O inventário das coisas ausentes, de Carola Saavedra

“Alguém que amei uma vez me deu uma caixa cheia de escuridão.
Levei anos para entender que isto, também, era um presente.”
– Mary Oliver

Desde a primeira vez que li o título “O inventário das coisas ausentes”, sabia que teria que lê-lo algum dia. É um livro curto, de linguagem bastante fluída. A sinopse do livro pode ser a história que o narrador-escritor conta sobre como conheceu Nina, personagem central da trama. Na verdade são várias as histórias que se sobrepõem e se intercalam ao longo das épocas e que, de um modo ou de outro, levam até Nina. Durante a trama não é possível ter muita noção de linearidade e cabe a quem lê tentar encaixar as épocas e fatos.

Em dado momento, Nina abandona o narrador e antes de desaparecer o deixa com 17 diários. O registro, embora aparentemente desprezado pelo narrador, tem um papel importante no livro: a partir deles que as histórias são contadas. No entanto, Nina retorna e depois de anos, um reencontro acontece. A primeira parte do livro tem uma certa vivacidade, que está atrelada à personagem da Nina. Mesmo os acontecimentos mais tristes e dolorosos são transmitidos de maneira leve, com um certo humor.

A segunda parte, trata-se do livro que o narrador escrevia na primeira parte, quando conheceu Nina. É o encontro de um pai com um filho depois de 23 anos de separação. O pai, com uma doença terminal, um sujeito completamente rústico e bronco entrega ao filho 17 diários sobre sua vida. No texto, o filho é sempre referido como “o menino”, mesmo que já se trate de um homem de 46 anos. Ambos os personagens, pai e filho, são analfabetos emocionais que não sabem distinguir nem falar sobre o que sentem.

Embora o perfil deste pai tenha sido delineado de forma a entendermos que trata-se de uma pessoa esclarecida, que lutou por ideais políticos e tem uma casa com biblioteca, não é difícil inferir que trata-se de um sujeito afetivamente enrustido e recalcado. A existência desse pai revela na verdade a gênese do machismo, onde o rito de passagem para “tornar-se homem” necessariamente passa por um processo de desumanização: não sentir dor, nem fome, nem cansaço, nem vontade de ir embora ou chorar.

O “menino” então passa não só a desejar a morte do pai como, mais tarde, o desejo de aniquilar ativamente tudo o que possa lembrá-lo, mesmo que palidamente. E é justamente aí que a ficção confunde-se com a realidade do livro. O narrador descreve o corpo atlético de Nina, sobre como ela gosta de sair diariamente pela manhã para correr 10 quilômetros. Coincidentemente, a mesma quantidade de quilômetros que o pai jogava na cara do “menino” que ia a pé, para a escola, diariamente quando criança.

É possível inferir que de certo modo o narrador-escritor podia enxergar esse odioso pai refletido em Nina, em seus detalhes. E a desprezasse por isso. Pois enxergar isso o fazia sentir ainda mais fragilizado, invalidado e deslegitimado enquanto essa ficção, essa construção, “homem”. E é a partir desse ódio retroalimentável, sustentável até, que o machismo e a misoginia emergiam em alguns parágrafos do livro. Neste sentido, Nina que é aparentemente uma mulher livre, muitas vezes incomoda o narrador, que, ao menos uma vez, pensou em matá-la.

Sobre o final do livro, minha primeira impressão é a de que ele foi primoroso, para só depois eu entendê-lo quase que como uma afronta. Só depois me toquei das linhas e mais linhas, vírgulas e mais vírgulas para só então, e talvez, a história acabar com o derradeiro ponto final. Até o último momento, uma violência.

Ao terminar esse livro, me veio em mente uma imagem que me intriga há algum tempo. Nunca havia parado para pensar de forma consciente sobre violência e o final do livro fez com que essa imagem ficasse ainda mais nítida. Ao ver o que acontece, senti como se eu tivesse arqueado e atirado uma flecha para frente, no alvo, e assim que ela o acertou, me acertou também. Em cheio. No peito. Foi devastador. E não parecia que seria.

Jamais parece.

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