Sobre ser difícil

Da série: você está louca, sendo que a única coisa que você quer é sinceridade, sem grilos…
“Começaram bem. Like-like-match-cervejinhalimbaixo-papobom-beijogostoso. Ia ter uma paradinha na casa dele, chamou ela, que curioso, mas logo assim?
Isso, vai ser sussa, vão uns amigos, moramos tão pertinho, chega lá na sexta. Ele não era carioca, deve ser por isso.
Por que não ir? E foi. Foi ótimo, mesmo com aquela tensão inicial: casa, amigos, roomate, primeira transa. Aquela transa que ninguém sabe muito bem como fazer. Onde pega, onde gosta, onde sobe. Ela curtiu a tranquilidade e o atrapalhamento do rapaz. Ele curtiu o sexo oral.
Me leva em casa? Ué não vai dormir aqui? Não, dormir é muito, quero dormir em casa. Mas tá tão gostoso aqui. Tá, mas enquanto estamos acordados. Quero ir pra casa.
Dormir junto demandava tempo, na lógica da moça. Mais pelo acordar, que pelo dormir. Estavam apenas se conhecendo, encostando um no outro pela primeira vez. Deixa esperar. Na lógica do moço, parecia estranho ela recusar o aninhamento de seus braços e lençóis. Fora que tinha que se vestir pra descer com ela, que morava na sua esquina. Preguiça.
Cada um na sua casa, passaram os dias, trocaram mensagens. Ele queria repetir, dizia via celular, aqueles beijos gostosos, aquele carinho bom. Ela topava, vamos nos ver quando der. A coisa meio que engrenou. Ele queria ela que queria ele e foram se conhecendo e se querendo.
Ela tinha muito medo. Os caras se movem pelo mundo e pelas mulheres de um jeito que ela não andava entendendo muito bem. Deixa disso, as amigas diziam. Aproveita, o cara é maneiro, gosta de ti. Ela ia, mas sabendo que mesmo com todas essas qualidades, era “um cara”.
Ele convidava dorme aqui e ela dizia outro dia. A verdade é que ela não se sentia confortável dormindo na casa de “caras”. Um dia ele disse você sempre diz outro dia e nunca chega o outro dia. Ela abriu o coração esquisito e disse não me sinto bem dormindo fora, custo a dormir, fico angustiada, durmo mal. Ele ficou p-a-s-s-a-d-o. Fez uma expressão que doeu fundo nela e ela se culpou pensando machuquei ele, falei merda, ele ficou chateado. Ele Perguntou se ela não tava vendo isso, ela disse sim, faço análise e tals. Mas ele falou depois que não queria falar no assunto, ou acabaria se afastando.
Como assim se afastaria, caso conversassem? Pareceu estranho, mas ela lembrou do jeito estranho que “os caras” escolhem para se movimentar pelo mundo e pelas mulheres. Uma amiga já mandou logo o alerta amiga-vaza-que-é-mais-do-mesmo, mas ela não vazou.
Continuou, foi lá, respirou fundo, pensou que essa seria uma ótima oportunidade para vencer uma dificuldade sua, topou dormir na casa do moço, que pareceu feliz demais pelo “outro dia” ter chegado. E parecia que as coisas evoluíam.
Que bom.
Mas as coisas que evoluíam de repente concomitantemente sutilmente loucamente, essas coisas viraram um dejavu do demônio.
Ele era ótimo com ela, um fofo. E só. Em poucos meses, ele estava sempre muito cansado. Chegava louco pra dormir, muito trabalho, muito stress, muita preocupação. Irritou-se com a roomate e foi morar no primeiro apê que encontrou. Ele não saía com ela, era cama, netflix, almoço e janta no bar da esquina, dormir, café e sexo. O sexo, ela percebeu (e ele não), era como uma masturbação de pouco esforço (pra ele), pois percebeu uma sequência de dias nos quais a transa chegava ao fim no orgasmo dele e, se ela não fizesse acrobacias no rapaz imóvel, saía da parada sem o gozo final. Como falar sobre isso? Mas ele parecia animadíssimo para sair com os amigos, tomar uma cerveja, ir a um showzinho. O dia seguinte, da ressaca, era todo dela. A véspera da prova que ela tanto esperou e a deixou altamente ansiosa não pareceu importante pra ele, que desligou o celular pois estava muito cansado do dia puxado de trabalho.
