Tigre

Subia as escadarias enquanto ele descia. Se fosse combinado, não teria dado tão certo. Me sinto confortável, com aquela voz, com aquele abraço. Saímos para jantar e foi meio impressionante observar o quanto aquela pessoa tinha mudado em cerca de dois anos. Não julgo, não digo se bom ou ruim, apenas identifico a mudança. Me senti mal por não ter omitido a minha vida pessoal à ele quando deveria. Velhos hábitos demoram a morrer, fomos à mesma esquina, tomar o mesmo suco, tentar decifrar os mesmos sorrisos. Resolvi ir em um restaurante que nunca o levei, mas que sempre vou quando me sinto muito melancólica. A comida de lá me traz conforto, o atendimento me aquece por dentro, as senhorinhas reconhecem o meu rosto, há alguns anos já. Sempre peço esse prato quando venho aqui, disse. Quem te ensinou a comer esse prato? Você falou isso e teve som de nostalgia. Fiquei atônita, sem saber bem o que dizer, nem como disfarçar o indisfarçável. Não esperava que ele tivesse mudado tanto. Ou talvez ele sempre foi observador e eu, por algum motivo, jamais percebi isso. Nisso, nesse instante, compreendi o meu erro. Entendi a ingenuidade que me acomete como nociva. Entendi que é, sim, preciso mentir às vezes. E que sinceridade não é, quase nunca, uma virtude. Ele me ensinou isso em poucas palavras, poucos gestos. Toda vez que aprendo isso, morro um pouco por dentro. Escute: não me faça perguntas difíceis… Podemos comer? Não fiquei com o olhar marejado porque não há mais oceano algum por aqui. Estou no deserto, há meses. O resto da noite transcorreu com as mesmas piadas sobre meus duzentos amantes, sobre como não há nada novo sob o sol, sobre como sou uma devoradora de corações. Mas nada do que foi dito, foi dito sem afeto. Havia, sim, certo tipo de cumplicidade nos olhares. Houve um pedido. Tudo feito e desdobrou-se da forma menos pretensiosa possível. Há conforto, disponibilidade e um breve reconhecimento. Há mãos que passam, suaves, em movimentos fluidos, como se procurassem algo em mim, sem pressa, sem objetivo. Há um entremeio de lucidez, até que essas mesmas mãos, em um só movimento, me arranham.

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