iamamiwhoami, goods

Não me lembro como conheci a iamamiwhoami. Possivelmente foi pelo Twitter. Descobri no final de 2015, não me lembro exatamente o mês. Me lembro da primeira música dela que ouvi no repeat por pelo menos uma semana e foi esta aqui:

Esse clipe me chamou a atenção primeiramente porque imediatamente me lembrou da Siouxsie vestida de arlequina no Happy House. E, pessoalmente, eu estava numa merda total, completa e aparentemente irreversível quando ouvia essa música da Siouxsie no repeat, em junho de 2011. É claro que músicas marcam profundamente nossas experiências mais traumáticas e essa foi uma delas. Então acho que a goods me chamou a atenção por causa disso, também. Primeiro foi porque achei a música muito dançante, boa e fácil de ouvir, num primeiro momento. Segundo porque quando vi o clipe, apesar de parecer ridiculamente simplório, eu não conseguia tirar os olhos da tela – como se assistisse novamente a minha própria desgraça em algum nível. Como se fosse uma piada sem graça. Enfim, anos depois, aquilo me fascinou.

Now we found a cure
Returning to the shore
Change is always given to the searchers who explore

O iamamiwhoami é um projeto audiovisual da cantora sueca Jonna Lee e o restante de outras informações mais técnicas vocês podem ficar à vontade pra ler na Wikipédia, pois não quero falar delas aqui, não é o propósito deste texto. Aqui eu só vou falar da relação que algumas das músicas dela tem ou podem ter com as minhas vivências pessoais. Acho que a ligação que eu fiz entre a happy house e a goods é que as duas músicas falam sobre ilusões, cada uma ao seu modo e é por isso que gosto tanto delas. Na goods não existe uma casa muito engraçada, com janelas e etc., mas existe um quadrado preto que na verdade é um espaço onde “tudo” acontece. Onde Jonna acontece, como arlequina. Lembrando que o Arlechinno da Commedia dell’arte é um palhaço, amoral e glutão, que ama a Colombina, enquanto ela só o faz de idiota. No entanto, ele também é elástico e um acrobata.

I do enjoy your company 
But we must work to keep you content

O rosto de Jonna é extremamente curioso. A princípio ela é uma mulher jovem, tem 34 anos. Mas no clipe, ora ela parece uma menininha, muito mais jovem, ora ela parece uma senhora de idade… Em outras imagens, para mim, ela parece uma antiga árvore de salgueiro – e quero dizer isso como um elogio. Mas acredito que seja proposital ela ter esta identidade borrada, entre fumaça, luzes e uma música com uma batida meio dance dos anos 70. O iamamiwhoami não é uma pessoa, não é uma banda, não é música: para mim, está mais para um estado de espírito. Enfim… Não sabemos exatamente quais são os limites deste quadrado preto, que no início do clipe acreditei ser um espaço infinito até perceber que Jonna tocou uma parede, que existe, sim, uma forma ali. De qualquer modo, não é possível enxergar direito os limites, as limitações, nada: apenas Jonna. É quase como se o encarceramento em um mundo obscuro e quadrado fosse, de certa forma em certo nível, o encarceramento em um mundo de fantasia, colorido e dançante. E consigo me identificar de formas muito específicas com isso tudo. De outro modo: ela é a caixa, Jonna é o espaço onde isso tudo acontece. Ela meio que se funde ao todo.

A voz de Jonna é meio monocórdica e o inglês dela é completamente exótico, afinal, ela é sueca e carrega o sotaque pra música o que acho fascinante porque jamais imaginei que isso soasse bem. E então a música, totalmente plana, compreensível e dançante termina de forma muito estranha, mas isso pode ser quase que completamente ignorado, podemos deixar passar batido. Acredito que só não ignorei porque ouvi essa música muito exaustivamente. Lá pelos 4:40, enquanto a batidinha do som dançante vai definhando aos poucos, um outro som mais denso e chiado se mescla e toma conta do primeiro plano, como se sempre estivesse ali desde o início, como se por algum motivo tivesse sido sobreposto por toda a batida exata, correta, dançante, plana, compreensível. Ele é só um detalhe… Mas é um detalhe que desvenda a música e desvenda parte do que é o iamamiwhoami.

A música parece terminar como se estivesse começando… É difícil explicar, mas é essa a sensação que tenho. E neste mesmo momento o clipe termina como começou: com o quadrado negro, como se a arlequina tivesse voltado para a caixa, como se a caixa também fosse ela, numa dualidade meio instrínseca.

Toned down, but playful
You say your greetings with goodbyes
Your cup is brim full
Sorrow stricken with a smile

Não ouvi com muita atenção o restante do álbum kin, então não posso falar dessa música com uma perspectiva mais holística, em relação às outras. Mas posso dizer que, bizarramente, foi essa música que me levou ao álbum blue, sobre o qual ainda pretendo escrever alguma coisa qualquer dia desses que eu estiver meio à toa que nem hoje.

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