Silvia

“Então D., o amor, a cisma, digo que as pessoas não amam, elas cismam. A cisma geralmente é orgulho, não é amor. É sua ignorância, sua infantilidade é você, tão ingênua, é você tão “por favor, me ame!”, que vira um inferno na vida do outro. E você deixa de dar esse amor pra si mesma e aí sofre, de abandono. De auto-abandono. E isso vale para muitas coisas: para uma mãe que perdeu um filho, pra uma morte súbita, pra um rompimento, pra uma impossibilidade. “Sem você, não sobrevivo” e aí você pensa que assim não dá, porra. E esse “não dá” já é uma fagulha de inteligência. Isso chama-se inteligência. Quem tem inteligência de sobrevivência, quem tem essa integridade consigo mesma, não se perde por amor. Não morre de amor.

Isso é Maya, é ilusão. O tamanho da sua dor é o tamanho da sua ilusão. Que ilusão? Que você não vive sem a pessoa. Que ele é tudo pra você. Que sua vida não tem sentido. Que você morre. Que você precisa ter filhos, precisa manter, precisa lutar, precisa se sacrificar, defender… E isso tudo é de um egoísmo e de um orgulho obsceno porque é obsessivo. Não é amor. É o seu lado mimado espiritual. Pequeno. Menor. É a sua infantilidade existencial. Pude entender isso profundamente através do amor que senti pelo pai do meu filho. Porque eu tinha essa infantilidade afetiva. Muito. E eu sentia as dores do amor, dores pelas quais você inclusive se sacrifica das mais variadas formas possíveis. Mas que porra é essa? Que amor é esse que dói tanto? Amor não dói. Orgulho dói.

Hoje em dia, a maioria dos casamentos e relacionamentos que conhecemos não são construídos por amor… Quantos casamentos por amor que você conhece? Hoje mesmo eu ouvi no consultório “ah, mas a gente não consegue chegar num alto patamar de vida hoje sozinho”. Consegue. Mas se você quiser construir um patrimônio, não tiver tanta confiabilidade em si mesma e quiser ser rica, você sabe que precisa unir forças. Natural. Mas o que que é auto-apoio e o que é dependência? Tem uma diferença muito grande aí. Porque se você se pendura no outro, você vai morrer se ele for embora. Então solidão é auto-abandono, mesmo.

Muitos relacionamentos não só estruturam a sua base, bem como principalmente constróem toda a sua a sua fundação efetivamente a partir de um orgulho inconsciente. Por isso é que a gente tem tanto medo do casamento. Sua alma, seu espírito ainda anseia o amor, que a gente tenta, aos poucos, traduzir como companheirismo, parceria e certa cumplicidade.

Não tenho interesse algum pelo mundo dark, pelo que é violento. Como entendi o que é a violência na vida de uma pessoa? Toda pessoa que sofre de amor, que se abre para uma dependência emocional plena, tem um quê de suicída. E em algum momento da história, muitas pessoas morreram por conta desse amor idealizado e isso foi retratado na arte principalmente. As pessoas ficavam tísicas, tuberculosas e morriam de amor. Na verdade a pessoa queria mesmo morrer, ela se entregava por completo à dor do amor. São suicídas em potencial. E o suicídio é a violência sexual, é a energia sexual destrambelhada.

O suicídio, pra mim, não sei se existe alguma literatura mas enfim… O desejo de morrer pra vida porque você não obteve o objeto de desejo, o amor não foi correspondido ou algum outro tipo de desencontro amoroso… E você sofre tanto de amor e é uma dor tão irremediável… Para mim, esse amor não correspondido está interligado com a sua própria ignorância espiritual, o seu próprio orgulho de algo.

E que a maioria das pessoas ainda acredita totalmente no domínio a partir do sexo, essa coisa cafona. As pessoas ainda estão nesse patamarzinho baixo da ilusão de poder. É poder. Sexo não é amor. É um patamar baixo, de um instinto primário. É violência. É crueldade, D. E onde existe crueldade não pode existir inteligência. Só que existem realidades cruéis, né? E o mundo aceita porque é o mundo: engloba a tudo, é uma vastidão. Só que geralmente esses amores iludidos eles são passionais. São cheios de ciúme, de engenhocas, de dramas, de invejas, de posse, de domínio, de escravidão, de… Infantilidades.”

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