Sala de visitas

I Uma sala quadrada, com várias cadeiras dispostas milimetricamente em torno de um palco quadrado.

II Há penumbra e há um facho de luz no centro do palco. Existe um divã e um pequeno armário de instrumentalização.

III Estou completamente vestida, da cabeça aos pés. Não me sinto muito humana.

IV Me dirijo ao palco sozinha, por vontade própria, subo três pequenos degraus de escada e deito-me, aguardando instruções.

V Pequenos e múltiplos sensores são instalados sob minha roupa e por minha pele. Assim, você poderia me trabalhar melhor.

VI Sussurros dizem coisas ininteligíveis em meus ouvidos. Isso é recorrente. É um sonho que tenho desde criança. Sempre foi aterrorizante.

VII Sinto que, apesar de tudo, tudo ficará bem. Tudo sairá como esperado. Esse é o propósito. Existe mais resignação que expectativa.

VIII Não consigo decifrar ao certo de onde estão vindo os estímulos, só entendo que são muitos e ao mesmo tempo. Muitas vozes. Cores. Toques.

IX “A intenção disso tudo é que seu corpo não mais desse conta e que eventualmente falhasse. Pretendo explorar justamente a beleza dessa falha. Claro que conto com a possibilidade de auto-destruição, mas na verdade isso pouco importa. Minha causa é maior.”

X Ouço o som da minha própria voz e gemidos sendo distorcidos. Não consigo entender nada do que expresso. Sou um animal. Pessoas na platéia executam anotações às quais posso ouvir com precisão.

XI Me pergunto quando aquilo tudo irá terminar. Sou ingênua.

XII Não sinto dores. Sinto coisas muito piores. É como se eu estivesse sendo completamente apagada, lentamente. E nesse processo fosse extraído absolutamente tudo de mim.

XIII Você toca meu rosto coberto, se aproxima do meu ouvido e intercala sussurros com agudos. Percebe meu corpo se contorcer e aquilo só faz com que você continue seu trabalho, friamente.

XIV Uma execução fria: estímulo, resposta, padronização, notação, execução. Repete. Cada vez mais. Até a exaustão. Até perder o sentido. Não há criatividade. Não há vida. É estéril. Sempre foi.

XV Você tem a plena certeza de que está no caminho certo.

XVI Talvez ainda dure quando eu não mais estiver por aqui. É assim que costuma funcionar. Esse é o Modus Operandi dele.

XVII A parte inferior do meu corpo, que se encostava no divã, liquefazia-se e pingava. Carne, roupas, tudo.

XVIII A parte superior do meu corpo, condensava-se e evaporava. Olhava para o meu peito e já sequer conseguia processar o que via ou sentia.

XIX Os sensores flutuavam. Havia um som de exaustão, naquele momento. E aquilo jamais cessaria.

XX “Ela não está mais lá”, o público repetia cada um a cada momento. Cada um com diferente reação. Todos com medo. “Pra onde ela foi?”.

XXI O que é você?

XXII Venha comigo. Venha comigo, D. Precisamos sair daqui. Abra os olhos. Ande. Abra os olhos. Abra os olhos… Agora.

XXIII Abri meus olhos. Não faço ideia de por quanto tempo fiquei paralisada. Quando levantei, sentei-me na cama por um momento e respirei profundamente.

XXIV Me senti tocada, quando na verdade fui violada. A diferença é sempre sutil.

XXV Estava aterrorizada. Um pouco amortecida. E tremendamente excitada.

 

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