Nunca fui casada

Chegamos tarde em casa aquele dia. Eu estava cansada e não sabia o que fazer primeiro. Se botava roupas pra lavar, conferia o e-mail ou via se tinha água no filtro. Já tinham se passado oito anos. Ele perguntou que tipo de filme eu gostaria de assistir hoje. Não sabia ao certo o que escolher e aí me foram dadas opções: um filme sobre o bloody sunday que ocorreu na Irlanda e outro sobre a vida pessoal do Stephen Hawking. Escolhi o filme mais bad vibe, o bloody sunday. Não sei bem porque. Fui tomar banho, estava tão cansada. Durante o banho pensei na minha conta negativada, nos meus cartões bloqueados e em como iria resolver aquilo tudo. Na correria que tinha sido aquele dia, por motivo de uma conta. Infernal. Cotidiano. Lembrei também de quando eu cuidava as plantas na janela e ele chegou por trás de mim, apertando a minha bunda, cheirando o meu cabelo e dizendo ‘senti sua falta’. Pensei também em cortar o cabelo, curto. Gosto do meu cabelo comprido, mas ele me dá tanto trabalho. Só de pensar que teria de sair do banho e secá-lo já me dava certa preguiça. Às vezes o deixava molhado mesmo, o que também não era bom. Saí do banho, me sequei e enrolei na toalha e fui até o quarto, onde ele estava do lado dele na cama, vendo qualquer coisa no laptop. Ele fala. Muito. O tempo todo. Eu sou quieta, mas falo. Respondo sempre. Sentei no pé da cama, na frente dele, meio desgrenhada, de toalha e comecei a tortuosa tarefa de secar os cabelos. Em frente de mim tinha um espelho, onde eu podia ver o progresso dos meus cabelos secando. Estava pensando que ia dormir no meio do filme. Já estava com um certo sono. Como meu cabelo tá caindo, meu deus. Como estou horrorosa. Minha pele anda meio seca. O tempo é um tanto cruel. Mas até que meu cabelo é brilhoso. Preciso ir num dermatologista ver essa queda. Pelo menos ele seca rápido. Acho que vou deixar de ir no salão que tenho ido e usar menos química. Meu cabelo tá cheiroso. Como é bom sentir ele secando e ficando bonito ao longo do tempo. Estou tão cansada. Será que o filme já baixou? Olho para trás para perguntar e sou surpreendida, sorrio cabisbaixa e meio atônita. Ele está olhando para mim, com o olhar semicerrado e a boca levemente entreaberta, enquanto se toca muito lentamente. O laptop tinha sido deixado de lado, não sei bem há quanto tempo. Meu cabelo ainda estava meio molhado. Me desconcentrei um pouco, mas como ele não falou nada – ou se falou, não me lembro – voltei a secá-lo. Não me dei conta na hora, mas não me lembrava de ter me sentido e ter visto algo tão sexy já há algum tempo. Aquilo foi pra mim como se nada do que eu pensasse sobre mim mesma importasse muito, no final das contas. E não foi proposital, mesmo porque costumo fracassar em todas as vezes que me empenho muito em seduzir. Foi espontâneo, meio passional. E gosto dessas coisas. E também outras coisas muito específicas e cheias de significado aconteceram no contexto daquele dia. Terminei de secar meus cabelos e engatinhei até ele, para enchê-lo de beijos. Para ser, por um momento, dele. E para estar com ele. Sentia que todos os beijos que eu dessem não seriam suficientes. Hoje. Sempre. Qualquer dia desses. (Meu amado. Meu amante. Meu amigo.)

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