Amor próprio

Em 2013 eu fiquei na merda no segundo semestre. Muito na merda. Aconteceu tudo ao mesmo tempo: perdi o emprego, rompi com alguém e fiquei doente. A desgraça, quando ela vem, nunca é pouca. “Você precisa ter amor próprio”, falavam pra mim, a vida inteira. Grandes merda amor próprio, eu pensava. O ano acabou e eu acabei junto com ele, na merda. Mas sabia que podia ser diferente e queria sair daquela situação. Em 2014 foi o ano de me recompôr. De ficar de pé de novo. A única forma que ousei começar a andar um pouquinho foi fazendo uma especialização. Foi bom. Não andei muito, mas recuperei minha dignidade. Já estava de pé novamente. E o ano terminou com fim de ciclos e mudanças, boas e drásticas. Ainda não tinha amor próprio porque não tinha muito tempo pra pensar nisso. O ano de 2015 foi corrido. Não vi passar. Muita coisa pra fazer. Arrisco dizer que foi um ano muito bom sim, produtivo. Foi um ano que gostei, sim. Fiz um pouquinho mais de coisas por mim, virei especialista, foi foda – no bom e no mau sentido. No começo de 2016 pude enfim descansar da tormenta de 2015 e pensar um pouco mais em mim. No tal do ‘amor próprio’, essas coisas. Mas sou rasa, entendo tudo errado, não sei das coisas. Não sei o que é amor, não sei o que é amar, de verdade. Não sei como fazer essas coisas. O próprio conceito de amor é algo que me irrita. Pra mim, amor próprio até então se tratava de eu fazer tudo o que sempre quis, o que mais gostei, o que mais gosto e gostava, independente de qualquer outra coisa no mundo. Ter amor próprio significava não ter imposição de limites de nenhum tipo. Era ser livre à exaustão e eu nunca tinha experimentado isso antes. Tinha apenas um vislumbre de como poderia ser. E tinha medo, também. Mas não consigo passar por nenhuma experiência sem fazer com que ela seja exagerada, sem fazer com que ela proceda à exaustão. E então, neste ano, no mês de março, andando já com as minhas próprias pernas, eu virei a chave e me mimei o máximo que pude. Me dei tudo o que eu podia. Me dei tudo que nunca, jamais me deram. Me dei o que sempre me foi negado. Eu estive presente em todos os momentos em que me rejeitaram. Fiz o diabo e eu não me cansava de me agradar. Isso durou o mês do meu aniversário inteiro… E foi bom. Até que eu saísse pela outra ponta. Porque, obviamente, isso passa. Enjoa. Enche o saco. E aí nesse retorno, nessa volta da náusea, a gente acaba aprendendo alguma coisa ou outra. E parece que eu aprendi uma coisa ou duas sobre o tal do ‘amor próprio’, que é, na verdade, uma grande bobagem. Um termo imbecil, marketeiro, falso. Eu achava que amor próprio fosse um paraíso cor de rosa, onde eu viveria sendo mimada pela eternidade. Isso é só mais uma ilusão. Amor próprio sequer devia ter esse nome. Pois ele, de verdade, não é fácil. É complexo. E não se trata de mimar-se. De se dar o melhor sempre. De fazer sempre o que se quer. É um pouco mais dolorido que isso. Por incrível que pareça, saber amar-se envolve saber estabelecer limites à si própria. É ser um pouco seu próprio pai e sua própria mãe. É saber dizer que não, não vai rolar. Não, você não pode. Não, você não vai. É saber dizer: chega, basta pra si mesma. É saber quando, como e porquê você deve se desautorizar uma série de coisas. E isso não é ruim, em absoluto. Como alguém que já voltou a ficar de pé e agora anda com suas próprias perninhas, acredito que isso possa ser o que chamam de amadurecer. Ainda estou me acostumando com a ideia. Com as restrições. Com os limites. Mas eles não me imobilizam: muito pelo contrário, me imprimem a velocidade que eu preciso para o momento, pra seguir adiante. Grandes merda a forma que nomeiam as coisas. Grandes merda o amor próprio. Aprendi a levantar. Hoje ando, devagar. Num próximo momento, eu vou dançar… Descalça. Até eu virar música.

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