteja diante de mim até quase o último segundo, imediatamente antes de eu fechar os olhos, com você me mantendo sob a superfície. Quero estar olhando você, até quando olhar não for mais possível”. Nunca uma ideia me pareceu tão real. Não me lembro a última vez que uma fantasia foi tão tangível. Sabendo do seu gosto por redenções tornei-me, repetidamente, a minha própria.

Você deixa em mim lacunas que espero que jamais se preencham (estou querendo você agora). Estou comprometida com isso. Vou dizer absurdos. “Então diga, porra.”. Mas não, não digo. Não assim. Não desse jeito. Somos lentos animais de silêncios. “Você tem me desejado?”. Você me deixa fodida, sabia? Saiba. E você sabe e repara no relógio marcando o tempo e nos meus suspiros marcando a suspensão do tempo.  Acho curioso – e meio louco – que o que eu proponho com você é justamente o oposto do que eu faço. Me proponho lenta, mas te realizo, em mim, com urgência. E essa fúria não passa, ela apenas se atenua. Tudo é precário. Inclusive as improbabilidades românticas das quais agora faço parte. Olho para trás, te enxergo com o canto do meu olho e sinto que estou, querendo ou não, entregue. Aos seus cuidados. Mas tudo o que há na realidade é apenas lentidão. E você não sorri. Nunca.

E na verdade, nem eu.

A verdade é que não precisamos de nada. Nunca presenteio ninguém. Tenho dificuldade em enxergar pessoas que não me toquem. Mas também não quis que isso fosse uma formalidade. Pensei numa caixa de estímulos. Antes de fechá-la sussurrei com todo o meu coração um pedido de felicidade. Minha caixa foi aberta numa sexta-feira 13. Um bom dia. Tudo o que ouvi me soou absolutamente genuíno, as interjeições de surpresa, as repetições maravilhadas, a risada profunda e verdadeira. Me senti aquecida por dentro e um certo tipo feminino de virilidade, em saber que ainda posso ser capaz disso, de sentir algo. Me senti preenchida, de felicidade, de risadas e de alegria. Tenho me sentido tocada já há algum tempo, mas me senti literalmente beijada a cada “muito obrigada” que ouvi.

Além dos presentes tradicionais – livros e chás – enviei uma clavícula de galinha e um pequeno pingente. O pingente apenas materializava o que parecia aparente. A clavícula fazia parte da série de objetos inúteis que guardo aqui em casa, esperando um momento específico – como este – para uso. Essa clavícula é uma promessa. Uma promessa, que é uma possibilidade de sorte. Condiz com tudo o que eu sinto sempre, que é sempre meio bifurcado. A sorte vai ser minha ou vai ser sua? Aliás, isso importa?

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