Movimento de vida

Tenho percebido um certo padrão ao qual denominarei “movimento de vida”. Ele é curioso porque é essencialmente paradoxal: ao mesmo tempo que independe de nossa vontade, ele só ocorre por conta dela. É difícil explicar. E é mais difícil ainda notá-lo, observar a vida o suficiente a ponto de percebê-lo, detectá-lo com precisão. Preferimos continuar cegos para alguns contextos – importantes, inclusive. Por um bom tempo, não temos escolha. Depois de uma certa idade, trata-se de pura parvoíce, mesmo. Mas esse movimento acontece. São mudanças, que começam com sutilezas e, com o tempo, se tornam irresistíveis. No entanto, resistimos. E resistimos não sem certa prepotência, até. “Vai dar certo”. “Vai funcionar”. “Vamos ver até onde consigo levar”. “Vamos ver até onde isso vai”. E, não incrívelmente, todas as vezes que inventamos de resistir a certo movimento de vida, sofremos imensamente. Magistralmente, eu diria. Mas o que acontece é que todos – sem exceção – somos muito teimosos. E sempre optamos por sofrer ao encarar o que deve ser feito. Antigamente eu entendia o sofrimento como algo essencialmente ruim. Hoje em dia o entendo como funcional em alguns casos, embora ainda acredite que existam limites. No entanto, o sofrimento é sempre uma opção. Uma escolha, de fato. E um tanto quanto cômoda, eu diria. É difícil deixar a teimosia de lado e desapegar-se do que quer que já tenha sido e evidentemente já não é mais. É difícil abrir mão de resistir e simplesmente enxergar o que se apresenta. Educar-se a conviver com isso. Tirar o véu… E apenas observar o movimento.

(Não resista.)

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