Decisões, escolhas, mudanças

Hoje pensei muito sobre decisões e escolhas. As que tomei ao longo da minha vida e as que tomaram por mim. Acredito que a primeira decisão consciente e completamente destemida que tomei em toda a minha vida foi com 23 anos. Antes disso, eu não decidia nada: apenas obedecia e fazia o que tinha que ser feito. Eu tinha muito medo, sempre tive, de me responsabilizar pelas coisas que escolhia. Também era muito cômodo deixar que escolhessem por mim – embora eu reclamasse, constantemente, disso. Me ferrei muito com isso, inclusive. Me dei conta, hoje, que a minha vida está atrasada – ou fora de timing – em pelo menos uns 5 ou 6 anos por conta de decisões muito, muito, muito erradas que cometi na adolescência. Por um medo absurdo de desagradar meus pais e decepcioná-los.

Antes eu me sentia muito mal em reconhecer isso e prontamente colocava a culpa em alguém, como se isso fosse magicamente resolver algo. Nunca resolveu e nem vai resolver. A culpa, seja minha ou dos meus pais, na verdade não existe. Isso de culpabilização e punição é um grande engodo, nesse caso: a minha vida já passou, as coisas já aconteceram como aconteceram e não irão mudar nem modificar-se. Ninguém tem culpa: as pessoas fizeram o melhor que puderam, com a melhor das intenções, sempre. É nociva e paralizante a ideia de que “x coisa destruiu minha vida”. Nociva, paralizante e falsa. A partir do momento em que percebi que as coisas caminhavam para um rumo ao qual eu percebi que seria privada de ter qualquer coisa remotamente parecida com uma vida, me vi obrigada a intervir de uma forma um tanto quanto brusca. Esse não é nem de longe o meu modo preferido de agir, mas era a única forma que eu tinha e a única linguagem que entenderiam. Todas as que tentei anteriormente foram ignoradas.

Só me tornei destemida aos 23 porque na verdade pressionei a total perspectiva de ausência de vida pela única via possível: com a minha própria vida. Já que eu não posso ter a vida que quero, não vou ter vida alguma. Extremo, mas efetivo: as coisas foram desenrolando, desabrochando em mim, para mim. Mas basicamente até este ponto sempre deixei de fazer o que eu deveria fazer por mim mesma por dois tipos de pessoas: meus pais e amantes. É um pouco incômodo isso, pra mim. Tudo que envolve amor, para mim, parece não dar certo. Então eu meio que parei de insistir, de querer isso para mim. De dar murro em ponta de faca. Esse tal de amor deturpa a minha vida. Toda vez que fiz algo “por amor”, me distanciei, completamente, de mim mesma e das coisas que precisava empreender para ser quem sou, para que fosse possível eu me formar, enquanto pessoa. Falo de características de personalidade mesmo, de essência. Então cheguei à conclusão que talvez esse tipo de amor – familiar, sensual, de companheirismo – talvez não seja pra mim mesmo. E considero esta uma conclusão um tanto quanto sóbria.

Sou irresponsável com o amor dos outros. Com o sentimento dos outros. Não sei lidar, não sei o que fazer. Não quero aprender. Sou bicho solto. Quando se criam regras de comportamento demais pra mim, tudo o que eu quero fazer é ir embora. Partir. Largar todo mundo falando sozinho e foda-se. Eu não tenho paciência. Não tenho como me comprometer com absolutamente nada que não seja as coisas que eu preciso fazer. Sempre quis ter um gato. Eu não posso ter um gato: sou irresponsável tanto para dar quanto para receber amor de um bichano. Vou sumir. Vou querer viajar. Não vou ter grana pra tratamento se precisar. Vou querer gastar com outras coisas. Vou ficar puta de viajar e ter de deixar com os outros. Não quero ter que me desfazer de coisas da minha vida por conta do gato. E last but not least: não vou adotar um bicho pra devolver depois e assinar assim de uma vez por todas o meu atestado de incompetência para com outro ser vivo. Para não correr esse risco eu prefiro assumi-lo: sou uma completa incompetente nesse sentido, mesmo.

Sou mesquinha. Egoísta. Muitas vezes não levo o outro nem os outros em consideração. Mudo de ideia em relação a uma serie de coisas o tempo todo. Pareço, mas não sou tão linear quanto gostaria de ser. E queria ter espaço para explorar todas as possibilidades que preciso explorar nessa vida. Isso não inclui uma casa própria, um gato, estabilidade, vida tranquila, relacionamento estável. Aparentemente não inclui nada disso. Inclui que eu continue reafirmando o que tenho feito há quase 10 anos. Que eu ande por esta linha que eu mesma tracei e continuo a traçar, sem me desviar tanto dela. Estou na metade da minha vida. Não tenho mais tempo de mudar o jogo. Não tenho mais tempo de fazer o que eu amo. Não tenho tempo de largar tudo e viver da minha arte (isso é pra quem pode, não pra mim). Tudo o que amo e o que preciso estará na minha vida de um modo ou de outro, mais jamais será meu foco, nem meu objetivo.

A minha vida promete ser uma montanha russa e tanto até o final desse ano e ainda mais no início de 2016. Preciso pensar rápido, me organizar rápido e criar planos alternativos, caso eu precise deles de algum modo. A impressão que tenho é a de que minha vida vai mudar de forma muito abrupta e brusca. E isso será bom. Mas eu nunca sei lidar tão bem com boas notícias. Lido melhor com as más porque sempre tento solucionar problemas. Notícias boas significa, muito frequentemente, que eu terei que criar novos problemas – e essa é a parte complicada da coisa toda. Acho que essas são as peculiaridades de se viver uma vida artificial. Inventada. Construída. Fantasiada. Sonhada. Idealizada. Enfim… Não poderia ser de outro modo. Tenho um certo medo de criar problemas mas a verdade é que sem eles, a minha vida não faria muito sentido.

 

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