Aí ela falou pô amigo não tá bacana isso. E ele falou ai sabia que tu ia reclamar eu não to reclamando, to querendo entender onde eu entro nessa história, pra saber se eu topo ah a gente tá se relacionando, eu to curtindo. Eu gosto de você. Eu também. Ele disse pra ela sabe, no início eu achei que você só queria um baiano pra trepar, e isso me deixou meio cabreiro, mas depois vi que a parada era outra, quando você passou mal e eu fui cuidar de você. Ela disse oi? Ele disse é, eu não toparia uma história que não tivesse algo mais, nunca teve disposição pra isso. Ela ficou aliviada, mas disse que era importante que as coisas não ficassem como estavam, que ela pararia ali. Ele disse vou tentar, vou prestAr mais atenção.
Viram juntos Ópaíó e ela gelou quando ele se acabava em risos e admirações pelo personagem que enganava a mulher e pulava janela pra encontrar a mulherada na vizinhança. Os olhos dele brilhavam muito, mas ela se autocensurou e pensou to viajando, isso é saudade de casa.
Numa ida à praia, ele encontrou um amigo que não reparou que ela o acompanhava. Ele disse “se liga que o camarada nosso arrumou uma mulé que mora do lado dele, agora ele não pode fazer merda em paz, porque tu conhece a mulher e ela é maneirona mas depois ficam todas loucas, pegando no pé, acredita que a mina começou a contar as camisinhas dele e po, tu sabe a cara dele quando mente, né?, po, ele tá cortando um dobrado”. Ela lembrou do movimento estranho dos homens pelo mundo e pelas mulheres. A mulher era maneirona mas ficou louca porque ele não podia enganá-la sem que ela questionasse? A moça quis perguntar, mas achou melhor não, pois aquilo era papo de amigos.
Eles seguiram mas parecia que ele não estava prestando atenção alguma quando a coisa não dizia respeito a ele mesmo. Ele sempre reclamava de tempo e uma vez mandou mensagem propondo a ela uma viagem, assim que ele tivesse uma folga no trabalho. Um dia, depois de duas semanas dormindo juntos quase todo dia, ele perguntou pra ela você tá gostando desse convívio todo e ela disse eu tô e você e ele disse eu também to e se abraçaram.
Na semana seguinte, ele disse que um amigo havia convidado ele pra uma viagem de fim de ano e ela não estava no escopo da coisa. E ela ficou mal e ele achou que ela estava querendo tolher a liberdade dele e ele viajou e na volta fez contato. Ela estava machucada, mas disposta. Vamos ver, vamos conversar. E ele dizia que pensava em estar junto dela, mas que andava pensando em muitas coisas, desde que visitou a família no fim do ano. Mas sim, vamos conversar. Mas não conversou. O moço deixou a moça esperando e nem avisou que não ia. Ele foi sumindo, sumindo, sumiu. Ela seguiu adiante: deletou os contatos do moço, conheceu outros moços, limpou a casa de coisas dele.
O moço então apareceu. Uma semana depois do carnaval. Com uma mensagem fofa, ele jurava que estava abafando: tirou foto de um presente que ela deu, na janela da casa dele e dizia que aquele era seu copo preferido. (A moça tinha dado um copo para ele beber água ao longo dos dias de trabalho tão intensos, que ele não deixasse de se cuidar. Ao longo do período que estavam “juntos”, ele mandava fotos do copo ao longo dos dias.)
Voltaram a falar sobre encontrar e conversar. Ele dizia sim vamos conversar e avisava que não ia poder mais.
Fez isso algumas vezes, pois ela sempre achava que valia a pena a tentativa. Eles se deviam isso, afinal de contas, conviveram uns meses, acordando juntos (que ele tanto quis), comendo juntos, cuidando juntos e ele dizia sim, vamos conversar e não aparecia. Mandou foto selfie deitadinho um domingo, pediu para vê-la no feriado, fez carinha triste quando ela respondeu que não estava no Rio.
E marcaram de novo, ele desmarcou em cima da hora, quando ela ligou perguntando se já podia sair.
“Tive uma dor de cabeça terrível, to deitado no chão do trabalho, to pegando um taxi e vou pra casa, sorry. Não pense que estou te enrolando, pfv.”
A moça custou a responder, por não saber o que falar, mas tinha essa mania de se comunicar e disse um dia depois que esperava que ele tinha melhorado. Ele disse que melhorou um pouco, era a vista que andava piorando. Ela estimou suas melhoras e na mesma semana, ela foi a um show. Cinco minutos depois dela entrar, ele entrou no local, de mãos dadas com a moça2.
Assim, nossa moça seguiu sem entender a movimentação dos homens pelo mundo e pelas mulheres.”

(M. C. C.)

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